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Muito além de um amor entre meninas: Camille & Camila

Um livro sáfico, com uma escrita leve e rápida, que retrata de maneira ímpar o período das descobertas sexuais, que podem ser, para muitos, um labirinto repleto de receios e inquietações. Este é Camille & Camila, de Bella Prudencio.

“Depois disso tudo, eu só questionava sobre a minha sexualidade. O que eu era? Será que eu era lésbica? Não… eu sentia atração sexual por meninos ainda. Ainda?” (p. 57)

Incorpóreo e imaterial, feito o platônico Mundo das Ideias, veio a se transformar em algo belo e tangível: é isso o que aconteceu no processo de escrita de Bella Prudencio, a partir de um sonho, a autora fez o trabalho de catar feijão, e trouxe desse mundo abstrato, através de morfemas, que se tornaram palavras, frases, parágrafos e por fim Camille & Camila em 2018. Todo um trabalho de transposição e criação, misturando e tecendo literatura, história e ficção, que durou apenas três meses e passando por quatro anos de preparação.

Ambientado em uma cidade no interior do Rio de Janeiro, Campos dos Goytacazes, a obra possui duas personagens narradoras, uma mescla de sol e escuridão, Camila e Camille, além de ter como trilha sonora do indie ao pop. Camila, jovem de 17 anos que acabou de ingressar em uma Instituição Federal para cursar Letras, tão animada quanto seus cabelos cor de rosa, é apaixonada por livros, mas decidida a nunca fazer o mesmo por seres humanos após o divórcio dos pais. Do outro lado, Camille é assumidamente lésbica desde jovem, cursa o último período de Arquitetura na mesma instituição, mas não se sente pertencente nem àquele ambiente ou qualquer outro:

“Eu me sentia pesada, eu me sentia estranha, eu me sentia como se eu não pertencesse ao lugar onde eu estava” (p.14)

Além de ter uma perspectiva niilista da vida, Camille preenche o vazio que a vida a causa diariamente com álcool e cigarro, recusando ir a um psicólogo e fazer uso de medicamentos, comportamento comum ao transtorno depressivo.

“Não queria ficar dopada, com cara travada e sem sentimentos, além do óbvio, o pior: não poder beber.” (p.14).

Ademais, Camille não enxerga o quanto é boa. Na vida real, ela desenha belamente, escreve e toca guitarra. Bella Prudencio, que também vive a díade escritora independente e psicóloga por formação, é uma mulher bissexual, diagnosticada com depressão crônica, é best-seller na  Amazon e autora destaque no Wattpad, com mais de 2,6 milhões de views, além de ser uma das poucas escritoras no Brasil a ter seu livro transformado em audiobook, revisita suas próprias experiencias para dar vida às personagens, visto que a mesma também mora na cidade interiorana de Campos dos Goytacazes.

A autora realiza um entrelace de literatura, história e ficção na narrativa. Quem vive o dia a dia na cidade interiorana, se sente pertencente a história, visto que Prudencio apenas muda o nome dos locais particulares onde ela e a Camille realmente frequentavam, mas o nome das faculdades públicas, como o IFF (onde as duas estudam), UENF e UFF permanecem, criando um vínculo com o morador campista. Mas não se engane: apesar da percepção de que muitos dos escritores interioranos escrevem apenas para seus próprios munícipes, a autora em questão tem a ambição de levar seu mundo, o lugar onde vive, onde cresceu e viu as coisas mais inusitadas de sua vida, para fora.

Camille & Camila

Bella é apaixonada por Machado de Assis, tendo seu TCC sido sobre a obra Dom Casmurro e os complexos da psicologia Junguiana. O fascínio machadiano não está explícito, mas presente internamente, visto que tal como seu adorado autor, Bella Prudencio gosta muito da ironia, algo recorrente em Camille & Camila. Machado de Assis utiliza a ironia pessimista, Bella, por sua vez, a faz como um deboche, deboche à sociedade pequena e à mente que corresponde a de uma sociedade interiorana. Um exemplo é o personagem Tarcísio, que não se relaciona a ninguém em especial no mundo, mas é a personificação do esquerdo-macho. Aliás, o próprio título Camille & Camila é uma ironia. Romances aquilianos dominaram o mercado editorial e alguns possuem o título de personagens com o mesmo nome, como é o caso de Will e Will, de David Levithan e John Green.

Poucos são os romances sáficos em destaque na literatura. Bella faz questão de, toda vez ao se pronunciar sobre a obra, deixar claro que trata-se de um romance sáfico, e para não sobrar dúvidas, pôs o subtítulo do livro “amor entre meninas”. A escrita feminina sobre tópicos tabus, como a relação entre mulheres tira o foco do fetichismo imaginário da escrita masculina, e é isso que Bella Prudencio faz em sua escrita, dando a sensação de algo fácil de ser verificado no dia a dia, palpável, sem fantasiar na obra em questão. Com poucas páginas, o livro traz questionamentos sem precisar entrar nas profundezas, dos mínimos detalhes. É interessante perceber que a influência da autora alcança também a parte física da obra, visto que sua escrita rápida e sem rodeios reflete sua personalidade ansiosa.

Em Tarcísio, por sua vez, a truculência contra pessoas LGBTQIA + não se encerra na ficção e não são casos isolados. A LGBTfobia vai além da violência física, ela abrange os piores índices de empregabilidade e renda. Junho é o mês de comemoração do orgulho LGBT, mas não só isso, é também da comemoração do aumento, ainda que modesto, de conscientização sobre a LGBTfobia. Em Camille & Camila há cenas explícitas de agressão por serem um casal lésbico. Vale ressaltar que na cidade onde a história é narrada, em agosto de 2021, ocorreu um episódio semelhante, apesar do livro ter sido escrito em 2018.

Outro resquício de LGBTfobia presente na obra é quando Camille vai à psicóloga e a mesma sente receio de usar a palavra lésbica para identificar a personagem, termo que por muito tempo foi considerado chulo, sendo substituído por homossexual.

“— Há quanto tempo você se identifica como homossexual? — a psicóloga me perguntou com uma expressão de cuidado no rosto. Ela já era uma senhora (…).
— Pode dizer lésbica, doutora (…).” (p. 104)

No final do livro, as duas fazem uma viagem para São Paulo, numa tentativa de viverem em uma “quase paz”, saindo de uma cidade pequena, o que é evidenciado no livro quando elas chegam ao Pink Flamingo, visto que São Paulo é uma cidade maior e um local com mais oportunidades.

Entre tragédias e conquistas, a leitura de Camille & Camila se passa por uma história repleta de clichês que aquecem o coração, mas que possui como substância temas que deveriam ser amplamente retratados, não apenas no mês de junho, e que podem ser gatilhos para alguns leitores como depressão, suicídio, a não aceitação pela família e a LGBTfobia.

“A gente logo notou que era uma garota transgênero. E tava tudo bem, pelo menos para mim, mas outras pessoas pareciam estranhamente incomodadas. Aquilo me causou certo enjoo.” (p. 107)


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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