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Descontrole de SZA em Ctrl

SZA lançou seu álbum Ctrl em 2017, trabalho que ressoa até hoje por sua melodia e pelas letras que pegam pontos fortes e feridas abertas de muitas mulheres. O álbum se constrói em volta do amor, especificamente no controle desse amor, de sua presença, do desejo por tê-lo, do medo da falta e, por fim, de sua falta. Quando falamos de amor e controle todo mundo já pensa em relações abusivas entre as partes de um casal, mas nem sempre é desse controle que falamos. Antes do ato para com o outro, existe a tentativa de controle que colocamos para nós mesmas.

“Esse é o meu maior medo, que se, se eu perdesse o controle, ou não tivesse controle, as coisas simplesmente, você sabe… seriam fatais.”

A primeira faixa do álbum, “Supermodel”, se inicia com a gravação caseira da mãe da cantora, expondo seu medo pelo não controle. Aqui SZA inicia seu percurso numa montanha russa de paixões profundas e completa desilusão. Ao mesmo tempo que se frustra por não receber o amor que acredita merecer, não consegue fugir do que sente, se culpando muitas vezes por não ser suficiente para sustentar a relação e por não conseguir se sustentar sem ela, um caminho devastador, sem saída.

Em muitos momentos do álbum perguntas voltadas a procura de uma validação são lançadas. Há a tentativa de ao menos pela palavra arrancar algo do cara que ela ama, a posição de corpo desejado não é o suficiente, mesmo que ela seja a traída, ou a amante, o que ela quer é ouvir que é suficiente, que é amada, que é a mulher, a principal. Em “Drew Barrymore” ela pergunta, “sou atraente o suficiente para você?”, ao mesmo tempo que de forma raivosa se desculpa por não ser a mais atraente, a dama, a que se depila toda noite. Ao mesmo tempo que deseja que esse cara suma da sua vida, ela também suplica para que ele fique, fique e se declare, declare o amor que sente por ela.

“Você realmente quer me amar como diz?
Se entregar para mim como você diz fazer?
Porque é difícil o bastante ter você me tratando assim
Solitária o suficiente para deixar você me tratar assim
Você realmente me ama
Ou só quer me foder?”

SZA quer o controle, controle que por todo o álbum tenta exercer, ameaçando ir embora, afirmando estar de acordo com a posição que se encontra, demandando respostas, e afirmando o amor que sente. Mas o que ela encontra nesse percurso é o descontrole, não consegue ir, se angustia por sua posição, por não ter respostas, se culpa pelo o que aconteceu.

O patriarcado não pensa duas vezes em pesar a mão sobre as mulheres. As responsáveis por sustentar um relacionamento somos nós, caso o seu amor não seja suficiente, há algo que falta em você e não deveria, se existisse o cara ficaria, você teria o amor dele. Por isso o controle é tão importante: se existe controle, é difícil existir espaço para a falta. 

Mas o controle nos distancia do real, nos distancia de nós mesmas, dos nossos sentimentos, dos prazeres; vivemos pelo outro e não por nós mesmas. É preciso lidar com a falta, acolhê-la, saber que ela vai existir independente do quanto o outro nos ache atraente e/ou nos ame. De algum modo, ela estará lá. Não somos perfeitas e nem seremos, nem sozinhas nem com os outros. É impossível amar no controle; amamos no descontrole, no buraco do roteiro. Se esse amor carrega muita culpa, muita expectativa, se ele demanda que você esteja o tempo todo no controle, talvez não seja pra você.

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