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Sex Education, segunda temporada: entre acertos e (alguns) deslizes

Sex Education, criação de Laurie Nunn, que já figura entre os maiores sucessos de crítica e audiência da Netflix, teve sua segunda temporada lançada no dia 17 de Janeiro, aproximadamente um ano após a estreia da primeira. A história, predominantemente focada no cotidiano de estudantes do colégio Moordale, transita entre temas como romance, amizade, rejeição, e, como o nome da série já revela, sexo. Nessa segunda temporada, a amizade de Otis Milburn (Asa Butterfield) e Eric Effiong (Ncuti Gatwa), juntamente com o tom único com o qual a série aborda assuntos delicados, permanecem como parte dos principais pilares de sustentação da obra. Porém, neste segundo ano também acompanhamos uma boa expansão da série em número de personagens e arcos narrativos desenvolvidos.

Se antes, a Clínica do Sexo criada por Otis e Maeve (Emma Mackey) era responsável por carregar a maior parte do progresso narrativo de Sex Education, agora são situações criadas em pequenos núcleos de personagens secundários que parecem desempenhar essa função. Essa dinâmica não apaga a importância do trio Eric-Otis-Maeve. No entanto, é como se os pequenos núcleos satélites ganhassem um alto grau de independência, ou seja, o desenvolvimento desses personagens e suas histórias não necessariamente precisa acrescentar algo para a trajetória do núcleo principal. Esse fato contribui com alguns dos principais aspectos que merecem ser elogiados nessa segunda temporada, mas também corrobora com alguns dos pontos mais frágeis da série.

Nesse sentido, o primeiro aspecto a ser elogiado é a incorporação de inseguranças e problemas sexuais de personagens adultos na narrativa. Se na primeira temporada encontramos um retrato não romantizado de alguns dos embaraços, descobertas e dificuldades que podem vir associadas ao sexo, na segunda temporada descobrimos que a idade e a experiência não são garantias de que as coisas ficarão mais fáceis. Acompanhamos nessa linha o desenvolvimento de um pequeno arco no qual o Sr. Hendricks (Jim Howick), professor no colégio Moordale, enfrenta problemas para satisfazer sua parceira; a dissolução do casamento de Maureen Groff (Samantha Spiro) e Michael Groff (Alistair Petrie), por conta da frieza de Michael e um desacordo do casal com relação ao sexo; e até mesmo uma leve menção a questão da perimenopausa, fase que marca o fim da vida reprodutiva da mulher.

Esse tipo de dinâmica, inclusive, ajuda a demonstrar o quão importante é o tom escolhido para Sex Education. A razão pela qual a série consegue também incluir dilemas de fora do universo adolescente, ou ainda se aprofundar num número cada vez maior de assuntos, parece estar conectada a habilidade dos roteiristas em manter o tom que a série, em pouco tempo, transformou em sua marca registrada — leve e divertida enquanto inclui os muitos temas importantes que permeiam a trama. Aliás, dá para dizer ainda que o roteiro é o grande protagonista desse show. São poucas as produções da atualidade capazes de abordar tantas temáticas sem se perder no caminho, menos ainda são aquelas que conseguem balancear o cômico e o drama, em um texto de qualidade como o presente em Sex Education.

Vale enfatizar também a importância dos novos rumos que a série deu para a discussão sobre educação sexual. Na primeira temporada é divertido acompanhar os esforços de Otis para dar conselhos aos colegas, porém, nessa continuação a presença da Dra. Jean (Gillian Anderson) no colégio Moordale e os tropeços de Otis em sua própria vida afetiva funcionam como excelentes lembretes de que ainda que dialogar sobre sexo seja importante, adolescentes gerenciando uma clínica clandestina certamente não é a resposta quando se trata de educação sexual. Em meio a essa abordagem, que traz ainda a figura do diretor Michael Groff como um exemplo das problemáticas de um ensino pautado em moralismo, fica impossível não pensar no contexto brasileiro que agora aposta numa campanha de incentivo à abstinência sexual para jovens.

Nesta segunda temporada, outro tópico que permanece digno de elogios é o cuidado da produção na composição de um elenco diverso, tanto em frente como por trás das câmeras. A equipe de roteiro e direção segue com maioria feminina, enquanto que Lauren Evans, responsável pelo casting, acerta mais uma vez com a contratação de atores como Chinenye Ezeudu, T’Nia Miller, George Robinson e Sami Outalbali, responsáveis por dar a vida aos personagens Viv Odesanya, Maxine Tarrington, Isaac e Rahim, respectivamente. Ainda falando de inclusão, a representação LGBT+ e a incorporação de temáticas pouco discutidas como a assexualidade, fazem dessa nova temporada um programa reconfortante para quem busca um entretenimento responsável com as pautas que abraça. Quando digo isso, estou pensando em Sex Education numa via oposta à de produções na qual a inclusão surge como elemento decorativo, ou seja, causas como o feminismo, a luta LGBT+, pautas raciais e outras, se tornam estratégia de marketing mais do que qualquer outra coisa. É preciso ter em mente que quando falamos em inclusão feminina, por exemplo, nosso olhar deve ir além dos personagens, mas na busca por um espaço no qual mulheres possam fazer parte das histórias — seja atuando, escrevendo, filmando etc.

Nessa linha, vale destacar que a importância da escrita feminina é sentida com maior intensidade na medida em que acompanhamos as questões do universo feminino que voltam a ser retratadas, com uma delicadeza que não deixa a desejar no que tange sua excelente primeira temporada. Apesar da curta duração — oito episódios para ser mais exata  —, a segunda temporada de Sex Education consegue retomar a discussão sobre o prazer feminino e ainda explorar temas complicados como o assédio, sem cair em soluções mágicas e fáceis. O drama vivido pela personagem Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood) é entregue em pequenas doses, nas quais confrontamos o quão duradouras e complexas podem ser as marcas deixadas numa vítima de assédio. Nesse processo, a série conseguiu ainda espaço para um belo momento de sororidade, sem deixar de pontuar a complexidade desse assunto.

Colocando dessa forma fica até difícil acreditar que a mesma série que explorou com tanto cuidado assuntos complicados e raramente bem discutidos em séries teen, tenha escorregado em situações triviais como triângulos amorosos e recursos típicos das histórias de amadurecimento (coming-of-age). Primeiramente, nada contra o bom e velho triângulo amoroso. A fórmula é simples e super utilizada? Com certeza! E a popularidade do recurso narrativo não anula a possibilidade de uma boa utilização. No entanto, chega a ser exaustiva a quantidade de vezes que Sex Education lança a carta do “com quem será que fulano vai ficar?”.

Otis, Maeve e Ola (Patricia Allison); Eric, Adam (Connor Swindells) e Rahim; Otis, Ola e Lily (Tanya Reynolds); Maeve, Otis e Isaac; um inexplicável Jean, Jakob (Mikael Persbrandt) e Remi (James Purefoy); e dependendo da sua imaginação podemos incluir ainda Vivienne (Chinenye Ezeudu), Jackson (Kedar Williams-Stirling) e Dex (Lino Facioli). Para completar, Sex Education não peca só pelo número. Uma boa parte desses triângulos amorosos são pouco desenvolvidos e nos levam a perguntar: precisava mesmo?

No campo dos recursos típicos das histórias de coming-of-age, a série ainda se apoia com frequência em trajetórias nas quais personagens tentam se destacar, paradoxalmente, se ajustando à norma. Há ainda o arco do valentão que encontra redenção através daqueles que antes eram suas vítimas, e o protagonista, neste caso mais passivo do que nunca, que com ajuda do álcool é transformado num monstro para que algum drama possa fluir no contexto. A situação é frustrante, já que alguns desses momentos de qualidade questionável simplesmente não condizem com o nível da série de uma maneira geral.

Ampliando a discussão para outros artifícios, vale destacar que a trilha sonora e a direção simples — mas muito bem executada — seguem adicionando pontos para a obra. A trilha conta com a supervisão de Matt Biffa e mistura elementos das décadas de 1980 e 1990. Para esta temporada, lançou-se também um álbum de Ezra Furman com 19 faixas da trilha oficial do programa.

Contudo, apesar dos deslizes, Sex Education ainda fechou com saldo positivo, ao menos nas minhas contas. É difícil saber o quão sustentável é essa dinâmica de múltiplos arcos narrativos rodando com tantos personagens secundários. Afinal, é natural que a audiência não tenha o mesmo interesse por cada um dos núcleos, de modo que o excesso pode vir a ser prejudicial para possíveis novas temporadas. A série se encerra com um final amargo para aqueles que ansiavam pela formação de “certo” casal, mas deixa também algumas pontas soltas bem promissoras. Por fim, fica a sensação de que Sex Education ainda tem muito assunto para conversar, ainda que por vezes a qualidade do diálogo esteja a mercê de algumas vírgulas mal colocadas.


** As imagens que ilustram o texto são de autoria da colaboradora Natália Dias

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