Categorias: ENTREVISTA, LITERATURA

De frente com Valkirias: Veera Hiranandani

Veera Hiranandani cresceu em uma pequena cidade de Connecticut, nos Estados Unidos, mas nunca esqueceu suas raízes. Assim como a personagem título de O Diário de Nisha, livro que escreveu e chegou ao Brasil por meio do selo DarkLove da DarkSide Books, Veera cresceu carregando duas heranças culturais dentro de si, o que, por vezes, fazia com que ela se sentisse confusa com sua própria identidade, deslocada por não haver crianças com uma trajetória similar a dela no lugar em que vivia. Assim como Nisha, Veera passou muito tempo de sua infância quieta e observando ao redor, e essa maneira de olhar para o mundo, sabendo de suas diferenças com relação às outras crianças, foi o que a colocou no caminho da escrita.

Em seu site oficial, Veera Hiranandani conta que além da escrita, a culinária foi algo que a ajudou a se conectar com os dois lados de sua família — filha de uma mãe judia e um pai hindu, Veera é o produto de um casamento inter-religioso assim como Nisha, e descobriu, também como sua personagem, na escrita e na comida maneiras de se encontrar entre duas culturas tão diferentes. Veera se formou na George Washington University em direito mas logo retornou à universidade para estudar escrita ficcional na Sarah Lawrence College o que, segunda a autora, foi a melhor coisa que poderia ter feito visto que, para ela, nada é mais prazeroso do que passar o dia escrevendo. Além de O Diário de Nisha, Veera Hiranandani é autora de The Whole Story of Half Girl, livro sobre uma menina metade judia e metade muçulmana, e os livros infantis Phoebe G. Green.

Na conversa com o Valkirias, Veera conta um pouco mais sobre como trabalhou para escrever O Diário de Nisha, suas inspirações e alguns pensamentos a respeito da crise de refugiados que assola o mundo e é cada vez mais alarmante.

O Diário de Nisha foi inspirado na história da sua família e o momento em que tiveram de deixar sua casa durante a Partição da Índia. Nisha é uma menina muito interessante — e me identifiquei com ela pois, quando eu era criança, também sempre fui muito quieta e curiosa, aquela que geralmente preferia observar e escrever. O quanto de você há em Nisha?

Veera Hiranandani: Sim, meu pai tinha nove anos quando ele e sua família tiveram que sair. Eles também moravam em Mirpur Khas e viajaram para Jodhpur logo após a Partição. Eu cresci ouvindo sobre a história, que teve grande influência em mim. Fico feliz que você tenha se identificado com Nisha. Eu costumo colocar muito de mim em meus personagens. Em relação a Nisha, eu também era um observadora tímida e quieta, mas não foi tão difícil para mim quanto para Nisha no livro. Além disso, a identidade inter-religiosa de Nisha reflete a minha em alguns aspectos. Eu cresci com um pai hindu e uma mãe judia e, às vezes, me sentia confusa sobre a minha identidade. No entanto, as apostas são muito maiores para Nisha.

A crise dos refugiados vem crescendo mais a cada dia e histórias como as de Nisha são cada vez mais comuns — embora nem todos consigam chegar em um lugar seguro, com muitas crianças tendo suas infâncias interrompidas de maneira abrupta. Quando você sentiu que era o momento certo da história de Nisha e sua família ganharem as páginas dos livros? Você sente que, contando a história de Nisha, ainda que uma ficção, pode abrir os olhos de mais pessoas para a questão dos refugiados?

V.H.: Eu espero que possa. Eu sempre quis escrever uma história sobre a Partição. Eu senti que esta era uma história importante para contar por muitas razões, mas eu fiquei intimidada no começo. Eu poderia escrever um romance histórico? Poderia combinar as experiências de meu pai e outras pesquisas para criar uma história significativa que explicasse parte da história, mas também envolvesse jovens leitores? Alguns anos atrás, eu finalmente reuni coragem e fui em frente. O fato de que isso se relaciona com algumas das questões que nosso mundo atual está enfrentando — a crise global de refugiados, ou algumas das divisões e xenofobia que são sentidas nos Estados Unidos e em muitos outros lugares — é algo que eu comecei a me conectar durante a escrita, mas não é a principal razão que eu queria escrever a história neste momento. Eu estava apenas pronta para contar isso.

A trama de O Diário de Nisha é triste e dolorosa de diversas maneiras. Há todo o conflito envolvido, a Partição, a viagem de Nisha e sua família para um lugar que eles não reconhecem como lar. São eventos traumáticos, uma história pesada baseada em fatos reais. Ainda assim você criou um livro sensível e muito bonito que me deixou emocionada em diversos momentos. Escolher contar essa história pelos olhos de Nisha esteve em sua mente desde o momento em que decidiu escrever o livro? O que muda, para você, ao abordar temas tão intensos por meio da vivência e experiências de uma criança?

V.H.: Obrigada. Há algo mais direto em ver eventos dolorosos através dos olhos de uma criança, mas também é ainda mais desolador. Sempre imaginei essa história contada a partir da perspectiva de uma criança, porque as lembranças do meu pai são de quando ele era jovem. Eu queria que a história do livro fosse verdadeira para a história daquele momento da Índia, mas, ao mesmo tempo, que não fosse traumatizante para os jovens leitores. Eu estava sempre equilibrando isso enquanto escrevia. Para mim, narrar através dos olhos de uma criança me força a comunicar idéias mais complexas da maneira mais simples possível. Eu gosto do desafio.

Algo marcante em O Diário de Nisha é a relação que a menina tem com a comida. Kazi, que cozinhava para a família dela antes da Partição, é uma das poucas pessoas além da família de Nisha com que a menina se sente à vontade. Por que a comida é parte tão importante dessa jornada? É quase como se, além da escrita, Nisha consegue se expressar por meio da comida que prepara.

V.H.: Sim, eu sempre amei comida — cozinhar e comer. A comida era uma maneira que eu me conectava com os dois lados da minha família (meu pai é da Índia e hindu e minha mãe é dos Estados Unidos e judia). Em reuniões de família, às vezes havia samosas, pakoras e aloo gobi e além de sopas. Eu amei tudo. Acho que aprender a cozinhar foi fortalecedor para mim como é para Nisha no livro, e também uma fonte de prazer. Eu também sempre fui muito interessada em como a comida é escrita. Para mim, isso ajuda a trazer a história.

Seu livro está sendo lançado no Brasil pela DarkSide Books, editora que já publicou O Diário de Myriam, a história real de uma menina refugiada síria, e a graphic novel Refugiados, de Kate Evans. O Brasil tem se consolidado como um destino para imigrantes em busca de um recomeço; diante desse contexto, o que você acha que a história de Nisha pode ensinar aos leitores brasileiros?

V.H.: Eu não sei se O Diário de Nisha pode ensinar algo específico aos brasileiros sobre os refugiados que chegam ao Brasil, porque eu não sei o suficiente sobre as experiências do Brasil, mas pode ensinar sobre a Partição e espero que espalhe a ideia de empatia com os refugiados para todos os leitores.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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