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Os Garotos do Cemitério: a magia e o sobrenatural de Aiden Thomas

O que você faz quando invoca um fantasma sem querer e não consegue se livrar dele? Muitas coisas passam pela cabeça de Yadriel quando isso acontece durante uma cerimônia que ele não deveria estar fazendo, mas nenhuma delas é ficar com o fantasma a tiracolo, andando com ele de um lado para o outro, de casa para a escola. Mas não há muitas opções para o jovem bruxo além de tentar resolver a confusão em que se meteu. No livro de estreia de Aiden Thomas, Os Garotos do Cemitério, publicado no Brasil pela Galera, esse é apenas um dos problemas com que seu protagonista precisa lidar enquanto tenta ser aceito pela sua família.

A cerimônia que Yadriel está fazendo às escondidas, sem a permissão de sua família, é chamada de aquelarre e é um rito de passagem para todos os brujos e brujas adolescentes da comunidade. Mas não para Yadriel. Como um menino trans, sua família latina, tradicional e conservadora, tem dificuldade em entender sua verdadeira identidade, e após o falecimento de sua mãe, sua maior apoiadora e defensora, as coisas ficaram ainda mais complicadas. Para se tornar um brujo e parte da comunidade, Yadriel deve participar do aquelarre, porém a comunidade receia que a Senhora Morte não o aceite — entre os brujos e brujas, há papéis bem definidos a respeito do que homens e mulheres devem fazer, e o fato de Yadriel ser um garoto trans os deixa confusos e receosos a respeito do que a padroeira de sua comunidade irá achar, o que, Yadriel sabe, não passa de uma desculpa para postergar sua iniciação.

“Aquela rejeição escancarada parecia pessoal porque era pessoal. Era uma negação direta a quem ele era — um menino transgênero tentando encontrar seu lugar na comunidade.”

Cansado de esperar ser autorizado a participar do aquelarre, Yadriel decide realizar o ritual por conta própria. Com ajuda de Maritza, sua prima que também sempre procura romper com as tradições retrógradas da família, Yadriel reúne os itens necessários para executar a cerimônia, mas as coisas não saem conforme o esperado. Ainda que a Senhora Morte o aceite, sinalizando que, de fato, Yadriel é bruxo como todos os homens de sua família, o que o menino não esperava era invocar um fantasma que não consegue despachar para o mundo dos mortos. Julian, o garoto invocado, não faz ideia de como ou porque morreu. Da mesma idade de Yadriel e tão desnorteado quanto possível diante da situação em que se encontra, Julian — o belo badboy do colégio — faz um trato com o brujo: ele se deixará exorcizar caso Yadriel o ajude a descobrir quem o matou.

Além de precisar lidar com Julian o assombrando e o mistério ao redor da morte do garoto, há ainda outro mistério rondando a comunidade latina de que Yadriel faz parte. Seu primo Miguel desapareceu sem deixar rastros durante uma ronda no cemitério em que a família mora e seu espírito não é sentido em lugar nenhum. Quando alguém falece, os brujos e brujas da comunidade conseguem ver o espírito da pessoa, ajudando-a a seguir em frente, mas Miguel não é encontrado em nenhum lugar. O mistério envolvendo o desaparecimento de Miguel e de outros jovens é a oportunidade perfeita para Yadriel se provar para sua família como um brujo abençoado pela Senhora Morte — além de encontrar o primo, fazendo com que ele siga para o merecido descanso, descobrir o responsável pelos assassinatos mostrará a todos que Yadriel não é apenas um brujo de verdade, mas também um menino.

E assim tem início a jornada de Yadriel, Julian e Maritza em Os Garotos do Cemitério. Em uma narrativa deliciosamente cativante, Aiden Thomas dá vida a personagens carismáticos, complexos e únicos, amarrados a uma trama de mistério, bruxaria e muitas famílias latinas com as quais se identificar. Mesmo que o mistério em torno da morte de Julian e os demais estranhos eventos que permeiam a comunidade de Yadriel sejam simples de desvendar pelo leitor mais atento, o que vale aqui, sem dúvida, é a jornada e a construção de cada personagem. Toda a cultura e as festividades envolvidas no Dia de Los Muertos também é um prato cheio para quem gosta do tema, mostrando como a morte não precisa ser necessariamente encarada com tristeza e melancolia, mas como um processo importante pelo qual todos passarão. A ligação das famílias com a Senhora Morte e a cultura entrelaçada em todo o desenvolvimento de Os Garotos do Cemitério fazem do livro algo à parte, tão único quanto possível, e uma leitura deliciosa.

A construção dos personagens é algo que Aiden Thomas faz com cuidado e delicadeza, principalmente no que se refere à jornada pessoal de Yadriel, visto que, assim como seu protagonista, Aiden é um homem trans. O autor, inclusive, fez história ao se tornar o primeiro homem abertamente trans a atingir o topo da lista de livros de ficção mais lidos do New York Times com um personagem principal também trans. Parte da trama que acompanhamos em Os Garotos do Cemitério vem das vivências de Aiden enquanto crescia em Oakland, na Califórnia, Estados Unidos. Além do fato de tanto criador quanto criatura serem trans, Aiden também passava seu tempo com os amigos em um cemitério e tem herança cubana e mexicana, que usou de inspiração para criar a comunidade latina em que Yadriel vive.

“Ele não pode simplesmente escolher ser um bruxo, Yadriel escutara seu pai dizer na cozinha certa noite enquanto ele e Camila conversavam em voz baixa, tomando café. 

Não é uma escolha, dissera sua mãe, a voz calma, mas firme. É quem ele é.”

A ideia para criar a trama de Os Garotos do Cemitério, inclusive, não poderia ser mais millennial: rolando o feed do Tumblr, Aiden se deparou com um prompt: “What would you do if you summoned a ghost and you couldn’t get rid of it?”. Enquanto as respostas para a publicação envolviam muitas assombrações e ideias ao estilo Atividade Paranormal, a mente de Aiden foi para outro lugar: “e se o fantasma em questão fosse fofo?” A partir de então ele soube o tipo de história que gostaria de escrever, e aos poucos foi nascendo Yadriel, Julian e todos os personagens de seu livro de estreia. Em entrevista para o portal Geeks OUT, Aiden Thomas disse que a partir desse momento, sabia que incluiria representatividade latina e queer, além de seu feriado favorito, Dia de Los Muertos, na narrativa.

Outro ponto importante da narrativa de Os Garotos do Cemitério fica por conta da multilinguagem presente na narrativa. Ainda na entrevista para o Geeks OUT, Aiden Thomas aponta que crescer fazendo parte de tantas identidades marginalizadas pode ser realmente difícil sem somar o fato de que o espanhol, assim como o português, é uma língua com gêneros bem definidos. Por conta disso, há muito mais casos de erros de gênero no idioma espanhol do que no inglês. A dinâmica familiar e cultural também pode ser incrivelmente complicada quando se adiciona mais esse fator na mistura. Para os Os Garotos do Cemitério, Aiden aponta, foi importante mostrar a diferenciação e a linguagem inclusiva, além de também usar o espanhol de forma casual e sem traduções, como deveria ser. Na tradução de Arthur Ramos para o português também percebemos a utilização da linguagem inclusiva, mantendo a característica inicial do texto de Aiden Thomas.

“A única coisa mais estúpida do que fazer coisas escondido de sua família, invocar espíritos e tentar resolver múltiplos assassinatos seria se apaixonar por um menino morto.”

Um dos meus pontos favoritos da narrativa, sem dúvida nenhuma, é o relacionamento entre o trio principal — Yadriel, Maritza e Julian. Enquanto Yadriel é um menino tímido, porém seguro do que quer para sua vida, Maritza é toda força e movimento, criando uma dinâmica entre os primos que é muito divertida de acompanhar. O amor e carinho que sentem um pelo outro transborda pelas páginas de Os Garotos do Cemitério, principalmente quando o apoio incondicional de Maritza por Yadriel se materializa nas ações e pequenos sacrifícios que ela faz em prol do primo. Yadriel e Julian, por outro lado, possuem quase uma dinâmica que vai do clássico enemies to lovers, para friends to lovers — e isso não é exatamente um spoiler quando a situação já está na própria sinopse do livro. Julian, que também vem de uma família latina, encontra em Yadriel o conforto e a identificação que não sabia de que precisava, e o relacionamento entre eles vai crescendo aos pouquinhos enquanto tentam, juntos, descobrir o que aconteceu com Julian.

Os Garotos do Cemitério é um livro adorável, que te faz virar as páginas sem parar mas que, ao mesmo tempo, faz querer prolongar a jornada apenas para não precisar se despedir dos personagens e do universo em que estão inseridos. Com seu livro de estreia, Aiden Thomas fez história de maneira literal colocando um menino trans como o protagonista de uma história sobrenatural repleta de magia, mistérios e amor. Por meio de seu livro muitas pessoas trans poderão se identificar e perceber que à elas tudo pertence — o romance sobrenatural, as amizades, os laços de lealdade, o protagonismo de suas vidas e tudo mais o que desejarem.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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