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Troféu Valkirias de Melhores do Ano: Música – Lado A

Entra ano, sai ano, e a música permanece sendo esse constante bálsamo na alma. Especialmente em tempos em que estamos tão fragilizados, essa harmonia de letras e ritmos parece ser um dos únicos remédios (atrás somente de um abraço sincero e demorado de quem a gente ama e de uma generosa porção da nossa comida-conforto) capazes de nos curar de dentro para fora, e de quebra nos energiza um pouquinho. Não vou falar do quanto esse ano foi atípico para precisarmos tanto das nossas artistas favoritas — todas nós sabemos disso. O fato é que precisamos e elas não nos decepcionaram. A lista de Melhores do Ano: Música esse ano está longa, e que bom. E também tão diversa quanto possível dentro dos nossos gostos pessoais, para englobar todas as fases e necessidades que possam surgir.

Camila, Camila Cabello

Por Fernanda

O sucesso estrondoso e inesperado de “Havana” foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a Camila Cabello. Servindo para reconfigurar seu projeto para o primeiro álbum, que de The Hurting, The Healing, The Loving passou a simplesmente Camila, “Havana” colocou em destaque os ritmos latinos e as letras sem muito drama que dão o tom do debute de Camila — ainda bem. Há drama, mas muito menos do que o título inicial sugeria, e ele se limita a boas canções como a muito pessoal “Real Friends” (um provável relato de seus anos de integrante da girlband Fifth Harmony) e a ligeiramente mais genérica “Consequences”, faixas em que os vocais de Camila brilham. Mas são suas faixas mais alegres e dançantes que se destacam e, embora “Havana” seja simplesmente imbatível, “Inside Out” e “She Loves Control” conseguem corresponder às expectativas, num álbum que começa com toda a força de “Never Be the Same”.

Camila não soa como um álbum especificamente pessoal, mas é interessante perceber os resquícios da identidade de Camila Cabello ao longo de suas letras, que geograficamente passeiam por Cuba, pelo México, por Miami e por Los Angeles. Em tempos de governo Trump, essas menções passageiras às suas origens não deixam de representar uma bem-vinda autoafirmação da cantora, não nos deixando esquecer que ela é, afinal, latina e imigrante. O debute de Camila Cabello não é um trabalho particularmente incrível e tem sua cota de canções completamente esquecíveis (fica o destaque negativo para “In the Dark”), mas deixa claro que Camila tem tudo para construir uma carreira sólida na música pop — e eu espero que ela venha cheia de versos em espanhol. Nada mais apropriado para quem fez milhares de pessoas nos Estados Unidos da América de 2018 cantarolarem alegremente havana-ooh-na-na.

Para saber mais: Camila Cabello: uma artista pra unir todas as tribos da América

CleanSoccer Mommy

Por Anna Vitória

Embora esse movimento esteja acontecendo há um tempinho, em 2018 as garotas definitivamente pegaram o indie rock pelos cabelos e permitiram que eu sentisse menos vergonha ao assumir minhas raízes nesse gênero musical tão marcado pela voz de garotos brancos magrelos. Chega a dar um orgulho ver o Be The Cowboy, da Mitski, ser eleito o álbum do ano por tantos veículos importantes e não sou eu que vou discordar dessa decisão, mas gostaria de puxar a sardinha para Clean, da Soccer Mommy, aka Sophie Allison, aka a melhor amiga artista que sempre soube que precisava quando era uma garota de 16 anos tentando descobrir quem era enquanto ouvia Strokes.

Ao longo de suas 10 faixas, Sophie canta sobre desilusões amorosas que são menos sobre um relacionamento específico que chega ao fim e mais sobre a desilusão da expectativa adolescente do amor romântico, a desilusão que se sente ao, enfim, chegar perto do menino que você gosta só para descobrir que ele é igual a todos os outros — ou seja, alguém que vai embora depois de conseguir o que quer, alguém que vai te trocar por uma versão mais doce, mais fácil, mais alegre e mais bonita de você. A permissão que Sophie se dá para sentir todas essas coisas, expor essas vulnerabilidades, já é muito poderosa, mas a grande força da artista é a descoberta que isso não é culpa dela, nem da outra garota, e nenhuma dessas experiências frustradas a faz menos forte, tampouco a constatação de que, apesar de tudo, ela ainda deseja esse amor romântico. Tudo isso é feito por meio de composições de tom quase confessional, principalmente graças à sonoridade lo-fi da maioria das músicas, mas que são sofisticadas e perfeitas ao construir  expressões específicas de desejo, amor e frustração atreladas a linguagem contemporânea e feminina, que só uma mulher que cresceu na internet dos anos 2000, provavelmente ouvindo Taylor Swift e fazendo análises de mapa astral, poderia escrever. Como representante dessa classe específica, afirmo que Clean é o disco que sempre quis ouvir minha vida toda enquanto descobria essas coisas e é muito bom finalmente ter uma trilha sonora apropriada.

Para saber mais: Soccer Mommy e a reinvenção da Cool Girl em 2018

Crush, Tessa Violet

Por Yuu

Uma das melhores descobertas musicais do meu ano, o som de Tessa Violet é o tipo de indie que tende a representar os meus sentimentos mais fofinhos quando eles existem. “Crush” se tornou uma delícia de ouvir porque seus versos descrevem perfeitamente aquela sensação da primeira — e ouso dizer e mais gostosa e inquietante — fase de uma paixonite. Aquela fase em que você não sabe exatamente o que o outro quer com você, mas você não consegue se conter de esperar pela próxima mensagem e pelo próximo toque, enquanto rastreia todos os movimentos do dito cujo “‘cause I’m stalker I’ve seen all of your posts” [“porque eu sou uma stalker eu vi todos os seus posts”].

Tessa é americana, ex-modelo, vlogger, e, definitivamente, artista. A partir dos covers publicados no seu canal do YouTube, ela passou a escrever músicas originais e com uma persistência consistente seu trabalho vai se espalhando aos poucos. Na minha concepção, “Crush” é uma música perfeita porque é expressão de quem se permite baixar um pouquinho (ou talvez muito) as barreiras e imaginar os cenários mais românticos e mais bobos sem necessariamente levar a alguma coisa, por mais frustrante que possa ser essa hipótese. O tema é bastante recorrente em bandas com um som semelhante ao de Tessa, como Camera Obscura, e quem gosta de vozes suaves pode encontrar deleite na música.

Dona de Mim, Iza

Por Thay

Iza, nome artístico de Isabela Cristina Corrêa Lima, lançou sua primeira música, “Quem Sabe Sou Eu”, para a trilha sonora da novela Rock Story da Rede Globo. De lá para cá, ela não parou mais: 2017 foi ano em que ela nos hipnotizou com sua versão para “I Put A Spell On You” de Nina Simone e nos fez dançar com “Esse Brilho É Meu” e “Pesadão”, pequenos prenúncios do que poderíamos encontrar em seu álbum de estúdio, o Dona de Mim. Com catorze músicas, algumas com autoria da própria Iza ao lado de nomes como Marcelo Falcão, a cantora mostra que não brinca serviço ao nos entregar canções como “Ginga” e “Linha de Frente”. Mas o carro chefe de seu trabalho, indicado inclusive ao Grammy Latino de Melhor Álbum Pop em 2018, é, sem dúvidas, a canção que batiza o álbum, “Dona de Mim”. 

Sua música fala de resistência e política em um momento em que, mais do que nunca, é importante não se calar. Unindo os versos às imagens de seu poderoso vídeo, Iza faz algo semelhante ao que Beyoncé tem feito em seus trabalhos e se transforma em um corpo político, não deixando de falar sobre questões importantes de negritude e feminismo. “Sempre fiquei quieta, agora vou falar/Se você tem boca, aprende a usar” é um recado de Iza que não deixa dúvida de suas intenções.

Para saber mais: Dona de Mim: pop político, a consciência de negritude e o apoio entre mulheres; SZA, Iza e Lorde: o novo papel das mulheres na indústria da música.

Dirty Computer, Janelle Monáe

Por Anna Vitória

Existe uma piada recorrente na internet que diz que já passou da hora de aceitar que vivemos no futuro e sair por aí vestindo prateado. Os sinais do futuro estão na velocidade, nos nossos celulares, e na realidade econômica, política e ambiental que lembra os futuros apocalípticos dos filmes, mas quando penso no futuro idealizado, esse com botas prateadas e carros voadores, é a música de Janelle Monáe que ouço ao fundo. A artista tem navegado no afrofuturismo desde seu primeiro álbum, ArchAndroid, de 2010, e é com Dirty Computer que ela atinge a versão mais sofisticada da narrativa que criou para sua carreira — o que é dizer muito, porque essa mulher nunca errou.

O álbum veio acompanhado de um filme conceitual chamado de Emotion Picture, seguindo uma proposta parecida com a de Beyoncé em Lemonade. Enquanto álbum conceitual, Dirty Computer conta a história — explicada com detalhes no filme — de Jane, personagem de Janelle, uma habitante de um futuro distópico prestes a ter seu sistema “formatado” para tirar de si tudo que a faz diferente. As músicas são uma jornada pelo que faz dela tão estranha assim através de memórias de sua vida. As duas forças mais potentes que se notam em todas as letras e clipes são sua sexualidade e sua negritude, também dois grandes temas do álbum, aspectos sempre calados e escondidos, seja no passado, no presente ou no futuro imaginado pela artista, mas que em Dirty Computer são objeto de celebração extravagante na forma de músicas maravilhosamente dançantes, divertidas e sexies, como “Make Me Feel” e “Screwed”. Essa celebração não deixa de lado as importantes mensagens de luta e reconhecimento da história da população negra, que aparece nas letras, como na poderosa “Django Jane”, e também nas referências sonoras que se espalham pelas canções, em que Janelle Monáe ocupa o lugar de herdeira de Prince e Stevie Wonder. Essas “memórias” nos lembram que Janelle Monáe é humana não só por suas diferenças, mas porque ela também recusa o papel de fortaleza imbatível e também se abre para vulnerabilidade, como em “I Like That”, tanto para cantar suas dores como para lembrar a todos os perseguidos que afeto, carinho, alegria, e pequenas felicidades como uma deliciosa música pop também são expressões de resistência.

Para saber mais: Janelle Monáe é resistência e orgulho em Dirty Computer

El Mal Querer, Rosalía

Por Luisa

A cantora espanhola Rosalía foi um dos principais destaques do Grammy Latino 2018, uma das artistas com mais indicações aos prêmios e ganhadora em duas categorias concorrendo apenas com um single de seu novo disco: “Malamente – Cap. 1: Augurio” (El Mal Querer). Conhecida por fazer uma versão millennial do flamenco e também por difundir o gênero para novas gerações, a artista lançou em novembro um álbum conceitual, inspirado numa novela medieval que, com as palavras de hoje, é a narrativa em versos de um relacionamento abusivo. Em El Mal Querer, as faixas alternam-se entre músicas com influências mais tradicionais do flamenco (ou ao menos da ideia que uma pessoa leiga tem do flamenco) e outras mais voltadas para o pop (numa mistura com o trap ou com ritmos urbanos).

Aproveitando a indicação hispanohablante, vale conhecer também outras cantoras que também tiveram espaço no Grammy Latino, como Karol G (Unstoppable), Mon Laferte (Norma) e Natalia Lafourcade (Musas – Un Homenaje Al Folclore Latinoamericano En Manos De Los Macorinos, Vol. 2).

Expectations, Hayley Kiyoko

Por Tany

Uma das partes mais fascinantes da música, além de se conectar com o trabalho de uma pessoa que nem conhecemos, é acompanhar o crescimento de um artista que admiramos. O sucesso da Hayley Kiyoko veio alguns anos atrás quando seu videoclipe “Girls Like Girls” viralizou por mostrar o relacionamento de duas adolescentes se apaixonando. Existia a possibilidade de ficar apenas nesse hit, mas Hayley amadureceu, seu trabalho acompanhou, ficando cada vez melhor e conquistando mais público. Por isso, aguardei ansiosamente o lançamento do seu primeiro álbum.

Apesar de ser fã, sou sincera em falar que não é um trabalho coeso, mas nem por isso deixa de ser muito bom e acima da média para a cantora. Como uma mulher que sabe que representatividade é importante, ver o lançamento de uma artista abertamente lésbica que faz questão de incorporar sua vida e o fato de amar mulheres nas letras, clipes e no seu dia a dia sem vergonha nenhuma, para mim, se tornou um dos lançamentos mais impactantes, especiais e significativos do ano.

Para saber mais: Hayley Kiyoko e a importância da representatividade lésbica na música

Golden Hour, Kacey Musgraves

Por Fernanda

Kacey Musgraves desde cedo chamou atenção no meio da música country — visto como tradicionalmente conservador — por causa de suas letras com temáticas progressistas e repletas de observações agudas a respeito das hipocrisias do mundo que habita, que, ao mesmo tempo, é o mundo ao qual ela pertence e no qual se reconhece. Suas narrativas cheias de nuance sobre a vida no sul americano sempre repousaram nesse paradoxo. Mas Golden Hour chega como uma grande transição sonora e lírica. Kacey soa pela primeira vez muito mais como pop do que como country, ainda que ela nunca dispense os banjos, e seus temas são não tanto as peculiaridades da vida sulista quanto algo mais universal: olhar para o mundo com um olhar profundamente apaixonado para declamar “oh what a world, don’t wanna leave”.

O amor é seu tema em pelo menos metade do álbum, e aqui ele liberta, floresce em lugares inesperados, enche a vida de cor. A adorável “Happy and Sad” fala daquela felicidade tão plena que também é inevitavelmente triste, porque é impossível que dure pra sempre. Mas não há muito espaço para a tristeza. Mesmo quando Musgraves narra um término de relacionamento, como naquela que é grande canção do álbum, “Space Cowboy”, é para concluir que “roads weren’t made to not go down” — ainda que seja a estrada que leva ao fim. A aura essencialmente positiva e encantada do disco, que termina com um singelo “it will all be alright”, só perde espaço na dançante porém shady “High Horse” e em “Mother”, na voz de uma filha que deixou sua mãe a muitos quilômetros de distância e sente sua falta enquanto percebe que o tempo está passando. Em “Good Ol’ Boys Club”, canção de seu álbum anterior, Kacey mandava um “appreciate you but no thanks” para a grande máquina de Nashville, afirmando que faria as coisas do seu jeito. Em “Slow Burn”, que abre Golden Hour, ela reafirma: “I’m gonna do it my way, it’ll be alright”. Ao final da hora de ouro que é seu quarto álbum, é impossível não acreditar no que ela diz.

High As Hope, Florence + The Machine

Por Thay

Ouvir Florence + The Machine é sempre uma experiência catártica. Quando ouvi “Dog Days Are Over” pela primeira vez, nos idos de 2009, tive certeza de que sempre seria fã de Florence Welch e o que quer que ela decidisse cantar. Álbum após álbum, entre singles e participações em músicas de outros artistas, lá estava eu para prestigiá-la e cantar junto os sentimentos que ora eu compartilhava, ora eu só poderia imaginar. E foi com todo esse carinho que recebi High As Hope, seu quarto álbum de inéditas e talvez o trabalho que conte com as músicas mais intimistas e vulneráveis da carreira de Florence até agora. Durante todo o álbum Florence discorre sobre seus demônios, suas dificuldades e seus arrependimentos, temas presentes em todas as dez músicas de High As Hope. O álbum abre com “June”, uma canção repleta de emoção que diz, logo de cara, o que podemos esperar desse trabalho como um todo: Florence está mais contida nas teatralidades, marca registrada de suas músicas anteriores, mas nem por isso deixa de expor e compartilhar seus sentimentos e emoções, enquanto diz que precisamos nos apoiar uns nos outros.

Na sequência aparece “Hunger”, sem dúvida a minha favorita de High As Hope mesmo com a letra confessional e dolorida. Na canção, Florence fala a respeito do distúrbio alimentar que desenvolveu aos 17 anos e do uso de drogas. Florence consegue reunir nos mesmos versos dois tópicos muito difíceis — e que ela teve dúvidas, por alguns momentos, se deveria mesmo abordar em suas músicas — com a “fome” por amor; a metáfora está forte e presente na canção que cresce acordes de piano e bateria. “Sky Full of Song”, a primeira música lançada do novo trabalho, é um interlúdio calmo em meio ao álbum, um momento para respirar fundo e se deixar levar pela melodia criada por Florence, apenas para levar uma pancada de sinceridade com “Grace”, música escrita para a irmã mais nova da cantora onde, em quase cinco minutos, Florence discorre sobre amor e perdão, sobre sua relação com a caçula dos Welch. “Patricia” surge na tracklist como uma homenagem à Patti Smith, enquanto a conclusão do álbum se dá com “100 Years”, “The End Of Love” e “No Choir”, esta, inclusive, tem o verso “it’s hard to write about being happy” [“é difícil escrever sobre ser feliz”], que mostra a luta de Florence para se manter criativa seu o caos dos seus vinte e pouco anos. A gente te entende, Flo.

Para saber mais: A catarse musical de Florence + The Machine; Intimista e vulnerável: High As Hope, Florence + The Machine


** O fundo da arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

** A montagem da arte é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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