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Janelle Monáe é resistência e orgulho em Dirty Computer

Eu e minha casa sempre enaltecemos Janelle Monáe, e mesmo ela tendo lançado Dirty Computer, seu terceiro disco, e o Emotion Picture de mesmo nome há quase seis meses, é muito simbólico e muito necessário que a gente fale sobre ele agora mais do que nunca.

Embora o foco aqui seja a obra audiovisual, musicalmente falando, esse talvez seja um dos melhores trabalhos da cantora, por estar tão alinhado com o seu discurso e com sua sexualidade, uma bandeira que Janelle tem levantado e não é de hoje (ou vocês acham que seu visual super andrógino desde o primeiro clipe sempre foi um acidente?). Todas as parcerias são muito bem pensadas, todas as músicas são uma delícia para sair dançando pelo quarto, mas o que deixa o Dirty Computer sendo um dos melhores discos de 2018 é, definitivamente, a parte visual. E ela é todinha uma obra de resistência.

A história de Dirty Computer começa com a narração – da própria Janelle – clássica que nos insere em uma sociedade distópica. A ideia é que os seres humanos são considerados computadores, e os que precisam ter seu sistema “limpo” (através de um processo chamado Nevermind) são aqueles que iam contra o sistema e que eram diferentes fisicamente do resto da população. Tudo que vemos da história está atrelado à Jane (personagem de Janelle), e é pela mente dela que vivemos essa distopia. Jane nos conta que o lugar onde eles colocam os diferentes para sentir os efeitos do Nevermind se chama “The House of the New Dawn” [“A Casa do Novo Amanhecer”], e que nela, você é drenado de tudo que o faz diferente, e de tudo que o faz especial.

Enquanto os especialistas viajam pelas memórias de Jane, nós as vemos também, e é aí que as músicas são inseridas no filme, exatamente como Lemonade, da Beyoncé, ou seja: todos eles funcionam de forma independente e ao mesmo tempo dentro de uma narrativa mais ampla, justamente por terem a característica de fragmentos de memórias.

The “american cool”

Em Dirty Computer, cada música é um pequeno manifesto e uma celebração da própria sexualidade de Janelle, extremamente normalizada nos contextos dos clipes.

Em “Crazy, Classic, Life”, o foco é a própria vida e valores de Jane/Janelle representada por uma festa com gente de todo tipo, e dentro da história, é o perfeito começo do fim. Com frases como “I just wanna find a God and I hope she loves me too” [“Eu só quero encontrar um Deus e eu espero que ela me ame também”] e “The same mistakes, but I’m in jail, you’re on top of shit” [“Os mesmos erros, mas eu estou na cadeia, você está no topo da merda”], Janelle nos insere no contexto do que é ser uma pessoa negra – e em especial a diferença com que sempre foi tratada com relação aos amigos brancos, mesmo os aliados –, e o começo perfeito de uma jornada de uma heroína que é perseguida pelo simples fato de existir.

O processo do Nevermind não é único, ele é feito em partes, e entre uma sessão e outra, nós vemos Jane se encontrar com Zen (personagem da Tessa Thompson) que já foi limpa e que hoje atua como uma Mary Apple, que é o nome dado a pessoas que já foram previamente limpas. “Take a Byte” é a próxima música a ser mostrada, e é a primeira que não faz parte de uma memória e sim de uma parte do processo onde ela tem o diferente drenado do seu corpo, representado aqui como um líquido neon e bem colorido. Apesar de ser uma música com duração normal no disco, na história ela funciona como uma música de transição, e é mais curtinha.

“Screwed” é uma das minhas favoritas do disco inteiro, e mesmo do filme. É um dos clipes mais legais e com a letra mais poderosa porque fala bastante sobre observar o mundo estar sendo todo “fodido” pelos poderosos enquanto os marginalizados assistem o circo pegar fogo. Funciona muito bem como metáfora pois perdemos um pouco da sensação imediatista de uma mudança extrema e AGORA, já que foca muito nas mudanças nos pequenos rolês: estar com pessoas que se importam, fazer festa, se sentir seguro (mesmo que se seja escondido), e especialmente, fazer mudanças começando por baixo. É um manifesto de esperança e amizade em cores vibrantes.

É com “Django Jane” que a coisa muda de vez na história do filme e na história de cada pessoa negra que se vê sentada num trono como Jane falando sobre suas conquistas como mulher negra “celebrada e graduada”, como ela mesma se coloca e como é a história de muitos negros no mundo. “Django Jane” é a música mais Janelle de todas, justamente por ser um grande desabafo com referências em todos os lugares, a começar pelo terninho que ela usa (“Remember when they used to say I looked to mannish?” [“Lembra quando eles diziam que eu parecia muito masculina?”]), uma ode a sua própria carreira.

We gave you life, we gave you birth, we gave you God, we gave you Earth/Hit the mute button, let the vagina have a monologue” [“Nós te demos vida, nós te demos à luz, nós te demos Deus, nós te demos a Terra/Aperta o botão mudo, deixe a vagina ter um monólogo”], faz da música ser o Manifesto Feminista Negro do disco e também o ponto de virada na história, já que faz os próprios especialistas do Nevermind questionarem as memórias de Jane. Isso é uma memória ou um sonho?

“Pynk”, um dos singles do disco, é a próxima música, e faz parzinho com “Make Me Feel”, outro carro-chefe do disco. A primeira, como uma fortíssima homenagem ao sexo feminino, também está atrelada à ideia de Janelle de que o rosa é a cor que une todas as pessoas, por ser a cor das nossas entranhas mais profundas; a segunda, como a celebração da sua sexualidade e do que não tem realmente explicação, é apenas o jeito como ela se sente.

“I Like That” é o segundo bug do sistema que é o cérebro de Jane, e, assim como “Django Jane”, é um manifesto negro e um desabafo. É muito curioso pensar que essas duas músicas são dois pontos de virada interessantes na história, mas são também considerados bugs no sistema; é como se reconhecer-se negro fosse muito errado. Como se fosse perigoso. E de fato se reconhecer negro e estar dentro de um sistema que te criminaliza e te demoniza ao mesmo tempo que te coloca como símbolo sexual, é bastante perigoso. Não é incomum que a consciência negra seja a última a vir, depois até do próprio feminismo, mas quando ela vem, você passa a entender toda a sua vida. Me lembro de ouvir “I Like That” pela primeira vez e a frase que mais me chamou atenção foi “I remember when you laughed when I cut my perm off and you rated me a six/But even back then with the tears in my eyes I always knew I was the shit” [“Eu me lembro quando você riu porque cortei meu cabelo e me deu uma nota seis/Mas mesmo naquela época com lágrimas nos meus olhos, eu sempre soube que era foda”].

O filme se encerra com um grande instrumental clássico que não está no disco e com uma Jane aparentemente limpa, já transformada em uma Mary Apple, e pela primeira vez temos uma explicação do que são as pessoas que se encarregam do tratamento: são chamadas “tochas”, que levam os computadores sujos e diferentes da escuridão, para a luz.

“Americans” é a segunda música que não é uma memória. Ela aparece no filme como uma cena pós-créditos, que começa com uma grande descrição do americano no sentido mais conservador da palavra, mas que evolui para se tornar o hino dos que realmente fundaram não só aquele país, mas muitos do mundo todo: nós, de pele escura. Nós, os diferentes.

Nós, os resistentes. Resistimos então.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!
** A arte do banner é de autoria da artista Raquel Gouvea.

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