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“You live, you learn”: a voz e o legado de Jagged Little Pill 25 anos depois

Em 13 de junho de 1995, a cantora canadense Alanis Morissette liberou Jagged Little Pill, projeto que viria a se tornar um dos álbuns mais bem avaliados pela crítica e pelo público durante a década de 1990. Poderoso, honesto e incrivelmente pessoal, as músicas foram escritas ao lado do produtor norte-americano Glen Ballard, mas é possível perceber que cada pedaço do disco tem um pouco da essência de Morissette. As guitarras distorcidas e limpas que se misturam de forma quase orgânica, os berros que prezam a potência da vocalista, as gaitas e, principalmente, as letras, são características que marcaram e ditaram uma geração, e o fazem até hoje. 25 anos depois, Jagged Little Pill continua se destacando como uma das vozes femininas mais potentes e honestas da música não apenas daquela época, mas de todas as que se seguiram desde então.

Mas por que, afinal, Jagged Little Pill se tornou um fenômeno tão grande? Antes de lançar o álbum e se tornar um nome proeminente no mundo inteiro, Alanis cresceu como uma estrela mirim no Canadá. Durante a adolescência, já tinha liberado seu primeiro trabalho, Alanis. Um ano mais tarde, tinha outro projeto encaminhado, Now is the Time, mesmo que aspirasse a fazer mais, falar sobre outras coisas, expandir seus horizontes. Quando ela mudou para Los Angeles, aos 19 anos, ninguém achou que ela conseguiria fazer a transição de uma artista adolescente para uma mulher com sentimentos complexos, muito menos que ela conseguisse transpor isso para suas canções de forma honesta, no entanto. Como consequência, sua voz demorou para ser descoberta. Mas ela nunca deixou de canalizar esses sentimentos para dentro de si, muito menos de tentar entendê-los: rejeição se tornou determinação, comportamentos inapropriados de homens na indústria se tornaram raiva, descontento e um insight maior sobre o patriarcado, e seus questionamentos sobre a vida, o jeito como foi criada, religião e até mesmo os momentos em que seu coração quebrou por uma desilusão amorosa são expostos de forma absoluta e catártica na mistura das faixas.

Ao contrário da artista que foi durante sua infância e adolescência, ela não se deixou levar pelo o que devia ser — ou o que achavam que ela era —, mas sim foi atrás de cultivar a sua voz, canalizar sua raiva e, eventualmente, isso fez com que ela criasse um dos álbuns mais importantes da sua década, e um trabalho muito significativo para milhares de mulheres que cresceram ouvindo-o.

A faixa que abre o disco, “All I Really Want”, encapsula todos esses aspectos apontados até agora no texto e diz exatamente ao que Alanis Morissette veio. No primeiro momento da música ela pergunta: “Eu te estresso? Meu suéter está virado avesso e você diz, quão apropriado. Não gosto de dissecar tudo, não quero te irritar mas não consigo evitar.” Segundo Ballard, a cantora escreveu esse trecho durante uma reunião entre eles, quando ela entrou na sala desarrumada e com o suéter do lado errado e ele apontou isso para ela. Em questões de minutos, toda a letra estava completa.

“And I really want is some patience
a way to calm the angry voice
and I really want is deliverance, yeah” 

“Tudo eu quero é paciência
um jeito de acalmar a voz raivosa
tudo que eu quero é libertação, sim”

Repare que ela fala sobre acalmar a voz raivosa. Em entrevista ao The Times, a própria Morissette disse que a raiva feminina é algo que tem uma reputação monstruosa, mas que todo mundo carrega um pouco em si. Por isso abrir um álbum que explora muito desse aspecto com “All I Really Want” parece nada mais do que justo. No decorrer das faixas, é possível perceber exatamente o que ela quer dizer com achar um jeito de acalmar esse sentimento dentro de si e, consequentemente, encontrar libertação.

Apesar de no século XXI existirem mais narrativas (na música, literatura, cinema e séries) que falam sobre female rage, suas consequências e seus motivos, não muito tempo atrás a frustração feminina era algo desencorajado. Um motivo de vergonha. Se você estava insatisfeita com o jeito da vida e suas consequências, a culpa era apenas sua e de mais ninguém. Questionar o sistema, o patriarcado e as correntes que prendem mulheres de todas as formas e jeitos era algo inconcebível e demorou um bom tempo para que vozes ativas se formassem e fossem escutadas no assunto. Isso não quer dizer que o sentimento não existisse e na história da arte é possível ver tal expressão estampada na essência de grandes obras. Até certo ponto, as mulheres bravas apareciam como deusas, bruxas e monstros como Medusa, por exemplo, e outras figuras mitológicas. Na coletânea de pinturas que representam esse aspecto, feita pela CNN, o site mostra pinturas como Timoclea Mata seu Estuprador, pintada por Elisabetta Sirani em 1659. Timoclea de Thebes foi uma mulher estuprada por um Capitão de Trácios após Alexandre, o Grande invadir Tebas. Revoltada com o ato, ela o atrai para um poço e o mata, algo estampado na obra de Sirani. Com o passar dos anos e na medida em que a sociedade foi evoluindo, a expressão desses sentimentos também sofreram certa mutação. No cinema, por exemplo, não consigo pensar em um exemplo mais pertinente do que Cléo das 5 às 7 (1962), ou, mais tarde, o clássico Thelma & Louise (1991). Já na música, Joan Jett e Bikini Kill tiveram os seus respectivos momentos, mas na década de 1990 é possível rastrear artistas que canalizavam sua raiva para expandir sua voz — e Morissette com certeza era uma delas.

“Tentei ser uma feminista alegre, mas estava muito brava para isso.”Agnes Varda

Em Jagged Little Pill, Alanis Morissette diz para jovens que está tudo bem ter raiva — e elas não precisam pedir permissão para isso. Uma das melhores características do álbum é a forma com que ela aborda seus sentimentos sem desculpas, sem amarras. Segundo a autora Karen Fournier, que escreveu o livro The Words and Music of Alanis Morissette, suas canções são “apresentadas como uma resposta apropriada para variadas circunstâncias onde mulheres se encontram contidas, trivializadas ou silenciadas”. Veja “You Oughta Know”: um dos singles mais famosos do disco, a cantora fala basicamente sobre o rescaldo de um relacionamento que deu completamente errado, que a deixou machucada. É possível sentir uma angústia sincera, que passa por raiva e, por fim, se torna vulnerabilidade. Ela começa relembrando o relacionamento entre os dois (“ela é pervertida como eu? Ela te chupa no cinema?”), explora a ruptura nas promessas que ele tinha feito (“E toda vez que você fala o nome dela, ela sabe que você prometeu me amar até sua morte? Até a sua morte? Mas você ainda está vivo”) e, por fim, menciona a bagunça que ele deixou e no qual ela demora para se recuperar e que considera um fardo (“Eu estou aqui para te lembrar da bagunça que você deixou quando foi embora, não é justo me negar da cruz que carrego e que você me deu”). Tudo isso sem medo algum de demonstrar seus sentimentos e a exposição do seu íntimo que vem com eles.

Apesar da música ter se tornado uma espécie de escape para meninas (ou mulheres e talvez até homens) que estavam passando por uma situação parecida e mais tarde ser considerada sobre “vingança”, Morissette disse em uma entrevista para o Spotify, sobre os 25 anos do álbum, que escrever a canção era essencial para que ela não ficasse doente. Foi um processo catártico e necessário, e por causa dessa sinceridade, se tornou uma das suas músicas mais famosas de todos os tempos. Se você abrir qualquer plataforma de streaming, inclusive, e digitar o nome da artista, essa música com certeza será uma das primeiras a aparecer. O sucesso comercial da canção fez com que ela fosse convidada, na época, para apresentá-la em diversos programas — que exigiram que ela cortasse as partes consideradas mais “esdrúxulas”. Algo que, devo acrescentar, ela se recusou a fazer.

Em “Right Through You”, Alanis volta a abordar a rejeição, mas por um viés distinto. Na mesma entrevista citada no parágrafo anterior, a cantora fala sobre a dificuldade que enfrentou ao tentar deixar para trás a artista que tinha sido na adolescência. Seus dois primeiros álbuns existiam dentro de uma pegada mais pop e, portanto, falavam de assuntos mais leves como se divertir, ou se apaixonar (mas de forma inocente). Não existe nada de errado com isso, claro, mas Morissette queria encontrar uma forma de sair do status quo pré-estabelecido que a tinham incumbido. A maior dificuldade foi o fato de que ninguém parecia acreditar que ela tinha a complexidade necessária em si, ou que ela tinha a capacidade de abordar assuntos mais profundos ou até políticos nas suas letras. Durante a gravação de Jagged Little Pill, ela e Ballard passaram por várias entrevistas e processos para encontrar uma gravadora, sendo que a maioria delas acabou em rejeição. Pior: quase todas elas levaram a um comportamento completamente inadequado de homens importantes da indústria. Tudo isso está exposto na canção, uma das mais verdadeiras do disco inteiro. Quando ela fala sobre o homem que a levou para tomar um vinho, jantar e fazer um 69, mas não escutou uma palavra do que ela disse, isso vem de um lugar verdadeiro, da experiência. Segundo Morissette, o trabalho não estaria completo (ou não seria completamente honesto) sem a presença da música, e ao analisar o contexto, fica impossível discordar.

“You took me for a joke
you took me for a child
you took a long hard look at my ass
and then played golf for a while”

“Você me tirou como uma piada
você me achou uma criança
você deu uma olhada longa para minha bunda
e depois jogou golfe por um tempo”

Apesar de eu ser um ano mais nova do que o álbum, Jagged Little Pill foi um catalisador na minha vida (junto com outras pequenas preciosidades da cultura pop). A voz honesta e incrivelmente crua de Morissette foi a porta de entrada para que pudesse entender e amar outras artistas femininas que tratavam de assuntos parecidos, ainda que vários álbuns e projetos que fui explorar mais tarde tivessem sido lançados antes — mesmo que nunca tivessem alcançado a mesma popularidade. Foi mais ou menos nessa época que conheci PJ Harvey, por exemplo. Lembro até hoje de olhar para sua foto com a sombra azul e macacão rosa durante um dos seus shows no Glastonbury ao mesmo tempo que ouvia canções como “Rid of Me”, “Man-Size Sextet”, e “Down by the Water”. Suas composições eram conflitantes, intensas e quase turbulentas e livres do male gaze que era tão presente na época (e ainda é). Acho que nenhuma frase ficou tão marcada na minha mente quanto “Lamba minhas pernas, estou em chamas”. Na época, eu tinha fotos dela pendurada no meu quarto com uma camiseta com exatamente a mesma frase. Assim como Morissette, Harvey tinha voz própria e não tinha medo de usá-la. Ela falava sobre sexualidade e explorava o ato de ser uma mulher com uma sinceridade pontual e necessária. Seu visual e suas músicas foram (e são) tão marcantes que a obsessão se estendeu diretamente até 2017, quando finalmente vi seu show ao vivo, durante o Popload.

“I’m coming up man-sized
skinned alive
i want to fit
i’ve got to get man-sized
i’m heading on handsome
got my leather boots on
Silence my lady head
get it girl out of my head
does hair with gasoline
set it light and set it free”

E depois de Morissette e Harvey, tinha Tori Amos (“só porque você me faz gozar não quer dizer que você é Jesus”) e Courtney Love, com Hole (“Você está com fome, mas eu estou faminta. Ele te corta da árvore, te mantém em uma caixa perto da cama. Viva, mas por pouco.”) e Fiona Apple (“E é um mundo triste quando uma garota quebra um garoto só porque ela pode”). Todas elas tinham algo a dizer, e diziam de forma destemida. Morissette, inclusive, disse que Amos foi uma das suas inspirações. O primeiro álbum da cantora norte-americana, intitulado de Little Earthquakes, lançado em 1992, tem um dos relatos mais honestos sobre abuso sexual na história da música. Em “Me and a Gun”, Tori canta acapella sobre a violação que sofreu quando tinha apenas 21 anos e tocava em bares para tentar se destacar na música. Uma artista completa, ela usa da sua dor para criar algo único na música, algo cru e potente. Apesar de não ter melodia, é uma das canções mais importantes do disco inteiro — que é repleto de pequenas preciosidades.

“It was me
and a gun
and a man
in my back
and i sang ‘holly holy’ as he buttoned down his pants” 

Enquanto isso, em 1994, Hole lançava o disco Live Through This, que também funciona até hoje como uma experiência catártica. Love sempre foi uma figura problemática (por causa das suas declarações homofóbicas ou com as acusações de negligência com a filha, algo que deve ser discutido e levado em consideração), mas é impossível negar a veracidade com que ela explorava o mundo feminino na sua música. Assim como Morissette, ela também usava da sua potência vocal para chamar atenção, mas aqui de um jeito ainda mais incisivo. Músicas como “Jennifer’s Body”, “Asking for It”, “Plump” ou até mesmo “Celebrity Skin” — nome do disco lançado quatro anos mais tarde —, falam sobre violência, consentimento, estupro, competição feminina e até mesmo o misticismo que colocam em assuntos como gravidez.

Não presenciei a revolução de nenhuma dessas artistas pessoalmente, mas fico pensando como devia ser acompanhar na época em que tudo aconteceu. O legado de Jagged Little Pill é algo que pode ser estudado com profundidade no contexto do mundo da música em si, mas talvez o seu maior presente para mim foi justamente ter me introduzido a outras cantoras que falavam de forma ampla e honesta sobre o que estavam sentindo. E isso não é pouca coisa.

Um ponto de ruptura

No seu resultado final, Jagged Little Pill é muito mais do que um álbum apenas sobre raiva. As músicas ficaram conhecidas por explorar esse aspecto, sim, mas também pelo fato de que elas abordam o ponto exato da ruptura que acontece da vida adolescente para a vida adulta, sendo que pode ser considerada uma obra coming of age. Ao parar para escutar atentamente todo o disco e estudar a vida de Alanis antes, na época em que criou o projeto, e agora, é possível perceber a forma como suas experiências moldaram sua perspectiva sobre assuntos mundanos e comuns (amor, relacionamentos, conflitos, fé, carreira, etc) e como elas foram essenciais para criar a essência do projeto. Ela dizia que estava tudo bem ter raiva e gritar ao mundo sobre isso, mas também que seguir em frente era necessário. É a mistura desses dois aspectos que fizeram com que o disco saísse do clichê e apresentasse nuances e facetas diferentes e pertinentes.

Uma coisa interessante, e algo que representa muito bem esse ponto de ruptura, é que Alanis foi criada em um lar católico praticamente. Ou seja, sua rotina era repleta de afazeres da igreja, onde aprendeu sobre Adão, Eva e tudo aquilo que ensinam dentro de uma instituição cristã. Em “Forgiven”, ela nos leva um pouco para essa rotina, apresentando seus questionamentos sobre a religião e o patriarcado embutido nas práticas que acompanhou desde pequena. Tudo isso com uma pitada que é quase sarcástica e provocadora. “Todos nós precisávamos de algo para acreditar. E então acreditamos”, ela diz. Como o álbum é cheio de questionamentos sobre as transições das nossas vidas, onde um pequeno momento causa mudanças radicais e sem volta, então falar sobre a fé e como ela sofre mutação inevitável depois de certos eventos definitivos da vida é algo natural e encorajado. E é em partes onde ela diz que “confessou seus piores pecados para um homem invejoso”, é que fica claro o quão honesta está realmente sendo.

“I never forgot it, confusing as it was
no fun with no guilt feelings
the sinners, the saviors, the lover-less priests,
I’ll see you next sunday”

“Eu nunca esqueci como era confuso
sem diversão ou sentimentos culposos
os pecadores, os salvadores, os padres sem amor,
te vejo no próximo domingo”

Jagged Little Pill é um álbum que, na medida em que vai evoluindo e certas músicas vão se destacando, mostra caras e sentimentos diferentes — mas sempre complexos. Pegando as três músicas sobre relacionamentos amorosos do disco, por exemplo, dá perceber que existe uma certa inconsistência na forma como Alanis via suas relações amorosas. Em “You Oughta Know”, a mais famosas das três, ela está revoltada, triste e querendo chamar atenção da pessoa que a tinha deixado. Já em canções como “Head Over Feet” e “Not the Doctor”, ela adota uma posição que se distancia disso, que vai em direto contraponto. Na primeira ela fala sobre uma dinâmica que foi saudável, com uma pessoa que era gentil e amável, mas sobre um amor que ela não sentia merecer. Ela iria se apaixonar, mas não se sentia merecedora de tal afeto. A segunda, no entanto, é talvez a mais dura e cruel do disco inteiro, mas carrega um sentimento completamente justificável, rejeitando a narrativa de que mulheres tem que ser uma espécie de salvadoras emocionais para homens que são despreparados ou infantis, que dependem de suas parceiras para absolutamente tudo — e colocam expectativas irreais nas mesmas.

“I don’t wanna be adored for what I merely represent to you
I don’t wanna be you babysitter
you’re a very big boy now” (“Not the Doctor”) 

“Eu não quero ser adorada pelo o que represento para você
não quero ser sua babá
você é um garoto bem grandinho agora” 

“You are the bearer of unconditional things
You held your breath and the door for me
Thanks for your patience…”  (“Head Over Feet”) 

“Você é o  portador de coisas incondicionais
você segurou sua respiração e a porta para mim
obrigado por sua paciência” 

Nas três músicas, as visões expostas são completamente distintas, vêm de lugares diferentes. Mas ao invés de oferecer algo instável para o disco em si, só aumenta o potencial da voz de Alanis, que é honesta e poderosa, ao mesmo tempo que é falha e humana. A experiência humana, afinal, é cheia de contradições e nada mais justo do que isso ficar exposto no seu trabalho. Em “Hand in my Pocket”, ela canta justamente sobre ter sentimentos contraditórios e sobre como essa é uma experiência potente. “Wake Up”, uma das últimas faixas do disco, também representa esse aspecto. A própria Morissette disse que essa é uma espécie de “irmã” para “All I Really Want” porque contém todas as mesmas vulnerabilidades da primeira, mas de uma forma mais madura e pontual. Ou seja, ao longo do disco existe um amadurecimento que acontece de forma gradual, mas que só acontece devido a forma como a cantora foi permitida explorar seus sentimentos, sempre com uma honestidade brutal.

Mesmo com sua essência capturada em alguns canções, Alanis por vezes sentia a necessidade de abordar a música pela visão de outras pessoas. “Tinha épocas que simplesmente ficava cansada de mim mesma”, admite. É assim que nasceu canções como “Perfect”, sobre a necessidade humana de ser perfeito sempre; ou “Mary Jane”, que escreveu como uma espécie de homenagem e empatia para a figura feminina, que estava sempre dando o seu melhor para todo mundo, colocando o sentimento dos outros na frente, mesmo que não seja saudável. Essa última também pode ser interpretada como algo que aborda a depressão e a pressão para se sentir feliz, satisfeito com as circunstâncias da sua vida ou até mesmo querer mais para si mas não conseguir seguir em frente. O trecho “você perdeu o seu lugar na fila de novo, que pena. Você nunca mais parece querer dançar”, é sobre todos os dias que foram difíceis demais para suportar mas, mesmo que existisse a promessa de uma melhora no futuro, é impossível não chegar em casa e ser infeliz.

“So take this moment, Mary Jane, and be selfish
Worry not about the cars that go by
‘Cause all that matters, Mary Jane, is your freedom” 

“Então aproveite esse momento, Mary Jane, e seja egoísta
Não se preocupe com os carros que passam
Porque tudo que importa, Mary Jane, é sua liberdade”

Até mesmo as músicas menos bem recebidas, como “Ironic”, “Your House” ou “Superstar Wonderful Weirdos” (criada para ser um hino sobre inclusão para pessoas marginalizadas) apresentam uma pegada divertida e peculiar.

“You Learn” é o coração de Jagged Little Pill e justamente a música que mais representa o aspecto de mudança explorado ao longo do projeto. Não é atoa que ela se encontra no meio do disco, o separando em duas fases distintas. Uma mais crua e poderosa, outra mais calma e sincera. A canção foi escrita quando Alanis mudou do Canadá para Los Angeles e ainda estava tentando se acostumar com a rotina de viver em um país completamente diferente do seu. É possível perceber que a letra da música é sobre evolução e adaptação. Sua voz está quase calma e, de certa forma, oferece conforto para os sentimentos outrora explorados no disco. Depressão, raiva, desilusão… mas talvez as coisas vão melhorar.

Dessa forma, Jagged Little Pill se tornou um álbum quase terapêutico. Durante a primeira temporada de Roswell, New Mexico, a protagonista Liz Ortecho (Jeanine Mason) diz que escuta o álbum toda vez que precisa esclarecer sua mente, descobrir qual é o seu próximo passo ou simplesmente encontrar forças para continuar. E eu acho que isso diz bastante sobre o tipo de revolução que Alanis Morissette fez com que esse disco — uma que ainda é um estopim para mulheres resgatarem o controle dos seus próprios destinos, mais de 25 anos depois.

Alanis disse que sua experiência com Jagged Little Pill foi um tanto quanto traumática. Não por causa do álbum em si, mas pelo o que ele proporcionou. “Acreditei, assim como muita gente, que a fama ia ser incrível e que eu ia correr em direção ao pôr do sol com Dave Grohl. Mas o oposto acabou acontecendo e lembro de ter ficado muito desiludida com a fama, por causa dessa ideia que criei na minha cabeça de como era ser uma celebridade”, disse. Ela tão pouco está com tanta raiva agora, anos depois, e todos esses sentimentos se tornaram ativismo. Sua vida não é a mais mesma, o mundo mudou e a arte também. A indústria da música tampouco conduz seus negócios da mesma forma e, aos poucos, as coisas se transformam em um sistema que marginalizou vozes diferentes e diversas durante tempo demais. O disco, no entanto, continua sendo uma força da natureza, e isso nunca realmente vai mudar.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Amei a matéria. Esse disco me salvou quando eu tinha 13 anos… o ano era 1998, e até hoje é um dos que me reconectam com quem fui e me reconheço em cada faixa.