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Nanno é Nanno: o que é justiça em Garota de Fora

Karma (ou carma) é uma palavra do sânscrito que tem influências do budismo, hinduísmo e jainismo; significa ação. De modo geral, é a famosa ação e reação, a lei do retorno ou da semeadura. O que é colocado no mundo, volta da mesma maneira, seja este um efeito positivo ou negativo.

Enquanto o karma é uma força do universo ou, pelo ponto de vista religioso, uma intervenção divina, o senso de punição que mais se conhece vem do homem. A discussão de como castigar alguém por um ato supostamente condenável é algo que existe há muito tempo. Michel Foucault, em Vigiar e Punir, busca entender por que a Justiça ocidental entre os séculos XVII e XIX, em especial a da França, decidiu abandonar as torturas e execuções, optando por prisões com o intuito de “consertar” os criminosos. Dentre os 50 estados norte-americanos, 29 têm pena de morte. No Brasil, a pena máxima para um crime é de 30 anos. No sistema Talibã, decepar a mão de ladrões é uma sentença justificável.

Ao redor de tudo isso, no entanto, existe sempre o debate que questiona se as penalidades são, de fato, proporcionais às transgressões. A cadeira elétrica é um castigo duro demais? Ou seria reabilitar um criminoso algo brando demais?

É exatamente esse assunto cheio de espinhos que o lakorn (drama tailandês) Garota de Fora (Girl From Nowhere, em inglês e เด็กใหม่ The Series, em tailandês), da Netflix, trata em seus episódios fortes e violentos.

Girl from Nowhere

Atenção: este texto contém spoilers!

Lançada em agosto de 2018, a série sempre teve produção da Netflix, mas sua primeira temporada estreou no canal tailandês GMM 25. Em 2020, foi anunciado que a segunda temporada seria lançada globalmente direto no serviço de streaming.

A série conta a história de Nanno (Chicha “Kitty” Amatayakul), uma estudante do ensino médio que aparece como a novata da escola para sondar as injustiças que acontecem entre os corredores. Na maioria das vezes, ela se apresenta como uma menina doce e amigável, mas rapidamente é possível perceber suas habilidades de manipulação e, mais do que tudo, sua crueldade. Observando as atitudes moralmente deturpadas de seus colegas, ela se aproxima das situações de maneira sorrateira, sempre plantando sementinhas odiosas que se tornam situações gigantes e ferozes. Ela está sempre dez passos à frente. Vê tudo, ouve tudo, sabe de tudo.

Logo no primeiro episódio, intitulado “Verdade Nua e Crua”, Nanno ingressa em um colégio feminino que tem o título de Escola Mais Pura do Ano, mas não demora a se envolver, propositalmente, com Sr. Win (Thanavate Siriwattanagul), um professor aparentemente exemplar, mas que mantém relações predatórias com suas alunas e que até mesmo engravidou uma delas. “É estranho como algumas pessoas ainda acreditam que nós, humanos, somos animais nobres, que só têm lados bons, e se recusam a ver que temos lados feios dentro de nós”, ela narra nos minutos iniciais.

Para evitar que seja denunciado, ele grava as relações sexuais como forma de chantageá-las. “Não tem medo das consequências das suas ações?”, Nanno pergunta para Win após se mostrar resistente a ficar com ele de novo. A resposta dele é ameaçá-la com a liberação dos vídeos na internet.

Em um plano elaborado, Nanno se aproxima de Vaew (Shinaradee Anupongpichart), filha de Win, e a leva para um apartamento afastado junto com o namorado, sabendo que ali terão mais liberdade para transar. O que eles não imaginavam, no entanto, é que há uma câmera escondida no local, gravando tudo o que acontece ao vivo. Nanno mostra o vídeo para Win e faz com que ele se ajoelhe e implore para que ela fale a localização da filha, além de exigir a senha do computador que guarda as gravações em que ele estuprava as alunas do colégio.

Win chega até Vaew, mas Nanno é mais rápida e envia os vídeos dos abusos para ela. Atordoada, ela sai correndo, com o pai a seu alcance, mas acaba sendo atropelada quando chega à rua, morrendo no mesmo instante em uma poça de sangue. Win acaba sendo preso, mas o seu karma também veio junto com a morte da filha. Dentro do carro de polícia, Nanno o observa com uma cara de quem não teve escolha, se espreguiçando como se estivesse no fim de um longo dia de trabalho.

É a partir daí que é possível notar o nível de frieza de Nanno, bem como o que é a justiça para ela. Ao longo do episódio, ela sorri satisfeita com o desenrolar de suas manipulações, além de dar a gargalhada alta e estridente que vira sua marca registrada no decorrer da série. Quando pune Win, ela não se contenta em apenas mandá-lo para prisão para pagar por seus crimes perante a lei, e vai ainda mais longe em um ponto que sabe que será muito mais doloroso.

É importante perceber que Nanno não matou Vaew e tampouco obriga qualquer pessoa a fazer qualquer coisa. Ela sugere atitudes, brinca com as palavras e faz joguinhos psicológicos, mas nunca força ninguém a seguir os caminhos que escolhem. Nanno até dá pequenas chances para que Win — e suas outras “vítimas” nos episódios seguintes — possa se safar de seus castigos, mas faz isso sabendo do que as pessoas são capazes para sustentar o próprio egoísmo. No final, todos têm as reações que ela esperava, fazendo com que seus planos se concretizem.

Garota de Fora

Garota de Fora segue um padrão procedural, ou seja, tem episódios independentes dos outros — salvo momentos em que a série deixa clara a conexão entre os eventos. Por causa disso, Nanno aparece em diversas escolas diferentes, conhecendo novos personagens e aplicando punições em situações absurdas e brutais, mas que costumam tocar em aspectos reais como desigualdade social, abusos sexuais, o perigo das redes sociais, bullying, etc.

Nanno também não se importa em ser ferida para punir quem acha que merece. Em alguns episódios, ela é humilhada, perseguida, drogada, machucada e até morta, mas tudo faz parte dos planos para alcançar a justiça perfeita em que os castigados sofrem os efeitos de seus atos das maneiras mais impiedosas possíveis, e isso inclui desfechos variados — morte, insanidade, desprezo, vergonha, solidão.

É por causa disso que fica a dúvida sobre quem — ou o quê — é Nanno. Ela não tem sobrenome, pais ou amigos. As roupas que veste sempre são os uniformes dos colégios. Pelo contexto e pela aparência, deve ter no máximo 18 anos, mas seu nível de maturidade é de alguém muito mais velho. Ela volta à vida, aparece em diversas linhas cronológicas, faz ilusões se tornarem realidade e constantemente quebra a quarta parede.

Há uma clara inspiração ao mangá Tomie, do autor Junji Ito. A coletânea de contos de horror narra a história de Tomie, uma garota que, de uma forma ou de outra, acaba enlouquecendo todos aqueles que têm contato com ela. Sádica, tensa e grotesca, a obra já ganhou prêmios importantes na categoria e acumula uma legião de fãs em todo o mundo. As edições brasileiras publicadas pela editora Pipoca e Nanquim têm a seguinte sinopse: “Podem matá-la quantas vezes quiserem, que ela ainda assim ressurgirá neste mundo, mais bela do que nunca. Ninguém sabe ao certo quem ou o que ela é, mas uma coisa é fato: se você se deparar com Tomie Kawakami, seu destino estará selado. E ele não poderia ser mais aterrador.”

Essa descrição se aplica muito a Nanno, que morre e volta à vida diversas vezes, completamente inabalável, ansiosa para não apenas lidar com a punição, mas para ser a própria punição. Sua aparência também se assemelha muito a de Tomie: o cabelo escuro e liso, a franja bem alinhada, o olhar macabro, os momentos de desfiguração do rosto em algumas cenas.

Também conhecida como Kitty Chicha, a própria intérprete de Nanno revelou as inspirações da personagem para a Cosmopolitan das Filipinas. “Eu tive muitas referências de personagens de mangás japoneses. Por exemplo, Tomie do Junji Ito, Death Note, Enma Ai [Hell Girl]. [Também] tive o Coringa [como referência], tive a Arlequina […]”. Apesar das dúvidas que o drama deixa, Kitty vê Nanno como o demônio ou a “filha de Satã”, e dá um exemplo que sintetiza a personagem. “Estamos fazendo alusão à cobra no Éden, que oferece maçãs às pessoas para ver se elas são boas o suficiente para ignorar ou não.”

Embora não seja humana, Nanno dá indícios de humanidade em alguns momentos. No episódio 8 da primeira temporada, é nítido que ela sente alguma coisa por TK (Ekawat Niratvorapanya), um garoto que não consegue parar de roubar, mas é na segunda temporada que essa nova camada se torna mais aflorada, quando é possível assisti-la questionar as próprias regras.

Garota de Fora

Yuri (Chanya McClory) é uma menina pobre que é humilhada pelas colegas ricas do colégio. Nanno tenta ajudá-la e quer punir as outras garotas, mas uma série de reviravoltas em um episódio (o quarto da segunda temporada) sanguinolento e cheio de gatilhos para violência sexual faz com que Yuri se torne uma criatura como Nanno porque, aparentemente, teve contato direto com seu sangue.

É Yuri quem tira Nanno de seu pedestal intocável e imune de falhas, mesmo que ela seja mais esperta e experiente que a novata. O problema, no entanto, é que Yuri é ainda mais violenta, e sua impaciência se difere muito do sistema estabelecido por sua antecessora. Enquanto Nanno usa torturas psicológicas e toma o tempo necessário para construir a situação que culminará no clímax de sua punição, Yuri quer fazer as coisas rápidas, partindo logo para o assassinato de suas vítimas. Esse é o motivo do embate entre as duas, que se encontram várias vezes em várias linhas cronológicas. Yuri quer provar que é a melhor, principalmente depois que percebe que as crenças de Nanno estão abaladas.

Ao longo da temporada, Nanno começa a questionar as próprias atitudes, mas suas dúvidas atingem o ápice quando JennyX (Phantira Pipityakorn), sua vítima do episódio 7, pergunta: “Eu estava tão errada assim? Eu realmente mereço isso de você?”

Tão afetada pela humanidade ao seu redor, Nanno começa a dar sinais de mortalidade. Seus machucados não se fecham mais, e ela se torna cada dia mais inquieta pela realidade dos próprios atos, como se estivesse sendo confrontada, pela primeira vez, pelo fantasma assustador de um karma que não se importa com quem ela é.

A dúvida que fica no último episódio é se Nanno se tornou uma pessoa de verdade, mas talvez a graça de Garota de Fora seja não ter uma explicação concreta sobre o que ela é e enxergá-la como um reflexo cru do egoísmo humano que, muitas vezes, não conhece limites éticos, morais ou legais.

No episódio 2 da primeira temporada, ela se define de maneira simples e absoluta: Nanno é Nanno — e isso é o bastante.

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