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Junji Ito e dicas de mangás de terror

Para os que estão acostumados a ler mangás, o nome Junji Ito pode não soar estranho. O mangaka (autor de mangás) é famoso por suas histórias de terror surpreendentes, capazes de transformar coisas simples em horripilantes e de nos deixar perturbados até mesmo após o fim de sua leitura. Junji Ito nasceu em 1963, e tem como principais influências H.P. Lovecraft, famoso escritor americano de ficção de horror; e Kazuo Umezu, músico, ator e autor de mangás de horror. Seus trabalhos mais famosos são os mangás Tomie, Uzumaki e Gyo, sendo Tomie o primeiro trabalha a chamar a atenção do mercado de mangás.

A influência de H.P. Lovecraft no trabalho do autor é muito clara, pois assim como Lovecraft, Ito também gosta de brincar com coisas não palpáveis, ou algo que nunca imaginaríamos ser assustador. Suas histórias bizarras em conjunto com seus desenhos sinistros, conseguem trazer ao leitor um terror psicológico intenso e também muito humano. Seus personagens aparentemente normais vão ao longo do desenvolvimento das narrativas tornando-se obsessivos, compulsivos, paranoicos e loucos. Às vezes devido ao ambiente a sua volta, outras devido a si mesmos.

Em uma de suas obras mais conhecidas e primorosas, Uzumaki, o que nos causa terror e paranoia são as “espirais”. Isso mesmo, as formas espiraladas. No mangá, somos apresentados a uma cidade chamada Kurōzu-cho, que começa a sofrer com o surgimento de padrões espiralados por todos os lados. No chão, e postes, e desenhos, etc. Pode parecer algo inofensivo e até meio bobo, mas aos poucos a loucura toma conta dos cidadãos que começam a inconscientemente fazer objetos ou atividades do dia a dia seguindo esse mesmo padrão. A paranoia e a tensão vão aumentando aos poucos até que essa obsessão cresce de uma forma absurda, levando com que as pessoas busquem uma transformação de si mesmas em espirais, causando a própria morte. Essa maldição que atormenta a cidade não tem explicações, e durante toda a história fica claro que ela é imparável, e mais poderosa do que qualquer um ou qualquer coisa.

Junji Ito

A forma como Ito consegue nos fazer ficar tensos com uma simples forma geométrica é totalmente lovecraftiana. Fazer terror com o inesperado, o comum, o não-palpável e o não-imaginável, aproxima os dois autores e os transforma em grandes gênios do terror. Ito trás um refresco ao gênero para nós ocidentais, nos mostrando o que há de melhor no terror/ horror japonês, e conseguindo ser acessível, até mesmo para quem não esteja acostumado com a narrativa asiática.

Já em sua obra Gyo, diferente de Uzumaki que é mais voltada para o fantástico, temos uma mistura de terror e ficção científica. Nela, acompanhamos uma espécie de apocalipse marinho, pois de repente, criaturas marinhas mortas, como peixes, tubarões e baleias, começam a sair das águas do mar e invadir a terra, atacando quem estiver em seu caminho. Se isso já não é estranho o suficiente, os protagonistas vão aos poucos descobrindo outras características desse seres, como seu cheiro horrível e pernas mecânicas, com alguns possuindo até mesmo uma espécie de tubulação. Ao longo da história vamos ficando mais e mais intrigados sobre o que seriam essas coisas. Animais? Máquinas? Um vírus? Será que humanos também podem ser afetados? A perseguição incansável desses monstros é horripilante, mas tudo sempre pode piorar, como descobrimos mais para frente na história.

Enquanto as histórias acima são mais fantasiosas, mexendo com o sobrenatural ou com uma espécie de ciência sobrenatural, também encontramos histórias mais pé no chão, que muitas vezes são muito mais voltadas para o suspense do que para o terror. Mas não se engane, essas costumam ser as histórias mais perturbadoras de Ito, e lhe deixarão dias sem dormir. Esse é o caso de The Human Chair, uma história curta, em que somos apresentados a uma escritora, que recebe uma carta de um fã, contendo um conto escrito por ele. Nesse conto de terror, uma mulher ganha uma poltrona de presente de um admirador. Com o tempo, ela começa a sentir-se observada, assim como a ver coisas estranhas nessa poltrona. É então que ela descobre que dentro da poltrona havia um espaço no formato de um corpo humano sentado, e que esse homem obsessivo, estava vivendo dentro do móvel. Após ler o conto, a escritora fica paranoica em relação a poltrona que tem em sua própria casa. Será que ela está sendo apenas influenciada pela história do fã? Ou realmente há alguém dentro de sua poltrona?

Junji Ito também gosta de assustar seus leitores com a “falta de informações/ explicações”. Afinal, muito mais assustador do que um ser, criatura, fantasma ou monstro, é não saber como ele surgiu e como derrotá-lo. E nos mangás do autor, explicações são raras, deixando-nos tensos por muito tempo depois de ler suas histórias. Um exemplo é The Enigma of Amigara Fault, em que a narrativa terminará mais misteriosa do que começou, sem responder as perguntas que surgem durante a leitura. Isso não torna a história menos interessante, ou confusa, pois a entendemos perfeitamente do começo ao fim. Talvez, seu terror esteja justamente no fato de ser uma história simples, que não lhe dirá muita coisa. No mangá, após um terremoto, aparecem estranhos buracos em formato humano na montanha de Amigara. Curiosos e cientistas se reúnem para investigar, mas não conseguem descobrir nada sobre as estranhas perfurações, principalmente suas profundidas ou quem as fez. De repente, diversas pessoas começam a encontrar buracos que são iguais a si mesmas, cabendo perfeitamente neles. Elas começam a entrar nas aberturas, uma após a outra, como se fossem traídas por elas, desaparecendo por completo. Muito tempo depois, do outro lado da montanha, são descobertos novos buracos, mas dessa vez, sem serem no formato humano, mas longos e deformados. É, então, que descobrimos o que sairá desses buracos.

Junji Ito

Junji Ito possui muitas histórias incríveis e diferentes. Seu jeito de fazer terror é inovador, e isso é perceptível em suas obras. Ele possui muitos outros mangás e histórias curtas, que valem a pena ser lidos, mas, se quiser saber por onde começar, os títulos citados acima são perfeitos e com certeza entrarão em sua mente para nunca mais serem esquecidos.

E, para aqueles que se apaixonarem pelo mangaka, assim como eu, tenho duas dicas imperdíveis para vocês. A primeira é o livro Fragmentos do Horror, publicado a pouco tempo pela editora DarkSide Books, sendo um conjunto de histórias curtas de terror de Junji Ito. E a segunda é que Uzumaki está para ganhar uma versão animada. De acordo com as informações lançadas até agora, será uma minissérie produzida pela Production I.G. em parceria com o canal Adult Swim. Ela estreará em 2020, então corre que ainda dá tempo de ler o mangá antes.


** A arte em destaque e o banner são de autoria da colaboradora Duds Saldanha.

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3 comentários

  1. Olá!! 🙂 Falou de Junji Ito, eu tive que vir comentar, hahaha!

    Descobri esse mangaká, se não me engano, com A Fenda de Amigara, e viciei! Li Uzumaki e fiquei, “mas não é possível!”; daí li Gyo, e nem tive mais palavras. Desde então, tenho sempre lido alguma coisa dele. O Fragmentos do Horror, eu comprei, li e viciei um colega de faculdade emprestando a edição. XD

    Outra história que eu também achei ótima é Black Paradox. EU gosto dessas histórias que tem mais “episódios”. Tomie eu comecei a ler, mas nunca terminei, acredita? Outra história sensacional é Hellstar Remina. Recomendo, viu.

    E tou super animada com essa adaptação de Uzumaki. Vamos ver!

    1. Oi, Daniela! Então, essa eu acho que não li porque uma vez li um texto sobre o Junji Ito que tinha spoilers de algumas histórias, incluindo essa. XD Mas eu também posso ter passado batido por ela nas coletâneas que já li, hahaha.

      Você não tá achando em português? Não sei se pode postar link aqui, mas é fácil achar nas buscas, pelo menos em inglês.