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Crítica: Benzinho

Se você já assistiu a Que Horas Ela Volta?, o rosto de Karine Teles pode evocar memórias não tão boas. No filme de Anna Muylaert, Karine interpreta uma personagem indiscutivelmente mesquinha e antipática. No entanto, em Benzinho, ela assume muito bem um papel completamente diferente (bem mais parecido com o de Regina Casé), nos conquistando tanto como atriz quanto como personagem. Nesse filme, o contexto familiar leva a novas discussões, mantendo a mesma naturalidade e com ainda mais charme. Não é nenhuma surpresa que o cinema feito por mulheres continue a nos surpreender.

Benzinho é estrelado por Karine e foi escrito por ela mesma em parceria com o ex-marido e diretor, Gustavo Pizzi. No elenco, além do par de gêmeos do casal, estão atores já conhecidos das novelas, como Otávio Muller e Adriana Esteves. A dinâmica mãe-filho no set e o reconhecimento dos atores pelo público ajudam a pintar o retrato de uma família real e brasileira — isso junto com os diálogos, que são fluidos e cômicos. Porém, o que talvez torne a identificação com Benzinho mais fácil seja a enorme bagunça.

Para começar, o filme nos leva a uma casa cheia de problemas, onde se convive diariamente com portas emperradas e canos estourados. É aí que vive Irene, seu marido, Klaus (Muller), e todos os quatro meninos que tiveram juntos. Irene sonha em se mudar para uma nova casa, com um quarto para cada filho; já Klaus, mais ambicioso, sonha em montar um grande negócio e mudar de vida. O que nenhum dos dois espera é que o filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris), tenha sua própria oportunidade de ir embora e recomeçar quando é convocado por um time de handebol alemão. Ele deve partir sozinho para esse país totalmente desconhecido deixando tudo para trás. E isso tudo em vinte dias, antes do começo da temporada.

Nesse prazo curtíssimo, além de enfrentar a burocracia, Fernando e os pais precisam se preparar para a despedida. Irene é quem trata o assunto com mais sensibilidade, temendo que a mudança seja definitiva. No entanto, como é de se esperar, entre ela e o filho adolescente, sempre há falhas de comunicação que o leva a crer que ela não quer ou não acredita que as coisas darão certo. Os momentos que eles dividem em silêncio são os mais significativos e transmitem para além da tela uma enorme intimidade.

Apesar da mudança de Fernando ser o fio condutor da história, acompanhamos também a rotina frenética de Irene, que, além de mãe, estuda para concluir o Ensino Médio e trabalha na rua vendendo lençóis. São poucos os momentos de lazer com a família e eles tendem a ser interrompidos. Em uma das primeiras cenas, Irene está assistindo a uma partida do time do filho quando sua irmã, Sônia (Esteves), surge na quadra com parte do rosto roxa e inchada. Sem que nada seja dito, sabe-se que estamos diante de mais um caso de violência doméstica. Cabe à Irene dar proteção e asilo à irmã e ao sobrinho.

Ao longo de Benzinho, o ex-companheiro de Sônia, um dependente químico, faz apelos para que ela e o filho voltem a morar com ele e assume outros comportamentos agressivos. No auge da situação, ele tenta forçar a entrada na casa e, sendo a estrutura já frágil, parte da parede da frente desmorona. Há, nas entrelinhas, a relação metafórica da violência com a destruição de um lar, porém, pouco é realmente dito e o tema acaba sendo abordado muito superficialmente. O que as personagens trazem à tona é a sua normatização, pois, embora todas saibam identificar o problema, nenhuma delas fala em punição ou justiça.

Outros temas importantes são tangenciados: quando Irene fica sabendo que vai, finalmente, se formar, ela passa a entregar, alegremente, os convites da cerimônia, entre eles, o de uma senhora muito elegante, em uma bela casa onde morou e trabalhou na infância. Seu filho mais velho e seu marido se demonstram, ambos, contrários, mas é evidente o carinho com que Irene trata a mulher, bem como a indiferença que recebe em troca. A relutância em aceitar o passado que viveu, submetida a trabalho infantil e escravo, lhe dá uma nova camada como personagem. Pela primeira e única vez, temos o vislumbre de uma Irene diferente, que não foi sempre mãe, irmã ou esposa, mas o momento passa e ela rapidamente fica para trás.

Assim, ficam faltando no filme duas importantes discussões: a última, cada vez mais em alta, dadas as circunstâncias políticas, é a ineficiência das leis trabalhistas no nosso país. Irene não é um caso isolado e esse não é um problema recente. O trabalho infantil e o trabalho escravo fazem parte da história do Brasil. De fato, tanto Irene quanto Sônia assumem papéis representativos da realidade brasileira. Embora não sejam bem debatidas, temáticas muito pertinentes são abordadas através delas.

Podemos levantar ainda uma terceira discussão, menos estatística e mais reflexiva: Irene representa um sem número de mulheres que, em meio às funções de mãe, irmã, esposa etc., abrem mão de si mesmas. São raros os momentos em que ela expressa suas emoções e defende seus interesses. Em um deles, quando o marido, Klaus, faz planos de ganhar dinheiro e viver uma vida luxuosa da qual a diz merecedora, ela expõe um pouco dessa angústia ao responder: “O que eu mereço é ganhar dinheiro com o meu próprio trabalho”.

A verdade é que, ao final de Benzinho, nós não conhecemos Irene como pessoa — sabemos, no máximo, como ela cumpre determinados papéis. Todavia, ao equilibrar todos eles e exercer cada um com competência, ela passa a se encaixar na descrição de uma supermulher — e apesar de ainda estar no senso coletivo, a supermulher é apenas um mito. Em uma das cenas de Benzinho, Irene se deita no chão, em posição fetal, dizendo várias vezes não dar conta de tudo sozinha — frase que Rosa, de Como Nossos Pais (filme também liderado por mulheres e que também questiona esse mito), chega a dizer. No programa do GNT, Saia Justa, Karine Teles contou que, durante a gravação, um homem que estava na equipe questionou o gesto: “Vocês não estão achando que está um pouquinho exagerado não?”. Todas as mulheres disseram, prontamente: não. A realidade é esta: frustração e cansaço. A carga que nos dão é pesada e nós não damos conta de tudo sozinhas.

Então não, a supermulher não existe, nem no cinema nem, muito menos, na vida real, mas não vamos parar por aí. É preciso entender esse ideal de mulher, que é excelente no que faz, mas faz tudo pelos outros. Enquanto ele se mantiver no nosso imaginário, até mesmo nossas noções de sucesso serão noções de submissão. É nesse contexto que se abre espaço para o discurso do empoderamento, que, embora tenha se tornado lugar-comum, ainda é um dos pilares do feminismo moderno. É preciso falar sobre autoconhecimento e amor próprio para que mulheres de todas as gerações possam ouvir. Afinal, todas — mães, irmãs, esposas e afins — temos o direito legítimo de viver por nós mesmas.

Assim, Benzinho escolhe abordar diversas pautas, assumindo formas mais sutis de engajamento e provocando grandes debates. Tudo é visto de perto e, por isso, às vezes, há de se dar um passo atrás para enxergar além. Porém, é a proximidade que lhe dá um carisma único e gera, desde o primeiro minuto, identificação e carinho.

Ao final do filme, Fernando vai embora, o plano infalível de Klaus falha, Sônia fica sem perspectiva de volta para sua própria casa e Irene, mesmo com o diploma do Ensino Médio, não consegue um emprego fixo. A casa bagunçada em que todos viviam — ou o que resta dela — é deixada para trás. Mas, ao que tudo aponta, dado o curto intervalo de tempo e a falta de dinheiro em mãos, a casa dos sonhos de Irene tampouco está pronta para mudança. Não há destino no roteiro.  Ainda assim, todos assistem ao segundo filho mais velho no desfile da banda marcial, nos lembrando de que, um a um, os filhos crescem e tomam seus rumos, mas a vida continua e o que ela promete a todos nós são apenas surpresas.

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1 comentário

  1. O cinema brasileiro é muito pouco valorizado, parabéns pela crítica, não conhecia esse filme e me deu muita vontade de assistir, gostei do contexto em que mostra a realidade mesmo na ficção e espero por mais críticas do tipo!