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Romance is a Bonus Book: retomando o protagonismo da própria vida

É uma verdade universalmente conhecida que uma mulher divorciada, sem apoio financeiro, com uma filha para criar e muitas contas a pagar, deve estar procurando um emprego. O mercado de trabalho, que já não é nada gentil com as mulheres, é ainda menos com aquelas que são mais velhas e já não trabalham formalmente há alguns anos.

Kang Dan-I (Lee Na Young), a protagonista do drama sul-coreano Romance is a Bonus Book, reúne todos esses infortúnios. Mas não é assim que lhe somos apresentados. Conhecemos Dan-I como uma jovem noiva, indecisa sobre seu casamento, alguns anos atrás. No dia da cerimônia, ela se esconde no carro do melhor amigo Cha Eun-Ho (Lee Jong-Suk) e foge, mas decide voltar. A passagem de lua de mel foi comprada, empréstimos foram feitos para comprar os móveis da casa, o pai acabou de falecer… como ela poderia fazer isso com a mãe?

Essa decisão muda a vida toda de Dan-I. Antes uma célebre publicitária, reconhecida e premiada pelo seu talento como copywriter, ela abandona a carreira após o casamento e o nascimento da filha para se dedicar totalmente à vida de dona de casa. No entanto, com o divórcio, ela precisa voltar a trabalhar — mas como conquistar a vaga em um mercado extremamente competitivo e machista, no qual ela se vê em desvantagem?

Romance is a Bonus Book acompanha a trajetória de Dan-I enquanto ela se restabelece como protagonista da própria vida. Com uma nova profissão, novas amizades e um novo amor, Dan-I recobra sua individualidade e aprende a reconhecer seu próprio valor, em um mundo que constantemente o questiona.

Atenção: este texto contém spoilers!

Casamento, trabalho e maternidade: uma conta que não fecha

Romance is a Bonus Book

Um casamento simboliza diversas mudanças na vida de um casal, mas, especialmente, na de uma mulher. Ainda que hoje tenhamos conquistado mais direitos e liberdade, a pressão de cuidar do lar e dos filhos (que em um matrimônio, seguem vistos como parte do pacote), e manter uma vida a dois feliz e plena caem com um peso muito maior nas costas das mulheres.

Na sociedade sul-coreana, não é diferente. Em uma reportagem do The Korea Herald, é citado em um estudo de 2012 do Statistic Korea, que casamento, gravidez e o cuidado dos filhos eram as principais razões para as mulheres pedirem demissão — isto em um cenário extremamente desigual, no qual empresas já foram relatadas de adotarem medidas discriminatórias contra mulheres na hora de fazer a seleção de candidatos, como mostra a CNN. Vale notar que em 2018, de acordo com um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Coreia do Sul ocupava a 30º posição, de 36 países, quanto o acesso das mulheres ao mercado de trabalho. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, em 2020, a Coreia do Sul ocupava o 108ª lugar em igualdade de gênero no mundo.

Se para uma mulher solteira já é difícil conseguir um emprego, para uma que fez uma pausa na carreira e é mãe se torna ainda mais difícil. Mesmo com a formação em uma universidade de prestígio e uma carreira com prêmios e trabalhos de sucesso, Dan-I não é bem-sucedida em nenhuma das entrevistas de emprego que realiza. Sim, ela possui conquistas notáveis em sua carreira — e os recrutadores reconhecem. Mas o que isso vale depois de tantos anos, eles rebatem, em uma área tão dinâmica como a comunicação?

Dan-I chega a conclusão de que mesmo se houvessem vagas disponíveis, elas nunca iriam para mulheres que pausaram a carreira. Em uma das entrevistas de que participa, ela é questionada sobre o motivo da pausa — nas palavras deles, “o tempo em que ela ficou parada”. Dan-I explica que fez isso por conta do casamento e da filha, mas que ela não esteve parada — porque estava cuidando da família e da casa. Em outro momento, ela se pergunta: por que isso também não é levado em consideração como um trabalho?

Depois de uma de suas entrevistas, Dan-I encontra uma das recrutadoras no banheiro, que questiona a resposta dela, de que seus onze anos como dona de casa iriam contribuir para a empresa. Este encontro é um dos momentos, em todo o drama, no qual fica mais claro como o mercado de trabalho é duro com as mulheres. A entrevistadora é ríspida, quando Dan-I tenta elaborar mais sua resposta: “Fico ofendida. Sabe o que fiz para manter o emprego? Como ousa vir procurar um cargo que eu levei anos para conseguir?”

É uma cena curta, mas que revela como as duas mulheres — uma fora e a outra dentro do mercado de trabalho — abriram mão de algo para estarem onde estão. O quanto essas escolhas poderiam ser diferentes em um contexto no qual mulheres não fossem desprivilegiadas?

Romance is a Bonus Book

Estar no mercado de trabalho, sendo mãe, parece envolver sempre um sacrifício. E no caso de Dan-I, isto significa até mesmo aceitar um trabalho que não condiz com sua formação, para que consiga pagar a escola da sua filha. Ela se inscreve em um programa de uma editora, a mesma que seu amigo Cha Eun-Ho trabalha, para vagas temporárias. O diferencial é que eles não exigem ensino superior — e por isso, Dan-I omite o diploma de seu currículo.

Acaba que a ideia dá certo e ela é contratada. Na editora Gyeoroo, Dan-I, que sempre amou livros — os quais, inclusive, foram essenciais na construção da amizade dela com Eun-Ho, durante a infância — é proativa e se destaca entre os demais. O ambiente acolhedor do local, as novas amizades que faz (especialmente com as colegas mulheres) e o próprio trabalho com os livros acabam por, lentamente, ajudar Dan-I a reconectar-se a si mesma. Ela não é mais a mesma que era aos 20 anos — e não há mal nenhum nisso. Atualmente, mais velha, ela é mais madura, firme e planta cebolinhas, com o jeito alegre e gentil de sempre. Ser adulta, mãe e divorciada em nada muda isso.

Amizades femininas: do trabalho para a vida pessoal

Romance is a Bonus Book

Quando se trata de personagens secundários, existem duas possibilidades: ou o autor escolhe trabalhá-los de forma superficial, sem adentrar muito na história deles; ou eles são aprofundados conforme a trama se desenrola. Jung Hyun-Jung, roteirista de Romance is a Bonus Book, opta pela segunda opção — e faz isso muito bem. Em especial, com suas personagens femininas.

No drama, além de Dan-I, conhecemos outras mulheres que trabalham na editora. Dentre elas, se destacam três: Song Hae-Rin (Jung Yoo-Jin), editora de livros; Ko Yoo-Sun (Kim Yoo-Mi), uma das diretoras da Gyeoroo; e Seo Young-Ah (Kim Sun-Young), diretora de marketing. Com todas elas, Dan-I desenvolve uma relação mais próxima pelo ambiente de trabalho — exceto, talvez, por Ko Yoo-Sun, que no ambiente da Gyeoroo, mantém uma postura mais distante e formal. O mais interessante é acompanhar como essa relação difere com cada uma, seja pelos elementos que as aproximam e as diferenciam como, também, pela genuína admiração que uma sente pelo trabalho da outra.

Os primeiros contatos de Dan-I na Gyeoroo são com Hae-Rin e Ji-Yoon. A primeira, responsável pelo treinamento dos novos funcionários, é conhecida pela competência e pelo perfeccionismo com que exerce seu trabalho. Com os trainees, ela ganhou o apelido de Bruxa nº 2, por ser estrita. Apaixonada por livros, Hae-rin se dedica totalmente ao trabalho, sendo sempre vista fazendo horas extras na editora. Seu cuidado com o material não se limita apenas ao texto, mas também a todo o processo de produção do livro — por isso, sua exigência e seriedade com os treinamentos.

A fama de bruxa, na verdade, passa longe da personalidade de Hae-Rin, que é doce e gentil. Sua posição com os trainees é a forma como ela encontra de passar seriedade e firmeza tendo alcançado, em um período consideravelmente curto, uma posição com uma hierarquia maior na Gyeoroo: ela é editora líder de desenvolvimento de conteúdo. Enquanto o CEO e os diretores conseguem ter posições de liderança com um jeito mais descontraído e afável, tanto Hae-rin como Yoo-sun (a Bruxa nº 1) adotam personalidades mais duras — o que reflete como as mulheres acabam precisando “endurecer” e serem mais assertivas para terem respeito e se fazerem ouvidas no mercado de trabalho.

Companheiras de horas extras e dividindo o amor pelos livros, Hae-Rin e Dan-I se aproximam. Tudo dá indícios de ir bem entre elas, mas nós, espectadores, sabemos que existe uma tensão que em algum momento pode explodir. O motivo é que Hae-rin é apaixonada por Eun-Ho, que gosta de Dan-I. Ninguém na editora sabe que Eun-Ho e Dan-I são amigos de longa data e que, no momento, vivem sob o mesmo teto porque ela não tem para onde ir. A omissão deste fato é sempre uma questão que paira na relação de Dan-I e Hae-rin: será que elas vão continuar amigas quando a última descobrir toda essa história?

Levam uns bons episódios, mas isto uma hora acontece. Se Romance is a Bonus Book seguisse com as fórmulas de k-dramas mais antigos, as duas se tornariam rivais na certa. Não é esta a escolha de Hyun-Jung toma no roteiro, no entanto. Hae-rin fica magoada, vive a dor de não ser correspondida — algo que, no fundo, ela sabia que não era —, mas supera, sem interferir na vida do casal ou prejudicar Dan-I.

O mesmo acontece com Yoo-sun. Por vezes, ela é ríspida e dura com Dan-I, o que poderia facilmente transformá-la em uma vilã da trama. Isto, porém, não acontece, justamente pela escolha do drama em revelar além da Bruxa nº 1. Mesmo vista como uma mulher bem-sucedida, com uma carreira de sucesso, ainda assim se estranha — e se questiona — o fato dela ser uma mulher mais velha, solteira e sem filhos. A escolha dela não viver isso, revelada em uma noite com Dan-I e Young-Ah, não esconde que mesmo com uma vida aparentemente perfeita, ela se sente sozinha. Admitir isso traz mais humanidade para a personagem — e me remete a cena de Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig, quando Jo fala para a mãe que apesar de estar cansada de dizerem que a vida de uma mulher só gira em torno do amor, ela, ainda assim, se sente sozinha.

Esta cena de Romance is a Bonus Book é, inclusive, um dos momentos mais ternos e sensíveis de todo o drama. As três, bêbadas, depois de terem uma noitada em uma boate — a primeira de Dan-I e Young-Ah em anos — estão reunidas no belo apartamento de Yoo-Sun, sentadas no chão. Lá, não existe a hierarquia do trabalho. São só três mulheres, cada uma com seus problemas, admitindo que sim, elas se sentem sozinhas. Elas bebem, conversam, riem, choram e se permitem ser vulneráveis em uma realidade que exige que elas sempre sejam fortes.

Admitir a solidão é ainda mais forte para Young-Ah, que acaba de se divorciar. A amiga mais próxima de Dan-I na Gyeoroo, as duas possuem as vivências mais parecidas: trabalham na área de marketing, possuem a mesma idade, são mães e, agora, as duas também são divorciadas.

Justamente por conta dessas semelhanças e da amizade que possuem, Dan-I é a única pessoa da editora para quem Young-Ah conta o real motivo pelo qual ela tem que se ausentar de um evento da empresa: o filho teve uma febre alta e acabou tendo que ir ao hospital. Nessas ocasiões, Young-Ah confessa, ela sempre mente — e o da ocasião, foi que ela teve um acidente. É uma cena forte, em que sentimos o peso que a maternidade tem na vida de uma mulher que trabalha fora. A diretora de marketing conta que nessas situações, por ser mãe, sempre ligam para ela. Mesmo quando era casada, a responsabilidade desses momentos recaía sobre ela. Lidar com isso sozinha a esgota e ressalta, mais uma vez, como filhos têm pesos diferentes na vida de uma mãe e na de um pai.

Noona romance

Romance is a Bonus Book

Por definição, Romance is a Bonus Book é uma comédia romântica e em nenhum momento se esquiva disso. Seu grande trunfo é como esses romances são desenvolvidos ao longo da trama. Dan-I, inicialmente, tem dois possíveis interesses amorosos: seu amigo Eun-Ho e  Ji Seo-Joon (Wi Ha-Joon), o designer de livros que passa a trabalhar como freelancer na Gyeoroo, que ela conhece depois de um dia com entrevistas de emprego mal-sucedidas. Ambos são mais novos que ela: enquanto ela tem 37, Eun-ho tem 32 e Seo-Joon tem 29 anos.

Dramas em que a mulher é a mais velha no casal são bem comuns na Coreia do Sul — são os chamados noona romance (noona é um termo utilizado por um homem mais novo para chamar uma mulher mais velha). Lee Jong-Suk, ator que interpreta Cha Eun-Ho, é inclusive conhecido por ter feito dramas populares com essa dinâmica de relacionamento, como I Can Hear Your Voice e W: Two Worlds.

Logo no início do drama, sabemos que Eun-Ho sempre nutriu sentimentos amorosos por Dan-I, algo que ela não percebia por vê-lo quase como um irmão mais novo. Isto não acontece com Seo-Joon, mesmo ele sendo ainda mais novo que ela, justamente por eles não terem uma amizade tão próxima e longa como ela tem com Eun-Ho. Ainda assim, existe a tensão de como ele vai reagir quando descobrir a real diferença de idade entre eles (Seo-Joon achava que ela era mais nova do que aparentava) e que ela tem uma filha.

Em dramas de romance, triângulos amorosos são uma fórmula quase sempre certa, geralmente envolvendo uma mulher e dois homens, que são apaixonados por ela. Ambos são bonitos, charmosos e extremamente desejáveis — o que os diferencia são suas personalidades. Normalmente, enquanto o protagonista tem um jeito mais frio, distante e misterioso, não revelando seus sentimentos logo de cara, o second male lead (ou o segundo protagonista masculino) é mais gentil e doce.

Em Romance is a Bonus Book, isto não acontece: tanto Seo-Joon como Eun-Ho se encaixam na última personalidade. Até mesmo a rivalidade que existe entre os dois, devido ao mútuo interesse por Dan-I, não adquire um nível mais hostil, no qual eventualmente poderia explodir em uma tensão mais clara entre um e outro (com uma discussão, por exemplo). Um sente ciúme e casualmente, implica com o outro, mas ambos reconhecem que os rivais são bons para Dan-I — que no final, é o que importa.

Ao longo do drama e depois que Eun-ho passa a ser mais assertivo (com, possivelmente, uma das declarações mais bonitas de todas), Dan-I começa a enxergá-lo além do seu amigo mais novo e se permite, verdadeiramente, a se apoiar mais nele. Isto difere totalmente do comportamento que ela possui no início do drama, quando ela esconde dele toda a situação que está passando. No final do dia, o melhor, como Eun-ho diz, é ter alguém para se chatear junto.

Considerar dar um passo a mais na relação com Eun-Ho — e principalmente, se permitir a vê-lo como um homem — é algo que Dan-I precisa reconhecer e depois, escolher fazer. Este é um elemento, como bem apontado pelo Drama Beans, bastante central nas tramas dos noona romances. Enquanto em outros dramas de romance o amor é visto como destino ou uma força quase mística, que domina o outro por completo, nos noona romances ele é mais tratado como uma escolha e algo que as faz olhar mais para dentro de si mesmas. Como o Drama Beans bem explica:

“As noonas podem ter um maravilhoso romance em suas vidas, mas está claro que elas precisam aprender a se amar e a se valorizar primeiro antes de poderem aceitar inteiramente o coração do herói.”

Seja um livro

Em Romance is a Bonus Book, fica claro como é a cumplicidade, a amizade e o cuidado que um tem pelo outro que faz a diferença no relacionamento entre Eun-Ho e Dan-I. Isto é real não só para os dois, mas também para os outros casais do drama. Nele, no lugar dos grandes gestos ou das demonstrações físicas de afeto, são as pequenas atitudes e momentos compartilhados que revelam o carinho que um sente pelo outro. Já diria Caetano Veloso: “quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”.

É ver a primeira neve que cai no inverno e mandar a mensagem para alguém; é compartilhar a comida que sua mãe fez com alguém querido; cochilar juntos; perceber que o botão da camisa caiu; ficar acordado até mais tarde para ajudar alguém no trabalho; ter refeições juntos; em casa, restaurantes ou em uma barraca de comida de rua — são esses pequenos momentos, comuns na rotina, mas que fazem a diferença em um relacionamento. Estar presente, prestar atenção, aproveitar a companhia e cuidar um do outro, são todos atos de amor.

Amar alguém, no fim das contas, não é muito diferente de ler um livro. O próprio drama reverencia isso, com uma das frases do final: “somos livros, esperando que alguém nos abra e nos veja por dentro”. Gradualmente, ao nosso próprio tempo, vamos conhecendo alguém; descobrindo seus trejeitos e manias, adoráveis ou insuportáveis; construindo nossas próprias piadas e referências internas; chorando as dores; celebrando as vitórias; aprendendo a ler o que não é dito pelas entrelinhas; e, quem sabe, durante todo esse tempo, lentamente se apaixonando. Já diria o título do drama — o romance é um bônus.

Romance is a Bonus Book, mais do que uma comédia romântica, é uma carta de amor aos livros e às pessoas, além das capas e das aparências. A lição que o drama deixa é simples: se torne alguém que seja como um livro. Talvez um livro não mude o mundo, mas ele é capaz de deixar algo de bom no coração de alguém. No fim, seja qual ele for, é isto que importa.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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4 comentários

  1. Perfeita análise. Com este dorama, aprendi muito, acima de tudo, ser.mais paciente, pois de um jeito u de outro, nao hora certa, tudo na vida da gente se encaixa e cada pessoa vai parar no seu devido lugar.

  2. Sua análise foi simplesmente perfeita e completa! Transpôs em palavras todos os meus sentimentos e pensamentos sobre o dorama! Aprendi muito ao assisti-lo.

  3. Chocada com esta análise. Perfeita que nós faz pensar no relacionamento com as pessoas seja como uma amizade ou relacionamento amoroso. Uma análise que deixa o nosso coração quentinho.
    Muito bem feita. ❤❤❤
    Meus parabéns!!!!