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A chefe na cultura pop e em Zoey’s Extraordinary Playlist

Desde a estreia de O Diabo Veste Prada, uma figura ocupa o posto de mulher e chefe poderosa na cultura pop: Miranda Priestly. Interpretada brilhantemente por Meryl Streep, a personagem exala poder, ao mesmo tempo em que é abusiva com seus funcionários e abala a vida de Andrea (Anne Hathaway).

Miranda é fruto de dois males do machismo: a necessidade de brigar pelo poder com unhas e dentes e, ao fazê-lo, ser julgada por tudo que não é ou que teve que abandonar em busca do sucesso profissional — o que não acontecesse com os homens. Inspiração, megera ou ambos, as opiniões sobre Miranda se dividem. O fato é que sua imagem está grudada no imaginário popular sobre o que significa ser mulher em uma posição de chefia no mercado de trabalho.

Zoey's Extraordinary Playlist

Em O Diabo Veste Prada, Miranda e Andrea representam um arquétipo feminino ao priorizarem seus trabalhos. O arquétipo representa padrões de comportamento, ao mesmo tempo que permite ao público se projetar nas personagens e em suas expectativas. Nesse caso, como em muitos outros, um arquétipo recheado de machismos, especialmente por condenar essas mulher a encarnarem características atribuídas mais frequentemente ao sexo masculino no mercado de trabalho, em uma relação de feminilidade versus masculinidade.

Ao longo da trama, Miranda também encara expectativas impostas em outros campos além do profissional, como a maternidade e a vida amorosa. Essa imagem, no entanto, como demonstrado no próprio filme, desumaniza uma mulher com sentimentos e crises. Atender essas expectativas está no inconsciente coletivo e gera a pergunta: é preciso ser implacável para ser uma mulher competente e respeitada?

Por isso é um alívio ver Lauren Graham como Joan em Zoey’s Extraordinary Playlist. Inicialmente mostrada como uma derivação de Miranda, a personagem se abre rapidamente e cria uma amizade com a protagonista, se mostrando compreensiva ao mesmo tempo que segue uma mulher poderosa e implacável no trabalho.

Zoey's Extraordinary Playlist

A personagem também enfrenta um divórcio e sua trama mostra uma mulher que, enquanto é essencial no trabalho, vivia como uma sombra em sua vida pessoal. É representativo que, ao som de “Roar”, de Katy Perry, Joan retome o controle de sua vida pessoal e profissional de uma vez por todas, mostrando que as duas coisas não são incompatíveis. Ao sofrer pelo fim do casamento, engatar um romance com um funcionário e desenvolver uma amizade com Zoey (Jane Levy), a personagem ganha profundidade e se torna cada vez mais real e humana. Inclusive, a forma como lida com o luto de Zoey é inspiradora, ao reforçar os limites do trabalho. Ela não cobra uma funcionária presente e exemplar quando o pai de Zoey morre. Joan dá uma lição sobre o que realmente importa, para deixar claro que tudo tem seu momento e relevância.

Joan não é a primeira chefe a ser representada como uma figura inspiradora nesses quesitos. Em The Bold Type, Jacqueline Carlyle (Melora Hardin) é a típica chefe dos sonhos, além de extremamente indulgente. Também no auge de sua carreira, ela atua como guia para Jane, uma das protagonistas. Nesse caso, o machismo no ambiente de trabalho é muito mais explorado do que em Zoey’s, o que traz alguns elementos interessantes para reflexão. Jacqueline é uma profissional de sucesso, mas ainda precisa enfrentar acionistas homens que não entendem verdadeiramente o público de uma revista feminina para implementar algumas ideias e, durante sua carreira como jornalista, revela ter sofrido assédio de um profissional mais experiente, o que dificilmente aconteceria às suas contrapartes do sexo oposto.

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Personagens como essas ocupam espaços necessários na cultura pop. Chefes mulheres são poderosas, fortes, competentes. No entanto, elas não necessariamente precisam ocupar o posto inatingível, serem inabaláveis ou, como Miranda, serem abusivas. O lado humano, real e empático dessas mulheres precisa estar também representado nas séries, livros e filmes. Não precisamos ocupar um dos polos criados para nós por tantas personagens e preconceitos: cruel ou fraca. Como estamos cansadas de saber, somos mais profundas do que essas representações e podemos ser aquilo, incluindo aquela chefe, que queremos ser.

Zoey's Extraordinary Playlist
Em Zoey’s, Joan se despede no início da segunda temporada; uma perda para a série em diversos pontos, já que a personagem mostrada potencial de novas tramas, além de Lauren Graham ser sempre um bônus em qualquer produção. Mas é significativo ver a personagem sendo promovida e novamente promovendo Zoey. No ponto que estou na série, já finalizada, o machismo que dava as caras começa agora a ser notado pelos personagens e parece que algumas coisas irão mudar — um ponto interessante que a série estava devendo.

Referência

SHONS, Keila Simone. Mitologia e Cinema: O arquétipo da deusa Atena no filme O Diabo Veste Prada.

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