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Miranda Bailey: o coração de Grey’s Anatomy

Nós percebemos a gravidade de algo com muito mais força quando nossos pais desmoronam. É uma sensação de desemparo enorme, nos sentimos impotentes e nos damos conta de que, por mais incríveis que eles sejam, não são super-heróis invencíveis e nem sempre conseguirão salvar o dia. O mesmo serve para alguns personagens da ficção. Existe sempre aquela pessoa que é a figura materna ou paterna. Alguém para quem os outros personagens se voltam quando o mundo está caindo. O ponto de equilíbrio, a base, o esteio. Em Grey’s Anatomy, essa pessoa sempre foi Miranda Bailey (Chandra Wilson). 

Atenção: este texto contém spoilers!

Não à toa, o momento mais tenso da famosa season finale da sexta temporada, “Death and All His Friends”, nunca deixará de ser aquele em que o atirador arrasta Bailey  —  até então escondida debaixo de uma maca —  e com a arma apontada para a cabeça dela, pergunta: “Você é médica?”. Bailey, sempre firme em seus discursos, conhecida como “nazi” por sua rigidez com os internos, apaixonada pela medicina, nos desmonta completamente ao mostrar toda a sua vulnerabilidade naquele instante. Ela gagueja, treme e mente: “Não, eu sou uma enfermeira”. E é sempre nesse ponto do episódio que eu começo a soluçar de chorar e penso: quando Miranda Bailey se sente desprotegida, a gente sabe que a coisa ficou séria mesmo.

E eu relaciono isso ao fato de ela ser a mãezona daquele hospital. O time de internos das primeiras temporadas não têm uma família presente e acabam formando esse vínculo entre si. Mas todos costumam agir como adolescentes perdidos e precisam de Bailey para mandar um “put your shit together” daquele jeitinho especial que ela tem de esculhambar. Bailey briga, toca o terror (quem não se lembra da regra de acordá-la apenas se o paciente estivesse prestes a morrer?), não passa a mão na cabeça de ninguém, mas sempre acaba ensinando e inspirando aqueles médicos com conselhos preciosos. E eles tentam retribuir à altura, assim como fazemos com nosso pais quando eles caem: expressamos todo nosso amor e gratidão segurando as mãos deles e os ajudando a se levantar. O exemplo mais forte disso sem dúvida é o gesto de George O’Malley (T.R. Knight) ao encorajá-la em um dos momentos mais difíceis de sua vida, a hora do parto:

“Você é a doutora Bailey. Você não se esconde de uma briga. Você não desiste. Você luta com garra.”

Bailey chega a admitir em certo momento da série que George era seu favorito, mas essa é uma verdade que ela nem precisaria verbalizar. Com sua inteligência para ver além, a médica conseguiu sacar o potencial dele antes de todo mundo e teve inúmeras oportunidades de conhecer seu coração. Por isso, quando Callie Torres (Sara Ramírez) confirma a identidade daquele homem completamente desfigurado após ser atropelado por um ônibus, o olhar de Miranda diz tudo: ela não está perdendo apenas um colega de trabalho, mas alguém a quem amava como um filho. Pouco tempo depois da morte de George, em uma cena no elevador com Derek Shepherd (Patrick Dempsey), ela diz que precisa parar de se importar:

“Stevens não é minha filha. O’Malley não era meu filho. Eu preciso parar de me importar tanto. Eu não posso continuar me sentindo desse jeito no trabalho. Eu preciso guardar o “sentir” para o meu filho, que precisa disso”.

Mas essa é apenas sua maneira de lidar com o luto e não quem ela é de verdade. Miranda Bailey se importa. Miranda Bailey abraça a todos que precisam do amor incondicional  —  e das broncas necessárias — de uma mãe. Ela usa o termo “eu criei vocês” ao se referir aos internos com certa ironia, mas essa é a mais pura verdade. Sem ela, aqueles internos não teriam chegado a lugar algum.

Justamente por ser uma personagem tão forte e envolver a todos em sua rede de proteção, o lado indefeso de Bailey nunca parou de me espantar e as lágrimas dela sempre foram as mais dolorosas de assistir. E é nisso que mora a beleza de sua construção: Bailey me fez enxergar com ainda mais clareza o quanto mulheres poderosas podem, e devem, se mostrar vulneráveis. Além disso, mães não têm a resposta para tudo e às vezes elas precisam da ajuda dos próprios filhos para enxergar uma saída. Com sua coragem e vulnerabilidade, a doutora Miranda Bailey não ensinou apenas aos seus internos, ela ensinou muito a mim também.

Taryne Zottino é formada em jornalismo, mas gosta mesmo é da ficção. Maratona séries e filmes antigos para fugir um pouquinho da realidade. Lê, escreve e está sempre pensando em viajar. Você pode encontrá-la no Twitter e no Medium.


** A arte do texto é de autoria da editora Ana Vieira

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