Categorias: TV

Veronica Mars: entre erros e acertos, sobrevivendo ao revival

Veronica Mars talvez seja, de tudo o que já vi na televisão, minha história preferida. Não é minha série favorita, não é a trama de que eu mais gosto e tem uma porção de falhas em sua execução (a terceira temporada, por exemplo, não necessariamente precisaria ter existido). Mas Veronica Mars, apesar de sempre ter atingido uma audiência na melhor das hipóteses modesta, na pior péssima, conseguiu achar forças para ressurgir dos mortos não uma, mas duas vezes. O ponto crucial nessa história são os quase seis milhões de dólares que o fandom levantou em 2013 para financiar um filme que, assim se esperava na época, finalmente traria um fechamento para a trama, cancelada em 2007 em meio a uma série de pontas soltas. Quinze anos depois da estreia de Veronica na televisão — e cinco anos depois do lançamento do filme —, Rob Thomas ganhou do serviço de streaming norte-americano Hulu mais uma oportunidade de reviver a série, e ele parece disposto a continuar escrevendo Veronica enquanto houver quem esteja disposto a bancar.

É impossível dizer, hoje, se Thomas e Veronica ganhariam sua terceira chance sem que antes o fandom relativamente pequeno, mas muito apaixonado, da série provasse não só que estava disposto a continuar acompanhando as investigações de Veronica (Kristen Bell) e de seu pai Keith (Enrico Colantoni), mas que também tiraria dinheiro do próprio bolso para isso. Quando Thomas escreveu e dirigiu o longa lançado em 2014, ele tinha plena consciência de que o filme que estava fazendo era, mais do que dele, dos fãs que bancaram sua existência, e às vezes o roteiro é prejudicado por isso. Apesar da escolha perfeita de situar a trama numa grande Reunião do Terceirão, aquele filme é antes de tudo uma grande sessão de nostalgia, deixando a construção do mistério em segundo plano. O que estava plenamente justificado pelas circunstâncias, e assistir àquele filme em 2014, sete anos depois do cancelamento da série, depois que já havíamos perdido as esperanças, foi extremamente satisfatório. Em 2019, Rob Thomas claramente considera sua dívida com os fãs paga; lá em 2013, afinal, ele não segurou a mão nem mesmo na hora de escrever Veronica reencenando com Logan (Jason Dohring) o monólogo famoso em que ele, bêbado na festa de formatura, sugere que ninguém escreve canções sobre os relacionamentos que são fáceis. A cena não faz sentido algum no contexto do filme, mas é o tipo de fan service que seu criador sabia que precisava fazer, e ele foi lá e fez.

Na quarta temporada da série, no entanto, a mensagem é clara: não é mais para isso que nós estamos aqui.

O longa de 2014 explora uma Veronica que não consegue escapar das próprias raízes; ela usa constantemente o vício e a sobriedade — um problema que ela conhece bem — como metáforas para falar sobre sua relação com a cidade de Neptune, com a atividade de investigação e com o próprio Logan, tudo o que ela havia deixado para trás nove anos antes, numa tentativa de frear seus impulsos mais autodestrutivos. O filme sugere que não existe muita escapatória, e ela é incapaz de manter seu distanciamento de tudo o que formou sua identidade adolescente depois que se permite mergulhar de novo naquele mundo. Mas esse ethos vai além de Veronica. Quando ela reencontra seu antigo aliado Weevil (Francis Capra), ex-líder da gangue de motoqueiros de Neptune, ele é uma pessoa diferente do homem que ela conhecia: marido, pai de família, vivendo na legalidade. Mas, no decorrer do longa, a corrupção policial e as diferenças de classe extremamente marcadas — e desejadas pelo topo da cadeia alimentar —, que sempre estiveram no coração da série, o levam diretamente de volta a quem ele costumava ser. Veronica está fadada a ficar presa no sul Califórnia, seu pai está firmemente fincado no papel do homem solitário, Weevil está destinado a uma vida no crime, todos os personagens que eram desagradáveis no ensino médio estão exatamente iguais. Coube a Logan fugir a essa lógica.

O garoto a quem Veronica se refere no episódio piloto como babaca psicótico, um de seus maiores desafetos e fonte de tormenta constante para ela, ganhou um desenvolvimento não dispensado a mais ninguém dentro da série. Desde o começo, o roteiro da série optou por um retrato muito nuançado do personagem. Logan era um babaca, um garoto privilegiado que acreditava que o mundo pertencia a ele; que, no seu episódio mais baixo, paga homens em situação de rua para brigar, tudo com o objetivo de entreter seus amigos acostumados a nadar em privilégios. Mas ele também era, desde o começo, o garoto que cresceu como vítima da violência praticada pelo próprio pai, e era o garoto devastado pela perda da namorada brutalmente assassinada. O roteiro nunca justificou seu comportamento, mas buscou explicar de onde tanta raiva e descontrole saíam, e a profundidade de seu trauma era aquilo que o ligava a Veronica com mais força — era com ela que ele tinha espaço para se permitir alguma vulnerabilidade. Ao longo das três temporadas da série clássica, Logan recebeu espaço para reconhecer seus (muitos) (e colossais) erros do passado, e um caminho — com algumas recaídas, é verdade — para se tornar uma pessoa melhor. O que culmina no Logan Echolls de nove anos depois: confiável e estável, mesmo com uma segunda namorada assassinada, com o suicídio da mãe, com a descoberta de que seu pai era um assassino.

Atenção: este texto contém spoilers!

Quando tem início o revival, cinco anos mais tarde, Logan está ainda mais avançado em seu desenvolvimento: é graças à terapia, como ele faz questão de frisar, que ele consegue segurar seus impulsos violentos e a raiva que ainda o domina, e entender e lidar melhor com os próprios traumas. A Veronica da quarta temporada não pode dizer o mesmo. Quando Logan pede Veronica em casamento, ela recusa, justificando: “meus pais, seus pais, todos os relacionamentos decadentes que eu documento diariamente no trabalho”. Os muros que ela ergueu quando perdeu Lilly (Amanda Seyfried), quando seu pai perdeu o emprego e o respeito da cidade, quando sua mãe alcoólatra a abandonou, quando ela se tornou uma pária na cidade, ainda são uma parte significativa de quem ela é. Esses muros são explorados não só em seu relacionamento com Logan, mas também em sua incapacidade de confiar naquela que se tornava sua única amiga além de Wallace (Percy Daggs III), a novata Nicole (Kirby Howell-Baptiste). Veronica às vezes parece, na verdade, regredir em relação à personagem que fechara a série clássica: aquela que nunca chegou a de fato desconfiar de seu então namorado Piz (Chris Lowell) quando os dois têm um vídeo íntimo divulgado na internet. Veronica também ganha uma faceta quase cruel em seu egoísmo quando se mostra incomodada com o trabalho emocional que Logan faz na terapia, porque a versão dele que não é violenta ou fora de controle não é excitante o suficiente para ela. A dinâmica entre Veronica e Logan foi construída sobre algumas bases que não eram estáveis, mas que pareciam confortáveis para ela: os dois sentiam raiva, muita raiva, mas era ele quem a extravasava; ela era a pessoa razoável e equilibrada, ela era quem perdoava, ela era quem impunha limites. Veronica tem dificuldades para lidar com a inversão de papéis no relacionamento, e ela não sabe muito bem como se desprender do vício em adrenalina com que preencheu sua vida durante o ano em que escolheu se dedicar obsessivamente à investigação do assassinato de Lilly.

Escrever uma série de televisão, que às vezes acaba acumulando uma centena de horas, significa encontrar o equilíbrio entre impelir os personagens para a frente e, ao mesmo tempo, mantê-los suficientemente estáveis para que a continuidade de suas tramas siga fazendo sentido. É mais fácil quando elas retratam um dia após o outro num desenvolvimento contínuo, e mais difícil quando elas de repente precisam retomar a ação uma década depois. Quando o muito criticado revival de Gilmore Girls foi lançado em 2016, nada foi tão condenado quanto a estagnação pessoal, profissional e emocional de Rory Gilmore (Alexis Bledel), agora na casa dos trinta anos. Aquele revival teve muitos problemas, mas o estado de crise de Rory foi o que Amy Sherman-Palladino melhor soube explicar, embora a execução não tenha ficado à altura de suas explicações:

“O ponto é que pessoas cometem erros; pessoas são seres humanos. A questão de Rory é que ela tinha um plano e o plano não está funcionando e ela está num estado de negação.
O que as pessoas gostariam que a gente fizesse? Que Rory se casasse com Jess e eles fossem belos e felizes? A vida é conflito. O conflito para essa garota significava levá-la ao caminho para o qual ela estava menos preparada.”

Palladino acerta quando lembra que o conflito é um imperativo para uma boa trama. Uma Rory estagnada não era a única maneira de trazer conflito à sua vida, mas era uma maneira de manter Gilmore Girls reconhecível. Em certa medida, Veronica sofre do mesmo problema. Na vida real, é provável que as pessoas que somos hoje não permitiriam que protagonizássemos a mesma trama que teríamos protagonizado há quinze anos. Mas reviver uma série depois de uma década demanda essa possibilidade, ao menos em parte. Como resultado, personagens como Veronica ou Rory acabam parecendo estagnadas.

Quando Rob Thomas planejou Veronica Mars, não era exatamente o plano produzir um drama a ser exibido na CW, o canal jovem e descolado da televisão americana, mas foi o que a vida ofereceu, e ele conduziu o que a vida ofereceu com graciosidade, acertando o tom entre o neo noir mais obscuro de seus planos e o drama adolescente que se tornou um imperativo. Imagino que a Veronica Mars do Hulu é o mais próximo de sua visão inicial que a série já chegou. Ela agora tem mais violência, sexo e Linguagem Inapropriada (aqueles requisitos para ganhar um selo de apropriado para audiências maduras) — mas segue plenamente reconhecível em relação ao que um dia foi. Sejam lá quais fossem os planos de Rob quando fez seus primeiros pitches, Veronica Mars hoje precisa estabelecer uma relação de continuidade com o que costumava ser: uma série adolescente. Mais que isso: uma série adolescente que centralizou significativamente os conflitos românticos de sua protagonista. Thomas não tem a menor ideia de como lidar produtivamente com esse imperativo, o que não é novidade para qualquer pessoa que se lembre do terceiro ano da série e das infindáveis, cansativas e repetitivas idas e vindas de Veronica e Logan, que acabaram funcionando como o conflito central de uma temporada sem um grande arco de mistério para estruturá-la. Quanto mais Logan crescia e deixava seus arroubos violentos para trás, menos Thomas sabia o que fazer com o personagem. Quando a escolha é tornar Logan um adulto equilibrado e maduro, tanto dentro se seu relacionamento com Veronica quanto fora dele, fica evidente que não existe mais nada que Thomas, sendo o showrunner que é, possa fazer com ele.

Nas mãos de outro showrunnerDan Fogelman ou Matthew Weiner, por exemplo — não faltaria material para um personagem com um histórico tão complexo. Mas essa seria outra série, e a opção por remover Logan da trama não é uma decisão incompreensível ou injustificável do ponto de vista do realizador dessa narrativa. O problema dessa escolha não é a escolha em si, mas a execução quase preguiçosa, quando a temporada se esforça tanto para ser tudo menos isso, especialmente ao introduzir uma aura de novidade a tudo que é, ao mesmo tempo, muito Veronica Mars. No espaço limitado de oito episódios, Rob Thomas opta acertadamente por abandonar a estrutura de caso da semana da série clássica. Os episódios acabam com cara de filme-de-oito-horas, mas o mistério da temporada — quem está bombardeando Neptune durante as férias de primavera — tem o tamanho correto e iscas falsas e viradas na medida certa. O passado também fica para trás em outras escolhas criativas: à exceção de Veronica, Keith e Logan, todos os personagens que na série clássica tinham seus nomes nos créditos iniciais agora são personagens terciários; somente Weevil, justamente o mais estagnado dos anteriormente secundários, ganha um pouco mais de espaço.

Thomas opta por introduzir uma longa lista de novos personagens que ganham muito tempo de tela, o que faz sentido, já que todos eles estão diretamente ligados ao caso. Ele é melhor sucedido em alguns casos do que em outros. A dupla de homens horríveis e carismáticos formada por Clyde (J. K. Simmons) e pelo retornante Dick-pai (David Starzyk) funciona incrivelmente bem em Neptune, onde vilões costumam ser bem-apessoados homens brancos cheios de privilégios. Patton Oswalt não chega a cativar porque é um pouco irritante demais, mas acerta o tom cômico, inconveniente e levemente inquietante de Penn, um vilão incômodo porque parece tão idiota e inofensivo, outra especialidade de Veronica Mars. Matty (Izabela Vidovic), adolescente em luto e cheia de respostas na ponta da língua, é um pouco óbvia demais como um espelho para Veronica, mas a dinâmica que se estabelece entre as duas funciona bem o suficiente, especialmente porque força Veronica a assumir o papel de adulta. Por outro lado, Thomas continua se valendo de estereótipos raciais extremamente problemáticos como se ainda estivesse em 2004: a grande comunidade latina de Neptune sempre foi diretamente ligada à criminalidade, e é uma ideia que ele volta a reforçar. E vai além: não parece existir nenhum motivo real para que uma nova dupla de personagens mexicanos violentos e sem consciência alguma seja introduzida na trama, mas eles são; no final das contas, até mesmo o jovem mexicano meio nerd e inofensivo precisa ter conexões com um cartel de drogas. O tratamento que ele dispensa à família de imigrantes do Oriente Médio, incluindo um aspirante ao Senado, é melhor; a família Maloof não chega a ser dramaticamente interessante, mas pelo menos é bem inserida na trama e retratada com um olhar mais humano (confesso que foi um pouco difícil ouvir esse nome o tempo inteiro, especialmente associado à política, sem dar algumas boas risadas; é o que temos para hoje).

É Nicole, a dona de bar sempre atenta aos assediadores e estupradores em potencial, que coloca a segurança de suas clientes mulheres acima do lucro sempre, que representa de longe a melhor adição à temporada. Porque Tina Majorino optou por não voltar para o revival e a amizade que crescia entre Veronica e Parker (Julie Gonzalo) na universidade foi esfriada pela decisão inexplicável de forçar um romance sem absolutamente nenhuma razão de ser entre ela e Logan lá nos idos de 2007, é bom ver Veronica fazendo uma nova amiga, que a lembra do quão recompensador pode ser abaixar a guarda, se Veronica estivesse de fato disposta a fazer isso. É claro que a amizade não dura, mas força Veronica a encarar algumas verdades sobre si mesma que ela preferiria varrer para debaixo do tapete.

A temporada ainda acerta de outras maneiras, como em sua crítica nada sutil à gentrificação da cidade de Neptune (Neptune pode ser fictícia, mas a situação do estado da Califórnia não é); a divisão entre os que têm e os que não têm foi central especialmente nas duas primeiras temporadas da série, e era frustrante, mas gritantemente real, assistir às muitas maneiras como os que tinham podiam existir seguindo suas próprias regras, fazendo o que bem entendessem, enquanto impediam que os que não tinham pudessem prosperar o suficiente para deixar seus espaços cuidadosamente demarcados geográfica e simbolicamente. A crítica pouco sutil também vem com Keith, ainda vivendo as consequências do acidente que sofreu durante o longa de 2014. É apenas o dinheiro (sujo) de homens como Big Dick que permitem que ele tenha acesso aos exames médicos que possibilitam um diagnóstico para o problema de memória que tanto o assusta. Keith, aliás, tem uma bela caracterização na temporada: a vulnerabilidade trazida pelas sequelas deixadas pelo acidente é muito bem trabalhada por Enrico Colantoni, adicionando nuances importantes à relação de pai e filha que sempre foi o grande coração da série. Veronica e Keith passam da preocupação profunda ao humor (muito afiado, diga-se de passagem) e de volta à preocupação com muita naturalidade; Kristen e Enrico revivem seus personagens como se jamais os tivessem deixado para trás.

O revival também opta por trazer uma série de rostos conhecidos para participações maiores ou menores, que vão desde o raio de sol sorridente que é o Agente Leo de Max Greenfield até os criminosos que Veronica trabalhou para desmascarar, como Tim (James Jordan) ou Mercer (Ryan Devlin). Nem todas as aparições são realmente orgânicas, mas também não comprometem em nada o bom andamento da temporada, e algumas dessas cenas, como aquela que reintroduz Dick (Ryan Hansen), um personagem que eu pessoalmente detesto, são especialmente excelentes. Os cameos são uma forma de recompensar os fãs mais atentos (quem lembrava de Mercer?), mas não descambam para um jogo de referências sem fim, e os roteiros também não se detêm muito sobre eles, até porque não existe justificativa para isso: é uma lembrança constante de que o único caminho possível agora é para a frente.

É seguindo essa mesma lógica que o revival opta enfim pela morte de Logan. A execução da cena da morte em si é bem feita e impactante: fora de tela, guiada apenas pelo som da explosão da última bomba, em meio a um movimento tão profundamente banal que o momento se torna ainda mais cruel. Mas a morte parece mais gratuita do que os cameos aleatórios. Se a opção por remover Logan da série não é injustificável, ao mesmo tempo não existe nenhuma demanda real por parte da trama para que ela aconteça, muito menos a dez minutos de seu final. Rob Thomas e o elenco têm enumerado em entrevistas uma série de razões diferentes para justificá-la, mas elas nem sempre soam coerentes: ele queria remover da série o romance adolescente (Logan queria fazer terapia de casal com Veronica); Veronica é mais interessante quando ela é uma figura oprimida (Veronica nunca deixou de ser uma sobrevivente que foi estuprada e ameaçada de estupro de novo, que quase foi morta pelo assassino de sua melhor amiga, que foi testemunha do corpo ensanguentado da melhor amiga morta, que foi abandonada pela mãe, que foi ameaçada de morte pelo seu estuprador — a lista realmente é imensa); a série é um versão moderna de um film noir, gênero permeado de cinismo obscuro (Veronica Mars era muito levemente inspirada no cinema noir).

Apesar de todas as justificativas, o que de fato acontece dentro da série é uma morte que parece existir antes de tudo para chocar, porque nós agora vivemos num mundo pós-Game of Thrones. Ela também existe para jogar uma carga de trauma renovado em cima de Veronica, tirando dela a única pessoa que parecia se esforçar para que ela buscasse lidar com ele. A análise de Kelly Connolly sobre a abordagem incongruente que a temporada dá ao trauma de Veronica é particularmente boa ao explicar por que o final parece tão fora de lugar:

“[O twist] passa a mensagem de que Veronica está certa em ser tão cínica; ela de fato não tem nenhum controle sobre o que a vida tem a oferecer. Se o final tivesse intensificado seu cinismo noir, talvez a série conseguisse vender sua virada cruel, mergulhando Veronica ainda mais fundo na escuridão. Ao invés disso, os minutos finais da quarta temporada tentam transformar a morte de Logan em veículo para uma transformação positiva: Veronica, ao menos uma vez, vai ver a terapeuta dele. O revival termina numa tentativa de manter a influência de Logan viva quando Veronica ouve uma mensagem de voz que ele deixara para sua terapeuta no dia em que eles se casaram. Mas o Logan na mensagem — o Logan cuja voz Veronica carrega consigo enquanto dirige para longe da cidade um ano depois de sua morte — não dá a ela o tough love que deu a temporada inteira […] ‘Quero casar com Veronica porque ela é o ser humano mais forte que eu já conheci. Golpes que destruiriam a maioria das pessoas… ela sempre se levanta de novo.’ Depois de uma temporada tentando mantê-la honesta, o legado de Logan é colocar Veronica em um pedestal. É um modo estranho de abordar o trauma: continuar acumulando-o sobre Veronica para depois celebrar o fato de ela sobreviver.”

Thomas vem continuamente usando a metáfora cortar um braço fora para salvar o resto do corpo ao explicar suas decisões criativas, mas seu grande twist parece, na verdade, o caminho mais seguro. Existiam possibilidades mais interessantes em uma Veronica que admitisse querer da vida algo essencialmente diferente das expectativas da pessoa que ela amava, e que, agindo de acordo com isso, precisasse encarar o caminho ao qual suas próprias escolhas a levassem. Uma Veronica enlutada e joguete das forças do destino é exatamente a Veronica que vimos na primeira temporada da série. Uma Veronica que tem um momento de clareza e decide se casar sem saber explicar a Logan exatamente por quê, que volta ao luto por causa de um mero timing errado, é uma Veronica que não precisa realmente encarar muita coisa a respeito de quem é.

Se o grande twist ao final de Veronica Mars quer dizer alguma coisa sobre a banalidade da vida, não funciona muito bem porque é com Veronica que a pancada acontece, e tudo já aconteceu com Veronica. Se é uma tentativa de explorar a existência como uma experiência essencialmente dolorosa em que não há escapatória possível de nossas sinas (tenho certeza de que não é por acaso que a nova abertura da série mira na estética dos muito cultuados créditos iniciais de True Detective), é justamente Logan quem a enfraquece: sua morte é trágica, mas ele morre exultante, alguém muito melhor do que um dia foi, melhor do que seus pais, melhor do que seus pares. Se é uma reflexão sobre o Horrível Estado de Coisas da existência de Veronica, ela acaba diminuída pelo P. S. Eu te Amo que Logan protagoniza ao telefone. É uma decisão criativa supostamente ousada, mas parece faltar coragem para ir até o fim.

Veronica termina a temporada deixando Neptune, partindo em busca da solução de um caso que a chama para longe. Rob Thomas, se receber sinal verde do Hulu, parece interessado em escrever uma Veronica solitária e obsessivamente enfiada no trabalho, com um foco narrativo cada vez maior nos mistérios. O que pode funcionar. Porque Veronica segue sendo uma protagonista fantástica, falha, com muito a desenvolver. Porque mesmo que nenhum mistério tenha conseguido se equiparar à busca pelo assassino de Lilly Kane, as explosões durante as férias de primavera foram o que chegou mais perto. Se um eventual retorno ainda será Veronica Mars é um pouco mais difícil dizer. A série carrega seu nome, mas nunca se sustentou somente em cima dela. Veronica Mars pode seguir satisfatoriamente sem Logan — talvez até mesmo com mais facilidade —, mas sem Neptune, a cidade sem classe média, e suas estruturas cruéis, sem Wallace, a única relação estável de Veronica além de seu pai, sem Weevil e sua desafiadora ambiguidade, com uma Matty tão genérica no lugar de Veronica no negócio da família Mars? Só Rob Thomas pode responder, e ainda me interessa saber qual será a resposta. Não foi um caminho sem percalços (lives ruined, bloodshed etc), mas Veronica Mars conseguiu sobreviver ao revival, afinal. Como diria um saudoso pensador contemporâneo: no one writes songs about the ones that come easy.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *