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Fogo & Sangue: uma história dos Targaryen

Trezentos anos antes da disputa pelo Trono de Ferro mergulhar Westeros em uma guerra que envolveria todas as suas grandes casas, não havia sequer um Trono de Ferro a partir do qual governar. Westeros ainda não existia da maneira como conhecemos em As Crônicas de Gelo e Fogo, sendo, à época, composta por sete reinos controlados por diferentes famílias. Tudo mudou quando Aegon, ao lado de suas irmãs, Visenya e Rhaenys, conquistou e unificou Westeros enquanto guerreavam montados em seus dragões. A narrativa de Fogo & Sangue, de autoria de George R. R. Martin e publicada no Brasil no final de 2018 pela Suma de Letras, conta a trajetória de Aegon em sua conquista de Westeros e posterior reinado, além de parte das histórias dos reis que o seguiram.

Fogo & Sangue não é um livro típico do universo criado por George R. R. Martin e se assemelha muito mais a O Mundo de Gelo & Fogo, enciclopédia sobre o universo da saga lançado em 2014, do que aos demais livros que compõem a aclamada série literária. Aqui, o autor incorpora a voz do Arquimeistre Gyldayn, responsável por escrever toda a história Targaryen desde a fuga de Valíria até a conquista de Westeros, e os reinados subsequentes, utilizando-se de pesquisas e relatos de outros participantes e testemunhas da dinastia Targaryen como fonte. Fogo & Sangue não deve ser encarado como mais um capítulo de As Crônicas de Gelo e Fogo, mas como uma história extra que serve para aprofundar e expandir um universo já muito amado por seus fãs.

As primeiras resenhas estrangeiras chegaram a questionar a necessidade de um livro como Fogo & Sangue, principalmente quando os leitores de As Crônicas esperam há anos pelo lançamento de Os Ventos de Inverno, sexto livro da série principal. Pessoalmente, embora tenha estranhado o tom do livro no início da leitura, me vi realmente interessada em toda a trama envolvendo os Targaryen, mesmo que não exista aqui um desenvolvimento tão aprofundado a respeito dos personagens quanto nos livros que deram origem à série da HBO. A voz narrativa de Fogo & Sangue relembra a antiga Valíria, a fuga dos Targaryen doze anos antes daquele lugar ser devastado e a ascensão de Aegon, Visenya e Rhaenys nos Sete Reinos de uma maneira quase professoral, pontuando seus relatos com até mesmo alguns questionamentos a respeito da confiabilidade de suas fontes, como quando o Arquimeistre Gyldayn recorria aos escritos do anão e bobo da corte chamado Cogumelo e de outros meistres para embasar ou refutar rumores da época.

“Visenya, a mais velha dos três irmãos, era tão guerreira quanto o próprio Aegon e se sentia tão à vontade com uma cota de malha quanto com um vestido de seda. Ela portava a espada longa valiriana Irmã Sombria e a usava com habilidade, tendo treinado junto do irmão desde a infância.”

Dito isso, é realmente interessante a maneira como Martin descreve a história dos Targaryen, remontando a antiga Valíria e a visão que Daenys, filha de lorde Aenar Targaryen, teve e instou seu pai a vender todas as suas propriedades na Cidade Franca e nas Terras de Longo Verão para se mudar, a seguir, com esposas, fortuna, escravos, dragões e demais parentes para Pedra do Dragão, “uma cidadela insular desolada sob uma montanha fumegante no mar estreito”. Encarada pelas casas valirianas como um ato de covardia, visto que os Targaryen estavam longe de ser os mais poderosos entre os senhores dos dragões, a fuga os protegeu da ruína de Valíria e da destruição que se seguiu, transformando-os nos únicos senhores de dragões sobreviventes. No entanto, ainda demoraria até que os Targaryen voltassem seu olhos para o restante dos Sete Reinos, e foi com Aegon que a jornada teve início — mas O Conquistador não teria feito nada sem suas irmãs, Visenya e Rhaenys, senhoras de dragão, irmãs e esposas do rei.

Um ponto muito positivo de Fogo & Sangue, inclusive, reside em suas personagens femininas. Ainda que toda a história tenha início com um rei de cabelos prateados e olhos violeta, sem Visenya e Rhaenys a conquista de Westeros não teria sido consolidada. Aegon era, de fato, um estrategista e visionário, mas o apoio irredutível de suas irmãs e rainhas foi primordial para que a conquista se realizasse, seja no que se refere às batalhas propriamente ditas ou às alianças políticas traçadas com as antigas casas dos Sete Reinos. Mas o valor das personagens femininas não fica restrito às duas irmãs e durante todas as quase 600 páginas de Fogo & Sangue o leitor irá se deparar com mulheres de todos os tipos, daquelas que vestem armaduras, empunham espadas e montam em dragões, àquelas que preferem as sedas mais macias e as flores mais perfumadas. E tais personagens não ficam restritas apenas à casa Targaryen, que nos daria Daenerys em As Crônicas de Gelo e Fogo, mas também estão presentes nas outras nobres casas de Westeros, nas famílias menores e entre bastardos.

“Rhaenys, a mais jovem dos três Targaryen, era tudo o que a irmã não era: brincalhona, curiosa, impulsiva, dada a arroubos e fantasias. Rhaenys não era uma guerreira genuína, amava música, dança e poesia, apoiava muitos cantores, saltimbancos e marioneteiros. Contudo, dizia-se que Rhaenys passava mais tempo sobre um dragão do que o irmão e a irmã juntos, pois voar era o que ela amava acima de tudo.”

A narrativa de Fogo & Sangue é extremamente fluída e permitiu que George R. R. Martin trabalhasse com uma voz diferente da presente em seus outros trabalhos. O autor insere pequenos detalhes sobre os Targaryen que já haviam sido descobertos em seus livros anteriores, mas nada aqui é em vão: todas as estratégias e jogos políticos que fizeram de As Crônicas um trabalho tão memorável permanecem em Fogo & Sangue, com o adicional de que há muito mais dragões em suas páginas do que na trama de origem — e, afinal, quem não gosta de dragões? A ascensão da dinastia Targaryen, os reis que acertam, os que erram, seus súditos e a corte, tudo é disposto de uma maneira que se torna impossível colocar o livro de lado, mesmo que os personagens metam os pés pelas mãos muitas vezes apenas por conta de seu orgulho exacerbado. É interessante acompanhar a ascensão e queda de reis e rainhas, a dança que é feita entre senhores e seus vassalos, e como é possível torcer por este ou aquele na medida que o relato do Arquimeistre Gyldayn avança.

Fogo & Sangue é mais um rico trabalho de George R. R. Martin e, ao contrário do que se pensa, não foi escrito em detrimento de Ventos de Inverno. O material editado para o livro faria parte, inicialmente, da enciclopédia O Mundo de Gelo & Fogo, e foi lapidado ao ser compilado em Fogo & Sangue, apenas o primeiro volume da duologia sobre os Targaryen. O livro coloca às claras e em ordem cronológica momentos chave tanto da história de Westeros quanto dos Targaryen, entrelaçando a história da família aos Sete Reinos. A “Dança dos Dragões” — disputa pela coroa entre dois ramos da família Targaryen —, é explicada do início ao fim, dando mostras do que viria a ser o final da dinastia de senhores de dragões quando a família se voltou contra si mesma. Esse é um dos momentos mais impressionantes do livro, com idas e vindas, arranjos e traições, mortes e casamentos de todos os lados. Não é difícil dizer que na “Dança dos Dragões” o livro encontra seu ápice, principalmente quando o leitor começar a perceber que as sementes da discórdia que culminaram na guerra dentro da família já estavam sendo plantadas muito antes.

“Aegon voou com Balerion por cima das fileiras de seus inimigos, através de uma tormenta de lanças, pedras e flechas, e desceu repetidas vezes para banhá-los em chamas. Rhaenys e Visenya lançaram fogo de encontro aos inimigos e em sua retaguarda. O capim e o trigo seco se inflamaram imediatamente. O vento espalhou as chamas e soprou a fumaça do rosto dos homens dos dois reis, que avançavam.”

Outro ponto alto do livro reside justamente na construção dessa nova Westeros, principalmente durante o reinado de Jaehaerys I, tido como um dos melhores reis Targaryen e dono do reinado mais longevo. É durante o período de Jaehaerys I no Trono de Ferro que Porto Real é expandida, a estrada do rei é construída e leis e políticas são modificadas nos Sete Reinos, mostrando o desenvolvimento socioeconômico de Westeros e como as pessoas no poder precisam se adaptar — principalmente com relação ao casamento entre irmãos, uma tradição Targaryen vista de maneira negativa pelos westerosi, principalmente aqueles mais ligados ao Septo Estrelado e a Fé dos Sete. Fogo & Sangue detalha de maneira magistral o universo que conhecemos tão bem por meio de As Crônicas de Gelo & Fogo, e vê-lo sendo construído — e destruído, dependendo de quem senta no Trono de Ferro —, um reinado de cada vez, é empolgante.

Para os fãs, acompanhar a dinastia dos senhores de dragões é também encontrar nas páginas, em diversos momentos, sobrenomes muito conhecidos: Lannister, Stark, Tyrell, Tully, Frey, Martell… todas as grandes casas do reino estão presentes e costuradas ao tecido Targaryen, seja para o bem ou para o mal. Alianças são feitas e desfeitas, traições e julgamentos acontecem, cabeças rolam e são expostas nos muros da Fortaleza Vermelha como se fosse apenas mais um dia comum em Porto Real. Dragões atravessam Westeros carregando seus mestres sedentos por fogo e sangue com a mesma voracidade que lutam uns contra os outros em momentos de tirar o fôlego. Para um livro com a proposta de contar a origem e expansão de um reino fictício, Fogo & Sangue cumpre bem demais seu papel de entreter e fascinar — nada novo quando falamos sobre o brilhantismo de George R. R. Martin.

A edição da Suma de Letras é impecável e tem uma bela capa de cores vivas com a ilustração de Jean-Michel Trauscht, sem falar das quase oitenta ilustrações no interior do livro feitas pelo artista Doug WheatleyFogo & Sangue é leitura obrigatória para quem curte universos expandidos de tramas já conhecidas com o diferencial de que, aqui, a cronologia e o cânone não sofrem alterações mas são enriquecidos vivamente com novas personagens, jogos pelo poder, laços familiares e muitos dragões. George R. R. Martin faz um trabalho incrível ao traçar toda a ascendência de Daenerys Targaryen, e como receberemos um segundo volume em algum momento, ainda há muito por vir na história da dinastia dos senhores de dragões. Fogo & Sangue tem, sim, uma voz narrativa diferente dos livros que fazem parte de As Crônicas de Gelo e Fogo, mas não é demérito algum, apenas uma nova maneira de explorar um mundo rico e fantástico. É fácil se deixar levar pelos dramas dos Targaryen, torcer por eles e, em maior medida, sofrer com seus rompantes de orgulho que levam metade de Westeros a queimar por seus desejos desmedidos. O lado ruim de ter adorado o livro? É que além de aguardar Os Ventos de Inverno, Fogo & Sangue Volume 2 também entra na lista de pendências com as quais George R. R. Martin precisa lidar.

fogo & sangue

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte do topo do texto é de autoria da artista Claudia Caranfa. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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2 comentários

  1. Parabéns pela resenha, Thay! Gosto bastante do site de vocês desde que li uma matéria lá de 2016 que questionava as aborfagens de gênero em Game of Thrones, e fiquei super feliz de ver que meu texto foi mencionado na resenha de Fogo e Sangue. Muito bom ter gente que entende bastante do assunto produzindo conteúdo de qualidade.
    Abraço!

    1. Obrigada, Arthur! Acompanho o Gelo & Fogo desde que era o Game of Thrones BR, sempre gostei muito da abordagem de vocês e dos artigos publicados! Fico contente que goste aqui do Valks!