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Lizzo: entre a positividade e o amor próprio

Número um no Hot 100 da Billboard, dona de um dos álbuns mais bem avaliados pela crítica esse ano, atração do Coachella, companheira de cena Jennifer Lopez e Cardi B no filme Hustlers e aplaudida de pé por Rihanna no BET Awards, só se fala dela: Lizzo. 2019 tem sido o ano da cantora e muita gente foi apresentada a essa artista completa há pouco tempo, mas não é de hoje que ela vem talhando seu nome no mundo da música. E se você, por algum acaso da vida ainda não sabe quem é Lizzo, essa é a sua chance de conhecer um pouco mais da história dessa mulher que conquistou seu lugar ao sol.

Versátil, carismática, negra, gorda e vinda do rap. Cantora, compositora, atriz, musicista, apresentadora e rapper. É assim que podemos começar a descrever Melissa Viviane Jefferson. Nascida em Detroit, nos Estados Unidos, em 27 de abril de 1988, Lizzo cresceu em uma família apaixonada por música gospel, estudou música clássica com especialização em flauta, e se formou na Universidade de Houston, no Texas. Aos 31 anos pode-se dizer que ela está no melhor momento de sua carreira. A cantora vem sendo convidada para programas de TV no mundo todo, tem feito várias parcerias — com nomes como Charli XCX e Missy Elliot — e ao que tudo indica esse é só começo de um futuro próspero na indústria. No entanto, por mais que pareça que ela surgiu do dia para noite, despontando nas principais paradas musicais, a história é um pouco mais longa — e inspiradora — do que isso.

Logo depois de se formar na faculdade, Lizzo foi tentar a carreira em Minneapolis, Minnesota. Lá começou a fazer seu nome na cena independente e, em 2014, foi chamada para participar do disco Plectrumelectrum, do cantor Prince com a banda de funk feminina 3rdeyegirl. Ao longo de sua jornada até o momento, a cantora passou por seis grupos, sendo dois deles as denominadas girlbands, ou seja, banda formada por artistas mulheres. Porém, Lizzo, que começou na música integrando uma banda de rock e sempre ouviu artistas do R&B/Hip-Hop, queria explorar mais estilos e começou a investir em sua carreira solo. Com esse intuito em mente, em 2013 fora lançado, também de forma independente, o álbum Lizzobangers, o primeiro da carreira solo da cantora. A repercussão foi positiva, o álbum obteve nota 85 no Metacritic, e Lizzo conquistou o apoio de Prince nos seus projetos seguintes.

Com a repercussão do trabalho surgiram, também, novas oportunidades para Lizzo, como é o caso do convite para participar do festival Glastonbury em 2014, um dos mais conhecidos festivais de música realizados em Londres, Inglaterra. Com Lizzobangers, Lizzo conseguiu destaque na cena Indie/Hip-Hop, contemporânea de nomes como CupcakKe e Azealia Banks que estavam surgindo na época, momento em que o rap feminino ganhava força.

Ainda independente, o segundo álbum da artista fora lançado em dezembro de 2015, denominado Big Grrrl Small World, conta com faixas como “My Skin” e “Humanize”, que, àquela época, já apontavam uma tendência no trabalho de Lizzo: amor próprio e positividade. Do lançamento do segundo álbum, não demorou muito para que a Atlantic Records demonstrasse interesse pelo trabalho da cantora e fechasse um contrato com ela. Em maio de 2016, apenas cinco meses depois do lançamento de seu segundo álbum independente, Lizzo lançou o EP Coconut Oil, com um total de sete faixas, das quais três foram lançadas como single e ganharam clipe. O primeiro single foi “Good As Hell”, música que não se tornou um mega hit da cantora, mas foi o suficiente para apresentá-la a um novo momento de sua carreira, pavimentando seu caminho para o que viria a seguir: Coconut Oil serviu como estratégia para introduzir Lizzo no mainstream, e não por acaso o primeiro single é a música mais pop que ela havia lançado até então.

Passada a divulgação do trabalho, e alguns meses depois, o single “Water Me” deu início à divulgação do primeiro álbum de estúdio de Lizzo por um grande selo, e Cuz I Love Yo demorou aproximadamente dois anos para ser lançado. Em 2018, antes da data oficial ser anunciada, “Truth Hurts” e “Boys” foram apresentadas ao público e inicialmente não conquistaram muito impacto. Em entrevista recente, Lizzo relata que, em razão da baixa receptividade do seu novo trabalho, se sentiu desmoralizada tanto pela indústria quanto pela vida em geral, momento em que mandou mensagem para seu produtor confessando que estava pensando em desistir; estava cansada de colocar sangue, suor e lágrimas nas música que a maioria das pessoas nunca ouviria. Foi, então que, no começo desse ano, com o lançamento da canção “Juice”, os holofotes começaram a focar na artista.

Inspirada nos anos 80 e 90, a faixa conta com referências à cantora Aretha Franklin, ao filme Os Irmãos Cara de Pau e até a uma entrevista icônica da Madonna no programa David Letterman em que a rainha do pop estava com o modo f* ligado; alusões às propagandas e merchandising das décadas passadas também aparecem ao longo do single. A gravadora, por sua vez, fez a sua parte: colocou Lizzo e seu “suco” tocar em praticamente todos os talk shows dos Estados Unidos. Com isso, a cantora pôde mostrar ao seu novo público o quão contagiante é sua música e o quão rico é seu trabalho, seja por meio de sua voz, atitude, posicionamento, representatividade e/ou coreografia, sempre de forma espontânea e bem humorada e com direito a uma palinha de flauta entre uma música e outra.

Quando “Truth Hurts” foi lançada em 2017, ela passou sem grandes impactos, mas depois do estouro da cantora, a música ganhou uma segunda vida com uma pequena ajudinha da Netflix: no dia 19 de abril, por coincidência mesmo dia de lançamento do novo álbum da Lizzo, o serviço de streaming disponibilizou no catálogo a comédia romântica Alguém Especial, onde a música figura na trilha sonora e com direito a aparecer em uma das (melhores!) cenas do filme. Como resposta, a música teve um salto de popularidade: o Spotify a incluiu na playlist Today Top Hits, a maior playlist do serviço, com mais de 23 milhões de seguidores, o que fez de “Truth Hurts” o maior, até então, hit da carreira da Lizzo. Para além de conquistar o número um na parada de singles da Billboard, o feito ainda impulsionou outras músicas, como “Juice” que havia caído depois da divulgação e voltou a subir de novo.

Com a conquista do topo da parada mais importante da indústria musical, Lizzo se tornou a quinta artista feminina negra a emplacar uma faixa no número um da Billboard Hot 100 nesta década, e a sexta rapper feminina a alcançar a mesma marca. Hoje, Lizzo só fica atrás de Beyoncé, Rihanna, Janelle Monáe e Cardi B na lista de mulheres negras da música no topo da Billboard Hot 100. Já no quesito rapper, Cardi B (“Bodak Yellow”), Lauryn Hill (“Doo Wop”), Iggy Azalea (“Fancy”), Lil’ Kim (Moulin Rouge – Amor em Vermelho) e Shawnna (“Stand Up”) atingiram a mesma posição em épocas diferentes ao longo da história da parada.

Apesar do reconhecimento, a cantora chegou a ter receio que sua música não fosse abraçada pela comunidade negra ou que seu trabalho não se conectasse a eles. Mas, como contou num post feito no seu perfil no Instagram, Lizzo agora sabe que está sendo ouvida por todos, tendo em vista que ela foi convidada para fazer a capa da revista Essence, uma publicação destinada a mulheres afro-americanas. Após a performance no BET AWARDS, Lizzo conta estar realizada por estar se apresentando para pessoas com as quais têm identificação: “Eu tenho feito música há muito tempo, tipo dez anos fazendo shows. Mas tocar para pessoas negras, a minha galera, me deixa muito animada”.

Esse caráter do trabalho de Lizzo, que promove e agrega um senso de identificação, pode facilmente explicar o sucesso que ela tem conquistado. Indo na contramão de uma tendência apontada por pesquisas de que a música no geral está ficando mais irritada, e o pop, mais triste, as músicas da cantora foram feitas para encher quem as escuta de coragem, confiança e bem estar, como as faixas Like A Girl e Soulmate do álbum mais recente. Ao programa de rádio Elvis Duran Show, Lizzo fala do efeito terapêutico que sente ao escrever letras com mensagens positivas, e como ela gostaria de passar essa mesma sensação para quem a acompanha. Some a isso a pluralidade de influências que a cantora reúne em seus discos, com músicas que passeiam pelo R&B (Jerome), soul (Lingerie), funk (“Juice”), rock (Crybaby) e Indie Hip-Hop (Boys), tendo o rap como condutor principal; toda uma produção de arte recheada de leveza, sensualidade e amor à própria personalidade e ao próprio corpo e você tem a responsável por contagiar uma legião de admiradores. “Se eu estiver brilhando, todos vão brilhar”, canta Lizzo em um dos versos de “Juice” e é assim que quem a ouve acaba se sentindo. Com brilho próprio.

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