Categorias: LITERATURA

Tina e o respeito que todas nós merecemos

Os personagens de Maurício de Souza são populares por todo o país, uma vez que diversos brasileiros cresceram acompanhando as aventuras da Turma da Mônica e companhia. Apesar da popularidade da turminha, alguns personagens que estão fora deste núcleo também ganharam espaço nos corações dos leitores. É o caso de Tina, uma das primeiras personagens do núcleo jovem adulto a ter mais destaque.

A personagem surgiu em meados dos anos 1960 trazendo uma pegada hippie, de “bicho grilo”, da época, mas também levantando questões relacionadas à independência e aos direitos das mulheres. Com o passar dos anos, o visual hippie foi sendo deixado de lado e, aos poucos, Tina surgiu como uma mulher adulta, tendo direito às próprias revistas publicadas de 2009 a 2011 e de 2014 a 2015.

Em 2019, Tina ganhou uma nova história por meio da arte e roteiro de Fefê Torquato, ilustradora e autora da webcomic Gata Garota. Tina – Respeito faz parte do selo Graphic MSP, projeto em que artistas são convidados para fazer releituras dos personagens de Mauricio de Souza. Com ilustrações belíssimas em aquarela, Fefê nos apresenta uma Tina no século XXI com a mesma coragem e determinação que já mostrava desde 1960.

Atenção: este texto contém spoilers!

A Tina de hoje e a importância de nomear as coisas

Nesta história, Tina é uma jornalista recém-formada que atua como repórter freelancer e produz uma newsletter bem popular. Ela consegue uma vaga como repórter de um grande jornal, onde vai poder realizar o sonho de trabalhar em uma redação. Contudo, ao realizar esse sonho, Tina não esperava ter que lidar com desafios tão dolorosos. Desafios esses que mulheres do mundo todo precisam lidar diariamente, seja em maior ou menor escala: o assédio, machismo e a violência de gênero.

A forma como Fefê constrói o roteiro da HQ é excelente ao mostrar a realidade cotidiana de micro violências encaradas pelas mulheres. Vemos uma Tina acelerando o passo na rua pouco movimentada com uma figura masculina à espreita, por exemplo. Poderia ser apenas o temor de um assalto, mas, para mulheres, esse medo vem sempre acompanhado do temor da violência física ou sexual. Outra situação cotidiana retratada por Fefê Torquato ocorre quando Tina está em um ônibus voltando para casa e, apesar de ter muitos lugares vazios, o homem que entra vai se sentar ao lado dela. A única mulher ali. Nada precisa ser dito, apenas o traço de Fefê consegue mostrar como a situação é incômoda por meio das feições de Tina.

Iniciando a vida adulta ao morar sozinha, com contas para pagar e um novo emprego, Tina está tentando se adaptar às mudanças de sua vida. Por sorte, ela conta com uma boa rede de apoio que vai de Pipa e Rolo, amigos que a acompanham desde a infância, aos colegas de trabalho. Vale pontuar que Pipa também enfrenta essas micro violências, que ainda ganham os contornos da gordofobia. Apesar de Pipa ter uma aparição pontual na história, sua presença é fundamental para entender como Tina lida com o mundo. As frustrações e o cansaço da vida adulta se mostram presentes na conversa entre amigas. E como boa amiga que é, Pipa pode dar uns cortes em Tina chamando atenção para como o mundo é feito para pessoas como ela: magras.

Outro destaque é uma conversa que Tina tem com a mãe sobre intimidação, esgotamento mental e como lutar pelo que se acredita. É uma conversa densa e leve ao mesmo tempo, como uma bronca e um carinho de mãe dados em conjunto. A existência desse momento se torna fundamental para mostrar que está tudo bem se sentir perdido e buscar apoio, uma orientação.

Fefê Torquato traz o acolhimento e a importância de uma rede por meio das relações da personagem. As trocas que Tina tem com Kátia, colega de trabalho que logo se torna sua amiga, carregam novas nuances das violações a que mulheres estão expostas. Kátia é repórter, mulher negra e lésbica, que mora com a mãe, a irmã e um doguinho muito simpático. E por tudo isso, enfrenta um violência interseccional.

“Uma vez um carro começou a me seguir depois que eu desci do ponto. Eu virava uma esquina, ele virava também. Eu atravessava a rua e ele, na minha cola. […] Eu pensei em correr, mas não tive coragem. Como se fingir que nada tá rolando garantisse de alguma forma que nada de fato aconteceria, né?” (pág.38)

Assim como Kátia, Edu e Lu, outros colegas de trabalho de Tina, sabem da cultura de assédio que domina a redação do jornal Mundo Hoje. Cada um alerta Tina para a postura do editor-chefe da redação, o jornalista premiado Jairo Figueiredo. Desde o primeiro momento em que os colegas citam o comportamento dele como um “predador”, nós, como leitores, ficamos ansiosos aguardando o que acontecerá com Tina quando estiver a sós na sala com ele.

“Ah, ele [Jairo Figueiredo] é gente boníssima…até quando deixa de ser”. (p. 35)

Enquanto Tina acredita que a reunião é para conversar sobre a pauta que vinha apurando, Jairo logo lança a real: um convite para jantar com claras segundas intenções e uma ameaça a sua carreira caso recuse: “Além desse rostinho lindo…Eu sei que você é uma garota esperta, então é simples…janta comigo e você tem toda uma carreira pela frente ou não. A escolha é sua” (p.59).

O que mais dói é saber que chefes como Jairo Figueiredo não são incomuns. Eles estão mais presentes no mercado de trabalho do que gostaríamos. Apesar da insegurança e do medo, Tina usa o conhecimento jornalístico a seu favor para denunciar Jairo. Ela traz os depoimentos de outras vítimas e ainda tem a gravação da conversa com ele como prova. E ainda oferece a reportagem para o concorrente. A história termina com um tom otimista, de esperança para Tina.

Ainda assim, sabemos que não é fácil denunciar situações como essa. Nem sempre recebemos alertas e mesmo com provas somos desacreditadas. Para mim, Tina – Respeito é uma lição. Gostaria de ter tido acesso a uma obra dessa na minha adolescência. Saber a importância de ter uma rede de apoio, de que não estou sozinha. Que o problema é a estrutura social, não eu.

As edições do selo Graphic MSP têm uma pegada mais adulta, por isso é importante pontuar que a classificação é para 14 anos. Mas, qualquer menina que sentar e folhear algumas páginas vai se deparar com situações que já vivenciou em algum momento. Em uma sociedade que defende que “mocinhas sabem o que fazem”, as micro violências não entram sutilmente em nossas vidas, elas arrombam a porta com tudo.


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