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A Graphic MSP e o cenário do quadrinho brasileiro

Quase toda criança que cresceu nos anos 80/90 iniciou o seu hábito de leitura a partir de livros como os da Coleção Vagalume ou por intermédio de gibis, como A Turma da Mônica. Na verdade, é quase automático associar o quadrinho brasileiro à Turma da Mônica.

Maurício de Sousa é um dos maiores quadrinistas do Brasil e do mundo, possuindo um legado gigantesco. E para comemorar os 50 anos de sua carreira, em 2009 foi lançado o projeto MSP 50, em que 50 artistas foram convidados para fazer releituras dos grandes personagens criados por Maurício. Partindo dessa premissa, e com grande repercussão do projeto, o selo Graphic MSP foi lançado no mercado em 2012, tendo como primeiro título dessa nova era Astronauta-Magnetar. Com isso, a intenção é trazer histórias com personagens do gibi para nossa realidade. Desde então, somam-se 30 edições, com muitas histórias carregadas de emoções diferentes.

Por trás de cada história desenhada e escrita, há grandes artistas que nem sempre conhecemos tão bem. Porém, a cada página que nos aprofundamos ao ler, conseguimos identificar a personalidade do autor e cada traço nos conquista ainda mais. Como na arte de Fefê Torquato, que traz leveza e sensibilidade à história da personagem Tina. Em Tina – Respeito, Fefê abordou questões como abuso psicológico dentro do ambiente de trabalho, machismo e dúvidas em relação a profissão. leitura devidamente obrigatória para os amantes de quadrinho — tão obrigatória quanto os dois volumes de Jeremias.

Turma da Mônica

Em Jeremias – Pele e Jeremias – Alma, Jefferson Costa e Rafael Calça fazem um trabalho incrível e de uma profundidade gigantesca. No primeiro volume, o racismo não tão conhecido por Jeremias é apresentado para o mesmo de forma dura e dolorosa, que parte desde os seus colegas até a professora. No segundo volume, Jeremias se questiona sobre sua ancestralidade; de onde ele e sua família vieram, qual é a sua origem.

Os assuntos profundos e atuais não param por aí. As graphics do Astronauta foram roteirizadas e desenhadas pelo ilustrador Danilo Beyruth, conhecido também pelas obras Necronauta e Bando de Dois, lançados pela editora Zarabatana. Em Astronauta, Beyruth trata da solidão que o personagem encontra ao ficar preso no espaço com sua nave quebrada. O quão complexo é lidar e lutar com sua sanidade e, ao mesmo tempo, achar uma saída para ir embora do espaço?

Penadinho – Vida e Lar foram elaborados pelo fofíssimo casal Cristina Eiko e Paulo Crumbim, que também possuem uma trilogia de quadrinhos chamado Quadrinhos a 2, histórias quase autobiográficas sobre o cotidiano de um casal. Nas duas edições de Penadinho conseguimos ver toda a turma do cemitério em uma trama bem interessante, onde Penadinho se descobre apaixonado por Alminha, porém recebe a notícia da Dona Cegonha que ela precisa reencarnar no dia seguinte pela manhã. Cristina e Paulo reinterpretam os personagens de Maurício de Sousa de forma leve, apaixonante e muito divertida.

Turma da Mônica

O bairro do Limoeiro, no entanto, não seria o mesmo sem as quatro peças fundamentais para essa grande história. Lu e Vitor Cafaggi conseguiram nos conquistar ainda mais com a trilogia Turma da Mônica: Laços, Lições e Lembranças. Os irmãos Cafaggi possuem aquele traço impossível de não reconhecer. Para quem não conhece, Vitor é autor do quadrinho Valente e em suas seis edições é possível compreender toda a forma que Cafaggi trata e cuida de seus personagens, com traços leves, cores suaves e um enredo apaixonante. Nas edições da Turma da Mônica, os irmãos não deixam de fora os planos infalíveis do Cebolinha, Cascão fugindo da água, Magali com sua fome interminável e, claro, Mônica com seu inseparável Sansão correndo atrás do Cebolinha. Em breve, outros trabalhos da dupla virão: foi anunciado na CCXP 2020 que Lu será responsável pela graphic novel da Magali enquanto Vitor trabalhará em uma sobre o Franjinha.

Mesmo em um meio onde ainda a presença masculina é tão predominante, há espaço para que as meninas se destaquem. Em Mônica – Força e Tesouros, tanto a história quanto as ilustrações são comandadas por Bianca Pinheiro. Nas duas edições do quadrinho, os problemas da personagem vão além de ser chamada de “baixinha” e “dentuça”. Ela precisa encarar um grande desafio em sua vida, numa história tão dolorida quanto emocionante.

O selo MSP deu uma grande oportunidade ao divulgar artistas que estavam no cenário underground a ganhar o mainstream. Ao longo de 30 edições, pudemos conhecer todos esses autores incríveis citados no texto e tantos outros, como Camilo Solano, autor de O Fio do Vento e Desengano, que foi responsável pela gostosa história de Cascão – Temporal; Gustavo Duarte, famoso por Monstros e Có e Birds, quadrinhos sem falas, modelo que ele também apresenta em Chico Bento – Povo Espaciar. Já Orlandeli traz uma outra perspectiva da vida em relação a Chico Bento. Em Arvorada, há um visual magnífico com momentos de aprendizado, amor, dor, mistério e uma pitada de bom humor.

Turma da Mônica

Por trás de cada obra há um mundo gigante para descobrir e se apaixonar. Como leitores, devemos valorizar nossos artistas brasileiros, sejam escritores, ilustradores, coloristas, designers; temos grandes tesouros guardados por aqui. Maurício de Sousa deu oportunidade não só para eles, mas também a nós por fazer parte dessa história.

Jeyce Ribeiro é publicitária de formação e designer de coração. Uma nerd assumida que ama escrever. Disfarça consumismo comprando HQ e mangás como se tivesse limite no cartão. Acredita que vídeos de gatinhos são melhores que humanos, que Grifinória é a melhor casa e que Ross traiu Rachel sim! Coleciona histórias e as transforma em arte.

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