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Gótico Mexicano: o terror gótico de Silvia Moreno-Garcia

Na Cidade do México da década de 1950, Noemí Taboada leva uma vida agitada. A jovem socialite de 22 anos é a alma das festas de que participa, tem uma longa lista de ex-namorados e adora passear pela cidade com seu carro conversível. Noemí tem tudo ao alcance das mãos, mas é arrancada de sua rotina glamourosa por um pedido de seu pai que fica preocupado com a prima da jovem, Catalina, após receber uma estranha carta escrita por ela.

Catalina, recém-casada e morando longe da família Taboada, acredita estar correndo um sério perigo em High Place, residência em que vive com a família do marido, os Doyle, no topo de uma montanha localizada próxima à pequena cidade de El Triunfo, no interior do México. A carta de Catalina é repleta de frases sem sentido e parece desconexa da realidade, então o pai de Noemí acha por bem enviar alguém de confiança da jovem para averiguar de perto o que está acontecendo. E é assim que Noemí precisa deixar de lado seus bailes e a faculdade, saindo da Cidade do México em direção à High Place, em socorro à prima. Mas Noemí, que de boba não tem nada, faz um acordo com o pai antes de partir: quando retornar, ela quer ter o direito de seguir os estudos até o mestrado em antropologia, algo que a família encara como perda de tempo devido ao fato de Noemí ser mulher e precisar arrumar um marido.

“Como o carro antigo que esperara Noemí na estação, a cidade agarrava-se ao que restava do esplendor.”

É assim que tem início Gótico Mexicano, primeiro livro de Silvia Moreno-Garcia lançado no Brasil. Com tradução de Marcia Heloisa e Nilsen Silva, publicado pela DarkSide Books, o livro com pouco mais de 280 páginas nos leva para um universo tétrico e misterioso em que as brumas estão sempre presentes e a mansão em que Catalina vive reclusa com a família do marido evoca todas as características das construções góticas — não somente pela arquitetura peculiar, mas também por conta das estranhas cenas que se desenrolam no lugar. Quando Noemí chega em El Triunfo, sente logo que sua estadia não será tão tranquila e simples quanto imaginava a princípio. A cidadezinha tem aquele ar desolador das coisas que passaram da data de validade, com casas antigas com pintura descascada e poucas lojas abertas.

No passado, quando a mina de prata da família Doyle era próspera, El Triunfo recebia muitos visitantes interessados em trabalhar como mineiros. Porém, após uma doença misteriosa matar grande parte dos trabalhadores e outros tantos terem partido para lutar na Revolução, a mina foi abandonada, causando tanto a derrocada dos Doyle quanto de El Triunfo. E é nesse cenário desolador que Noemí chega para cuidar da prima. Os Doyle são uma família antiga repleta de regras e formalidades com as quais a esfuziante Noemí bate de frente logo que tem início sua estadia na mansão. Noemí quer ver a prima e fica de coração partido quando a encontra abatida e apática, tão diferente da doce moça que foi sua companhia durante os anos da infância e adolescência na Cidade do México, a menina que passava os dias lendo contos de fadas para Noemí.

Enquanto Noemí quer consultar outro médico que não seja o que atende os Doyle, em busca de uma segunda opinião, Virgil, esposo de Catalina, não vê necessidade em tamanho esforço. Para ele, a esposa está perfeitamente bem e apenas se recuperando de uma tuberculose. Mas Noemí sabe que isso não é verdade e que a prima precisa de ajuda. Em High Place, a atmosfera lúgubre e repleta de neblina não faz bem nem à própria Noemí, que se sente sufocada pela família Doyle e seus costumes estranhos. Mas o que a jovem pensava ser apenas uma doença que consumia Catalina tem desdobramentos cada vez mais estranhos quando a própria Noemí começa a ter pesadelos vívidos e a sentir uma presença que lhe dá calafrios enquanto anda por High Place.

Em Gótico Mexicano, Silvia Moreno-Garcia constrói com maestria uma trama que amarra o leitor às páginas, tornando impossível soltar o livro antes de desvendar o mistério que toma conta de High Place. Ao lado de Noemí, percorremos os corredores da mansão gótica, a estufa abandonada e o cemitério repleto de cogumelos, certos de que estamos sendo observados, enquanto procuramos por respostas em um nevoeiro de questionamentos. Os Doyle, tão estranhos em seus costumes, parecem sempre apáticos, quase como bonecos de cera, e dão nos nervos de Noemí com suas ideias de eugenia e velhos hábitos que não tem mais espaço em plena década de 1950. Noemí sente urgência em salvar a prima das mãos da família, mas também se sente cada vez mais presa à High Place e aos estranhos anfitriões.

“A casa pairava sobre eles como uma gárgula enorme e silenciosa. Se não estivesse tão desgastado, o lugar teria parecido agourento, evocando imagens de fantasmas e casas assombradas, com sarrafos faltando das venezianas, o ébano do alpendre rangendo à medida que eles subiam a escada até a porta, que exibia uma aldrava prateada no formato de um punho que pendia de um círculo.”

Na trama de Silvia Moreno-Garcia, é fácil torcer pelo sucesso de Noemí. A jovem mexicana de 22 anos pode parecer um pouquinho voluntariosa quando começamos a leitura de Gótico Mexicano, mas isso é até compreensível se levarmos em consideração o cenário de sua criação. Noemí faz parte de uma família rica e proeminente da Cidade do México, e como uma moça que não precisa se preocupar com dinheiro, ela festeja com seus amigos e é sempre figura certa nos bailes da alta sociedade. Mas com o decorrer da leitura percebemos que Noemí é muito mais do que isso — ela é uma moça inteligente, sabe o que quer e é muito determinada, qualidades que serão imprescindíveis para que ela possa desvendar o mistério que envolve Catalina, os Doyle e High Place. Noemí quer continuar os estudos de nível superior e fazer mestrado, entende de química e é observadora, disfarçando por vezes sua inteligência com comentários frívolos — tática que ela usa inclusive com os Doyle, desviando a atenção deles quando acha necessário.

Gótico Mexicano tem as melhores qualidades que um enredo de suspense e terror pode ter para prender seu leitor. A trama vai crescendo continuamente em tensão, nos deixando tão reféns quanto Noemí dos mistérios que envolvem High Place. Embora tenha elementos de clássicos como O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, e Jane Eyre, de Charlotte Brontë (que inclusive são mencionados por Noemí como alguns dos livros favoritos de Catalina), há um frescor na escrita de Silvia Moreno-Garcia que faz de seu livro algo único. A começar pela protagonista, uma garota mexicana, enfrentando os pálidos e bizarros Doyle, ingleses — esse ponto, inclusive, funciona até mesmo como uma alegoria a respeito da exploração exercida por colonizadores em solo mexicano. Ainda que o México tenha, a rigor, sido colonizado por espanhóis, a ideia de colocar Noemí batendo de frente com os ingleses da família Doyle não deixa de simbolizar a luta do povo nativo contra o opressor — a Guerra da Independência pode ter retirado o México do jugo de seus colonizadores espanhóis, mas não demorou para que os ingleses se apropriassem da posição de exploradores. O México foi, durante os anos de 1500 e 1800, ao lado de Bolívia e Peru, um dos maiores produtores de prata, respondendo juntos por mais de 85% da produção mundial.

“Em uma de suas histórias, Catalina lhe contara que Kublai Khan executava os inimigos sufocando-os com almofadas de veludo, para não deixar rastros de sangue. Noemí pensou que aquela casa, com aqueles tecidos, tapetes e borlas, poderia sufocar um exército inteiro.”

A trama de Silvia Moreno-Garcia também funciona muito bem para mostrar o México para além dos estereótipos que as produções da cultura pop impõe sobre o país. O México visto em Gótico Mexicano é lúgubre, com névoas surgindo no meio do dia, topos de montanha e tempestades, completamente diferente das imagens áridas e ensolaradas que filmes e séries, principalmente criadas por estadunidenses, vendem para o restante do mundo. E é ótimo que a autora tenha colocado esses elementos em sua trama — não apenas por fazê-los se entrelaçar com a história que está contando, mas também para que o leitor veja o México para além dos estereótipos. No decorrer da narrativa, Noemí também comenta sobre traços de sua cultura e costumes, o que amarra ainda mais a trama ao lugar em que ela se passa. A escrita de Silvia Moreno-Garcia é excelente e nos faz imaginar cada aspecto do que está nos contando, desde os detalhes da mansão gótica que é High Place — e que atua como uma personagem de Gótico Mexicano —, até as visões e pesadelos que acometem Noemí, que são de dar frio na espinha.

De maneira geral, Gótico Mexicano é o livro perfeito para quem gosta de histórias intensas e misteriosas, protagonistas determinadas e casarões góticos a serem explorados por meio das palavras. Silvia Moreno-Garcia tem a capacidade de nos deixar vidrados em sua trama, passando as páginas com avidez para descobrir o que está tomando conta de High Place. Ainda que não seja difícil identificar alguns pontos importantes do mistério como, por exemplo, o que causa as alucinações, todo o livro é muito bem escrito — mesmo tendo ideia do que está agindo na mansão, a autora consegue surpreender ao inserir momentos especialmente tétricos na narrativa. A tradução da dupla Marcia Heloisa e Nilsen Silva é ótima, e o que deixa a desejar são apenas pequenos lapsos de revisão em que algumas palavras estão fora de ordem ou letras soltas passaram batidas. A edição em capa dura com linha de corte amarela e fitilho combinando já faz parte do padrão de qualidade da DarkSide Books, que vem, mais uma vez, com uma direção de arte impecável. Gótico Mexicano tem todos os elementos para se tornar um clássico de seu gênero — e isso o tempo há de confirmar.

“Uma mulher que não é querida é considerada uma megera, e uma megera não pode fazer quase nada, pois todas as portas estão fechadas para ela.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


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2 comentários

  1. Ahhhhh, sabia que você ia curtir! 🍄

    Fiquei bem intrigada com as pessoas que disseram que “não parecia o México” quando, na verdade, o país inteiro está lá e com uma forte crítica ao colonialismo. As pessoas parecem que apenas engolem a história sem refletir a respeito. Noemí é uma grande personagem e adoraria ler outras aventuras dela.