Categorias: LITERATURA

Para e por todas aquelas que estão Longe de Casa

Quanto contato você tem com a história de pessoas refugiadas? Quantas dessas pessoas você conhece além dos dados genéricos e notícias trágicas que circulam nos jornais constantemente? Qual imagem você tem delas? Em Longe de Casa: Minha jornada e histórias de refugiadas pelo mundo, Malala Yousafzai busca justamente recuperar a identidade humana e palpável de mulheres e meninas obrigadas a deixar suas casas e assumir a identidade (frequentemente desumanizante) de refugiadas em vários lugares do mundo.

Partindo da própria trajetória como militante política pelos direitos de meninas à educação em um Paquistão sob ocupação de um grupo fundamentalista (talibãs), o que a levou a precisar se refugiar na Inglaterra após sofrer uma tentativa de assassinato, Malala usa seu novo livro e sua visibilidade internacional para trazer à luz a história de diversas meninas e mulheres que viveram e vivem situações similares em diversos países ao redor do mundo. Muitas das histórias contadas pertencem a jovens (ou não tão jovens) mulheres que se envolveram em militâncias política antes ou depois de precisarem deixar suas casas, e que seguem buscando fazer tudo o que está ao seu alcance para mudar o mundo em que vivem.

“Escrevi este livro porque muita gente não entende que refugiados são pessoas comuns. O que os diferencia é o fato que se viram em meio a um conflito que os forçou a deixar seu lar, as pessoas que amavam e a vida que conheciam. Arriscaram muito no caminho, e por quê? Porque quase sempre é uma questão de vida ou morte.” (p. 11)

A frase acima, retirada da introdução do livro, sintetiza muito bem o objetivo central da obra: recuperar a humanidade que as pessoas refugiadas perdem aos olhos do mundo a partir do momento em que assumem esse status. Não se trata de um grande livro, literariamente falando, nem de uma obra dedicada a imortalizar a história de uma pessoa especificamente, o que faz com que acabe sendo um livro que conta de forma muito superficial algumas trajetórias de vida extremamente sofridas. Apesar disso, é muito possível qualificar Longe de Casa como um pequeno livro com uma grande missão, uma grande importância simbólica. Ao meu ver, Malala não tem pretensão de assumir o papel de escritora, todas as suas obras servem a uma finalidade política. Esse livro, em específico, pode ser interpretado como uma pequena obra panfletária que usa sua imagem para dar visibilidade e sensibilizar as pessoas que a leem com relação a uma situação grave que com frequência buscamos não ver.

Estruturalmente, a obra se divide em duas partes. A primeira, menor, conta resumidamente a história da própria Malala com ênfase nas circunstâncias que a levaram a ter que fugir do seu país. Basicamente, é a história que todas já ouvimos, com poucas informações sobre o que acontece com ela e sua vida após a mudança para a Inglaterra. Em alguma medida, é como se a história dela tecesse uma linha de continuidade com as histórias de fuga e exílio de todas as outras personagens que aparecem depois, na segunda parte do livro.

Nessa segunda parte, conhecemos muito breve e resumidamente a história de nove meninas e mulheres que vivem atualmente como refugiadas ou deslocadas internas. Entre elas temos Zaynab e Sabreen, duas irmãs do Iêmen que fugiram primeiro para o Egito, mas precisaram se separar quando uma delas (Zaynab) conseguiu o visto de refugiada para os Estados Unidos, onde a mãe já vivia. Após ter o visto negado e ficar para trás, sem a irmã, Sabreen acaba fazendo a perigosa travessia por mar até a Europa. Além das duas irmãs, conhecemos Muzoon (síria que vivia em um campo de refugiados na Jordânia), Najla (iraquiana, pertencente a uma minoria étnica que precisou se deslocar internamente para escapar do Estado Islâmico), María (colombiana que também precisou se deslocar internamente com a família após ter o pai assassinado de forma violenta), Analisa (adolescente originária da Guatemala que atravessa ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos para viver com um irmão após a morte do pai), Marie Claire (congolesa que migra primeiro para a Zâmbia e depois consegue refúgio nos Estados Unidos), Jennifer (norte-americana que realiza trabalho voluntário recebendo e acolhendo refugiados, incluindo Marie Claire e sua família), Ajida (oriunda do Mianmar e residente em um campo de refugiados de Bangladesh por perseguição política) e Farah (CEO do fundo Malala para promoção da educação de meninas, originária de Uganda, porém criada no Canadá). Algumas dessas meninas e mulheres estão sozinhas, outras acompanhadas de sua família, mas a linha comum que as une é uma história de violência e sofrimento que só conhecemos de forma muito superficial.

Malala e María, foto de divulgação publicada no site da ONG Malala Fund.
Malala e María, foto de divulgação publicada no site da ONG Malala Fund.

Qualquer uma das histórias narradas daria, isoladamente, um livro recheado de dor e tragédia. Entretanto, da forma como são transmitidas, as trajetórias de cada uma são extremamente resumidas e sem espaço para desenvolvimento. O foco do livro não parece ser transmitir de forma profunda a história de qualquer uma delas, mas mostrar que pessoas refugiadas têm histórias próprias e variadas como qualquer pessoa no mundo. Apesar disso, o caráter extremamente sintético das narrativas não faz com que elas sejam menos dolorosas e emocionantes para quem lê. E a consciência da quantidade de histórias desse tipo espalhadas por todo o mundo torna tudo ainda mais triste.

Falando em dados gerais, segundo números divulgados pela ONU, 68,5 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas. Desse número, 40 milhões realizaram deslocamentos internos (dentro das fronteiras dos seus próprios países, como é o caso de Najla e María), 25,4 milhões vivem como refugiados em outros países, e 3,1 milhões são solicitantes de refúgio. Mais da metade dessas pessoas são crianças, e muitas não estão acompanhadas de nenhum parente ou adulto responsável por elas. O número de refugiados no mundo cresceu 50% nos últimos dez anos e, ao contrário do que muitos pensam, a maioria se encontra em países em desenvolvimento, em geral próximos aos seus locais de origem. Ainda segundo dados da ONU, em 2018 o Brasil recebeu 1.086 refugiados de diversas nacionalidades, atingindo a marca de 11.231 pessoas reconhecidas como refugiadas pelo Estado brasileiro. Mais de um terço desse total tem origem Síria.

Esses dados são muito importantes para que tenhamos consciência da magnitude do fenômeno da migração nos dias atuais, mas de alguma forma acaba obscurecendo a consciência de que, por trás desses números, existem pessoas reais, com histórias e sentimentos reais.

O refúgio também tem relações importantes com questões de gênero. Segundo números oficiais, apenas 29% das pessoas refugiadas no Brasil até 2017 são mulheres. No mundo, entretanto, metade das pessoas forçadas a se deslocarem são mulheres. Mulheres refugiadas são um grupo especialmente vulnerável, sujeitas a diversos tipos de violência, incluindo a violência sexual. A relação do refúgio com questões de identidade de gênero e sexualidade e a perseguição sofrida por pessoas LGBTQI+ em diversos países também é um assunto relevante que vem sendo evidenciado pelas pesquisas oficiais, apesar de não ser uma situação retratada em Longe de Casa.

Um instrumento importante usado pelo livro para humanizar e tentar comunicar as perspectivas de pessoas refugiadas é a ênfase nos sentimentos. Sentimentos são o que nos conectam e nos permitem reconhecer uns aos outros como pessoas. O tema da memória é tratado de forma recorrente. A obra busca denunciar o senso comum que gira em torno desse grupo social, que enfatiza uma suposta alegria e alívio por poderem sair da situação de violência de seus locais de origem, ignorando completamente os sentimentos controversos que se apresentam de forma comum nesse tipo de situação, como as saudades de casa e a sensação de não pertencimento no novo local. Toda essa complexidade é transmitida inclusive já no próprio título do livro.

Além de tudo isso, o avanço da extrema direita de braços dados com a xenofobia em diversos países torna a situação de migrantes e refugiados ainda mais delicada e difícil. Confinados em campos de refugiados e submetidos a condições de vida precárias, como observamos em algumas das histórias que compõem Longe de Casa, ou em centros de detenção de imigrantes, como observamos com destaque na sétima e última temporada de Orange is The New Black, o que observamos é a frequente negação de direito humanos fundamentais a essas pessoas. É essa triste realidade que torna obras como Longe de Casa tão importantes nesse momento, não podemos seguir fechando os olhos.

“Nunca deixa de me chocar que as pessoas considerem a paz algo garantido.” (p. 9)

Ficha técnica Longe de Casa - 4 estrelas

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma Engelke.

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