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A ruptura no fio do tempo: vozes esquecidas de Chernobyl, o maior desastre nuclear da história

A minissérie Chernobyl, lançada em 2019 pela HBO, retrata o acidente nuclear que ocorreu no reator 4 da usina Vladimir Ilyich Lenin, mais conhecida como Chernobyl, na madrugada do dia 26 de abril de 1989. A usina se encontra ao lado da cidade de Pripyat, construída para os trabalhadores da usina e suas famílias, cerca de 20km de distância da cidade de Chernobyl, na Ucrânia. O acidente atingiu também a Bielorrússia, fronteira com o país ucraniano e a Rússia, todos territórios da União Soviética na época.

No dia 26 de abril de 1989, a falha de um teste de segurança realizado na usina levou a explosão do reator número 4, deixando o núcleo do reator exposto por vários dias e espalhando material radioativo na atmosfera. Todas as cidades ao redor foram contaminadas e o material radioativo se espalhou por diversos países como Polônia, Alemanha, Áustria, Romênia, entre outros. A população de Pripyat foi evacuada cerca de 36 horas depois do acidente e foi criada uma zona de exclusão em um raio de 30km da usina. As altas doses de radiação que os primeiros bombeiros, soldados e funcionários da usina se expuseram para contenção do acidente foi letal para a maioria em algumas semanas, como também para vários animais das regiões próximas. A exposição da radiação a longo prazo gerou inúmeros casos de câncer, deficiências mentais, disfunções neuropsicológicas e mutações genéticas. Os primeiros números oficias reconhecidos internacionalmente sobre as mortes imediatas por causa de Chernobyl variam de 30 a 50 pessoas. Em relatório de 2005 das Nações Unidas, Ucrânia, Rússia e Bielorrússia estimava-se cerca de 4 mil mortes por complicações da exposição a radiação, mas há debates sobre esses números até os dias de hoje.

Chernobyl

Não há muito o que falar sobre a série: ótimas atuações dos atores que são muito parecidos com as pessoas reais envolvidas no acidente; as cenas reconstituídas são muito parecidas com as fotos do acidente e a grande produção foi bastante aclamada pela crítica, recebendo dezenove indicações ao Emmy Awards e vencendo três categorias: Melhor Minissérie, Melhor Direção e Melhor Roteiro. Ironicamente, foi duramente criticada pela Rússia atual como uma tentativa de apologia contra o governo russo. A minissérie é composta por cinco episódios centrados especificamente no momento do acidente, à 1h23mi58s de 26 de abril de 1989, e na grande questão para o estado soviético na época: encontrar e punir os culpados sem afetar o estado socialista vigente. Vemos pouco das evacuações e das vidas cotidianas das pessoas comuns que foram interrompidas pelo acidente nuclear. Acompanhamos muito mais os figurões do partido querendo abafar a gravidade do problema, dois grandes cientistas preocupados com os efeitos da radiação (representando inúmeros outros cientistas que participaram ativamente na contenção do acidente) e o julgamento de Viktor Bryukhanov, diretor da central atômica, e Nikolai Fomin e Anatoly Dyatlov, engenheiros, que foram condenados a dez anos de prisão. Na minissérie vemos que a causa do acidente foi a condução indevida do teste de segurança pelo engenheiro-responsável, Dyatlov, somado a uma falha no projeto inicial da usina nuclear.

A história mais comovente que acompanhamos é a do jovem casal Lyudmila e Vasily Ignatenko. Vasily era bombeiro em Pripyat e foi um dos primeiros a chegar no local do acidente para apagar o incêndio morrendo em algumas semanas por causa da exposição altíssima a radiação. Lyudmila, sua esposa grávida de poucos meses, burlou protocolos de segurança, subornou funcionários e conseguiu ficar dias no hospital cuidando do marido. Meses depois, sua filha morreu algumas horas depois do parto, pois havia absorvido toda a radiação do pai e, assim, salvado sua mãe, conectando morte-vida, filha-mãe de maneira cruel.

Chernobyl
Lyudmilla (Jessie Buckley) e Vasily Ignatenko (Adam Nagaitis), em Chernobyl, minissérie da HBO.

Essa história é adaptada do livro Vozes de Tchernóbil: Crônica do Futuro, da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do Nobel de 2015 e autora de cinco livros que dão “vozes aos homens comuns” que vivenciaram diferentes experiências traumáticas do século XX¹. A autora que se define como uma “mulher-ouvido” assinou um contrato com os produtores cedendo os direitos de algumas histórias do livro para a adaptação, que foram realmente utilizadas, como a do casal Ignatenko, mas não devidamente creditadas. No final da minissérie, vemos diversas fotos originais do acidente, imagens das pessoas reais que acompanhamos adaptadas nos cinco episódios como forma de homenagem às vítimas e aos que ajudaram a diminuir as consequências do acidente, mas não há menção ao trabalho da jornalista e historiadora.

Me concentro, então, no livro. Vozes de Tchernóbil teve sua primeira publicação em 1997 e chegou no Brasil em 2016 pela Companhia das Letras. Aleksiévitch compõe em seu livro vários testemunhos de bielorrussos que se tornaram “caixas-pretas” vivas do maior acidente nuclear da história. São relatos de bielorussos ex-trabalhadores da central, cientistas, professores, médicos, soldados e pessoas que moravam ilegalmente nas zonas proibidas e viveram uma tragédia nacional, pois 70% da radiação levada pelo ar contaminou a Bielorrússia, deixando 23% do seu território contaminado. (Para fins de comparação, Aleksiévitch pontua que a Ucrânia teve 4,8% do seu território contaminado e a Rússia 0,5%). Em seu livro, Aleksiévitch dá voz aos habitantes desse país que nem sequer possuía uma central atômica, mas foi o mais severamente atingido.

O tom de Vozes de Tchernóbil é o da impossibilidade de narrar o trauma. Independentemente do nível de participação no acidente, a maioria dos testemunhos são de incredulidade, da dificuldade de colocar em palavras o desconhecido, o que nunca se esperava. Essa é a grande dificuldade das pessoas que vivenciam acontecimentos traumáticos porque eles retiram a possibilidade de se construir uma narrativa sobre as próprias vidas minimamente linear e coerente. Se de acordo com Hannah Arendt, mencionando Aristóteles, em seu famoso ensaio “O Conceito de História – O Antigo e o Moderno”, “A mortalidade do homem repousa no fato de que a vida individual com uma história de vida identificável do nascimento à morte, emerge da vida biológica. (…)É isso a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha retilínea em um universo onde tudo, se é que se move, se move em uma ordem cíclica” podemos entender Chernobyl como um corte nessa linha retilínea do tempo da vida, impedindo a conexão de passado, presente e futuro em uma cadeia lógica de acontecimentos.

Chernobyl

Os moradores das regiões mais afetadas de Chernobyl estavam acostumados com a lógica da guerra, muitos haviam vivenciado de perto a Segunda Guerra Mundial, viviam a Guerra Fria, sabotagens, corrida espacial e o medo de uma bomba atômica como ocorreu em Hiroshima e Nagasaki. Dentro dessa lógica, o inimigo era claro: os EUA e o capitalismo. Chernobyl criou um inimigo invisível, a radiação, dentro do seu próprio território, traindo a confiança de uma nação que acreditava no “átomo da paz”. As usinas nucleares eram um sinal da soberania tecnológica da URSS, a ciência e a tecnologia eram confiáveis. A explosão do reator 4 jogou pelos ares a fé na ciência e na justiça social construída à tanto custo humano pelo império soviético.

O que encontramos no livro de Aleksiévitch são as reflexões de diversas testemunhas que depois de Chernobyl tiveram que reinventar a narrativa de suas próprias vidas. Nas palavras do jornalista Anatolí Chimánski em um dos testemunhos do livro: “(…)escrever? Parece arriscado. Não é seguro. Não esclarecemos nem descobriremos nada. No entanto, podemos inventar algo que se assemelhe à vida”, mas inventar sem nenhuma referência, pois não havia nada na literatura, nos filmes, na cultura que contasse algo minimamente parecido. O perigo de um inimigo invisível, a radiação, que contaminou as comidas, as casas, as árvores, os rios, o bosque, todo o ar, expulsando vários dos seus lares.  Somado a isso, o caos da desinformação, as mentiras que o estado soviético contou de que estava tudo sobre controle, a falta de instruções básicas: muitas pessoas poderiam não ter se exposto tanto à radiação com uma evacuação mais rápida, com a utilização de iodo, com instruções específicas de que tudo ao redor estava contaminado e não deveria ser utilizado. Ao mesmo tempo, muitos outros tiveram que se expor a doses altíssimas de radiação para conter o primeiro incêndio, para recolher o grafite do telhado e limpar o lixo radioativo exposto pela explosão, em troca de salários mais altos e condecorações, sem saber exatamente ao que se expunham.

Chernobyl

O relato mais marcante do livro é o da própria autora intitulado “Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo” logo no início da obra. Nele, a autora escreve que se dedica a “história omitida” e nesse livro especificamente sobre o mundo que o acidente de Chernobyl criou, sobre a vida cotidiana de centenas de pessoas comuns que vivenciaram o início de uma nova experiência do tempo que rompeu o horizonte de expectativas de uma nação. Ao terminar a leitura de Vozes de Tchernóbil, Aleksiévitch nos deixa com a seguinte pergunta: como seguir vivendo depois que se rompe o fio do tempo?


¹ A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (2016) reúne relatos das soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra Mundial. O Fim do Homem Soviético (2016) reúne relatos dos soviéticos que testemunharam o fim da URSS. As Últimas Testemunhas (2018) reúne testemunhos dos sobreviventes que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial quando crianças. Meninos de Zinco (2020) reúne relatos dos sobreviventes da Guerra do Afeganistão de 1979. Todas as datas correspondem às publicações no Brasil pela Companhia das Letras.


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