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O silêncio que revela em Meu Nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

A ideia de que a arte imita a vida está no imaginário de muitos leitores que recorrem à literatura. Há também aqueles que esperam que as obras de ficção sejam sempre coerentes, com todos os mistérios solucionados e a lacunas preenchidas, ignorando que em nossas vidas pode haver questões mal resolvidas e muito espaço para imprevistos e o contraditório. Os que buscam respostas para todas as perguntas certamente irão se frustrar com a leitura de Meu Nome é Lucy Barton da escritora norte-americana e vencedora do Prêmio Pulitzer Elizabeth Strout.

A ficção de menos de duzentas páginas na edição da Companhia das Letras, com tradução de Sara Grünhagen, é narrada pela personagem que dá título à obra e se passa durante os cinco dias em que Lucy recebeu a visita de sua mãe que ela não via há anos, enquanto estava internada no hospital por nove semanas, se recuperando de complicações em decorrência de uma cirurgia de extração do apêndice. A trama gira em torno do relacionamento de mãe e filha, repleto de afeto e conflito, em um exercício de memória de Lucy, que se tornou uma escritora de sucesso em Nova York.

As conversas entre Lucy e a mãe parecem banais. As duas fofocam sobre as enfermeiras e compartilham histórias de meninas e mulheres que Lucy conheceu na juventude, quando ainda morava numa pequena cidade rural de Amgash, em Illinois. Mas essas narrativas escondem os traumas que as personagens não conseguem discutir abertamente. Elas falam de casamentos fracassados de terceiros, mas a mãe de Lucy jamais expõe seu relacionamento com o marido, um veterano da Segunda Guerra Mundial que era frequentemente despedido por brigas com o patrão. “Esta não é a história do meu casamento”, diz Lucy a certa altura, porém o leitor tem acesso à dinâmica do casamento com William, que a visitou no hospital poucas vezes, enquanto, por meio de suas lembranças, ela explora o terreno das relações familiares para a feitura do seu romance.

A prosa de Strout é de uma franqueza brutal, com descrições comoventes, mas nunca melodramáticas, da infância de Lucy, marcada pela violência e pela pobreza. “A solidão era o primeiro gosto que eu tinha sentido na vida, e ela estava sempre ali, escondida nas fendas da minha boca, me fazendo lembrar”. Meu Nome é Lucy Barton trata, sobretudo, da solidão da personagem principal que, não encontrando espaço para vocalizar os traumas do passado devido ao silêncio das pessoas à sua volta, vê na escrita uma forma de expressão e reflexão.

“Mas os livros me traziam coisas. Essa é a minha questão. Eles faziam eu me sentir menos sozinha. E eu pensava: vou escrever e as pessoas não vão se sentir tão sozinhas!” 

Ao longo da narrativa, o leitor irá se deparar com frases como “não sei” ou “não, eu não me lembro disso”, que irão interromper conversas entre mãe e filha e deixar questões em suspenso. Mas o que pode parecer um defeito na obra de Strout é, na verdade, seu trunfo ao retratar com realismo a complicada relação de uma filha que anseia tanto pelo afeto da mãe e uma mãe que ama sua filha, ainda que tenha dificuldades em oferecer o que Lucy tanto deseja. A palavra de outra personagem traduz o cerne de Meu Nome é Lucy Barton: “Essa é uma história de amor […] É a história de uma mãe que ama a filha. De forma imperfeita. Porque todos nós amamos de forma imperfeita”.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma.

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