Categorias: LITERATURA

Troféu Valkirias de Melhores do Ano: Literatura

Livros são muita coisa. Podem muito bem representar portais para outras realidades quando essa fica pesada demais, mas sua função e utilidade não para por aí. A literatura — assim como a arte em geral — é mais do que escapismo. Fazer literatura é compartilhar uma mensagem, uma visão de mundo, um conjunto de valores. Se focamos só no que queremos escapar, acaba faltando tempo para pensarmos aonde queremos chegar. Literatura também é isso. Pensar os mundos que queremos e vê-los se materializarem diante dos nossos olhos, mesmo que em outra dimensão.

Pode parecer uma afirmação muito séria para um objeto que pode ter muitos conteúdos. E é. Tudo é disputa, tudo é político, e nessa batalha, tudo tem uma função. Livros teóricos, ensaios, histórias de amor. Não existe literatura menor. E nessa lista, você vai encontrar um pouco de tudo.

Acorda pra a Vida, Chloe Brown, Talia Hibbert

Por Debora

“Escrever os próprios desejos, mesmo que mais vagamente possível, era um passo vital para manifestar seu ideal futuro.”

Publicado pela Editora Paralela em 2021, o livro Acorda pra a Vida, Chloe Brown é o primeiro da trilogia Irmãs Brown e conta a história de Chloe, que após quase morrer em um acidente de trânsito percebe que seu obituário seria um tanto quanto… sem graça. Durante seus 31 anos de vida ela fez pouquíssimas coisas interessantes e, para mudar essa situação, ela faz uma lista de coisas que precisa completar para sentir que viveu de forma plena e completa a vida. No meio desse processo, ela se aproxima de Red, seu vizinho e zelador do prédio que ela mora. Sempre que o encontra ele parece ranzinza, taciturno e fechado. Ele, por outro lado, também tem uma má impressão dela, que vai se dissipando a medida que eles se conhecem e ele a ajuda a cumprir alguns itens da lista.

Talia Hibbert, com sua escrita viciante e que faz o leitor virar as páginas avidamente, consegue contar uma história que tem um frescor mesmo usando velhos elementos conhecidos dos amantes de romance. Uma das coisas que mais me agradou durante a leitura foi contar com o ponto de vista de ambos os protagonistas e acredito ter sido essencial para aprofundar de forma coesa e satisfatória a trama dada para Red, que no passado teve um relacionamento abusivo. Ao meu ver, a escritora trabalhou de forma sensível o assunto, de um ponto de partida pouco visto ainda, onde o homem é o que sofre com tal situação.

Chloe, por sua, vez também não teve uma boa experiência no seu último relacionamento, enquanto passava pelo processo de diagnóstico de fibromialgia. Sua doença crônica é um assunto muito tratado durante a história e como isso muda a relação de Chloe com as pessoas. Hibbert faz um ótimo trabalho ao passar para o leitor as dificuldades de conciliar a vida com a dor, mas também ao mostrar que tal diagnóstico não é o fim. Além disso, o fato de Chloe ser negra também é trabalhado de forma positiva, uma vez que não é a única característica que a define. Ela tem permissão de ser além disso, não tendo sua história resumida apenas a alguma trama triste por conta de sua cor; ao contrário, com a história de Chloe, a escritora mostra que a personagem é, sim, digna de uma história de amor, repleta de momentos fofos e cheios de carinho e cumplicidade com o interesse amoroso. Acorda pra a Vida, Chloe Brown é uma leitura rápida, que deixa o coração fofo, talvez arranque algumas lágrimas e no fim nos faz perguntar quando o amor de nossa vida baterá na porta. — Comprar! 

Aftershocks: A Memoir, Nadia Owusu

Por Ana Azevedo

“A ideia de que as raízes libertam uma pessoa é deficiente, mas o desenraizamento de seu passado, de sua nação, da família, das mães — torna o presente instável. Devemos ter, ou sempre procuramos ter, um lugar para enterrar nossos ossos.”

Aftershocks me chamou a atenção porque não é todo dia que a gente lê sobre uma mulher negra que passou metade da vida morando em diversos países do mundo porque o pai era funcionário da ONU. Sendo eu uma mulher negra que sempre sonhou em morar em vários países mas que nunca achava que isso seria possível, essa parte já me convenceu a começar essa leitura. O livro é uma autobiografia e nele Nadia Owusu tem o mundo como plano de fundo para relatar os acontecimentos de sua vida: a morte precoce de um pai amoroso, uma mãe ausente, diversas figuras maternas postiças e uma eterna procura por suas raízes.

Nadia precisou confrontar todos esses sentimentos e ausências que de certa forma sempre a acompanharam. A história é sobretudo sobre luto. Luto de pessoas que se amou, de relacionamentos que acabaram, de países que entraram em guerra, de casas que não existem mais. Eu li Aftershocks em três dias e durante esses três dias, dentro das 388 páginas desse livro, senti e chorei o luto de Nadia, mas também chorei os meus. E depois, assim como Nadia, eu também segui em frente. — Comprar! 

Clichês em Rosa, Roxo e Azul, Maria Freitas

Por Daniela Valenga

2021 foi um ano pesado. Em meio a pandemia e o Brasil de uma forma geral, era necessário encontrar um escape e fugir para uma realidade um pouco mais doce. Foi isso o que encontrei no livro Clichês em Rosa, Roxo e Azul de Maria Freitas. A coletânea lançada em abril de 2021 reúne 12 contos com personagens bissexuais e muita representatividade.

Os protagonistas são cis e trans, binários e não-binários, trisais, casais, solteiros. Eles são complexos, têm uma história de vida e são afetados pelo o que acontece ao seu redor. As histórias são recheadas de referências à cultura brasileira que nos fazem sentir orgulho do país mesmo em meio ao caos atual, com uma boa de crítica e ironia ao cenário do Brasil. As tramas vão desde um amor proibido em 1938, passando pela clássica paixão de infância, até um Papai Noel alienígena. Ou seja, ser bissexual não é o que define quem a personagem é, como é na vida real. Maria entregou representatividade e um refúgio para as mentes atormentadas por tudo o que está acontecendo ao redor. — Comprar!

Escambanáutica, Ano 1

por Paloma

A Escambanáutica é uma revista literária on-line que publica histórias de literatura especulativa (ficção científica, fantasia e horror com elementos sobrenaturais) decolonial. Essa proposta é expressa em um manifesto, que explicita os princípios e ideais do projeto — literatura latino-americana com compromisso político. Ao longo de 2021 foram lançados 4 volumes (disponíveis gratuitamente em diversos formatos), com composições variadas: no primeiro, quatro contos; no segundo, três; no terceiro, uma única novela; no quarto, duas noveletas.

A consistência da qualidade das histórias é impressionante. Isso não significa que eu não possa ter minhas favoritas. Para mim, as histórias que inauguraram e encerraram a temporada desse ano estão entre as melhores. A primeira, Monstros do Mar Têm Mães, de Ana Luiza Silva, que conta a história de Maria, uma mulher que vê o filho ser tragado pelo mar e um monstro ocupar seu lugar, foi a mais envolvente e tocante para mim. A última, Ruínas, de Luísa Montenegro, se destaca por ser narrada por um “cluster” de bonecas Hello Kitty (quase) oniscientes, e é igualmente boa, mas de um jeito bem diferente. Minha outra favorita é a que ocupa sozinha o terceiro volume: Lampião, Fogo e Trovão, de César Miranda, contando a história de um Lampião morto-vivo, que volta à vida para se vingar e reunir sua família. Essa última talvez não seja para os de estômago fraco, mas eu indico demais a leitura — é sangrenta e muito tocante, tudo ao mesmo tempo.

O projeto também tem uma newsletter, a PULPA, que conta com o envio semanal de ficções relâmpago (até 1500 palavras) sempre muito boas, e é completamente financiado coletivamente (você pode contribuir aqui, e tem várias recompensas que são muito legais para escritores).

Gótico Mexicano, Silvia Moreno-Garcia

Por Thay

“Uma mulher que não é querida é considerada uma megera, e uma megera não pode fazer quase nada, pois todas as portas estão fechadas para ela.”

Na Cidade do México da década de 1950, Noemí vive de maneira glamourosa. Jovem e rica, ela não tem muitas preocupações na vida para além da próxima festa ou do próximo namorado, embora deseje que um dia as mulheres possam ser independentes e estudar o quanto queiram. Quando o pai de Noemí recebe uma carta estranha de Catalina, prima da jovem, ela decide investigar pessoalmente o que está acontecendo e faz as malas, partindo logo para a pequena cidade de El Triunfo. Lá, Catalina vive na mansão High Place, isolada de tudo e todos após ter se casado com um inglês. As coisas parecem cada vez mais estranhas quando Noemí chega à mansão, e ali ela percebe que realmente encontrou a aventura que tanto desejava — e que isso pode não ser tão divertido quanto ela imaginava.

Gótico Mexicano, escrito por Silvia Moreno-Garcia, é um livro cativante. Do momento em que Noemí coloca os pés em High Place é possível sentir as paredes da mansão de fechando ao redor dela, sufocando e controlando tudo e a todos. A narrativa de Silvia Moreno-Garcia é impecável, e logo estamos reféns de sua trama, assim como Noemí e Catalina o são dos mistérios de High Place. A atmosfera lúgubre e repleta de neblina permeiam a narrativa e mostra que o México vai muito além do filtro amarelado que Hollywood tanto adora nos empurrar garganta abaixo. Gótico Mexicano é o livro perfeito para quem gosta de histórias intensas e misteriosas, protagonistas determinadas e casarões góticos a serem explorados por meio das palavras. — Comprar!

Para saber mais: Gótico Mexicano: o terror gótico de Silvia Moreno-Garcia

Malibu Renasce, Taylor Jenkins Reid

Por Amanda Karolyne

“Viajaram para as mesmas praias, entraram nos mesmos mares, surfaram as mesmas ondas, subiram nas mesmas pranchas. Fizeram amor com a mesma mulher.
Mas não eram a mesma pessoa. Não eram atormentados pelos mesmos demônios, nem lutavam pelas mesmas coisas.”

Uma das autoras mais queridinhas dos últimos anos tem sido Taylor Jenkins Reid. Com o seu universo literário de personagens que a gente jura que podem ser reais, nos cativou livro após livro. Depois de escrever sobre uma banda de rock em Daisy Jones & The Six, e uma atriz hollywoodiana em Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, dessa vez a autora escreve sobre a família de um personagem conhecido dos livros anteriores — e muito odiado. Os quatro filhos de Mick Riva são os protagonistas de Malibu Renasce, uma família de surfistas que ganhou a vida com o nome do pai, mas não com a presença do mesmo.

Revisitando o passado da família e voltando para um único dia, 27 de agosto de 1983, a história do livro nos leva a conhecer como Mick conheceu e se apaixonou por June, e criou com ela o início do que seria a família Riva, como Mick chegou ao estrelato e como os irmãos Riva tiveram de se reinventar. Taylor nos faz viver o dia 27 junto com os Riva, o dia em que a festa mais prestigiada do mundo de super estrelas acontece, na casa dos Riva, enquanto descobrimos como tudo chegou até ali, até Malibu pegar fogo — frase de abertura do livro.

Nesse livro, Jenkins traz outras figuras conhecidas de suas outras histórias e é divertido vê-la mencionar tais personagens, pois sentimos que eles são famosos e existiram nesse universo. E claro, Nina, Jay, Hud e Kit, os protagonistas da vez, são cativantes cada um à sua maneira, e quando chega o grande clímax, o ponto de virada da história, eles não decepcionam e entregam o drama familiar que precisávamos. Taylor Jenkins tem outras histórias que valem a leitura, mas Malibu Renasce foi um favorito de 2021 com toda a certeza. A autora diz que tem uma música de sua xará Taylor Swift para cada um de seus livros, então deixo aqui a indicação de “Clean” para Malibu Renasce. — Comprar!

Para saber mais: Malibu Renasce: o que resta das chamas

Mulheres Extraordinárias, Charlotte Gordon

por Yuu

Mãe e filha, Mary Wollstonecraft e Mary Shelley (nascida Mary Wollstonecraft Godwin) mudaram o mundo com seus escritos proeminentes de uma rica trajetória. A primeira, considerada uma das fundadoras do movimento feminista, era a filha mais velha responsável por cuidar da mãe e dos irmãos mais novos; o pai, depois de levar a família ao declínio financeiro, tinha rompantes de raiva e era alcoólatra, e apenas os irmãos tiveram o direito de estudar para desenvolver seu intelecto — às meninas era reservado apenas o ensino básico e as atividades domésticas. Felizmente, Wollstonecraft teve amigas que eram educadas e isso a inspirou a trabalhar e escrever. Entre suas várias funções, foi acompanhante de uma senhora viúva em Bath, governanta de duas filhas de uma família na Irlanda, as quais se inspiraram pelo seus  ideais, conduziu uma escola com suas irmãs, e, em Londres, foi resenhista para uma revista chamada Analytical Review. Durante esse período, começou a escrever seus manifestos e frequentar reuniões com filósofos liberais na casa de seu editor. Após uma desilusão amorosa, Mary Wollstonecraft se mudou para a França, onde continuou frequentando reuniões com colegas. Lá também vivenciou sua primeira paixão por um americano, Gilbert Imlay, com quem teve sua primeira filha, Fanny, e sofreu seus episódios depressivos mais severos que quase tiraram sua vida. Quando a Revolução Francesa se tornou crítica para os radicais, Mary retornou à Inglaterra. Abandonada por Imlay, se reaproximou de William Godwin e casou-se com ele para legitimar sua segunda filha, também chamada de Mary. Wollstonecraft faleceu 10 dias após o parto devido a uma febre puerperal.

Mary Godwin não cresceu com a presença física da mãe, mas sua influência permaneceu forte. William Godwin fez questão de transmitir para a filha o legado de Wollstonecraft; visitavam o túmulo dela com frequência e Mary aprendeu a ler passando os dedos pelo nome inscrito na lápide. Godwin incentivava as leituras de Mary sobre filosofias liberais como as que ele e Wollstonecraft acreditavam. Eventualmente, Godwin se casou novamente com uma mulher que tinha dois filhos do casamento anterior, Charles e Claire, sendo a última de idade próxima a de Mary, mas a madrasta não gostava das enteadas e tinha favoritismo pelos seus próprios filhos. Apesar disso, as meninas estavam sempre juntas, e quando Mary fugiu com Percy Bysshe Shelley, Claire os acompanhou. Vivendo em apuros financeiros, os três mudavam-se bastante, para onde acreditavam que pudessem viver a própria verdade e escrever. Românticos, defendiam o conceito de amor livre. Isso levou Percy a ter um relacionamento com Claire também, embora o amor por Mary prevalecesse. Durante o período que passaram em Genebra, onde estavam reunidos com Lord Byron, este propôs um desafio em que cada um escrevesse um conto de terror. A partir de um sonho que teve, Mary, aos 18 anos, escreveu Frankenstein, e sua produção subsequente foi bastante prolífica. Ao longo do tempo, com as perdas dos filhos, com o aumento da responsabilidade doméstica, e os desvios de Percy em momentos importantes, o relacionamento deles começou a se deteriorar. Ainda assim, quando Percy ficou viúvo de sua primeira esposa, eles legitimaram sua união. Após o falecimento de Percy, durante uma viagem marítima, Mary retornou a Londres, onde criou seu filho Percy Florence e continuou a escrever até sua morte aos 53 anos.

Essas extensas biografias foram relatadas por Charlotte Gordon no livro Mulheres Extraordinárias, traduzido por Giovanna Louise Libralon com prefácio e notas de Luziane Cecconi, publicado pela Darkside Books. A forma como estruturou livro, alternando os capítulos com a trajetória de uma e de outra, em paralelo, torna a leitura interessante por proporcionar duas opções de leitura: a original e a opção de ler os capítulos ímpares e depois dos capítulos pares para ler as biografias em continuidade. A escrita de Gordon é detalhada e fluida, mas transparece a parcialidade do seu ponto de vista. Mas, para aqueles que têm interesse em figuras feministas radicalistas, Mulheres Extraordinárias fornece um bom panorama. — Comprar!

Para saber mais: “Existe algo em minha alma que não compreendo”: Mary Shelley e o abandono

Mulher, Roupa, Trabalho, Mayra Cotta e Thais Farage

Por Thay

“Enquanto para os homens a unanimidade dessa vestimenta lhes garante o privilégio de ocupar os espaços públicos como se fossem exclusivamente deles, as mulheres precisam inventar a própria armadura e escrever os próprios códigos quase que diariamente.”

Mulher, Roupa, Trabalho — Como Se Veste a Desigualdade de Gênero é um livrinho necessário. E não digo “livrinho” para diminuir o trabalho de Mayra Cotta e Thais Farage, digo apenas devido ao fato do livro ser curtinho, porém, essencial em seu conteúdo. Ao contrário do que possa parecer em um primeiro momento, Mulher, Roupa, Trabalho não é um livro de estilo que te ajudará a se vestir para diferentes ocasiões. O trabalho da dupla Cotta e Farage é um apanhado de momentos históricos que buscam investigar a relação que as mulheres têm com as roupas de trabalho e os motivos por trás das escolhas que fazemos quando decidimos o que vestir.

Todos aqueles pensamentos que já cruzaram nossa mente em algum momento, enquanto estamos paradas na frente do guarda-roupa, mãos na cintura, analisando peça por peça e não gostando de nenhuma, estão no livro: será que essa roupa me faz parecer mais inteligente? Mais velha? Mais experiente? Será que passa seriedade, competência? Diariamente, pensamos em diferentes hipóteses e cenários para nos vestir, levando em consideração as pessoas com que vamos nos encontrar, lugares pelos quais vamos passar, e o horário em que faremos isso. Pode parecer bobagem, mas se vestir é uma questão de gênero, e nem de longe os homens precisam se preocupar tanto com uma roupa para o trabalho quanto as mulheres. Tudo isso está presente no livro escrito pro Mayra Cotta e Thais Farage, embasados em dados e pesquisas que vão muito além do look do dia. Vale muito a leitura. — Comprar!

Na Casa dos Sonhos, Carmen Maria Machado

por Paloma

“[…] às vezes uma história é destruída, às vezes ela sequer chega a ser dita; seja como for, nossa história coletiva sofre a perda irreversível de algo grandioso.”

Eu esperava um bom livro, mas o que ganhei eu não sei nem definir. Nunca tinha lido nada da Carmen Maria Machado e agora quero ler até a lista de compras dela. Não só por ser uma mulher não-heterossexual, mas porque eu tenho até dificuldade de explicar o que essa mulher fez nesse livro. Na Casa dos Sonhos é um livro diferente de todos os que já li, não só em intensidade, como em formato. Essencialmente, a obra fala sobre abuso em relacionamentos lésbicos, de forma ampla, e do relacionamento abusivo vivido pela própria autora, especificamente — mas faz isso de uma forma que transcende uma descrição objetiva de um ou outro fato ou de uma história mais ampla e linear. Um relacionamento abusivo nunca é “só” um relacionamento abusivo, ele tem raízes e ramificações que se estendem no tempo em todas as direções.

Na Casa dos Sonhos mistura crônica, conto, memórias, ensaio e sabe-se mais o que em uma narrativa multifacetada, não linear e maior do que a própria obra. Os sentimentos da autora — os felizes e os angustiados — transbordam de cada página e sugam a leitora, transmitindo de forma muito intensa e com muito sucesso nuances e sutilezas que não são facilmente transmissíveis. — Comprar!

Para saber mais: A Casa dos Sonhos como esqueletos no armário

Nós Somos a Cidade, N. K. Jemisin

Por Thay

“Se nada mais der certo, eles ao menos testemunharão que eu, nós, fomos grandes por um triunfante momento.”

Nós Somos a Cidade foi meu primeiro contato com a escrita de N.K. Jemisin e eu não poderia ter ficado mais encantada com o universo criado pela autora. Não é para menos: Jemisin é a única escritora a receber o Prêmio Hugo, um dos maiores da literatura de ficção científica, por três anos consecutivos. Só por aí eu já deveria ter imaginado o que encontraria em suas páginas. Em Nós Somos a Cidade, a autora cria uma Nova York que é tão real quanto possível, porém com um algo a mais. A aventura em que embarcamos em suas páginas é cheia de pequenas maravilhas, personagens cativantes e cheios de carisma.

Quando uma força maligna desperta, buscando destruir Nova York, a cidade acorda no corpo de um menino magrinho que vive nas ruas da metrópole. Sem saber muito bem no que foi envolvido sem sua vontade, ele faz o possível para defender a cidade, o que drena suas energias e o faz cair em um sono mágico. Enquanto ele dorme, a cidade segue sendo alvo do mal que infesta as ruas, e novos personagens surgem na narrativa para protegê-lo. Contando assim a trama parece não fazer o menor sentido, mas Jemisin é perfeita e tece a narrativa com cuidado, te fazendo virar as páginas com avidez para chegar logo ao final e descobrir como todos os desajustados se reunirão pelo bem maior. — Comprar!

Para saber mais: Nós Somos a Cidade, de N. K. Jemisin

Notas Sobre o Luto, Chimamanda Ngozi Adichie

Por Ana Luíza

“O luto é uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com as palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras. Por que sinto tanta dor e tanto desconforto nas laterais do corpo? É de tanto chorar, dizem. Não sabia que a gente chorava com os músculos.”

Poucas experiências são tão universais quanto o luto, mas a pandemia da Covid-19 a tornou também uma experiência coletiva. Em Notas Sobre o Luto, Chimamanda Ngozi Adichie escreve sobre a morte do pai, James Nwoye Adichie, falecido em 2020 em decorrência de uma infecção e posterior falência renal, com uma honestidade poucas vezes vista na literatura (mesmo que a morte e o luto sejam temas recorrentes nas artes). Ao falar de um lugar tão pessoal, a autora abre mão do que poderia ser um trabalho ambicioso, mas é também esse movimento que permite ao seu relato ser tão próximo e tão íntimo, ao mesmo tempo em que o faz tão poderoso.

Adichie não oferece respostas; sua tentativa de encontrá-las é muitas vezes frustrada, perpassa o medo, a insegurança, é pesada e cheia de dor. Ritos e lembranças se misturam à dúvida e à solidão, sentimentos evidenciados pela distância imposta pela pandemia — como foi o caso da própria autora, que estava nos Estados Unidos quando tudo aconteceu —, mas o livro continua a oferecer um estranho conforto, mesmo que palavras muitas vezes não pareçam suficientes, o que só alguém que conhece intimamente a dor da perda seria capaz de oferecer. — Comprar! 

Para saber mais: Notas Sobre o Luto: quando o coração te escapa

Os Diários de Virginia Woolf (1915 – 1918), Virginia Woolf

Por Giovanna 

“Elogios? Fama? A boa opinião de Janet? Como são irrelevantes, todos eles! Não paro de pensar em maneiras diferentes de lidar com as minhas cenas, concebendo possibilidades infinitas, vendo a vida, ao caminhar pelas ruas, como um imenso bloco opaco de material que preciso transmutar em sua forma equivalente de linguagem.”

Antes dos stories no Instagram e dos vlogs, já existiam eles: os diários. Lugar onde escrevemos sobre o que existe de mais profundo dentro de nós e sobre o que está acontecendo naquele momento. Os diários de Virginia Woolf, que foram republicados esse ano pela editora Nós, são uma coleção de textos belíssimos dividindo espaço com anotações do cotidiano e listas de compras. Por meio deles, sabemos mais sobre a vida dela que foi uma das mais talentosas escritoras do mundo e sobre o meio em que estava inserida.

Virginia conta sobre seu cotidiano em meio à Primeira Guerra Mundial, com uma série de privações — amenizadas pela sua classe social — e a vida de escritora em meio a tempos tão difíceis. Ler sobre o cotidiano de alguém que ocupa um lugar de ídolo é uma experiência única e muito inspiradora. Além disso, Virginia foi uma observadora atenta de seu tempo e das pessoas que conheceu, deixando uma série fantástica de observações sobre o seu mundo. — Comprar!

Os Garotos do Cemitério, N. K. Jemisin

Por Thay

“A única coisa mais estúpida do que fazer coisas escondido de sua família, invocar espíritos e tentar resolver múltiplos assassinatos seria se apaixonar por um menino morto.”

Quando Yadriel decide seguir adiante com um ritual mágico sem supervisão, ele não imagina que acabaria invocando um fantasma, mas foi exatamente isso o que aconteceu. Sem conseguir libertar o fantasma em questão para a próxima vida, ele faz um trato com o espírito e precisará descobrir o que aconteceu a ele para que possa, enfim, descansar. Mas nada é tão simples quanto parece ser, e enquanto Yadriel tenta descobrir quem matou o fantasma que invocou, ele também precisa lidar com um mistério que ronda o cemitério em que vive em sua família, a celebração do Dia dos Mortos que está quase chegando, e o fato de que precisar fazer com que sua família latina e tradicional o aceite como um menino trans e gay.

Os Garotos do Cemitério, livro de estreia de Aiden Thomas, é simplesmente perfeito: tem magia, fantasmas, cultura latina, personagens carismáticos e um romance adorável. Para além da trama repleta de fantasia, também acompanhamos a trajetória de Yadriel que luta para que sua identidade trans seja vista e aceita por sua família e comunidade bruxa. Aiden Thomas tem uma narrativa deliciosa de acompanhar, e a maneira como cria seus personagens faz o leitor vibrar a cada virar de página. Estou realmente ansiosa por futuros livros do autor se todos forem tão bons quanto seu trabalho de estreia. — Comprar!

Para saber mais: Os Garotos do Cemitério: a magia e o sobrenatural de Aiden Thomas

O Homem da Forca, Shirley Jackson

Por Ana Luíza

“Ela sabia, incrivelmente, que se falasse lhes contaria o que tinha acontecido; não porque desejasse muito contar a ponto de querer contar até para eles, mas porque não era uma manifestação pessoal, e sim algo que transformara todos eles ao transformar o mundo, no sentido de que só existiam de verdade na imaginação de Natalie, portanto a revolução no mundo tinha alterado seus rostos e tornado seus corações menores.”

Publicado originalmente em 1951, O Homem da Forca é o segundo romance de Shirley Jackson, antecessor de sua obra mais famosa (A Assombração da Casa da Colina, 1959) em quase dez anos, mas um thriller psicológico tão complexo quanto o que conhecemos em seus trabalhos futuros e mais amplamente difundidos. A linha tênue entre loucura e sobrenatural é explorada em pouco mais de 200 páginas, mas são páginas densas, que engolem o leitor e o mantém em seu vórtex do início ao fim. Mesmo após o fim, é impossível não continuar pensando em Natalie, nos personagens que cruzam seu caminho e nos limites da realidade, sobre o conceito de identidade.

Poucos autores foram tão bem-sucedidos em transformar o cotidiano — e, sobretudo, o cotidiano da mulher — em histórias tão aterrorizantes, embora, no caso de Jackson, elas nunca comecem exatamente dessa forma, desenvolvendo-se lentamente, ilustrando pouco a pouco as incertezas observadas por personagens tipicamente controladas e sãs. O Homem da Forca é uma leitura poderosa e atemporal, ambientada em uma realidade em que ninguém está completamente seguro e a escuridão guarda mais perigos do que podemos imaginar. — Comprar! 

Para Sempre Vou te Amar, Catherine Ryan Hyde

Por Thay

“É sempre melhor gostar das pessoas por mais razões do que somente o que elas podem fazer por você.”

Uma adolescente que precisou crescer rápido demais, uma criança com autismo, um senhor aposentando e uma cachorra chamada Rigby: esses são os elementos da trama criada por Catherine Ryan Hyde em seu livro Para Sempre Vou te Amar. Campeã em escrever histórias que aquecem o coração e trazem muitas — mas muitas mesmo — lágrimas aos olhos, em Para Sempre Vou te Amar a autora consegue se superar ao contar sobre as diferentes formas de amor que existem entre as pessoas — e os cachorros. Tramas com cachorros são meu ponto fraco e eu sabia que emocionaria com o livro, e não estava errada: cada página é uma emoção e um tocar no coração, marcas registradas da narrativa de Ryan Hyde.

A trama é cativante, aquece o coração e nos faz pensar e refletir sobre a vida, sobre como nunca devemos ter nada como garantido e como, de uma hora para a outra, tudo pode virar de cabeça para baixo e nos fazer questionar onde estamos e para onde queremos ir. Para Sempre Vou te Amar tem uma das amizades mais bonitas de se ver, uma cachorra que tem o coração maior do que o mundo e muito, muito amor.  — Comprar! 

Para saber mais: Para Sempre Vou te Amar: o amor em suas diversas formas

People We Meet on Vacation, Emily Henry

Por Debora

Vencedor do prêmio de “Melhor Romance” do Goodreads Choices Awards de 2021, People We Meet on Vacation, de Emily Henry, foi um dos poucos, e bons, livros que li esse ano. Logo nas primeiras páginas fui sugada pela escrita imersiva, viciante e fluída de Henry, que nos apresenta a história de dois melhores amigos, Poppy e Alex, que viajam regularmente para vários lugares no mundo e aproveitam suas andanças como verdadeiros aventureiros. Até que eles passam por um desentendimento e acabam se afastando, o que leva Poppy a entrar em um marasmo melancólico em sua vida e começar a questionar todas as suas escolhas.

O livro me cativou especialmente pelo modo como a escritora consegue transmitir de forma profunda e certeira o redemoinho de sentimentos que se passam dentro de uma pessoa, desde a insatisfação com a sua vida e carreira, o amor que sente por outra pessoa e como é complicado apenas viver. — Comprar!

Pequenas Coreografias do Adeus, Aline Bei

Por Karina

“sabíamos que a vida
ainda que fosse a nossa maior ruína
era também a nossa única salvação.”

Não deve ser fácil ter O Peso do Pássaro Morto como seu primeiro romance. Como seguir depois de lançar logo de estreia um livro tão bom? Se isso foi uma preocupação para Aline Bei, foi uma preocupação que não durou muito: Pequena Coreografia do Adeus, seu segundo romance, publicado pela Companhia das Letras, também é sensacional. O livro conta a história de Júlia, uma jovem adulta carregada de lembranças e de sentimentos complicados. É principalmente sobre relacionamentos — com a família, com pessoas queridas e com pessoas que ocupam aquele espaço meio randômico da vida.

A escrita que mistura prosa e poesia pela qual Aline Bei já ficou conhecida permanece neste romance e segue sendo um afago para almas cansadas. É um livro sensível, delicado e, ao mesmo tempo, forte e poderoso. Perfeito para verter lágrimas, para ficar olhando fixamente pela janela com uma expressão perdida e para pensar incansavelmente “putz, eu também já me senti assim”. Tem alguma coisa no jeito que Aline Bei constrói suas narrativas que bate. E bate lá no fundo. — Comprar!

Para saber mais: Lirismo e dor em O Peso do Pássaro Morto; O Peso do Pássaro Morto: quantas perdas cabem na vida de uma mulher?

Se a Casa 8 Falasse, Vitor Martins

por Paloma

“Na mancha de vinho no sofá que você tenta esconder com uma manta e nos buracos de prego na parede que você preencheu com pasta de dente porque viu na internet que é muito mais barato do que usar massa corrida…”

“Para aquecer o coração” é a categoria para apropriada desse livro. A mais nova publicação de Vitor Martins tem um narrador não tradicional: a própria casa 8 da Rua dos Girassóis, na cidade de Lagoa Pequena. As três tramas que compõem Se a Casa 8 Falasse se espalham por duas décadas, separadas entre si por intervalos de 10 anos, e se intercalam para apresentar seus respectivos personagens. Na primeira linha do tempo, que começa na virada do ano 1999 para 2000, temos a adolescente lésbica Ana e seu pai viúvo. Em 2010, conhecemos Greg, um adolescente gay de São Paulo, enviado para o interior para passar um tempo com a tia enquanto os pais se divorciam. Finalmente, nos encontramos com Greg, também um adolescente gay, em 2020, em plena pandemia, dividindo a casa com a mãe e a irmã.

As histórias não têm grande conexão entre si, mas todas elas se sustentam muito bem sozinhas, e não perdem o ímpeto mesmo com os capítulos intercalados — um grande feito. É, na melhor definição, um livro fofo demais. Uma leitura perfeita para um mundo já pesado demais. Precisava estar nessa lista como o raio de luz que é em qualquer dia quente de verão ou frio de inverno. — Comprar! 

Para saber mais: Um Milhão de Finais Felizes e a liberdade de escrever a própria história

The Love Hypothesis, Ali Hazelwood

Por Marina

Quando A Ascensão Skywalker estreou nos cinemas e fui presenciar a maior tragédia da galáxia, lembro-me de soltar um NÃÃÃÃOOOOO digno de Luke Skywalker quando aconteceu o beijo Reylo. Dois anos depois, surtei horrores com um livro que nasceu como uma fanfic da Rey com o Kylo Ren. The Love Hypothesis, de Ali Hazelwood (que vai ser traduzido pela Editora Arqueiro em 2022), foi um dos melhores lançamentos literários do ano e um dos meus livros de romance favoritos da vida.

Adaptando alguns personagens de Star Wars para um contexto mundano universitário, Ali cria uma trama leve e envolvente sobre dois acadêmicos que fingem um relacionamento falso (tropa do fake dating, let´s go), e foi impossível não devorar o livro (mesmo com uma barreira linguística). Pra quem não gosta ou não conhece Star Wars, a leitura segue maravilhosa, mas para vocês que acompanham com carinho (e às vezes ódio e frustração) essa saga interminável, eu lhes garanto: ESSE LIVRO FOI FEITO PARA NÓS. P.S.: para meus amigos #FinnPoeNation, a Ali entregou tudo o que precisávamos e não tivemos. — Comprar!

Três Irmãs, Jung Chang

Por Thay

“Pequenas e de queixo anguloso, não eram beldades pelos padrões convencionais: o rosto não tinha a forma de sementes de melão, os olhos não se assemelhavam a amêndoas, e as sobrancelhas não arqueavam como os brotos do salgueiro. Mas tinham a pele muito bonita, traços delicados e a postura graciosa, conjunto que se realçava pelo requinte das roupas. As três irmãs tinham visto o mundo, eram inteligentes, autoconfiantes e independentes. Em uma palavra, tinham ‘classe’.”

Três Irmãs, livro escrito por Jung Chang publicado pela Companhia das Letras com tradução de Odorico Leal, é um épico em todos os sentidos. Para além das quase 400 páginas que compõe o livro, a autora condensa séculos de história da China que são entrelaçadas pelas vidas das três irmãs do título: Ei-ling, Ching-ling e May-ling. Ei-ling, a mais velha, casou-se com o homem mais rico da China, H.H. Kung; Ching-ling, que ficou conhecida como a Irmã Vermelha, foi a companheira de Sun Yat-sen, fundador da China moderna e seu primeiro presidente; May-ling, a mais nova das três, tornou-se a Madame Chiang Kai-shek esposa do líder da República da China. As três fizeram parte de alguns dos momentos mais emblemáticos da China, desde a queda da Monarquia da Dinastia Qing, ascensão do movimento nacionalista, luta contra a invasão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial, até o governo de Mao Tsé-tung e o regime de transição com Deng Xiaoping na década de 1990.

Elas não teriam participado tão ativamente de tantos momentos históricos não fosse sua criação diferenciada: em uma sociedade patriarcal como a da China, ainda mais no início do século XX, dificilmente meninas recebiam algum tipo de educação, mas as irmãs, filhas de um rico empresário chinês, foram enviadas para estudar nos Estados Unidos. Para além do inglês fluente com que retornaram ao país natal, também possuíam uma visão de mundo privilegiada e navegavam em sua cultura com certa segurança que demais mulheres chinesas sequer sonhariam em ter. Na cultura do país, meninas, ainda bebês, tinham os pés mutilados para reproduzir o que chamavam de “pés em forma de pétalas de lírio”, um padrão estético que causava danos para o resto da vida dessas mulheres. Mas não das Três Irmãs.

Jung Chang reúne todas as essas histórias em seu livro com descrições e um trabalho de pesquisa incrível. Responsável por outra obra bastante aclamada a respeito das gerações de mulheres de sua própria família, Cines Selvagens, e pela biografia de Cixi, a Imperatriz Viúva, Chang elaborou em seu mais recente trabalho uma biografia detalhada dessas mulheres formidáveis além de um retrato das transformações pelas quais a China passou no decorrer dos anos. Três Irmãs é uma leitura essencial para quem busca mais conhecimento a respeito não apenas da China enquanto potencial mundial, mas também das mulheres que puxaram os cordões que a transformaram no que é hoje. — Comprar! 

Para saber mais: Cisnes Selvagens: memória e trauma na vida de três mulheres chinesas; Cixi, a imperatriz viúva que mudou a história da China.

Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas, bell hooks

Por Mayara

“Uma ética amorosa pressupõe que todos têm o direito de ser livres, de viver bem e plenamente.”

Vivemos tempos obscuros, de sociedades mergulhadas na cultura do ódio — ódio pela cor, pela crença, pelo gênero, pelo modo de ser do outro. Nesses tempos, escutar é raro, preferir a verdade à mentira parece fraqueza, pedir ajuda muitas vezes gera vergonha. Assim, procurar entender o amor e se ancorar em suas bases soa, de fato, como um misto de muita resistência e bravura. Ao longo de Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas (Editora Elefante, 2021, tradução de Stephanie Borges), bell hooks, uma das mais importantes intelectuais feministas da atualidade, tece uma discussão aprofundada sobre o que é o amor, sobre a ação de amar e a importância de viver uma ética do amor para a construção de uma sociedade mais consciente.

O livro de hooks trabalha não só o amor dito romântico, ou melhor, a desconstrução da imagem irreal de um amor romântico surgido do nada em uma troca de olhares. A autora vai além, discutindo o amor ao longo do desenvolvimento de uma criança e o quanto o desamor influencia esse processo, podendo ocasionar problemas na vida adulta. bell hooks insere também em suas páginas questões sobre o capitalismo e o patriarcado, estruturas com o poder de distorcer todo o ato de amar. Fala ainda sobre espiritualidade, amizades e autoaceitação. O amor nesta obra não é tratado como um sentimento inexplicável, que simplesmente existe, mas sim como algo de maior concretude, uma ação formada por um conjunto de fatores: carinho, afeição, reconhecimento, compromisso, confiança, honestidade e comunicação aberta. — Comprar! 

Uma Bruxa no Tempo, Constance Sayers

Por Ana Luíza

“Na hora, percebi como o tempo pode enganar. Não é natural testemunhar tantas mudanças radicais provocadas pelo tempo. As pessoas deveriam viver em seus pequenos bolsões de tempo e os acontecimentos deveriam ocorrer em intervalos digestíveis. Ver tanto tempo de progresso diante de nós é chocante demais — quase incompreensível. Isso nos faz duvidar de nossa importância no mundo. E sentir que somos importantes é essencial para nossa sobrevivência.”

Na França do século XIX, uma bruxa realiza um ritual para impedir que a filha adolescente tenha um filho fora do casamento depois que essa se envolve com um famoso pintor — mais velho, casado. O ritual serve ao seu propósito, mas cobra um preço caro: além da vida da bruxa, sua filha se vê presa em uma maldição que a faz renascer em diferentes épocas e lugares para viver o mesmo amor fracassado. Seja como uma atriz na década de 1930 ou uma rockstar dos anos 70, a jovem sempre viverá experiências similares com o mesmo desfecho trágico — é preciso, portanto, quebrar esse ciclo.

Ainda que se trate de uma premissa pouco inovadora, Constance Sayers consegue transformá-la, utilizando uma dinâmica relativamente simples, mas menos focada no aspecto fantástico da coisa (embora este obviamente esteja lá), priorizando, ao invés disso, as interações entre seus personagens e seu desenvolvimento particular. Sayers tem uma linguagem direta, que possibilita uma imersão fácil na narrativa, e faz com que mesmo as transições entre tempo e espaço sejam facilmente marcadas. Uma jornada fascinante. — Comprar!

Verdades do Além Túmulo, Caitlin Doughty

Por Yuu

Falar sobre a morte precisa deixar de ser um tabu. Trata-se de um aspecto intrínseco à vida, e é imprescindível discuti-la. Depois de os últimos anos terem sido caracterizados por tantas perdas, ficou ainda mais evidente que a falta de preparo torna o processo mais difícil e doloroso. E não falo apenas sobre expressar os sentimentos do luto, mas também das culturas que envolvem a morte, os aspectos burocráticos, e como encaramos o fim. Reprimir o assunto não é a melhor maneira de lidar com ele. Por isso, Caitlin Doughty tomou como missão difundir informações sobre a morte. Aqui no Brasil, os primeiros dois livros publicados pela Darkside Books foram Confissões do Crematório e Para Toda a Eternidade, o primeiro sobre seus anos trabalhando num crematório em São Francisco, e o segundo sobre as culturas da morte em outros países.

Em seu terceiro livro, Verdades do Além Túmulo, traduzido por Regiane Winarski, Caitlin responde a algumas perguntas de crianças sobre a morte. Porque é necessário educá-las também, no tempo certo, de uma maneira que não lhes cause ansiedade — um medo natural diante de um conceito tão abstrato. O título original do livro, Will My Cat Eat My Eyeballs? [O meu gato vai comer meus olhos?], é uma dessas dúvidas que passam pelas cabecinhas infantis. Contatos iniciais frequentes costumam ser a perda de um animal de estimação, ou de parentes mais velhos como os avós. E, na tentativa de compreender melhor o que é morrer, as crianças apontam para tudo que há em volta delas: “Posso ficar com o crânio dos meus pais depois que eles morrerem?”, “Por que mudamos de cor quando morremos?”, “Quando uma casa está sendo vendida, o dono tem que contar ao comprador se alguém morreu lá?”, “Posso ser enterrado no mesmo túmulo que o meu hamster?” são algumas dessas questões. Para o livro não ser tão curto, Caitlin usa sua criatividade e senso de humor para dar as respostas mais detalhadas e divertidas possíveis. Ao final, ela entrevista sua amiga Alicia Jorgeson, psiquiatra de crianças e adolescentes, para responder se esse interesse é normal numa criança. O texto foi escrito com crianças em mente, mas também entretém adultos que precisam encarar as próprias ansiedades com mais leveza. — Comprar!

Para saber mais: Caitlin Doughty e as Confissões do Crematório: vamos todos morrer mesmo

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