Categorias: LITERATURA

Daisy Jones & The Six não é uma banda real – mas eu queria muito que fosse

Durante a leitura do livro da autora Taylor Jenkins Reid fui completamente absorvida pelas histórias dos integrantes da banda, suas jornadas, conquistas e falhas, como se cada um deles fossem pessoas reais, contando histórias reais sobre a época em que eles caíam na estrada e tocavam o bom e velho rock‘n’roll. Lançado pela Companhia das Letras por meio do selo Paralela, Daisy Jones & The Six: Uma História de Amor e Música é um romance sobre uma banda dos anos 1970, o amor visceral pela música e tudo o que acontece entre uma turnê e outra.

Em entrevista para a Rolling Stones, Taylor Jenkins Reid disse que a ideia por trás de seu livro era que quem o tivesse em mãos não sentisse que estava lendo ficção, mas que estivesse ali, participando da ação com todos os personagens. Para emular a sensação e trazer essa realidade para a história que estava contando, a autora optou, então, por estruturar toda a sua narrativa em algo parecido como um documentário. “Eu queria que o livro soasse como um episódio de Behind the Music, como se você estivesse ouvindo a história diretamente dos envolvidos. Sem filtros. A conclusão que cheguei foi que deveria ser uma história oral”.

E é assim que Taylor Jenkins Reid estrutura toda a história de Daisy Jones & The Six — e o faz tão bem que, por diversos momentos durante a leitura, me frustrava ao lembrar de que aquela banda não existia, que aquelas pessoas não eram reais e que eu não poderia correr para o Spotify e colocar a playlist deles para tocar. O que Jenkins Reid construiu com seu livro é uma história que soa tão verossímil que só podemos agradecer à deusa pelo fato de que seu trabalho será transformado em uma minissérie pelas mãos de Reese Witherspoon e sua produtora, a Hello Sunshine, e com um álbum real inspirado nas músicas da trama para acompanhar. A narrativa da autora é tão impactante que ela não precisa de interlúdios para descrever ambientes ou situações, tudo funciona apenas por meio das falas dos personagens e as lembranças que eles têm dos anos 1970, da trajetória da banda, da ascensão e queda de cada um deles.

Daisy Jones & The Six: Uma História de Amor e Música é a história de uma menina de Los Angeles que parecia ter tudo: Daisy Jones nasceu em uma família rica, é dona de uma beleza estonteante e uma voz poderosa, mas ninguém a leva a sério quando o assunto é ser uma estrela do rock. Os caras só querem levá-la para a cama enquanto as mulheres desejam ser parecidas com ela, mas poucos são aqueles que se importam verdadeiramente com Daisy e com o que ela deseja para sua vida. Ignorada pelos pais desde criança, Daisy precisou aprender a se virar desde muito cedo, o que pode ser visto em sua independência exacerbada, mas também na maneira como Daisy mete os pés pelas mãos em diversos momentos ou deposita sua confiança e amor nas pessoas erradas simplesmente por precisar ter alguém ao seu lado. É por conta dessa soma de liberdade irrestrita e fé nas pessoas erradas que Daisy acaba mergulhando em um mundo de drogas e sexo enquanto tenta encontrar seu lugar ao sol como compositora e cantora, flanando como uma groupie, usando drogas e transando com diversos caras da cena do rock em Los Angeles.

Enquanto isso, do outro lado da história, está Billy Dunne. Jovem vocalista e guitarrista, ele e seu irmão Graham fundam o The Six e conseguem gravar um primeiro álbum de rock que cai no gosto da crítica e do público, iniciando uma jornada que tem tudo para ser um sucesso. Billy tem o magnetismo típico dos líderes de bandas de rock, uma voz rouca que causa calafrios e composições afiadas e românticas na mesma medida. Mas ele também é um tanto quanto tirano no que se refere às decisões da banda, tomando o controle não apenas das composições das músicas, mas também dos arranjos e produção das faixas, não permitindo muita participação por parte dos outros membros do The Six — Graham, Karen, Warren, Eddie e Pete. Ainda que Billy realmente saiba o que está fazendo, os outros membros da banda não ficam completamente satisfeitos em apenas seguir ordens quando, claramente, cada um deles é muito talentoso e pode contribuir musicalmente para que o The Six alcance o sucesso.

As trajetórias de Daisy e Billy convergem quando um produtor musical decide reuni-los para um dueto. Daisy vê a chance que esperava para conseguir cantar suas próprias músicas, enquanto Billy, após muitas negativas, entende que cantar com Daisy, a it girl dos anos 1970, é uma oportunidade para o The Six se tornar ainda mais conhecida. “Honeycomb”, a música que cantam juntos, chega ao topo de todas as paradas musicais e Daisy, que passa a ser a atração de abertura para o The Six, finalmente se conecta com aquilo que verdadeiramente deseja para si. Mas a união entre Daisy Jones e The Six não acontece com facilidade — ainda que Billy aceite fazer o dueto com ela, é uma coisa totalmente diferente tê-la permanentemente na banda visto que ele sente que colocá-la por perto é ir muito além do que está disposto a aguentar.

“Eu não tinha o menor interesse em ser a porra da musa de alguém. Eu não sou a musa. Eu sou esse alguém. E assunto encerrado.”

Além de alimentar seu livro com toda a mística do rock‘n’roll, das viagens e turnês, da dinâmica de uma banda de sucesso — com seus egos, disputas e momentos de brilhantismo — Taylor Jenkins Reid também trata, sem pudores, sobre o vício em álcool, drogas e remédios. Se no início do sucesso da banda o álcool e as drogas apareciam em camarins e ônibus de turnê apenas como “potencializadores da diversão”, não demora para que tais substâncias se transformem no combustível principal de alguns membros do The Six, causando uma série de problemas para seus integrantes e familiares próximos. Não há glamour quando um deles comenta como se sentia contente quando conseguia misturar as doses corretas de remédio e champanhe, da mesma forma como não há nada de poético quando, por conta do medo e do vício, um deles perde o parto de sua primeira filha.

Daisy Jones & The Six consegue reunir com maestria personagens cativantes e falhos em igual medida, nos fazendo torcer por eles e desejar que realmente existissem. Em sua protagonista, Daisy Jones, Taylor Jenkins Reid constrói uma mulher que é ao mesmo tempo resiliente e indefesa, contestadora e frágil. Nas mãos de outros autores — principalmente homens — Daisy poderia ter facilmente se transformado em uma manic pixie dream girl, uma personagem levemente destrambelhada e doce que surge na trama para resgatar o protagonista masculino de si mesmo, mas o olhar que Taylor Jenkins Reid imprime em Daisy vai muito além disso. Como uma mulher vivendo de música nos anos 1970, Daisy precisou bater de frente com muito homens poderosos, fossem eles agentes ou líderes de bandas que não a levavam a sério, para finalmente conquistar seu lugar ao sol. Daisy quer viver de música, compor e cantar suas próprias canções, e faz o possível para que isso se torne sua verdade.

Se ser mulher na indústria da música (e na vida) não é fácil em pleno 2019, que dirá na década de 1970, época em que Daisy buscava construir sua própria carreira. Em Daisy Jones & The Six conseguimos perceber como os problemas encarados não apenas por Daisy, mas também por Karen, tecladista da banda, são repletos de machismo e sexismo. Em um gênero musical dominado por homens, como o rock, não é raro ver mulheres sendo objetificadas em canções e apresentações, mas tanto Daisy quanto Karen possuem maneiras diferentes de lidar com a mesma questão. Enquanto Daisy não pede desculpas por ser quem é — uma moça que sabe que é linda e se veste com roupas curtas e decotadas sem se importar com o que os outros possam pensar, seja homem ou mulher —, Karen prefere manter uma postura decidida diante dos outros membros da banda, impondo seu ponto de vista sem se manter calada diante os caras. Se Daisy não se importa em ser vista e desejada, abusando das roupas reveladoras, Karen opta por tentar se misturar com o restante da banda, usa blusas de gola alta e é especialmente focada no trabalho. Uma frase de Karen, em determinado momento do livro, resume a questão:

“Ou se comportava como um dos caras — que foi o caminho que resolvi seguir —, ou dava uma de menininha e tentava ganhar todo mundo na base do charme. Eles gostavam disso.”

Os temas abordados em Daisy Jones & The Six não param por aí. A autora ainda insere questões pertinentes como aborto, o direito de escolha e autonomia do próprio corpo, e como espera-se que mulheres abram mão de suas carreiras em nome da família — o que, em contraparte, jamais é esperado, ou exigido, por parte dos homens. Sem dourar a pílula, Taylor Jenkins Reid joga a real sobre o que é ser uma mulher em um universo dominado por homens e o que isso significa para cada uma delas. Daisy precisa lidar com a descrença de todos a respeito de sua vontade de criar e cantar as próprias composições mesmo com um talento único para tal; Karen decide se tornar um dos caras para ser respeitada, mas tem suas decisões questionadas mesmo em um momento decisivo para o restante de sua vida. E mesmo Camila, a esposa de Billy, que pode parecer idealizada em alguns momentos, consegue demonstrar o quanto de fibra e força de vontade possui, que ela é muito mais do que apenas a esposa de um rockstar. Cada personagem é complexa e verossímil, única à sua maneira e totalmente crível.

Ainda que suas personagens femininas sejam o melhor de sua narrativa, Taylor Jenkins Reid também escreve boas tramas para Billy e os outros membros da banda — alguns recebem mais destaque do que outros, como é o caso do próprio Billy, além de Graham e, em menor proporção, Eddie. É fácil e simples acreditar que eles todos são reais e que de fato tocaram em uma banda na década de 1970, que pegaram a estrada, conquistaram o ponto mais alto do mundo e depois despencaram de lá. Outro ponto positivo da escrita de Taylor Jenkins Reid está, claro, nas músicas. Para Daisy Jones & The Six, a autora escreveu cada uma das músicas citadas na trama e fica ainda mais fácil imaginar como seria um dueto entre a voz potente de Daisy e a voz rouca de Billy, ou como os versos e melodias soariam como uma música de Stevie Nicks e do Fleetwood Mac. De acordo com a própria Reid, nos agradecimentos ao final do livro, foi o álbum Rumours, do Fleetwood Mac, que a inspirou a criar seu livro.

Daisy Jones & The Six é um livro documentário para uma banda que não existe, mas que eu queria muito que existisse. Para além de seu integrantes quebrados, falhos e, às vezes, muito chapados, a trama amarra as vidas de cada um deles a um amor em comum: o amor pela música. Como Daisy Jones diz em determinado momento do livro, música é sobre deixar fluir as emoções, as histórias e as verdades, e isso transborda pelas páginas escritas, com maestria, por Taylor Jenkins Reid.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte do texto é de autoria de Vishnu R Nair

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