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Stranger Things 3: O desgastante triunfo da fórmula

Hawkins, Indiana, 1985. Depois de alguns meses de relativa calmaria entre o Halloween e o feriado da independência norte-americana, coisas estranhas e o Mundo Invertido voltam a assombrar nossa comunidade favorita de losers, nerds e agregados habitando o coração da América, que mais uma vez precisa se unir para derrotar uma ameaça muito maior do que todos eles juntos, tudo isso enquanto o resto da cidade se diverte, ignorando completamente o monstro que está a espreita. Se Stranger Things 2 comprovou, a despeito de nossas dúvidas, que os irmãos Matt e Ross Duffer sabiam como fazer um raio cair duas vezes no mesmo lugar, Stranger Things 3 representa o triunfo de sua fórmula. O terceiro ano da série passa longe de ser inventivo e deixa transparecer um certo desgaste criativo que mantém mais viva do que nunca a sugestão de que a série poderia ter tido uma única temporada não fosse seu elenco tão carismático (os Duffer chegaram a sugerir Stranger Things como uma antologia).

Atenção: este texto contém spoilers.

Algumas mudanças, no entanto, são inevitáveis. Quando digo depois de alguns meses de relativa calmaria, relativa é uma palavra importante. Se o Mundo Invertido dá uma trégua a Hawkins depois de Eleven (Millie Bobby Brown) fechar o portal entre os mundos no final da temporada passada, o começo desse terceiro ano traz — para ela e para todos os seus amigos— um outro tipo de problema: a chegada da adolescência. Enquanto portais podem ser fechados e monstros derrotados, a passagem do tempo é imbatível. Para desespero de Hopper (David Harbour), a preocupação primordial com relação a Eleven agora é outra: as longas horas que ela passa dentro do quarto com Mike (Finn Wolfhard), frequentemente sem obedecer à regra previamente determinada de manter a porta aberta — oito centímetros, para ser mais exata.

Mas não é só Hopper quem tem problemas com esse namoro. Enquanto Eleven e Mike não desgrudam um do outro e Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink) terminam e reatam seu relacionamento semanalmente, o pobre Will (Noah Schnapp) só quer jogar Dungeons & Dragons e acaba se sentindo abandonado pelos amigos, que agora têm outras preocupações. Crescer tem desses descompassos, e os irmãos Duffer representam as alegrias e amarguras dessa fase da vida com bastante sensibilidade. Mais uma vez é muito positivo perceber o quão sensível e conectado é esse grupo de garotos. É claro que Mike e Lucas querem passar tempo com suas respectivas namoradas e usar da (in)experiência um do outro para tentar entendê-las melhor, o que agora é uma preocupação constante para ambos. Mas Will não se torna irrelevante para eles, e eles tentam, de sua maneira desajeitada, deixar isso claro para o amigo. Lidar com essa multiplicidade de sentimentos e conflitos internos parece muito mais complicado do que derrotar o Devorador de Mentes.

A caracterização de Hopper — que anteriormente rendeu duas indicações ao Emmy para David Harbour — nessa terceira temporada é um de seus pontos negativos, porque acaba pecando pelo excesso. Se é compreensível que tudo o que o cerca — Eleven que não para de crescer, seus sentimentos por Joyce (Winona Ryder), os ânimos acirrados devido aos muitos empreendimentos locais fechados com a chegada do primeiro shopping center de Hawkins, a versão russa de Arnold Schwarzenegger — deixe seus nervos à flor da pele, ele passa a totalidade dos oito episódios gritando, parecendo eternamente ligado no 220. Seus muitos exasperados gritos de “Joyce” dão a tônica do que é Hopper em 1985. Mas é ele, com seus gritos e rompantes dramáticos, quem consegue afastar Eleven e Mike o suficiente para que possa surgir na série algo por que esperamos muito durante seus dois primeiros anos: meninas sendo amigas. O surgimento da amizade de Eleven e Max é um dos pontos altos da temporada; seus diálogos são cômicos na medida certa e é evidente que Millie Bobby Brown e Sadie Sink se divertem em cena, extremamente em casa e confortáveis. Os Duffer parecem, ainda bem, finalmente atentos para as críticas muito pertinentes que Stranger Things recebera até então, e procuraram sanar o problema. O resultado é muito positivo. Eleven e Max fazendo compras ao som de “Material Girl” quase conseguem compensar o começo bastante arrastado da temporada (um problema, aliás, que já tinha aparecido em Stranger Things 2).

Outro acerto desse terceiro ano, que também funciona como resposta à crítica sobre até então parecer haver na série uma regra implícita segundo a qual cada um de seus núcleos só podia ter uma personagem feminina, é a adição ao elenco principal de Robin (Maya Hawke), colega de trabalho de Steve (Joe Keery) na sorveteria do novo shopping. Robin é apresentada inicialmente como uma menina engraçadinha e cool de um jeito meio nerd (ela é capaz de traduzir russo de ouvido sendo fluente apenas em inglês e línguas neolatinas), que Dustin (Gaten Matarazzo) fica insistentemente empurrando para Steve de um jeito nada sutil que quase me fez grunhir de frustração com o que parecia um roteiro muito preguiçoso. Mas sua conversa de coração aberto com Steve no piso frio e colorido dos banheiros do shopping é uma grata surpresa — como foi o próprio Steve na temporada passada. A dinâmica entre os dois funciona muito bem na tela, dinâmica essa que é dividida com Dustin e Erica (Priah Ferguson), a cômica irmãzinha de Lucas, agora promovida ao elenco principal para, aos dez anos de idade, declarar seu amor pelo capitalismo. Mais uma vez a inesperada amizade de Steve e Dustin compõe o melhor núcleo da temporada, para a surpresa de absolutamente ninguém. Só que agora ela é acrescida de não só uma mas duas garotas meio caricaturais, mas cheias de personalidade, que preenchem a tela com suas presenças marcantes. Progresso.

Se Steve parece seguir plenamente integrado ao arco maior da série, em parte pela sua localização estratégica no shopping que reúne toda a cidade, nem sempre é possível dizer o mesmo de Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), com quem ele anteriormente compôs o núcleo adolescente de Stranger Things, que agora já não existe mais. É verdade que eventualmente a investigação jornalística em que os dois se lançam os une aos outros núcleos desenvolvidos paralelamente, e que essa é exatamente a mesma estrutura das duas temporadas anteriores. Mas em oito horas de projeção não vemos nenhuma interação significativa entre Jonathan e Will, por exemplo — uma característica que tornava seu personagem, que nunca foi o mais cativante da série (como esquecer de seus tempos de stalker?), muito mais palatável. Nancy e Jonathan parecem existir em uma outra dimensão; mas enquanto Nancy ganha um arco interessante, principalmente como vítima de incontáveis atos de machismo escancarado no ambiente de trabalho, Jonathan parece só… estar lá. Personagens particularmente complexos não são o forte dos irmãos Duffer, até porque eles já deixaram claro que sempre trabalharam a partir de estereótipos. Mas Steve segue sendo a prova de que eles sabem desenvolvê-los quando se esforçam, e com Nancy e Jonathan parece que eles simplesmente não se esforçam. É claro que é legal ver Nancy Lutando Como Uma Garota, mas o mundo de Hawkins já parece pequeno demais para ela e talvez seja a hora de deixá-la ir para longe do interior do estado de Indiana (já Jonathan, na verdade, vem fazendo figuração nas tramas de Nancy desde a temporada passada).

Também vivenciando mais uma vez uma trama própria, Hopper e Joyce são mais bem sucedidos, em parte porque ambos são personagens mais carismáticos. Joyce finalmente pode relaxar, já que não precisa mais assistir a seu filho caçula sendo hospedeiro de criaturas monstruosas que ultrapassam nossa compreensão. Mas ela segue desconfiada e obstinada como sempre; é ela, de novo, quem de fato coloca Hopper em movimento. Seu núcleo, uma bela salada temperada com muita aleatoriedade, reintroduz na trama o caricato-porém-hilário teórico da conspiração Murray (Brett Gelman) e é complementado pelo meme ambulante que é Alexei (Alec Utgoff), cientista soviético representado como muito inteligente e muito, muito bobo. A trama da base soviética em pleno solo norte-americano, muitos metros abaixo do novo shopping center (justo o grande símbolo da sociedade de consumo norte-americana), talvez seja a coisa mais preguiçosa a que Stranger Things já nos apresentou. Faz todo o sentido que uma série alicerçada nas produções oitentistas norte-americanas e situada nos Estados Unidos da América em plena era Reagan tenha personagens falando em “Russos Maus” para lá e para cá. Mas a aura de mistério que envolvia o Laboratório de Hawkins, o tipo de experimento que eles realizavam lá partindo do princípio de que os fins justificam os meios, e a força da figura do Doutor Brenner (Matthew Modine), com sua ligação muito pessoal com Eleven, são elementos que em comparação tornam a base subterrânea russa — em teoria muito mais engenhosa — bem menos interessante, bem menos assustadora e bem mais pueril. Exatamente como o seu Doutor Alexei.

É Billy (Dacre Montgomery), o adolescente violento e cheio de mistérios mal-resolvidos desde Stranger Things 2, quem consegue parecer muito mais ameaçador que os Russos Maus ao ser cooptado pelo Devorador de Mentes. Depois de aparecer e se firmar no elenco principal da temporada passada sem dizer a que veio, Billy finalmente tem uma origem, uma história e uma carga dramática — Billy finalmente é um personagem. Sua história vem e vai muito rapidamente, é clichê e — de novo — um pouco preguiçosa, mas Dacre Montgomery segura as pontas o suficiente para que o personagem desperte alguma emoção, em parte ajudado pela sempre ótima Millie Bobby Brown, com quem divide suas cenas mais dramáticas. O desenrolar da trama de Billy certamente poderia ter sido melhor, até porque seu suposto arco de redenção durou minutos, ao contrário de sua crueldade, que durou a temporada anterior inteira. Mas não chegou a ser ruim — ao menos o exército que ele ajuda a reunir nas mãos do Devorador de Mentes realmente se configura como assustador (destaque positivo para a cena em que seus membros de olhar vazio cantam em uníssono “We’ll Meet Again”, canção famosa da Segunda Guerra, que passa de esperançosa a aterrorizante com grande facilidade dentro da série).

É inegável que Stranger Things 3 traz uma série de problemas que evidenciam cada vez mais as limitações dos irmãos Duffer. Talvez por isso seja até um pouco frustrante perceber o quanto eles são eficientes na construção formal da tensão conforme a temporada avança, num crescendo que eles já haviam utilizado duas vezes antes de maneira quase idêntica, mas que ainda assim simplesmente nos fisga com toda a força. É repetitivo? É. É preguiçoso usar exatamente a mesma estrutura pela terceira vez? Sem dúvidas. Mas a fórmula dos irmãos ainda tem força o suficiente para segurar o espectador, e o carisma da maior parte do elenco segue cativante, mesmo que nem sempre tenha muito material com que trabalhar (o Mike de 1983 manda saudosas lembranças ao Mike de 1985; Noah Schnapp deve sentir saudades das muitas oportunidades de entregar um bom trabalho que já teve — e cumpriu com louvor — na temporada anterior). É verdade que a tentativa mais ousada dos Duffer de sair da caixa na temporada passada, o famigerado episódio “The Lost Sister”, foi bastante massacrado (inclusive por esta que vos escreve). Mas aquela tentativa erra mais pelo timing completamente deslocado e por não se esforçar minimamente para oferecer uma alternativa realmente tentadora para Eleven entre o grupo de punks com quem ela se encontra em Chicago do que por tirar Eleven de Hawkins. Aquele único episódio faz mais para configurar o Doutor Brenner como um antagonista com alguma profundidade do que Stranger Things 3 inteira faz com os russos. É uma pena que eles tenham parado de tentar.

Ao final de suas oito horas, é verdade que Stranger Things 3 diverte, que sua estética é bonita, que os monstros do Mundo Invertido se tornam mais interessantes e visualmente impactantes a cada ano. E é especialmente verdade que a nostalgia que sempre foi seu maior trunfo continua muito viva: seja para quem viveu os anos oitenta, seja para quem só os absorveu através de seus produtos culturais muito marcantes, seja para quem, apesar de todos monstros, continua vendo ali uma representação da infância como um saudoso estado de graça. Desde que surgiu em 2016, uma parte importante do sucesso da série se relaciona com a busca por suas incontáveis referências e easter eggs, e essa busca continua firme e forte. Mas conforme os anos avançam e crianças se tornam adolescentes enquanto adolescentes se tornam adultos, transformações são inevitáveis; a série, no entanto, nem sempre parece disposta a deixá-las acontecer, e até mesmo seu final de temporada com verdadeiro potencial de renovação é imediatamente posto em dúvida por uma estratégica cena pós-créditos. Se não houver disposição para mudanças que realmente abram espaço para um desenvolvimento mais aprofundado desse grupo de personagens, o que resta é o questionamento: qual é a validade de levar adiante, ao longo de vários anos, essa história que funcionou tão bem enquanto ainda estava contida naqueles primeiros oito episódios? Será que Stranger Things não quer ser nada além de um veículo para fazer com o público um interminável jogo de adivinhação de referências?

A Netflix, que não costuma divulgar números para discutir o sucesso ou fracasso de suas produções, recentemente usou o Twitter para abrir os números de Stranger Things, declarando que a temporada é simplesmente o original mais assistido da plataforma no período inicial de quatro dias. Diante desse sucesso estrondoso, é difícil dizer o que vem pela frente: a série vai acabar antes de desgastar completamente sua fórmula? Gosto muito de Stranger Things, que em 2016 foi minha novidade preferida em matéria de televisão, e acho a história de seu sucesso aparentemente orgânico e de sua transformação num marco do streaming ótima. É justamente por isso que eu espero que todos os envolvidos saibam a hora de dizer adeus. A fórmula dos Duffer pode até ser uma mina de ouro, mas perde um pouco de seu brilho a cada ano. Que ela possa acabar enquanto ainda brilha o suficiente para talvez um dia também virar referência para os realizadores do futuro.

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5 comentários

  1. Bom dia! Concordo com vocês que a estrutura é bem próxima e que as vezes cansa. Mas acho que na crítica vocês deixaram de abordar uma questão fundamental. Não foi só a amizade de on com Max. Para mim uma das cenas mais marcantes é das duas na loja e a Max fala: você tem que ver o que é “a sua cara”. A terceira temporada trás um amadurecimento incrível de Eleven, outra frase incrível é quando ela fala para o Mike “eu faço minhas regras”. A amizade entre as duas ajuda Eleven se descobrir enquanto menina adolescente, enfrentar seus medos, cometer seus erros… e pela primeira vez longe das diretrizes de um homem. A Nancy para mim também sempre foi uma menina apagada, mas a conversa dela com a mãe quando ela é demitida também é uma discurso sensível e encorajador, até me frustrei quando a reportagem o final do último episódio não foi dela.
    Beijos e obrigada pela crítica

    1. Oi, Renata! Tem razão. Aliás, embora a caracterização da Eleven tenha sido muito criticada na temporada passada, acho que desde lá ela já vinha se configurando como uma das personagens mais bem trabalhadas da série. Agora com a terceira temporada pra mim ela é de longe a mais bem desenvolvida – não sei se foi uma decisão proposital ou se tem relação com o fato de a Eleven só estar criando uma personalidade de fato, para além do controle do Dr. Brenner, agora. Os ganchos que ficam pra uma provável quarta temporada, especialmente na questão dos poderes dela, são bem melhores do que os deixados da segunda pra terceira, e acho que podem render bastante. Vamos ver onde isso vai dar. Quanto à Nancy, acho que ela me interessava mais justamente quando todo mundo criticava, lá na primeiro ano. Pra mim lá dosaram muito bem a personagem entre o romance e o principal enredo dela, a busca pela Barb. Mas foi bacana a conversa dela com a mãe. Fiquei com a impressão de que tentaram desenvolver um pouco melhor a Sra. Wheeler, na medida do possível. Obrigada pelo comentário!

  2. Nossa. eu havia amado a tentativa de uma estrutura nova na segunda temporada, por mais que a execução tenha sido massacrada e realmente sofrível, eu achei que eles saberiam executar nesse ano e não apenas fazer o mesmo. Todos descobrindo as coisas aos poucos, alguns pontos aqui e ali e de repente estão todos juntos quase que por acaso.

    1. E o potencial do Mundo Invertido é tão grande, seria bacana se os Duffer optassem por explorar ele melhor, trazendo mais criaturas. Talvez até desse pra arranjar uns enredos mais bacanas e mais significativos pros personagens que ficaram meio esquecidos e apagados, tipo o Lucas e o Mike.

      1. Sim, parece cada vez mais repetitivo o mesmo inimigo arrumando a cada ano uma forma diferente(igual) de atacar os protagonistas. No fim parece também que estão com mais personagens do que podem trabalhar, e a cada ano mais personagens e mais conceitos que configuram um cenário com mais e mais temporadas, o que claramente não é uma boa ideia.