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A Cisterna: punitivismo, mídia e seus abismos

O cinema de Cristiano Vieira transita entre gêneros e temas distintos. Publicitário por formação, seu primeiro longa-metragem, Um Domingo de 53 Horas, de 2017, documentou o dia 17 de abril de 2016, quando a Câmara dos Deputados aceitou o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Eu Sinto Muito, de 2019, estrutura-se em uma narrativa de ficção ao centralizar as histórias de pessoas diagnosticadas com transtorno de personalidade borderline (TPB, também conhecido como transtorno de personalidade limítrofe). Eu Sinto Muito mantém a referência ao documentário ao contar com um personagem que faz as vezes de cineasta e trabalha em um documentário sobre pessoas com TPB, mas, exceto por esse detalhe, não há nada que aproxime os dois trabalhos além de serem realizados pelo mesmo diretor e possuírem como cenário a capital federal, Brasília.

A Cisterna não é diferente. Gravado em 2019, mas ambientado em um período anterior, o filme utiliza como tema central a mídia sensacionalista, personificada na figura de Lorena Ribeiro (Fernanda Vasconcellos), jornalista e apresentadora de um jornal local em ascensão. É da ascensão, quando recebe um prêmio que a consagra profissionalmente, que vem também a queda, no poço que lhe serve como cárcere; extremos que, no tempo fílmico, separam-se por alguns minutos.

Sequestrada no interior do próprio carro, Lorena é levada por seu algoz para o entorno do Distrito Federal, onde o veículo é posteriormente encontrado pela polícia. O paradeiro da jornalista ou as motivações do crime, no entanto, são mantidas em suspenso, em uma narrativa que se utiliza da alternância entre pontos de vista como forma de criar um quadro mais amplo do caso.

Vigiar e punir: a influência da mídia de massa e o espetáculo punitivo

Em Vigiar e Punir, Michel Foucault faz um panorama sobre a evolução das práticas punitivas, em particular na Europa, da época dos suplícios (a tortura espetacularizada) à sua abolição, quando o corpo humano deixa de existir “como alvo principal da repressão penal”, e sua transição para outras formas de punição — privação total ou parcial de liberdade, trabalho, pagamento de multas, etc. A obra se aprofunda nos motivos que levaram a essa transição, suas inconsistências e contradições (punir sem causar alguma espécie de sofrimento físico é, no mínimo, uma utopia), mas são discussões que não convêm a este texto, em que o espetáculo penal e seus desdobramentos são mais importantes.

A Cisterna

A supressão da tortura não acabou com as execuções públicas, mas, com o tempo, essas ganharam uma conotação negativa. Eventualmente, as punições se tornaram uma parte relativamente velada do processo penal, reservadas não mais ao olhar público, mas ao imaginário. O ímpeto social pela punição e pela violência, no entanto, não deixou de existir.

É a mídia que, eventualmente e a seu próprio modo, passa a ocupar esse espaço. A Cisterna retrata essa dinâmica a partir da própria Lorena, que, enquanto apresentadora de um programa sensacionalista, exemplifica o papel do jornalista como mediador entre notícia e audiência — não um mediador desprovido de opiniões, mas alguém que os interpreta e exprime juízo. Ambientado durante o auge da crise hídrica no Distrito Federal, Lorena denuncia a situação de famílias que passam semanas sem água, o suposto desvio de verbas públicas e o possível envolvimento de um grande político no esquema, e condena publicamente um homem que aparentemente abusa da enteada e tem seu vídeo divulgado no programa. Lorena conserva a opinião de determinados grupos sociais ao mesmo tempo em que também molda essa opinião, instiga e alimenta a revolta popular. É onde reside seu apelo e, embora suas intenções pareçam genuínas, há o interesse particular em manter a própria relevância.

Atenção: este texto contém spoilers!

O roteiro, também escrito por Vieira, tenta ir mais longe na discussão ao abordar o custo da audiência, se os fins justificam os meios, e como acusações apressadas podem prejudicar inocentes — abordagem que torna-se mais óbvia à medida que são reveladas as motivações de Chileno (Cristobal Tápia Montt), sequestrador de Lorena. Mas é ao fugir da possibilidade mais óbvia (que o sequestro pudesse ser orquestrado pelo político a quem Lorena culpa por corrupção), que o filme faz seu movimento mais falho. O crime não deixa de ser uma resposta ao trabalho pouco responsável de Lorena (que ela seja premiada justamente por ele é, no mínimo, irônico), mas que Chileno seja, na realidade, o padrasto que perde a guarda da enteada por um crime que não cometeu é um desserviço maior do que o que A Cisterna tenta denunciar.

Crimes sexuais são comumente perpassados por diversos estigmas, sendo a denúncia falsa apenas um deles. A Cisterna reforça que essas denúncias nem sempre são o que parecem ser, ainda que esse tipo de ocorrência seja raridade, sobretudo em comparação a casos efetivos. Cabe destacar, ainda, que a mudança de perspectiva (de vítima para sequestrador) desconsidera a experiência de Lorena e retira parte do peso das atitudes de Chileno, que continua um criminoso, independente de justificativas.

Suas motivações também parecem fracas diante do óbvio: que a vingança só o deixaria mais distante de recuperar a guarda da enteada. Ao contrário do que parece supor o roteiro, Chileno não é um homem a quem não resta nada a perder, um estereótipo comum à indústria hollywoodiana, mas que não se adapta com tanta facilidade à realidade brasileira. Uma vez que decide pela vingança, Chileno coloca em xeque a possibilidade de recuperar sua antiga vida — ou uma parcela dela —, não apenas no que diz respeito ao contato com a enteada, mas até mesmo à sua permanência no Brasil. Falta ao filme a sutileza e o amadurecimento para reconhecer essas nuances e ter maior compreensão sobre seus personagens. No fundo, todos parecem saídos de moldes: ganham rostos, contextos, mas ainda são personagens genéricos, com quem tampouco se cria algum tipo de conexão.

Porque o conceito de vigiar e punir não se limita ao espectro jurídico, A Cisterna incorpora à trajetória de Lorena traços do punitivismo mais frequentemente reservado à mulheres, sobretudo àquelas que fogem ao padrão patriarcalista. Mãe ausente, profissional ambiciosa e amante de um homem casado, Lorena incorpora papéis e comportamentos que não deveriam sujeitá-la a uma punição, mas é o que acontece. No filme, há sempre a tentativa de limitá-la: seja por parte do pai de sua filha, que reclama de suas ausências e atrasos, ainda que seja ela a maior provedora da menina, ou mesmo sua mãe, que de forma mais delicada induz à ideia de que Lorena precisa de mais tempo com a filha; seja por parte de seu chefe e amante, que pede que ela pegue leve nas acusações quando seu trabalho começa a incomodar pessoas em cargos mais elevados na emissora ou fora dela.

Nesse contexto, o tempo vivido na cisterna apenas reforça a noção de arrependimento necessária à sua suposta redenção. Não há uma ruptura de discurso; pelo contrário, Lorena retorna do cativeiro como uma mulher mudada, mas sua mudança ocorre em conformidade ao status quo. A culpa pesa muito mais a ela, e o retorno ao lar se torna, portanto, sua única opção de redenção. Suas cenas com a filha após o sequestro são amargas porque acontecem menos como um movimento natural e mais como a resposta de uma pessoa traumatizada, que desiste e se fecha em si mesma como forma de preservação. Mesmo fora do cativeiro, Lorena continua a viver dentro dele.

É a ironia que parece caber ao próprio filme, que não alcança profundidade suficiente para se distanciar de uma abordagem rasa, estagnada no tempo. Boas intenções dificilmente garantem bons resultados, e embora a dupla de protagonistas demonstre empenho em realizar seu trabalho, seus esforços encontram bases pouco sólidas nas quais se equilibrar. “Não dá pra fazer um filme bom com um roteiro ruim. Dá pra fazer um filme ruim com um roteiro bom, já vi acontecer com frequência. Mas o contrário é impossível”, disse George Clooney em entrevista. A Cisterna comprova como poucos a verdade da máxima.

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