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Liga da Justiça: Snyder Cut

Depois de anos de burburinho na internet a respeito do lançamento ou não da versão de Zack Snyder para Liga da Justiça, o filme finalmente está entre nós. Depois de trailers em preto e branco, pôsteres evocando um grande drama e muito choro por parte dos fanboys que queriam a versão do diretor, a pergunta que não quer calar ainda persistia: realmente precisamos de uma versão nova para Liga da Justiça com mais de quatro horas de duração? A resposta mais curta é que, não, não precisamos de um filme tão longo assim. Mas depois de assistir ao filme tal qual imaginado pelo diretor, posso dizer que também não faz mal essa versão existir. Na verdade, é até ótimo que ela exista pois Snyder conseguiu reparar alguns pontos que me incomodaram na versão de Joss Whedon, principalmente aqueles relacionados às tramas de Diana Prince (Gal Gadot) e Victor Stone (Ray Fisher).

Atenção: este texto contém spoilers!

Em linhas gerais, a trama desse filme não muda com relação a do lançado em 2017. Superman (Henry Cavill) se sacrificou para vencer Apocalipse, criado por Lex Luthor (Jesse Eisenberg), na grande batalha ao final de Batman vs Superman – A Origem da Justiça e desde então o mundo vive o luto de ter perdido seu maior símbolo de luz e esperança. Enquanto isso, as antigas Caixas Maternas começam a despertar ao sentir a morte do maior protetor dos seres humanos, cujo grito ecoou por todo o mundo. A força das caixas faz com que o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) chegue à Terra com seu exército de parademônios com o objetivo de reaver as três caixas, cada uma guardada e protegida em um ponto do planeta. Quando reunidas e sincronizadas, o poder das Caixas Maternas permitirá que Darkseid (Ray Porter) destrua mais um mundo. Enquanto isso, Bruce Wayne (Ben Affleck) se preocupa em reunir pessoas com habilidades especiais para proteger o planeta de uma ameaça que ainda está por vir — no corte de Joss Whedon, Wayne dá início ao recrutamento dos heróis após a invasão dos parademônios e as menções dos ataques que acontecem em Gotham e Metrópolis.

O Lobo da Estepe começa seu trabalho de reaver as Caixas Maternas invadindo Themyscira e lutando contra as amazonas lideradas pela Rainha Hippolyta (Connie Nielsen). Diferente do corte de Joss Whedon, a batalha do Lobo da Estepe contra as amazonas é muito mais longa e sangrenta, mostrando que o vilão teve certa dificuldade para passar pelas protetoras da caixa. No Snyder Cut, há uma valorização muito maior das habilidades das amazonas, de seus métodos de luta e de sua cultura como um todo, algo que não ocorre no filme lançado em 2017. Aqui, inclusive, o roteiro dá uma atenção particular a amazona Menalippe (Lisa Loven Kongsli), alguém por quem a Rainha Hippolyta retorna para proteger algumas vezes, dando a entender que as duas possuem algum tipo de relacionamento romântico. A questão com as armaduras das amazonas ainda permanece, visto que nada foi refilmado — enquanto em Mulher-Maravilha (2017) as armaduras desenvolvidas por Lindy Hemming parecem igualmente confortáveis e capazes de proteger sua usuária, as de Liga da Justiça são uma mistura de biquínis de couro com um desenho genérico e muita pele à mostra. Como escrevi na crítica de 2017, não há o menor problema em mulheres exibindo abdomens sarados se elas assim desejarem, mas sabemos que quando isso se relaciona à cultura pop, não é apenas essa a questão.

Liga da Justiça: Snyder Cut

Quando as amazonas são derrotadas enquanto tentam proteger a Caixa Materna, Hippolyta avisa Diana por meio de um ritual que envolve a flecha de Artemis (Aurore Lauzeral) sendo enviada para o mundo dos homens. Diana, que divide seu tempo entre trabalhar com o restauro de obras de arte e combater o crime — sua primeira aparição no filme, inclusive, é durante o impedimento a um atentado terrorista em um banco em Londres — entende logo o aviso da mãe. As cenas são basicamente as mesmas de Liga da Justiça de 2017, mas Snyder não segura os poderes da princesa amazona aqui. Há muito mais ação e força em cada aparição da Mulher-Maravilha (e eu retiraria apenas o canto inserido no meio da música tema que segue a personagem a cada cena e que me fazia perder o foco toda vez em que era usado) e ela realmente age como uma mulher poderosa que sabe do que é capaz e não precisa se provar para ninguém. No filme de Joss Whedon, Diana não tem muitos momentos para mostrar sua força, agindo mais como um apoio emocional para Bruce Wayne do que uma heroína com 5 mil anos de história. Snyder acerta onde Whedon não foi capaz, mostrando como a Mulher-Maravilha é uma personagem poderosa e uma das mais importantes da Liga da Justiça.

Na versão de Whedon, Diana é reduzida a ser uma mulher bonita em que a câmera foca de maneira sexista, o que não acontece com o trabalho de Snyder. Por mais problemas que eu tenha com as personagens femininas do diretor (olá, Sucker Punch), com a Mulher-Maravilha o diretor conseguiu se redimir um pouco se levarmos em consideração como foi a aparição da personagem em Batman vs Superman. Em sua Liga da Justiça, durante a intervenção de Diana no atentado terrorista do banco em Londres, a heroína mostra tudo o que é capaz de fazer, desviando de balas, protegendo os civis e se livrando da bomba que um deles tentou explodir. Há muito mais violência nessas cenas do que nas vistas anteriormente, mas isso, de acordo com o diretor em entrevista para a Vanity Fair, é o que você recebe ao ver seres que são praticamente deuses lutando contra humanos comuns. Ao final do resgate, uma garota diz à ela que quer ser como a Mulher-Maravilha quando crescer, no que a heroína diz que a menina pode ser o que quiser — o cringe é real, mas não seria um filme de super-heróis de Zack Snyder se as coisas não fossem um pouco bregas. Mas esse nem é o pior diálogo do filme: quando Diana diz ao Lobo do Estepe que “não pertence a ninguém”, o sentimento de vergonha é muito real.

Talvez a Mulher-Maravilha não precisasse arremessar um homem com tanta força a ponto da cabeça dele explodir na parede; ou não precisasse usar o poder de seus braceletes de maneira a explodir um andar inteiro do banco (provavelmente vaporizando o terrorista no processo), mas, pessoalmente, prefiro essa encarnação da princesa amazona do que aquela feita por Joss Whedon — aqui, a câmera não sexualiza a personagem, seus movimentos de luta são fluídos e poderosos, da maneira como tem que ser. Não acredito que estou mesmo escrevendo isso, mas ver Diana em ação em Liga da Justiça: Snyder Cut é até um bem vindo sopro de frescor depois de encarar a super-heroína em Mulher-Maravilha 1984 fugindo tanto ao personagem. Pelo menos no Snyder Cut é possível acreditar que quem está na tela é uma das heroínas mais poderosas do universo DC — o que nem sempre acontece em Mulher-Maravilha 1984.

Liga da Justiça: Snyder Cut

Outro ponto positivo do Snyder Cut é, como citei anteriormente, toda a trama envolvendo Victor Stone. Aqui descobrimos muito mais a respeito de sua história de vida, a relação conturbada com o pai, o amor pela mãe e os jogos de futebol americano. Vemos como, antes do acidente, Victor era um jovem ativo e que ajudava os amigos sempre que possível, mostrando como esse traço de sua personalidade refletiria em suas ações altruístas quando compreendesse melhor seu papel como Cyborg. Some-se a isso o fato de que durante as refilmagens de Joss Whedon o ator Ray Fisher sofreu uma série de abusos por parte do diretor para entendermos os motivos pelos quais Cyborg é apenas uma sombra do que poderia ter sido no Liga da Justiça de 2017. Em entrevista durante a Justice Con de 2020, Ray Fisher disse que o roteiro do Snyder Cut, desenvolvido pelo diretor ao lado de Chris Terrio, também recebeu suas próprias considerações a respeito da estrutura da trama envolvendo o Cyborg — e vemos em tela que isso fez toda a diferença para a construção do personagem que assistimos na nova versão. De acordo com Fisher, ele e Terrio se sentaram juntos e levantaram todas as considerações a respeito da trajetória de Victor Stone no longa visto que, além de um personagem negro, ele também interpretaria um personagem com deficiência. Ambos se preocuparam em retratar na história de Victor Stone algo que também pudesse ser visto de maneira inspiradora e que passasse longe de ser problemático.

Victor Stone foi o primeiro grande papel de Ray Fisher no cinema e é maravilhoso vê-lo se entregar por inteiro ao personagem. A maior carga dramática do longa fica por conta do Cyborg e a maneira como Fisher consegue passar todos os sentimentos de Victor é perfeita — a transição de astro do futebol americano para o filho sofrendo a ausência do pai e lidando com a morte da mãe para alguém transformado em parte humano e parte máquina que ainda não compreende por completo seu papel no mundo, é de encher os olhos. O lado bom das quatro horas de duração do Snyder Cut é que o diretor pôde levar a história de Victor Stone para outro patamar — vê-lo em diferentes momentos, lutando contra sua situação para entendê-la mais tarde, apenas enriquece sua trajetória. Victor Stone, sem dúvidas, é o personagem do Snyder Cut com maior desenvolvimento, e isso é mérito tanto de Fisher quanto de Snyder e Terrio.

Aquaman/Arthur Curry (Jason Momoa), Flash/Barry Allen (Ezra Miller) e Superman/Clark Kent, os outros heróis que compõem a Liga, no entanto, acabam não tendo um desenvolvimento tão aprofundado quanto se poderia esperar em quatro horas de filme. Claro que, para Superman a história é outra, visto que, até então, ele está morto. No caso de Arthur e seu passado com os atlantes, fica uma certa confusão a respeito do relacionamento do herói com Mera (Amber Heard), dando a entender que eles ainda não se conheciam, e o que de fato ele sabe sobre seu passado — de acordo com a linha do tempo do universo cinematográfico da DC, Aquaman (2018) se passa após Liga da Justiça. No Snyder Cut, Arthur ainda está vivendo longe de seu povo e diz não ter interesse nos assuntos atlantes, classificando-os como uma raça brutal, mesquinha e cheia de superstições. Mesmo assim, enquanto Mera combate o Lobo da Estepe de maneira a impedi-lo de tomar posse da Caixa Materna protegida pelos atlantes, Arthur aparece de surpresa para salvá-la — não sem antes Mera deixar o Lobo da Estepe baqueado pelo uso de seus poderes.

Liga da Justiça: Snyder Cut

Barry Allen, enquanto isso, está às voltas tentando encontrar um emprego que o possibilite continuar os estudos em criminologia e usa seus poderes para impedir pequenos crimes e acidentes. É dessa maneira, em uma cena que abusa da câmera lenta, que Barry salva Iris West (Kiersey Clemons) de uma colisão com um caminhão. A cena é importante por ser a introdução de Iris no universo cinematográfico da DC, mas é aquela típica inserção que é puro fanservice. Não me entenda errado, eu sei que Flash terá seu filme solo em breve e toda a mística de seu relacionamento com Iris poderá ser desenvolvida de maneira mais adequada, mas a personagem surgir para não ter qualquer fala é de certa forma frustrante. Gosto da encarnação de Barry Allen dos cinemas e Ezra Miller faz um bom trabalho como o alívio cômico em um filme que pretende ser tão sombrio, mas às vezes sinto falta do otimismo da versão de Grant Gustin no seriado da The CW — é ótimo, inclusive, que tenha até mesmo acontecido um crossover entre os Flashs, com Miller aparecendo no seriado de Gustin.

Reproduzir a Liga da Justiça no cinema, aquela que crescemos assistindo nos desenhos animados, é uma tarefa trabalhosa e mesmo com as quatro horas da produção de Snyder algumas coisas acabam fora de lugar e soam desnecessárias. A quantidade de cenas em câmera lenta incomoda um pouco, assim como a opção do diretor em filmar seu projeto em aspect ratio 4:3 parece estranha no início da reprodução, mas isso logo se perde na atmosfera do longa. Dividido em seis parte, mais o epílogo, o Snyder Cut tem, sim, seus pontos positivos, como abordado ao longo deste texto, mas também se perde em vários momentos. Ao final da produção, apenas Cyborg atingiu algum tipo de evolução pessoal visto que durante todo o filme apenas saltamos de um herói para o outro. Passamos algum tempo vendo Arthur lutar contra seus sentimentos com relação aos atlantes, Bruce viajar o mundo recrutando heróis e logo estamos assistindo Lois Lane (Amy Adams) de luto pela morte de Clark.

O luto, inclusive, é algo presente em todo o filme. Não apenas com relação à morte do Superman e seu sacrifício para proteger a humanidade, mas como parte da história pessoal do próprio Snyder. A homenagem para a filha, Autumn, que tirou a própria vida enquanto os pais trabalhavam na produção do longa, está não apenas na dedicatória do filme como também na escolha da trilha sonora: “Hallelujah”, canção de Leonard Cohen que aparece nos trailers, é também a música dos créditos com versão de Allison Crowe e a favorita da jovem. Além do luto, a relação entre pais e filhos é vista em diferentes núcleos do filme e é capaz de amarrar o roteiro em diferentes momentos. A história já conhecida entre Barry e Henry Allen (Billy Crudup), seu pai, preso injustamente pelo assassinato da mãe, nos é mostrada novamente assim como os esforços do jovem para tirá-lo da prisão; Arthur tem sérios questões de abandono por ter sido deixado com seu pai por sua mãe, a Rainha Atlanna (Nicole Kidman) e Victor tem muito a trabalhar para se sentir em bons termos com o pai, o cientista Silas Stone (Joe Morton), responsável por transformá-lo no Cyborg após o acidente que quase o matou e tirou a vida de sua mãe.

Ainda assim, Snyder assume o mesmo erro de Whedon ao retratar os vilões do filme. Na produção de 2017, o Lobo da Estepe é o único que a Liga da Justiça precisa impedir, mas na visão de Snyder ele atua como um capanga de Darkseid, que é o chefão. Gosto dessa trama por ela pavimentar o caminho para possíveis ameaças em filmes vindouros, mas assim como no trabalho de Whedon, tanto o Lobo da Estepe quanto Darkseid permanecem ocos e seus únicos objetivos são obliterar mundos porque podem fazê-lo se assim quiserem. Sem muito para desenvolver, o vilão é apenas mais um exemplo caricato entre tantos outros, um personagem que sabemos que será derrotado pela Liga visto que o próximo na lista de ameaças já foi apresentado na figura de Darkseid. A luta final entre o Lobo da Estepe é empolgante para os fãs dos heróis da Liga da Justiça e vê-los juntos é divertido, mas nada além disso.

Liga da Justiça é um filme brega em vários sentidos, desde do exagero dos momentos em câmera lenta, do canto das amazonas que soa a cada aparição da Mulher-Maravilha e em muitos diálogos, mas estamos falando de um filme de super-herói. É quase obrigatório ser brega. E isso funciona em determinados momentos, o que nos leva ao epílogo com cenas que, a princípio, nunca terão uma continuidade ou desenvolvimento no DCEU. Meu problema com o Snyder Cut é que tudo parece ter sido pensado para o que ainda virá, e não para a trama que está sendo contada naquele momento — e isso o epílogo ilustra bem. É interessante assistir a essas cenas como um exercício do que poderia ter sido, mas esses breves momentos provavelmente levarão a mais uma horda de fãs clamando por mais das visões de Snyder para os heróis da DC que, sabemos, não acontecerá, ainda mais levando em consideração que o vindouro filme do Flash é capaz de atuar como um reboot de todo esse universo.

Da mesma maneira como me diverti assistindo a Liga da Justiça de 2017, também me diverti assistindo ao Snyder Cut. Tenho minhas questões com ambas as versões, mas como alguém que cresceu assistindo as animações de Batman, Liga da Justiça e Jovens Titãs, só para citar algumas, sei que esse universo pode ser muito melhor trabalhado no cinema do que vem sendo. As interações entre os heróis e a formação da equipe são ótimas e evocam as melhores lembranças da minha infância assistindo desenhos, mas sei que eles são capazes de ir além. Liga da Justiça: Snyder Cut, resolve algumas questões importantes, entrega muito fanservice (e não há nada de errado com isso) mas peca por momentos constrangedores, principalmente em seus diálogos. A versão de 2021 melhora a de 2017 em diferentes aspectos (embora Snyder diga que não tenha visto a versão de Whedon), desenvolve melhor alguns personagens e abre as portas para um futuro que, provavelmente, não poderemos ver.

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