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Little Mix: o grupo que compreendeu uma geração de mulheres

Reveladas em 2011 pelo reality show The X-Factor, Jade Thirlwall, Leigh-Anne Pinnock, Perrie Edwards e Jesy Nelson parecem ter sido moldadas para funcionarem juntas. E foram. Seguindo a fórmula de sucesso de todas os girl groups que vieram antes, o Little Mix tem o necessário: grandes vozes, coreografias, looks combinados e uma sonoridade pop que, para além de chiclete, é melódica e liricamente bem produzida. Entretanto, o elemento que pode ter colocado o grupo como um dos maiores girl groups atualmente é a forma como as quatro, desde o début com o álbum DNA, falam a língua de uma nova geração de mulheres. Influenciado pelo eletro pop de Lady Gaga e Katy Perry, o projeto foi além “da música pop sobre se apaixonar, beber e usar drogas”, como elas bem lembram em “Not A Pop Song”, de 2020.

Sempre presentes nos créditos de composição, já em 2012, e ainda como jovens mulheres por volta dos 18 a 20 anos, as integrantes fizeram questão de colocar no repertório letras sobre uma realidade feminina para além dos estereótipos, cantando sobre amizade entre mulheres, autoaceitação e empoderamento — assuntos que estavam começando a engatinhar na época, além de um ponto de vista feminino mais incisivo em relacionamentos.

Em “How Ya Doin’ (feat. Missy Elliott)”, elas cantam sobre deixar para trás um relacionamento em que não são tratadas como merecem, pois “nenhuma maquiagem faz com que elas sejam tolas”. “Going Nowhere” segue a mesma temática e, embora possua um ritmo de balada de fim de namoro, não fica nos pesares, afinal não é possível conseguir amar um homem que não está indo lugar nenhum, fazendo com que a própria relação continue estacada.

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É interessante notar como, inicialmente, elas tomaram a decisão de não adentrar o nicho da “estrela teen comportada”, que, com o fim da grande “Era de Ouro” do Disney Channel, já parecia encontrar certa decadência, sem medo de se posicionarem com ambição, uma característica historicamente associada às mulheres supostamente mandonas e frívolas.

Já em “Always Be Together”, elas cantam versos como: “Nós sempre estaremos juntas, não se preocupe/ Eu sempre estarei ao seu lado, não se preocupe/ O ciclo nunca irá terminar/ Apenas saiba que nós nos encontraremos novamente/” e “Se precisar de mim/ Eu estou na brisa/ Procure por mim, amiga/ Eu estou nas estrelas”.

Por mais que seja clichê, em 2021 a canção soa quase uma mensagem premonitória após Jesy Nelson decidir deixar o grupo. Ganhar o The X-Factor com o Little Mix foi um gatilho de problemas para a cantora, que, desde então, passou a sofrer com ataques nas redes sociais relacionados à sua aparência. Como conta no documentário Odd One Out (2019), o cyberbulling sempre foi no sentido de compará-la às demais integrantes em questão de beleza, peso e biotipo. Os comentários a tornaram uma estranha, a “diferente”, ao ponto de ela passar a se encarar dessa forma e deixar o quarteto para preservar a própria saúde mental.

Por isso, é quase uma cruel ironia que “We Are Who We Are” tenha sido apenas o primeiro de diversos hinos de autoaceitação da banda, como se cantassem para si mesmas e não apenas para influenciar um público que passou a enxergar — apenas muito recentemente — os problemas da pressão estética institucionalizada. Em versos como “Eu tenho gastado tempo demais/ Olhando para espelhos e odiando a mim mesma, mas agora gosto do que eu vejo”, elas abraçam a imperfeição e seguem entoando essa nova forma de se aceitarem, que só se afunilou ainda mais com o passar do tempo.

Um passo a mais neste mergulho no ponto de vista feminino do eu-lírico viria apenas no álbum seguinte, Salute, de 2014, com a faixa “Little Me”. Finalmente, as canções sobre mulheres são escritas por mulheres, assim, a exploração da insegurança construída na feminilidade interna de cada uma é certeiro: “Sei que ela é corajosa, mas é uma prisioneira por dentro/ Com medo de falar, embora não saiba porquê’”.

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A forma sistemática como a sociedade anula a voz da mulher, seja podando sua assertividade, seja a colocando na limitada caixa das futilidades não é uma exclusividade das grandes estrelas. Agora adultas, as quatro conseguem compreender melhor o mecanismo que leva meninas ao silêncio compulsórios e, não por acaso, conseguem mergulhar tão bem nas camadas dessa submissão silenciosa (“Eu diria para ela falar, diria para ela gritar/ Falar um pouco mais alto, ser um pouco mais orgulhosa”).

É em “Salute”, também, que o Little Mix se vê completamente confortável para “recrutar as senhoritas ao redor do mundo” a essa realidade ideal, em que sua força é valorizada, assim como sua feminilidade de variadas e aceitáveis formas (“Coloquem seus altos de matar, tênis, sapatilhas/ Ou cadarços nas botas”). A faixa-título abre o álbum como um hino por e para as mulheres, otimista em sua essência de irmandade, pois mesmo que saúde a individualidade da mulher, deixa claro que é com um exército de “irmãs” que a época da representatividade de todas chega.

A ambição continua a ser um tema recorrente nas letras do grupo, que toma uma narrativa de adaptação para alcançar um objetivo, como em “See Me Now”, “Stand Down” e “Competition”, onde o fato de ser bem sucedida, consequentemente mais do que o parceiro, se torna uma constante competição, afinal essa ainda é uma situação que entra em conflito direto com o ego masculino e a construção patriarcal do homem provedor, ainda não superada.

A balada “Towers”, “Good Enough” e “Boy” formam a tríade dos corações partidos. O diferencial, porém, fica com a última, a qual narra uma relação que só sobrevive porquê a mulher tem medo de ficar sem o pouco que recebe do parceiro, possuindo o ponto de vista plural de quem olha de fora, das amigas que estão ao seu lado quando é necessário colocar os pés no chão e encarar o potencial autodestrutivo de um amor assim.

Trata-se de uma faixa de energia semelhante — quase um embrião — do que seria o hit “Shout Out To My Ex”, um dos singles de Glory Days (2016), onde todas as integrantes seguraram a mão de Perrie Edwards numa letra cheia de referências ao término do namoro com Zayn Malik, de quem chegou a ficar noiva. Por mais que seja um hino de superação, tanto o clipe oficial quanto as apresentações ao vivo e entrevistas, deixam claro como as companheiras de grupo se colocaram na narrativa pela amiga.

O mesmo senso de entendimento feminino está em “Hair” (de Get Weird, 2015), que já nos primeiros versos entoa: “Eu ligo para a minha a amiga/ Pois eu tenho um problema/ Que só uma garota pode resolver”. O projeto não foge dos temas da banda, já na música-título fazendo uma ode a abraçar à própria “estranheza”.

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A faixa é muito bem complementada por “Clued Up”, que desenvolve melhor as sensações desse alguém que, depois de muito tentar se encaixar, finalmente se sente bem consigo mesmo. Porém, é mais madura e mais realista no sentido de saber que, nem sempre, será como aquela exceção efervescente de sentir livre ‘e estranha’ na pista de dança.

“A.D.I.D.A.S”, por sua vez, fica marcada na discografia “littlemixiana” como a primeira vez que o grupo fala abertamente sobre sexo após muito flertar com o tema canções como “Move” e “Mr. Loverboy”. Diferente do que seria feito em “Shout Out To My Ex”, onde Perrie canta com deboche sobre a experiência ruim com o ex, que já seguiu em frente (“Espero que ela tenha um sexo melhor/ Espero que ela não finja como eu fingia, amor”), a canção é uma sigla para “All Day I Dream About Sex” (“O Dia Todo eu Sonho com Sexo”).

Nesta, o prazer feminino é tratado com naturalidade e buscado em versos como: “Servindo na cozinha/ Te faço um bolo/ Então, eu te sirvo um prato, mas isso não é o que você come, não/ Estamos ocupados fazendo todos os 50 Tons” e “Desde que eu te conheci, tenho pensado o dia todo/ Tenho buscado maneiras de te manter entretido”. O refrão é, ainda, provocativo sobre os estereótipos a respeito de como as mulheres supostamente encaram o sexo de maneira mais frívola que os homens (“Eles dizem que é subestimado/ Bem, eles não estão fazendo direito”).

A façanha é repetida no projeto de 2016, Glory Days, com o dance-pop “Touch” (“Pela primeira vez sinto que não estou fingindo/ Dedos nos meus botões e agora você está jogando”), o qual, até então, foi considerado o clipe mais sensual da carreira do grupo; “Private Show” (“Mal posso esperar pra te ter na minha zona/ Quem disse que precisamos ir devagar?/ Desligue as luzes e assista ao meu show privado”) e na autoconfiante, “Is Your Love Enough”, inspirada na sonoridade latina, que crescia à época.

Como um todo, o disco é inteiramente permeado por um tom mais atrevido e provocante, como se os anteriores fizessem parte de uma jornada que as houvesse levado até esse momento de maior maturidade e autoconfiança, como fica claro em “Down & Dirty”, onde elas revisitam o passado pelo ponto de vista da atual realidade de “divas pop internacionais” de maneira pretensiosa.

Há uma visível mudança de tom na narrativa do Little Mix, um ponto de virada, que não está mais centrado em explorar a superação de obstáculos ou se posicionar de maneira ambiciosa em sua eterna busca para chegar ao topo. Agora, elas venceram e, por mais que tenham de lidar com críticas, são capazes de reconhecer o próprio valor, a própria beleza, a própria sensualidade. Não à toa, são os dias de glória e nestes não poderia faltar um hino de empoderamento feminino.

“Power” chega para concretizar o que começou em “Salute” — agora não para buscar o poder com um exército, mas para afirmá-lo, como se já houvesse sido conquistado — com um clipe que abraça mulheres de todos os tipos, desde as integrantes da banda em suas individualidades até aquelas que acompanham o que, agora, é uma marcha pacífica, mas ainda assim muito política em todos os pontos visualmente abordados no clipe — da representatividade LGBTQIA+ até a racial, algo que Leigh-Anne só viria a falar abertamente em 2021 no documentário Leigh-Anne: Race, Pop and Power da BBC.

Após cinco anos juntas, também é possível cantar sobre experiências diferentes, testando caminho inexplorados na discografia do grupo. “F.U.” deixa de lado a sedução e a visão romântica dos relacionamentos para dar espaço à agonia de enxergar todos os sinais de uma traição, mas não conseguir terminar; enquanto “Nobody Like You” chega às vias da dependência emocional em uma letra cheia de dubiedades refletindo a autossabotagem dessa personagem que vivencia uma relação tóxica.

É no LM5, porém, dois anos depois, que elas assumem uma postura mais destemidamente política sobre os direitos das mulheres, a causa LGBTQIA+ e o cyberbullying, como se todas essas questões, antes somente tateadas, houvessem culminado no trabalho de 2018, pós Movimento #MeToo, o que as influenciou a tomar de vez uma posição ativista mais assertiva.

Trata-se de um álbum onde o Little Mix aparenta estar muito confortável como um grupo, uma época onde as integrantes já trabalharam sua autoconfiança e suas inseguranças vivendo numa indústria muito exigente em diversos sentidos, estando maduras o suficiente para carregar letras cheias de reflexões e críticas sobre tudo o que elas e seus fãs podem ser, pessoal e socialmente, como Perrie contou em entrevista: “Eu acho que todo mundo tem suas próprias inseguranças e acho que é por isso que somos uma banda. Tipo, tendo as grandes plataformas que já temos, queremos ser capazes de ensinar nossos fãs mais jovens, nossos fãs homens e nossas fãs meninas, e cada fã que temos, que ser você mesmo é o suficiente e você deveria abraçar suas inseguranças, porquê isso é o que te faz diferente e único”.

Na época, Jade revelou em um depoimento que, no primeiro ensaio feito com o grupo, teve o nariz completamente mudado e a pele embranquecida pela edição, o que lhe causou um complexo com a própria aparência. Quase dez anos depois, ela trabalhou o distúrbio de imagem e se tornou uma voz ativa quanto à pressão estética: “Eu acho que… Provavelmente acontece com bastante frequência ainda, para ser honesta. Talvez não com a gente agora, mas ainda acontece na Indústria. É apenas meio que uma obsessão por tentar criar a pessoa perfeita nas redes sociais, nas revistas e é realmente tóxico, acredito, especialmente para jovens mulheres.”

São situações assim, experienciadas por todas elas, que inspiraram canções como “Strip (feat. Sharaya J)”, “Wasabi” e “Woman’s World”, as letras que melhor definem a era LM5, captando o amadurecimento crítico do grupo.

Inteiramente calcada na ideia de se aceitar fora dos padrões, a primeira desafia o público ao amor-próprio centrado na individualidade estética de cada uma, partindo da ideia de que todas são afetadas por um sistema que prega a “beleza ideal”; enquanto isso, a segunda serve como uma crítica ácida ao tratamento especulativo e mal intencionado dos tabloides britânicos. Já “Woman’s World” reflete de forma crua, sem metáforas, sobre o machismo e a desigualdade de gênero em todos os meios. A mensagem do eu-lírico é passada de mãe para filha e não é raro que o grupo se utilize desse recurso para demonstrar a força presente nesse tipo de relação, sendo as mães das integrantes sendo referenciadas em diversas canções e até fazendo participações nos clipes de “Power” e “Strip”.

Enquanto isso, “Joan of Arc” explora o amar o outro por querer, não por necessidade, exaltando a independência feminina sem medo de serem consideradas feministas. É 2018, o debate evoluiu e a palavra já não soa mais tão assustadora quanto há pouquíssimos anos atrás, embora ainda possa ser lida em tom de desdém, como a própria canção perspicazmente ressalta. O mesmo tipo de narrativa está em “Woman Like Me (feat. Nicki Minaj)”, mas de forma a posicionar as integrantes como mulheres assertivas, conscientes que podem ser encaradas como fortes demais e até agressivas pela falta de docilidade e a liberdade de dizer o que sentem e o que querem ou não.

“Told You So” retoma a ideia das faixas “Hair” e “Boy”, porém, acertadamente, usa mais de seu tempo em valorizar as amigas que permanecem, sinceras e mordazes, mas acolhedoras na mesma medida enquanto relacionamentos vêm e vão. “Se houvesse uma música no álbum que nos definiria, seria essa”, o Little Mix contou via Instagram. Não foi a primeira vez, no entanto, que elas falaram sobre o forte senso de irmandade construído desde o início: “Não há egos, ninguém quer ser melhor do que ninguém, não há competição sobre nada. É o oposto, estamos sempre apoiando e encorajando uma a outra a ser o melhor que podemos. […] Eu acho que nossa amizade é o jeito de manter as coisas funcionando por tanto tempo.”, contou Jade ao Lorraine.

Na tracklist do LM5 também está “The Cure” que, apesar de complementar muito bem a obra, conversa diretamente com o trabalho seguinte. O “Confetti” é a liberdade advinda de seu antecessor, a cura para alguém que estava perdido, mas se encontrou de diversas formas e seguiu em frente por um caminho muito mais leve. Aqui, o Little Mix celebra a si mesmo, explorando seus temas mais seguros de forma mais descompromissada. Também, é onde elas se sentem mais confortáveis para exaltar a liberdade sexual feminina, em faixas como “Nothing But My Feelings” e nas mais sensuais, “Holiday” e “Rendevouz”, valorizando a convicção de seus desejos mais pessoais, cantadas em registros de voz bem mais baixos que os habituais.

Após o tom reflexivo e político de LM5, Little Mix retoma para a leveza do pop das pistas de dança, concretizando a retirada do próprio gênero da associação aos conteúdos vazios com a ácida “Not A Pop Song”, que discute os estereótipos da música e dos posicionamentos fabricados das próprias estrelas; além de “Gloves Up”, onde novamente são utilizados elementos pertencentes ao estereótipo da feminilidade para convocar as mulheres a mudar a própria história com a certeza de que vêm quebrando os moldes — como podem — há 10 anos, mas que ainda não é suficiente. Para a mulher, sempre haverá um tipo de luta.

E é, justamente, nesse sentimento de irmandade leal e quase inquebrável, que não desandou nem mesmo a saída de Jesy Nelson, que o Little Mix mostra como ser longevo em uma indústria que trabalha para explorá-las e colocar obstáculos às suas conquistas, ao mesmo tempo. Recentemente, o primeiro grupo feminino a vencer a categoria de Melhor Grupo em mais de 40 anos de história da premiação de maior relevância da música no Reino Unido, elas fizeram questão de ressaltar a desigualdade durante o discurso de agradecimento:

“Não é fácil ser mulher na indústria da música pop do Reino Unido. Nós vimos o domínio de homens brancos, misoginia, sexismo e falta de diversidade. Temos orgulho de como permanecemos juntas, nos mantivemos firmes, nos rodeamos de mulheres fortes e agora estamos usando nossas vozes mais do que nunca. O fato de que um grupo feminino nunca ganhou este prêmio realmente diz tudo. Então, este prêmio não é só para nós. É para as Spice Girls, Sugababes, All Saints, Girls Aloud, todos os incríveis grupos femininos, este prêmio é para vocês.”

Porém, é também sobre saber o que está cantando, para quem e compreender como ninguém a verdade do que se canta. Nisso, o Little Mix foi sensivelmente certeiro, pois havia uma geração inteira de jovens mulheres e meninas prontas a abraçar uma voz — ou quatro — que conseguisse expressar todas as diversas e complexas facetas de suas existências.

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1 comentário

  1. Eu adorei o texto, acho que coloca bem a essência de Little Mix, mas acho errado colocar a Jesy como isenta, parece que tudo foi um mar de rosas e que ela não fez as ultimas declarações atacando mulheres, mulheres das quais ela colega por anos, também o fato dela sofrer comentários de haters, eu entendo, mas também é necessário falar sobre a questão dela com o bronzeamento que também era um dos motivos e ela não é a certa nesse lado.