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A coragem de Jesy Nelson

No dia 15 de dezembro de 2020, a cantora Jesy Nelson anunciou sua saída do grupo Little Mix. Após nove anos na girlband, ela decidiu que precisava de um tempo para cuidar da sua saúde. “A verdade é que recentemente estar na banda tem realmente tido um peso na minha saúde mental”, escreveu Jesy em seu Instagram. “Acho muito difícil a constante pressão de estar em um grupo feminino e corresponder às expectativas.”

Atenção: o texto fala sobre distúrbio alimentar, distúrbio de imagem, bullying e suicídio.

Essa não é a primeira vez que Jessica Louise Nelson, de 29 anos, fala sobre como estar nos holofotes afetou sua saúde mental. No documentário Odd One Out, lançado pela BBC em 2019, a cantora fala sobre como, antes de participar do reality de competição The X Factor, era uma pessoa confiante e feliz consigo mesma. Jesy conta que, em 2011, quando ela e suas colegas de banda, Leigh-Anne Pinnock, Jade Thirlwall e Perrie Edwards, se tornaram o primeiro grupo feminino a vencer o programa, não conseguiu se sentir feliz pela conquista. Ao abrir o Facebook, tinha várias mensagens em sua inbox. A primeira que abriu, de um desconhecido, dizia: “Você é a coisa mais feia que já vi na minha vida, você merece morrer”. 

Mensagens e comentários do tipo se tornaram parte da vida de Jesy. Nas redes sociais, pessoas a diziam o quanto ela era horrível. O conteúdo era ecoado por tabloides britânicos, que já são conhecidos por sua crueldade desmedida e descarada. “Eu costumava ler esses comentários e chorar até dormir”, confessa Jesy em Odd One Out.

No documentário, a cantora lembra que, em 2013, perdeu um pouco de peso e queria muito que as pessoas reparassem. Em “preparação” para uma performance ao vivo na televisão, Jesy passou uma semana sem comer direito, preocupada com como iria aparecer e o que o público iria achar dela. Depois do show, foi avisada: não tinha adiantado, continuavam falando mal dela. Jesy estava em um dos grupos de maior sucesso da história e, ainda assim, estava infeliz.

Mulher na mídia

O mundo artístico reforça todos os estereótipos que a sociedade machista tem em relação às mulheres. Elas têm que ser eternamente jovens, sensuais, mas não muito, magras e apresentáveis o tempo todo, carismáticas, mas sem falar muito alto ou tomar muito espaço. Se forem mulheres negras, o escrutínio e a falta de reconhecimento são ainda maiores; já os salários e as oportunidades, menores e mais escassas do que para as mulheres brancas.

Um homem branco como Justin Bieber pode lançar uma música medíocre como “Yummy” e seguir com sua carreira normalmente, chegando até a ser indicado ao Grammy, enquanto uma mulher no mesmo lugar tem que se reinventar diversas vezes só para conseguir se manter relevante. Dificilmente alguém diria para Bieber que ele tem que sorrir mais ou aprender a dançar melhor para ser levado a sério. Dua Lipa teve que fazer as duas coisas, bem como inventar uma nova era, com uma novos sons e estética, e trabalhar sem parar, mesmo durante uma pandemia (o que é problemático por si só, mas o texto não é sobre isso), para que seu segundo disco, Future Nostalgia, fosse reconhecido. Sua música “Don’t Start Now” concorre com “Yummy” na categoria de Melhor Performance Solo no Grammy de 2021.

Para as artistas mulheres, almejar a perfeição se tornou a principal via de sucesso e sustentabilidade na indústria fonográfica. Mas esse caminho é perverso. Com a internet e as redes sociais, o conceito de perfeição, quando se trata de imagem, é atualizado toda semana. “Sempre tem algum conceito de beleza que você não está alcançando. Porque se você é magra o suficiente, você não tem a bunda que todo mundo quer. Mas se você tem peso o suficiente para ter essa bunda, sua barriga não é lisa o suficiente. É tudo impossível pra caralho”, diz Taylor Swift no documentário Miss Americana, de 2020, ao revelar que também sofreu um distúrbio alimentar.

Little Mix

Junto com o Little Mix, Jesy foi indicada a nove Brit Awards, a maior premiação musical do Reino Unido, e levou dois deles para casa. Foram 12 indicações e seis troféus do MTV Europe Music Awards, entre outras 110 indicações a prêmios e 37 vitórias ao longo da última década. E, ao passar mais tempo sem hiatus do que Fifth Harmony e as Spice Girls, Jesy, Jade, Leigh-Anne e Perrie reinventaram o que significa ser um grupo feminino de sucesso.

O último disco do Little Mix em sua formação original, Confetti, foi lançado em novembro de 2020. É o primeiro CD da banda após o fim do contrato com a Syco, gravadora do jurado do The X Factor, Simon Cowell, e que é conhecida por não conseguir gerenciar de forma sustentável a carreira de seu catálogo de artistas, do qual já fizeram parte Fifth Harmony e One Direction. É também um dos melhores trabalhos do grupo, com singles como “Break Up Song”, “Holiday” e o incrível Sweet Melody”, cujo clipe, cheio de atitude e com uma coreografia divertida e marcante, deixou fãs do mundo inteiro em polvorosa.

No mês de lançamento, foi anunciado que Jesy estava dando um tempo da banda por motivos médicos. Jade, Leigh-Anne e Perrie continuaram o exaustivo ciclo de divulgação do disco, que contou com dezenas de entrevistas e apresentações televisivas, incluindo as do próprio reality do grupo, o Little Mix The Search, da BBC. Em dezembro, a confirmação: ela tinha decidido sair da banda para cuidar de sua saúde. A escolha de Jesy é corajosa porque é a forma de dizer: a saúde mental vem em primeiro lugar. É uma mensagem muito importante tanto para quem está na indústria quanto para os fãs da banda, muitos deles jovens. Saúde mental ainda não é um tópico totalmente disseminado e naturalizado. Isso porque a Organização Pan-Americana da Saúde estima que uma em quatro pessoas nas Américas devem experienciar depressão ou algum tipo de distúrbio durante suas vidas.

Na posição que ocupa, ao admitir que precisa de tempo e ajuda, Jesy encoraja outras pessoas que passam por coisas parecidas a buscarem o mesmo. Ao tomar essa decisão um ano e meio após o documentário Odd One Out, onde admite sofrer com essas questões e, inclusive, já ter tentado cometer suicídio, Jesy reforça que a busca pela perfeição é falsa e frustrante. Ao contar para seus mais de 7,5 milhões de seguidores que não está bem, Jesy os lembra de que há espaço para altos e baixos e que passar por um momento difícil não é uma inconveniência, e sim algo sério que merece atenção. Ao escolher dar um tempo e sair de um ciclo que não lhe fazia bem, Jesy é muito corajosa e dá continuidade a um legado tão importante quanto o dos seus hits musicais.

Isabela Moreira é jornalista freelancer e social media. Ela escreve sobre cultura pop e comportamento em sua newsletter, cuida das redes do podcast A Terra é redonda, da revista piauí, e apresentou o podcast Westworld, da HBO.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine Gualberto.

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