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Hello, My Twenties: dos nossos problemas cuidamos nós

Apesar de uma diversidade cada vez maior de histórias e gêneros, os dramas coreanos são conhecidos principalmente por terem como tema central o envolvimento romântico entre os personagens. Embora não seja a única exceção, a comédia dramática de 2016 Hello, My Twenties (também conhecido como Age of Youth) acompanha a história de cinco jovens na faixa dos 20 anos com equilíbrio entre leveza e profundidade que torna as duas temporadas da série um entretenimento divertido, mas não raso.

Aviso: este texto contém spoilers!

A história começa com a chegada de Eun-Jae (Ji Woo), a mais nova delas, à Belle Époque, uma espécie de república onde vivem as outras personagens, já adaptadas à vida em Seul. Eun-Jae tem que se adaptar às regras da nova casa, à cidade grande, à faculdade e à convivência com um colega de faculdade com quem ela se envolve romanticamente. Logo no primeiro episódio, sabemos que assistiremos seu processo de amadurecimento, que mais tarde envolverá suas novas amigas que também moram na Belle Époque.

Quando chega à casa, Eun-Jae é recepcionada com uma pequena celebração entre as moradoras. Depois de algumas bebidas, Song Ji-Won (Eun-bin Park), uma estudante de jornalismo extrovertida e louca para arrumar o primeiro namorado, diz que vê um fantasma no hall da casa delas. De imediato, cada uma das garotas parece pensar que aquela assombração está ali por alguma razão relativa a um momento do passado delas mesmas. Para solucionar esse mistério, a trama vai acompanhando também as vidas de Jung Ye-Eun (Seung-Yeon Han), uma estudante de nutrição com um namorado que futuramente se mostrará abusivo, Yoon Jin-Myung (Yeri Han), uma estudante no fim de seu curso que é aparentemente incansável pois além de estudar, também tem dois empregos e ainda assim, misteriosamente, não tem dinheiro. Junto a elas vive também Kang Yi-Na (Hwa-young Ryu), que, ao contrário de Jin-Myung, sempre tem dinheiro, mesmo que ninguém saiba muito bem qual é a fonte dele.

Hello, My Twenties

A solução do mistério do fantasma nos conduz a um passeio pelos históricos das garotas para nos mostrar como o passado reflete na maneira como elas encaram a vida no presente. Como propõe o próprio título da série, as tramas paralelas de cada personagem envolvem realmente as questões típicas dessa idade: a dificuldade de se adaptar a uma nova turma e fazer amigos quando se chega à faculdade, o primeiro namoro, relacionamentos entre amigos, como ganhar dinheiro, a relação com a família quando se está começando a ganhar independência mas ainda não se é totalmente autônomo. Entre as amigas, apesar de inicialmente haver alguns conflitos, acaba imperando a política do não-julgamento, e isso se torna um dos pontos que mais destacam Hello, My Twenties do possível lugar comum nas histórias com personagens mulheres: a trama se desenrola sem competitividade feminina como um tema. Pelo contrário, na Belle Époque, mesmo com tantas diferenças entre as moradoras, predomina a cooperação.

É possível ver se formando entre as moradoras um claro exemplo do que chamamos de sororidade. Isso porque, ao longo dos episódios, algumas das questões das personagens acabam envolvendo todas as moradoras da casa. Na primeira temporada, Ye-Eun tem um namoro já em andamento e que começa se mostrando como qualquer outro namoro. Aos poucos, no entanto, o namorado começa a se mostrar cada vez mais ciumento, possessivo, exigente e autoritário, gradualmente levando a relação a ser abusiva. Além dos méritos de mostrar como esse processo costuma ocorrer tão lentamente que as vítimas desse tipo de relacionamento se veem presas de maneiras inimagináveis, o drama também revela as manipulações emocionais pelos quais Ye-Eun passa, sem julgá-la por seu comportamento. Em uma sociedade conservadora e tradicional como a sul-coreana, a personagem ainda é mostrada como uma católica praticante influenciada pela família a manter todos os ideais esperados para uma mulher. Sobretudo por estes motivos, mas também pelas expectativas sociais sempre prontas a culpabilizar as vítimas, ela poderia ter sido julgada por ter se deixado cair na sedução do namorado bonito e popular. Afinal, depois de um término conturbado, a jovem romântica reconquista o namorado, apenas para novamente cair em mais de seus truques, dessa vez com consequências mais sérias. Depois dessa volta, Ye-Eun é mantida em cárcere privado e é agredida. Mas ao invés de ser julgada, ela recebe apoio das amigas. Tão importante quanto não ser culpabilizada, a maneira como este ponto do enredo se resolve pode não ser um exemplo da maneira menos perigosa de se agir, mas acaba sendo uma forma de mostrar a importância da amizade como rede de apoio. Imprudentemente, as quatro amigas se dispõem a resgatar Ye-Eun assim que descobrem o que está acontecendo com ela.

Diante de uma situação onde quem assiste pode até se questionar se faria o mesmo, as quatro amigas invadem o apartamento do namorado de Ye-Eun, mesmo com medo, porque acreditam que unidas são mais fortes que o medo ou que a ameaça de um homem raivoso. Num arroubo de coragem, a mais nova no grupo acaba atacando-o e parcialmente resolvendo a questão até que as providências sejam tomadas pelas autoridades. Essa escolha do roteiro faz com que as personagens sejam multifacetadas, cheias de suas próprias fragilidades, mas fortalecidas individualmente e também quando em grupo. Um mérito que provavelmente se deve ao fato de termos uma mulher na autoria desta temporada. Yeon-seon Park também assina a próxima parte desta história, dando continuidade à narrativa das moradoras da Belle Époque.

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Numa rara segunda temporada (normalmente os dramas coreanos se resolvem em apenas uma curta temporada, como uma novela, e não é comum vermos segundas temporadas), as escolhas de fortalecer as mulheres independente de seus pares românticos ou outros homens que aparecem na trama permanece. Mais uma vez, vemos mulheres cada vez mais desenvolvidas individualmente justamente por contarem com o apoio quase incondicional uma das outras e por se unirem enquanto grupo.

No caso, o apoio é de fato quase incondicional, uma vez que entre um grupo heterogêneo, é comum que as moradoras da casa acabem se desentendendo, normalmente em relação a pequenas coisas, mas em alguns momentos sobre coisas maiores da trama também. Esses desentendimentos e pequenos julgamentos muitas vezes se tornam brincadeiras, mostrando a leveza da convivência entre elas, e até quando as diferenças entre elas são maiores, nunca as impedem de, no fim, apoiar umas às outras. Sobretudo, estes pequenos conflitos nunca chegam a se tornar grandes questões da trama porque existe diálogo entre as personagens e tentativa de resoluções cordiais, o que acaba se mostrando efetivo.

Na segunda temporada, de 2017, uma nova moradora ocupa o quarto de Yi-Na, que deixa a casa para trabalhar, mas acaba aparecendo mais algumas vezes em sua antiga casa. Jo Eun (Ah Ra Choi) vai parar na Belle Époque porque encontra, no meio de um livro de segunda mão, uma carta ameaçadora endereçada àquela residência. A personagem mantém em segredo sua razão de morar lá até porque não sabe a quem a carta se dirige. Enquanto isso, ela lida com uma relação complicada e sufocante com a mãe, o mal resolvido divórcio de seus pais, a nova família do pai e uma amizade exigente de longa data que tem ciúmes até mesmo das novas colegas de apartamento e posteriormente do relacionamento que Ye-Eun desenvolve com o morador temporário do primeiro andar.

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Enquanto isso, em sequência à temporada anterior, Ye-Eun lentamente supera seu traumático relacionamento abusivo. As amigas sempre estão ao seu lado nisso, protegendo-a sempre que preciso. A esforçada Jin-Myung, que sempre esteve no lado mais fraco da relação patrão/empregado começa a trabalhar em uma empresa de entretenimento onde ela tem, pela primeira vez, que mediar os conflitos entre chefes e os artistas que a empresa gerencia. Dividindo seus sentimentos entre responsabilidades e o quanto seu trabalho afeta, em especial, um jovem sonhador e esforçado, sua questão pessoal dessa temporada é totalmente desconectada de romance. Seu namorado aparece dando apoio às suas dificuldades no novo emprego, mas não existe conflito que o envolva. A tímida Eun-Jae, que conhece o primeiro amor, agora dá seus tortuosos passos para lidar com o primeiro término. Enquanto isso, Ji-Won, que inicialmente continua obcecada com sexo, acaba trazendo a tona um trauma do passado possivelmente relacionado ao tema. Ela pensa que, ao resolver esse mistério da infância poderá ter uma reação melhor diante do assunto e enfim namorar. Justamente ao tentar solucionar esse assunto é que a trama vai se conectando às outras garotas também, embora ainda exista um mistério inicial em relação a quem a tal carta que trouxe Jo Eun a viver ali pode ser endereçada.

Mais uma vez confrontadas com a violência de um homem, as amigas o enfrentam, apesar de seus traumas e medos. Mesmo diante da oportunidade de contar com a ajuda da polícia, Ji-Won escolhe lidar com seus problemas por si só, até mesmo para honrar a vontade de uma personagem de sua infância. Ela conta o tempo todo com o apoio incondicional das amigas, ainda que elas não concordem exatamente com seus métodos. As moradoras do Belle Époque superam juntas a situação de violência sem culpá-la, e mais tarde a buscam na delegacia quando necessário. Em uma cena que representa claramente o espírito da série de que a amizade é tão importante quanto o tão idealizado relacionamento romântico, a carona do gentil e sempre confiável Im Sung Min (Seung-Won Son), o amigo com quem Ji-Won tem um certo envolvimento não muito elaborado, é recusado pelas amigas pois elas não poderiam caber no carro. Elas preferem pagar uma alta taxa de táxi da delegacia de volta à casa, pois assim estarão juntas.

Cada uma das garotas tem suas próprias questões a resolver mais uma vez, mas novamente a escolha de Yeon-seon Park, a autora da trama, é fazer com que a cooperação feminina seja mais uma vez protagonista da história. As amigas ajudam umas às outras a superar suas questões, se consultam e se ouvem, de forma mais madura do que na temporada anterior, uma vez que o tempo e tudo que viveram as ensinam a lidar melhor com a vida.

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Em um episódio adorável, a insegura Eun-Jae finalmente tem uma conversa definitiva com seu ex para encerrar o ciclo de término e as dificuldades, humilhações e confusões de se conviver diariamente com a pessoa com quem não mais se está junto, mas por quem ainda se tem alguns sentimentos. Depois de uma conversa madura, mas cheia de estranhezas e emoções à flor da pele com o ex, os dois se entendem de fato como ex-namorados e estabelecem os limites para a relação e a convivência entre eles. Mesmo tendo chorado por todo o caminho de volta à casa, Eun-Jae é recepcionada com uma festa que as amigas preparam para celebrar o primeiro término da mais nova. Na cena, descobrimos também que todas as falas da conversa com o ex foram discutidas entre elas, que ajudaram a inexperiente Eun-Jae a elaborar um roteiro gentil, mas necessário para aquele encerramento de ciclo.

As escolhas da roteirista Yeon-seon Park desenvolvidas ao longo das duas temporadas são um refresco para as narrativas centradas em tramas românticas, mas principalmente são um exemplo de puro protagonismo feminismo, já que os homens são meros coadjuvantes. Existe romance, mas ele não é tudo, existem homens, mas eles não solucionam os problemas. Aqui, as mulheres têm suas próprias questões familiares, de trabalho, de crescimento e os homens apenas estão ali, ao lado. Quando elas próprias não conseguem resolver sozinhas seus problemas, elas podem contar umas com as outras. Tanto nas coisas mais corriqueiras, como enfrentar um término, quanto nas mais sérias, como superar um trauma ou lidar com perigos. Esta é a lição mais importante que a trama nos deixa, em meio a momentos divertidos e que também aquecem o coração.

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