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5 mulheres que estão transformando o mundo com seus trabalhos

Em Extraordinárias, livro de Duda Porto de Souza e Aryane Cararo, as autoras escrevem logo no prefácio uma frase marcante: “Cada mulher tem sua parte heroína”. Quando pensamos na figura da mulher dentro do ambiente de trabalho e como muitas delas precisam se esforçar muitas vezes mais para serem respeitadas e conseguirem se sobressair em suas respectivas áreas, essa frase ecoa com facilidade. Ainda que muito tenha sido conquistado no que se refere à luta feminina pela igualdade entre os sexos, por mais direitos e condições de vida e trabalho, as diferenças entre homens e mulheres ainda é gritante.

Dessa maneira, como forma de enaltecer mulheres que têm conseguido romper essa barreira e, ao mesmo tempo, tornaram-se inspiração para aquelas que continuam na luta, elenco cinco profissionais de diferentes áreas, contextos e vivências que estão, projeto por projeto, mudando o nosso mundo para melhor.

Ava DuVernay, cineasta

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Ava Marie DuVernay nasceu na Califórnia, Estados Unidos, em 24 de agosto de 1972. Graduou-se na Universidade da Califórnia (UCLA) onde estudou inglês e estudos afro-americanos. À época, Ava não tinha a pretensão de se tornar cineasta, mas seguir carreira no jornalismo, o que fez até certo ponto, tendo, inclusive, sido designada para cobrir o julgamento do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson quando ainda estagiava na CBS News. Mais tarde, decepcionada com a carreira no jornalismo, Ava passaria a trabalhar como relações públicas e eventualmente abriria a própria empresa, a Agência DuVernay.

Foi no cinema, no entanto, que ela obteve destaque. Seu primeiro filme, This Is The Life, de 2008, explora a cena do hip-hop alternativo, que surgiu em Los Angeles durante a década de 1990 e marcou sua estreia como documentarista — uma escolha deliberada da cineasta, que podia realizar suas produções com um orçamento mais modesto do que seria possível em um longa-metragem de ficção, por exemplo. O filme recebeu inúmeros prêmios e foi bastante aclamado pela crítica, impulsionando sua carreira. Em 2011, ela lançou seu primeiro filme de ficção, I Will Follow, e ainda no mesmo ano iniciou a produção de um segundo filme, Middle of Nowhere, que lhe renderia o prêmio de Melhor Direção no Festival de Sundance, em 2012, tornando-a a primeira mulher negra a ser premiada na categoria. Mais tarde, Ava chegaria ao Oscar, dessa vez com Selma, filme centrado nas marchas de Selma a Montgomery pelos direitos dos negros nos Estados Unidos em 1965, que culminaram na aprovação da Lei dos Direitos ao Voto no mesmo ano. O filme recebeu duas indicações ao prêmio, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Canção Original, tendo vencido a última. A ausência do nome de DuVernay na categoria de Melhor Direção, categoria que já se destaca pela ausência massiva de mulheres, reforçou os debates que permearam a cerimônia daquele ano a respeito da falta de diversidade e do racismo sistêmico na indústria cinematográfica.

A falta de reconhecimento não fez com que Ava desanimasse, no entanto. Pelo contrário, ela continuou não apenas a produzir seus próprios filmes, mas garantir que outras produções voltadas para a trajetória de pessoas negras fossem distribuídas de forma mais ampla. Sua distribuidora, primeiramente chamada African-American Film Festival Releasing Movement, tornou-se responsável pela distribuição e por criar bases sólidas para esses filmes, um trabalho que, nas palavras da própria Ava, era menos sobre um negócio e mais um apelo à ação. A empresa alterou o nome em 2015 para ARRAY, consequência de um novo posicionamento que passaria a focar também no trabalho realizado por mulheres. Nesse meio tempo, Ava DuVernay dirigiu outros filmes, tendo alcançado mais um feito inédito: o de se tornar a primeira mulher negra a dirigir um filme com orçamento superior a 100 milhões de dólares, com sua adaptação de Uma Dobra no Tempo.

Rosaly Lopes, astrônoma

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Nascida no Rio de Janeiro, em 8 de janeiro de 1957, Rosaly Lopes é astrônoma, geóloga planetária e vulcanóloga, que desde 1991 trabalha na NASA. Mudou-se para Londres em 1975, onde formou-se em Astronomia, inspirada principalmente pelo trabalho de Frances “Poppy” Northcutt, a primeira engenheira a trabalhar no Centro de Controle da NASA durante a Missão Apollo 8 e uma das poucas mulheres de destaque durante o auge da Corrida Espacial. Ao longo de seu último semestre na faculdade, Rosaly fez um curso de ciência planetária, mas o abandonou na terceira semana, após o Monte Etna, na Itália, explodir; ocorrido que impulsionou uma mudança em sua carreira. A partir de então, ela preferiu mudar de área e especializar-se no estudo de vulcões, tanto na Terra quanto em outros planetas.

Em 1989, Rosaly passou a integrar a Missão Galileo, que buscava estudar o planeta Júpiter. Durante esse período, ela analisou os vulcões de Io, uma das quatro grandes luas do planeta, descobrindo posteriormente a existência de 71 vulcões ativos em sua superfície. Com a descoberta, a astrônoma passou a integrar o Guinness Book como a pessoa que descobriu mais vulcões ativos em qualquer lugar, fosse do mundo ou do universo. Atualmente, Lopes analisa dados da Missão Cassini, que explorou o planeta Saturno e suas Luas. Também se tornou editora-chefe da revista científica Icarus, onde são publicados trabalhos sobre ciências planetárias. Rosaly Lopes é, também, autora de mais de 100 trabalhos e oito livros e, ao longo de sua carreira, foi consagrada com diversos prêmios, incluindo a medalha Carl Sagan, da American Astronomical Society.

Malala Yousafzai, ativista

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Ativista paquistanesa, Malala Yousafzai tornou-se conhecida principalmente pela defesa dos direitos humanos de mulheres, em especial sobre o acesso à educação, proibido em seu país pelo Talibã durante a primeira década dos anos 2000. Nascida em 12 de julho de 1997, Malala começou a escrever sobre sua realidade ainda na pré-adolescência para um blog da BBC, sob o pseudônimo Gul Makai. Sua popularidade aumentou consideravelmente quando tornou-se protagonista do documentário do The New York Times. Intitulado Class Dismissed: Malala’s Story, o filme dirigido por Adam B. Ellick acompanha a rotina de Malala, detalhando sua vivência como jovem mulher durante a ocupação Talibã.

Em outubro de 2012, Malala foi alvo de um ataque enquanto ia para a escola: um homem armado a chamou pelo nome e disparou três tiros em sua direção. Uma das balas atingiu o lado esquerdo de sua cabeça, deixando-a inconsciente e em estado grave por vários dias. A tentativa de assassinato desencadeou o apoio de comunidades nacionais e internacionais à causa defendida pela garota, fazendo com que, mais tarde, o enviado especial das Nações Unidas para a Educação Global, Gordon Brown, lançasse uma petição em nome de Malala onde exigia que todas as crianças do mundo estivessem inscritas na escola até o fim de 2015. A petição motivou a retificação da primeira lei de direito à educação no Paquistão.

Malala deixou o hospital no início de 2013, depois de quase três meses de internação. Desde então, continua seu trabalho como ativista, lutando, principalmente, para garantir o direito de jovens mulheres à educação. Em vista de seu importante trabalho, em outubro de 2014, Malala foi agraciada com o Nobel da Paz, tornando-se a pessoa mais jovem a receber o prêmio, posto antes ocupado pelo físico australiano Lawrence Bragg, que recebeu o Nobel de Física aos 25 anos. Entre outros prêmios recebidos por Malala estão o Prêmio Nacional da Paz da Juventude, em 2011, o Prêmio Romano pela Paz e Ação Humanitária, em 2012, e o Prêmio Internacional da Criança, em 2013, mesmo ano em que estampou a capa da revista Times e foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

Zhenan Bao, cientista

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A cientista Zhenan Bao nasceu na China, em 1970, mas mudou-se com os pais para os Estados Unidos na década de 1990. Filha de professores universitários (seus primeiros ensinamentos sobre polímeros químicos foram realizados no laboratório de sua mãe, na Universidade de Nanjing), Bao frequentou a Universidade de Chicago, onde tornou-se Ph.D. em Química. Após a conclusão de seus estudos e breves experiências profissionais em laboratórios e empresas de tecnologia, Zhenan passou a trabalhar no laboratório da Universidade de Stanford, em 2004, onde também leciona. Desde então, tem voltado o foco de suas pesquisas para a produção de materiais híbridos e a criação de eletrônicos flexíveis.

Mais do que criar celulares dobráveis ou tablets cuja tela nunca se quebra, Bao deseja ser capaz de reproduzir as mesmas propriedades da pele humana em sua pesquisa — o que já está fazendo. Até o momento, a cientista foi capaz de reproduzir a flexibilidade, a esticabilidade e a sensibilidade comuns à pele humana. Com o sucesso do seu trabalho, ela será capaz de criar exames médicos contínuos, que possam avaliar o paciente durante um dia inteiro, por exemplo, ou baterias mais seguras e sensíveis ao calor, impedindo acidentes. Além disso, a reprodução da pele humana também representaria um avanço considerável na produção de próteses, que se tornariam sensíveis e capazes de enviar sinais ao cérebro humano. Devido ao seu trabalho, Bao foi agraciada com inúmeros prêmios, o último deles sendo o L’Oréal-UNESCO For Women in Science, dedicado ao reconhecimento de mulheres que estão mudando o mundo com seus trabalhos nas áreas de ciência e tecnologia.

Shonda Rhimes, roteirista e produtora

Mente responsável por séries como Grey’s Anatomy e Scandal, não é exagero dizer que Shonda Rhimes transformou a televisão norte-americana. Nascida em Chicago, Illinois, em 1970, a produtora, roteirista e diretora iniciou sua carreira na década de 1990, após concluir os estudos na Dartmouth College e na USC School of Cinematic Arts. Seu primeiro trabalho como diretora foi o curta-metragem Blossoms and Veils, estrelado pela atriz Jada Pinkett-Smith e pelo ator Jeffrey Wright, em 1998. A partir de então, Rhimes escreveu e produziu inúmeras produções, como o filme Crossroads, protagonizado por Britney Spears, e as duas adaptações de O Diário da Princesa.

Foi em 2005, com a estreia de Grey’s Anatomy, que Shonda passou a ter maior visibilidade. Na série, a roteirista narra o cotidiano de Meredith Grey (Ellen Pompeo), uma jovem médica em início de carreira e seus colegas de trabalho. O sucesso da série fez com que Shonda passasse a ter sua imagem associada à história que havia criado; ela já não era apenas um nome nos créditos, mas um rosto reconhecido pelo seu trabalho. Mais do que isso, Grey’s Anatomy foi revolucionária ao trazer para a televisão norte-americana um elenco diverso em gênero, raça e orientação sexual, um feito relativamente inédito até então. Em seu livro de memórias, Rhimes conta que sempre lhe pareceu óbvio que essas pessoas estivessem em todos os lugares, era natural que elas também estivessem no hospital que serve como principal cenário da série, fossem como médicas ou pacientes — algo que outras produções insistiam (e ainda insistem) em ignorar.

O sucesso de Grey’s Anatomy abriu espaço para que outras histórias fossem contadas, todas elas focadas em mulheres: em 2007, Shonda lançou Private Practice, spin-off de seu primeiro drama médico protagonizada por Kate Walsh, que esteve no ar até meados de 2013. Mais tarde, ela também seria a mente responsável por Scandal, série centrada na trajetória de Olivia Pope (Kerry Washington), uma ex-consultora de comunicação da Casa Branca; além de atuar como produtora executiva de How to Get Away With Murder, suspense protagonizado por Viola Davis. As duas últimas fizeram com que, em 2014, Shonda alcançasse outro feito inédito na televisão estadunidense: emplacar três de suas produções no horário nobre da ABC, às quintas-feiras, todas exibidas em sequência. Não demorou para que ela também se tornasse líder de audiência: somente em uma noite, o número de espectadores das três séries somaram 35,7 milhões de pessoas. Shonda Rhimes chegou onde nenhuma outra mulher conseguiu chegar na televisão norte-americana, mas mais do que isso, construiu um império baseado em histórias protagonizadas por mulheres, duas delas negras, e relações interraciais e homoafetivas com a delicadeza e a complexidade que ainda são tão raras na ficção.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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