Categorias: HISTÓRIA, LITERATURA

Maria Bonita: a famigerada primeira-dama do cangaço

Que Maria Bonita era a companheira de Lampião todo mundo sabe. Difícil é ter mais informações para além de seu casamento, um título que não é mais aceitável para resumir a vida de uma mulher. Ainda que o  nome da cangaceira seja prontamente reconhecido, ela parece uma lenda distante do imaginário popular. Já faz mais de cinquenta anos que a ação do grupo de bandoleiros no sertão nordestino era acompanhada pelos jornais nacionais e internacionais, quando o interesse pelos cangaceiros era tanto que eles viraram personagens icônicos da cultura brasileira, partindo da literatura de cordel até chegar ao cinema.

A minissérie da Globo sobre os últimos seis meses de vida do casal Maria Bonita e Lampião, por exemplo, foi exibida em 1982. Os filmes que colaboraram para disseminar a história do cangaço mundo afora são ainda mais antigos — o pioneiro O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto, é de 1953. Passado tanto tempo, o livro de estreia da jornalista Adriana Negreiros, Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, se destaca pela proposta de recontar, do ponto de vista das mulheres, a história dos bandoleiros sanguinários que rondavam a região da caatinga brasileira no começo do século passado.

Lançada em agosto de 2018, a biografia de Maria Gomes de Oliveira revela o pouco que se sabe sobre a mulher que só depois de sua morte passou a ser conhecida como Maria Bonita. Maria de Déa, como era chamada em vida, tem sua história contada a partir da entrada no cangaço e até o seu assassinato, na chacina que vitimou também Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Mas antes que tudo isso acontecesse, Maria estava descontente com o primeiro casamento e costumava passar um tempo na casas dos pais quando se desentendia com o marido. Numa dessas temporadas, conheceu Lampião durante uma festa e largou tudo para seguir a vida ao lado do mais famoso líder de cangaceiros de que já se teve notícia. Ela foi a primeira mulher a integrar o bando de Virgulino, e no livro fica claro que o caso de Maria de Déa era uma exceção. Ela entrou naquela vida por vontade própria, mas, na maioria das vezes, meninas e mulheres eram sequestradas quando os cangaceiros se interessavam por elas e decidiam que elas seriam suas esposas. E, quando não eram levadas à força, eram coagidas a acompanhá-los com ameaças de morte ou de represálias a seus familiares.

A partir da trajetória da primeira dama do cangaço, a autora se propõe a dar uma perspectiva feminina à já conhecida história de roubos, violência e conchavo com fazendeiros influentes de boa parte do Nordeste, principalmente nos estados de Pernambuco, Bahia, Sergipe e Alagoas. Também são apresentadas as cangaceiras que integraram o bando entre 1920 e 1940, depois que Lampião permitiu a entrada de mulheres no grupo, com destaque para a relação nem sempre cordial entre elas e Maria Bonita. Nomes como os de Dadá, Sila, Nenê e Lídia representam os casos de sequestros de menores de idade, de jovens constantemente estupradas, que engravidavam de seus algozes e depois eram obrigadas a abandonar os filhos. No bando, a mulher era essencialmente vista como uma propriedade do homem. Quando um cangaceiro morria, a companheira dele ficava à disposição dos solteiros do grupo. Ou a “viúva” aceitava aquela situação ou corria o risco de ser executada, para evitar que voltasse para casa e revelasse segredos dos fora da lei.

“No bando, quer tratassem suas mulheres com mesuras, quer as agredissem fisicamente, os cangaceiros as consideravam suas propriedades. O código do cangaço previa que as mulheres deviam fidelidade e submissão a seus companheiros, sendo permitido a eles, quando se sentissem contrariados, penalizá-las da forma que melhor lhes aprouvesse. Com a morte, inclusive.”

Um incômodo que aparece ainda na primeira metade da leitura é que, depois que Maria de Déa entra no bando, o relato biográfico parece seguir o caminho de sempre, centrado em Lampião e em seus principais capangas — como Corisco e Zé Baiano, a pantera negra dos sertões. As mulheres são personagens secundárias apenas mencionadas enquanto a história oficial dos homens acontece em primeiro plano. Vale mencionar que a imagem de que as cangaceiras seriam guerreiras corajosas que pegavam em armas lado a lado dos cabras de Lampião é uma das ideias equivocadas sobre o cangaço que a autora desconstrói no livro. Elas não participavam das incursões do bando para saquear fazendas e vilarejos ou para vingar traições. Pelo que se sabe, sequer enfrentavam os policiais que andavam atrás dos cangaceiros nas poucas vezes em que os oficiais conseguiam pistas sobre o paradeiro deles. Mas, se as mulheres não tinham um papel ativo no campo de batalha, o relato disposto a dar uma perspectiva feminina para essa história bem que poderia ter seguido o ciclo do cangaço a partir de onde quer que elas estivessem, fosse acampadas em meio à caatinga esperando a volta de seus companheiros ou passando um tempo em refúgios de coiteiros, como eram chamados os sertanejos e fazendeiros que apoiavam os cangaceiros em troca de proteção.

Como os capítulos seguem uma ordem cronológica, as informações específicas sobre ser uma mulher cangaceira e as histórias sobre a vida de Maria de Déa e das demais personagens acabam se diluindo e perdendo força entre as expedições dos homens, seus embates com as forças volantes e seus atos de violência gratuita — inclusive contra outras mulheres. Afinal, a mentalidade por trás do cangaço era tão machista que os estupros não eram nem vistos pelos bandoleiros como um dos tipos de crimes que eles cometiam, mas como algo que eles tinham o pleno direito de fazer para atingir os parentes homens das vítimas. Uma outra prática chocante descrita no livro era um hábito do cangaceiro Zé Baiano, conhecido por marcar a ferro em brasa o rosto ou o corpo de mulheres por motivos banais como ter o cabelo muito curto ou usar roupas acima do joelho.

Esses atos de violência já eram conhecidos na época pelas notícias de jornal sobre as barbaridades cometidas pelos homens de Lampião, sendo uma das mais famosas o costume de sangrar vítimas que mereciam uma morte lenta, mas nada disso impediu a criação do mito de que os cangaceiros eram os heróis nordestinos. Tanto que até hoje o estilo de roupa daqueles homens e mulheres ainda é usado para representar o povo do sertão. Como a própria autora ressalta num dos primeiros capítulos, a primeira onda do feminismo, nos anos 1920, não tinha chegado direito sequer às capitais e, muito menos, ao interior do Nordeste. Portanto, era incapaz de influenciar a opinião popular naquele momento. O que importa é não desconsiderar, hoje, o caráter misógino de homens que pretendiam (e, de certa forma, conseguiram) ser vistos como justiceiros e corajosos, verdadeiros exemplos de cabras machos.

A mitificação em torno da figura de Maria Bonita, causada sobretudo pela falta de informação sobre a mulher que viveu cerca de oito anos ao lado de Lampião, é um ponto que a autora questiona em diversos trechos do livro, principalmente em relação a apropriação da personagem como um ícone feminista. O problema é que esse questionamento é feito sem muito aprofundamento. Apenas menciona-se que Maria vem sendo retratada como uma guerreira que carregava armamento pesado — quando, no máximo, levava uma pistola pequena e uma faca ornamentada — e que vivia em pé de igualdade com Virgulino. E é claro que não se pode julgar com o pensamento de hoje uma mulher que viveu em outro século, que inclusive parecia concordar que mulher adúltera deveria, sim, ser punida com morte. Porém, por mais que essa não seja a proposta de uma biografia, o uso da figura de Maria de Déa em produtos culturais é tão criticada que fez falta uma análise sobre a representação das cangaceiras na mídia e no entretenimento. Algo bem feito, por exemplo, no livro A Mulher Calada, em que a jornalista Janet Malcolm parte das biografias escritas sobre Sylvia Plath para contar o que de fato se sabe da poeta, com base em diários, cartas e entrevistas.

“A memória da Rainha do Cangaço na imprensa da época é imprecisa, precária e fantasiosa. Esse obscurecimento não impediu que, por outro lado, Maria Bonita fosse ganhando ares de mito depois de sua morte. A lacuna de informações […] contribuiu para que se criasse a fantasia de uma impetuosa guerreira, hábil amazona do sertão, uma Joana d’Arc da caatinga. Perpetuou-se a falsa ideia de que, no cangaço, homens e mulheres tinham direitos iguais. Produziu-se um sem número de versões sobre sua existência bravia, disseminadas pela literatura de cordel, pelos livros e pela televisão. Essa versão romântica e justiceira de Maria Bonita, rapidamente apropriada pela indústria cultural, tornou-se um produto de forte apelo comercial – e expandiu seus limites para muito além das fronteiras do sertão.”

Para quem esperava uma narrativa centrada na experiência feminina, ao menos fica o aprendizado sobre o cangaço. Para quem já estava familiarizado com os causos de banditismo no sertão nordestino, o livro provavelmente é mais do mesmo e faz o mínimo enquanto relato de não ficção que dá a devida importância à participação de mulheres nos acontecimentos históricos. A biografia de Maria Bonita rende uma boa leitura apesar do apego a datas e a nomes completos dos envolvidos em qualquer fato narrado por menor que ele seja, atrapalhando a fluidez da obra. Por outro lado, o que ficou faltando foi um mapa da região para ilustrar os lugares muito específicos do sertão citados ao longo da história, como o Raso da Catarina, uma região seca de difícil acesso usada pelos cangaceiros para despistar a polícia. O texto, por mais que siga a tradição de impessoalidade típica do jornalismo, tem uma voz que se destaca por um sotaque nordestino, provavelmente ecoando as fontes de pesquisa — entre elas, autores e jornais da própria região — e a origem cearense e potiguar da autora.

Maria de Déa morreu aos 28 anos numa emboscada. Todos os onze cangaceiros mortos naquele ataque foram decapitados, e suas cabeças levadas para exposição em praça pública como troféus e também como prova de que alguns dos mais temidos bandoleiros do país haviam sido dizimados. Os corpos foram abandonados pelos soldados, mas só o de Maria Bonita foi depois encontrado com as pernas abertas e com um pedaço de madeira enfiado na vagina, como conta Adriana Negreiros sobre o episódio de 28 de julho de 1938. A cena é perturbadora até de imaginar e serve para mostrar a importância de se contar lados ainda pouco conhecidos da história, sobretudo levando em conta as violências contra a mulher.

Quem já ouviu falar de cangaço deveria saber também que muitas das jovens mulheres que integraram o bando de Lampião estavam ali contra a sua vontade e, se por acaso conseguiam fugir, eram estigmatizadas, vistas como suspeitas e cúmplices de cangaceiros. Ninguém acreditava quando elas diziam que haviam sido sequestradas. Infelizmente, essa mesma lógica que desqualifica a versão dos acontecimentos contada por mulheres continua vigente. De fato, resgatar as histórias ignoradas no passado não exige que as personagens sejam transformadas em referências feministas, em mulheres à frente de seu tempo, como se costumava dizer. Vivemos num tempo em que apenas mudar a perspectiva sobre velhos fatos, apesar de já servir como jogada de marketing, ainda tem um caráter transgressor. Como a decisão de Maria Bonita ao largar o primeiro marido e optar pela vida de cangaceira, fugindo da mesmice.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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