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Hypatia de Alexandria: filósofa, matemática e silenciada

Minha matéria favorita na época da escola, sem dúvida, era História. Sempre mergulhava fundo nas aulas, lia toda a matéria e sempre procurava por mais, seja por meio de outros livros ou de entretenimento. Sou o que se pode chamar de history geek, sempre em busca de conhecimento no que se refere aos tempos passados, sempre lendo sobre figuras históricas e descobrindo outras. Há alguns anos, em meio a uma dessas buscas, encontrei o filme Alexandria (ou Agora, no original), do diretor Alejando Amenábar e lançado no longínquo ano de 2009. Alexandria talvez seja um dos meus filmes favoritos da vida e retrata, de maneira romanceada, a vida da filósofa Hypatia (interpretada por Rachel Weisz).

Naquela época eu não conhecia em absoluto a vida de Hypatia, sequer me lembrava de ter ouvido seu nome em sala de aula em todos esses anos. Nascida em Alexandria no século IV depois de Cristo (não há uma data certa, mas Hypatia viveu, aproximadamente, entre os anos 355 e 415 d.C.), criada somente por seu pai, matemático e último diretor da famosa Biblioteca de Alexandria, desde muito jovem Hypatia demonstrou habilidades singulares para matemática, filosofia e astronomia. Mesmo vivendo em um período em que às mulheres era negada a educação, por ser filha de um homem erudito Hypatia pôde desenvolver suas aptidões com esmero. Ela foi, inclusive, a primeira mulher a ser documentada na História como matemática, ajudou a aperfeiçoar o astrolábio e estudava, já naquela época, o movimento do Sol e como ele poderia ser o centro do nosso sistema planetário. Como se tudo isso já não fosse completamente incrível, Hypatia foi professora de inúmeros garotos nobres de Alexandria que, mais tarde, alcançariam cargos de poder na cidade e continuariam a recorrer a ela em busca de conselhos. Era notável que no século IV uma mulher reunisse tanto poder e influência em suas mãos.

Nesse período a cidade de Alexandria sofria com uma grave inquietação religiosa e se transformava em um ambiente perigoso para aqueles que não seguissem os ideais da maioria: enquanto cristãos, judeus e adeptos do politeísmo brigavam entre si, os massacres e perseguições por motivos religiosos aconteciam diariamente, sem data para acabar. Era uma época de grande intolerância religiosa, de ódio gratuito contra aqueles que pensavam diferente e de muita tensão, principalmente se você fosse uma mulher que desafiasse todo esse sistema. Esse, como se sabe, era o caso de Hypatia: era óbvio que tamanha inteligência e influência não passariam despercebidas aos olhares dos homens da época e a filósofa sofreria na pele o dissabor de viver em uma sociedade patriarcal. Onde já se viu, afinal de contas, uma mulher deter tamanho conhecimento, prestígio e ainda por cima ser conselheira do governador de Alexandria? Onde já se viu uma mulher não seguir a fé cristã e viver em meio a números, sem abraçar aquela religião que só crescia em adeptos? Hypatia foi perseguida por tudo isso: por ser extremamente inteligente e a frente de seu tempo, por ser fiel aquilo em que acreditava, se recusando a aceitar uma religião em que não conseguia crer e, claro, por ser mulher. Sabemos bem que se Hypatia fosse homem a história seria muito diferente e todo mundo conheceria essa figura tão emblemática.

E é nesse contexto que Hypatia acaba por tornar-se alvo da fúria cristã. Enquanto os homens do cristianismo a enxergavam como uma ameaça a seu poder e monopólio, Hypatia precisava ser silenciada. Era ela quem lutava por seu direito de falar e continuar a exercer sua profissão de ensinar, algo profundamente contra os preceitos do cristianismo transmitidos pelo bispo Cirilo – ele simplesmente não conseguia aceitar que uma mulher pudesse ter tamanha liberdade e aconselhar os homens poderosos de Alexandria, barrando o crescimento de sua religião. Dessa forma o bispo – que, pasmem, posteriormente seria santificado pela Igreja Católica mesmo após praticar atos terríveis contra pagãos – planeja derrubar Hypatia acusando-a de bruxaria pois, é claro, uma mulher detentora de conhecimentos profundos de matemática e astronomia não poderia ser outra coisa senão uma bruxa pagã. E é assim que a tragédia anunciada se concretiza, com uma turba de intolerantes religiosos capturando Hypatia e dando fim a sua vida de maneira cruel. Com a morte de Hypatia, inclusive, tem fim um longo período de racionalidade e busca por conhecimento.

Hypatia encontrou um fim cruel e em meio a barbárie simplesmente por pensar à frente de seu tempo e desafiar as regras daqueles que tentavam domá-la. Dedicando uma vida aos estudos, à pesquisa e aos seus alunos, ela foi uma mulher formidável que encontrou no ódio e na intolerância religiosa uma barreira intransponível. Hypatia foi uma mulher com um sem número de aptidões, especializando-se no estudos dos números e propriedades geométricas do círculo, foi responsável por transformar a geometria em algo mais fácil de entender para seus alunos. De acordo com alguns historiadores, inclusive, Hypatia pode ter sido a primeira estudiosa em astronomia a levantar a hipótese de que o movimento da Terra em torno do Sol ocorreria em elipses e não em círculos. O bispo Cirilo a acusou de herege quando Hypatia se recusou a converter-se ao cristianismo, espalhando boatos na cidade de que ela era uma bruxa pagã e a intolerância religiosa fez o restante do serviço quando a população enfurecida intercepta a carruagem de Hypatia – que ela mesma conduzia – e colocam fim à vida dessa mulher formidável.

Ainda de acordo com dados históricos, Alexandria entra em declínio imediatamente após a morte de Hypatia, quase como se fosse ela a responsável por ancorar e sustentar a vida intelectual da cidade por meio de seus estudos e ensinamentos. Alexandria passa a ser governada pelo bispo Cirilo ao mesmo tempo em que a vida intelectual da cidade se perde no tempo. Consta, inclusive, que filósofos, astrônomos, matemáticos e demais cientistas fugiram da cidade com medo das represálias que o novo governador poderia vir as lhes infringir. É a partir desse período que a grandiosa Biblioteca de Alexandria – já parcialmente destruída por conta do primeiro incêndio – é tomada por grupos de religiosos fanáticos e deixa de existir, com muitas teses e teorias sendo perdidas para sempre.

Alexandria, o filme, embora condense os acontecimentos de uma vida em um período menor de tempo, navega por todos esses aspectos da trajetória de Hypatia, sua paixão por ensinar e estudar, suas descobertas e seu embate com os líderes religiosos que buscavam, de todas as maneiras possíveis, a acorrentar. O longa-metragem consegue retratar com cores tristes um período conturbado da História e a crueldade dos primeiros cristãos: enquanto eles se julgavam perseguidos por serem de uma religião relativamente nova, também tramavam emboscadas contra judeus, pagãos e qualquer um que não se batizasse. Alexandria é um belo filme que, mesmo não tendo coragem (ou ousadia, quem sabe) de mostrar o real desfecho da vida de Hypatia, vale a pena ser visto por conta da mensagem que passa.

Se a ciência foi silenciada junto com a morte de Hypatia e só seria redescoberta no século XIV, as vozes das mulheres ficariam por muito mais tempo sem serem ouvidas. Alexandria é um filme feito com esmero, mas mesmo ele não foi até ao fim no que se refere a contar a verdadeira história de Hypatia que, não poderia ser diferente, acaba em tragédia. Mulheres são silenciadas desde sempre e isso, infelizmente, não é novidade nenhuma.

You don’t question what you believe. I must.

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34 comentários

  1. Há uma incorreção no texto ao se referir ao período correspondente à Idade Média como “Idade das Trevas”. Tal denominação representa a visão da Renascença sobre o período anterior, como forma de afirmar seus valores em detrimento do medievo. A historiografia atualizada desconstrói o mito da “Idade das Trevas”; interpretações e análises de inúmeras fontes históricas sobre o período medieval atestam que nele ocorreram desenvolvimento técnico- científico aplicado, p.e., à agricultura, produção bélica, arquitetura (castelos, catedrais), de estudos filosóficos (como a Escolástica). Sem contar o surgimento das universidades que se caracterizaram por ser locais de produção de conhecimento, debates, estudos. Os trabalhos dos historiadores Marc Bloch, Jacques Le Goff, Hilário Franco Jr. contribuem para superar essa visão distorcida sobre o medievo. Feita a ressalva, a história de Hypatia e o que ela representou em sua época são incríveis!

  2. Parabéns pelo seu texto, história fascinante. Triste por ser mais um exemplo de como as mulheres são tratadas nesta sociedade machista.

  3. Aplaudo com entusiasmo teu texto e dedicação em difundir a História e seus personagens obscurecidos até a atualidade pelo preconceito. Ainda bem que há o cinema como cúmplice nesta jornada. Permita-me lembrar
    do filme “A Dama de Ferro” que retrata Margaret Thatcher, interpretada por Meryl Streep, removendo uma
    estrutura corroída e corporativista de poder das instituições britânicas e resgatando o país da crise que até
    hoje é considerada a pior da história do Reino Unido desde o fim da II Guerra Mundial. A Dama de Ferro é
    um exemplo de que competência não tem a ver com gênero… ou melhor, tudo a ver com gênero humano.

  4. Que maravilha. Amei saber do filme, pois sequer conhecia está mulher a frente de seu tempo. Vou apenas acrescer aos dados já apresentados pela Profa. Silvia. Por incrível que pareça, as primeiras universidades na Europa foram criadas pela Igreja Católica, exatamente para aprofundar a Palavra, por isso as Universidades começaram pelo estudo da Teologia, na proposta de que o conhecimento sobre a Palavra do Cristo desse outro rumo a este triste momento do cristianismo. Muitos desconhecem este fato. Inclusive existe uma discussão sobre o surgimento das Universidades pela Igreja Católica e as madraças, consideradas como o início das Universidades no Oriente Médio. Mas já vou atrás do filme indicado por vc.

    1. Obrigada pela informação, eu realmente não sabia sobre isso – logo eu, formada em universidade católica! HAHA, mas agora estou avisada. Espero que goste do filme! (:

  5. Maravilhosa partilha. Não conhecia essa história. Gostei demais. Vou procurar pelo filme, pois mexeu comigo. Obrigada! Parabéns!

  6. Sensacional o seu artigo, com uma coerência impecável. História é dos assuntos que me interessa bastante e atualmente estou focado em estudar também a história do nosso País. Aproveitando a oportunidade, ontem estava vendo o livro Holocausto Brasileiro e fiquei impressionado com a barbaridade que ocorria no hospital Colônia na cidade de Barbacena/MG desde a sua fundação em 1.903 até o ano de 1.979. Tem também o documentário da mesma jornalista que escreveu o livro. Vale a leitura.

    Abraços!

    1. Obrigada pelo comentário, Mateus! Já li esse livro da Daniela Arbex e é realmente um trabalho de qualidade que informa e choca na mesma medida. Da autora tem também o Cova 312 sobre a época da Ditadura Militar, recomendo a leitura se você quer saber mais sobre a história do Brasil e esse período complicadíssimo.

  7. Amei o texto! E seu site! Na escola vai ter essa feira de ciências e o tema da minha sala é Matemáticos Famosos (algo desse tipo pq achei esse título meio ruim) e meu grupo vai falar sobre matemáticos da antiguidade e, enquanto fazia as pesquisas, notei que ninguém havia falado sobre matemátiCAS famosas. Fui então pesquisar sobre e encontrei sobre Hypatia e, claro, seu site e achei maravilhosa a história (infelizmente trágica). Definitivamente vou falar sobre ela! Agora, imagina isso: milhares de matemáticos na historia da humanidade e ninguém naquela sala mencionou sobre as mulheres matemáticas que existiram? Achei triste. Mas enfim, adorei o post!

    1. Oi Vitória! Fico feliz que tenha gostado do texto (e do Valks!). Teu comentário me deixou muito feliz. Acho que se eu conseguir apresentar a Hypatia pra mais uma menina que seja, já ficarei contente. A história de vida dela é rica e inspiradora, uma pena ter tido um final tão trágico. E uma pena maior ainda ela ter sido quase totalmente apagada da história – eu mesma nunca ouvi falar dela na escola. Depois me conta como foi tua apresentação, vou amar saber!

  8. Parabéns, pelo texto e pela curiosidade. Quando assisti o filme quis conhecer mais sobre o assunto e sobre a filósofa, uma vez que fazia filosofia. É incomum ou desconhecida no meio acadêmico. O filme foi tão encantador que virei fã da filósofa.

  9. Muito bom seu artigo, fiz meu TFG de Arquitetura sobre um projeto para Biblioteca, assisti a este filme varias vezes e me senti apaixonado pela personagem..parabéns pelo seu texto

  10. Assisti ao filme já faz alguns anos quando saiu e gostei muito. Estou procurando para comprar e assistir com minha filha que agora tem idade para entender melhor. Vi várias críticas sobre o filme e achei a sua a melhor.

  11. Em primeiro lugar, parabéns por seu texto!
    Certos cristãos daquele tempo não conseguiam engolir o fato de uma bela mulher ser tão culta e carismática, além de não ser cristã, mesmo apesar de ter tido cristãos entre seus alunos.
    Houve pretextos e motivos para querer destruí-la: uns dizem que ela foi morta por vingança por causa de um monge cristão chamado Amônio, a quem Orestes, prefeito de Alexandria, teria mandado executar (o gajo pertencia àquele bando de fanáticos e o acertara com uma pedrada num confronto). Como Hipátia era conhecida dele, resolveram pegá-la para bode expiatório; outros que ela foi vítima de intrigas, sendo acusada de bruxaria, parte com o demo etc. Mas acredito que, além do ódio que ela despertava, deveria também haver muita inveja.
    Muitos autores ratificam por sua vez que o bispo Cirilo nada teve a ver com essa barbaridade, que foi tudo intriga de autores não-cristãos. Mas se ele não foi o cérebro por trás dessa baixaria, porque então não mandou punir esses covardes? Por outro lado, se foi mesmo o autor intelectual dessa violência tão detestável, então sequer merecia ser canonizado.
    No mais, só podemos torcer para que novas Hipácias continuem em luta por seus direitos sendo exatamente elas mesmas, e não do jeito que pessoas intolerantes e mesquinhas exigem que sejam. Abraços!