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Dance Fever: transformando demônios em melodias

Florence Welch está de volta — e melhor do que nunca. Seu quinto álbum de estúdio foi lançado mundialmente dia 13 de maio e trouxe algumas das características que os fãs mais amam em seus trabalhos: os elementos místicos, o storytelling impecável e a potência vocal que somente Welch é capaz de alcançar. Soma-se a isso canções com as letras mais pessoais da carreira da cantora até então, arranjos produzidos em conjunto com Jack Antonoff — sim, o mesmo produtor dos álbuns mais recentes de Taylor Swift, Lorde e Lana Del Rey — e temos Dance Fever, uma fábula em 14 canções.

Em entrevista para a Rolling Stone, Florence contou que começou a trabalhar no álbum antes do início da pandemia do coronavírus. Ela estava reunida com Jack Antonoff em Nova York, em fevereiro de 2020, quando recebeu uma ligação de sua mãe pedindo que voltasse para casa, em Camberwell, um distrito ao sul de Londres. Assim como boa parte das pessoas, Florence imaginou que o confinamento não duraria muito e que logo estaria de volta. Mas a cantora e compositora se viu trancada por muitos meses com nada além de seus pensamentos para lhe fazer companhia. E foi nesse momento que Florence percebeu que o álbum que havia imaginado, a princípio, se transformaria em outra coisa, levado por seus humores, sua ansiedade e sua própria companhia. Ser forçada a parar por tanto tempo não estava nos planos de Florence, não depois de mais de uma década de puro movimento desde que alcançou sucesso mundial com seu primeiro álbum, Lungs, de 2009.

O confinamento foi difícil para Florence, como contou para a Rolling Stone: “I need the movement to move it out of myself. If I sit in the sadness, it doesn’t go away.” Como uma pessoa acostumada a compor para transformar sua experiência individual em uma experiência compartilhada, a pandemia e confinamento a que o mundo todo foi submetido fez o caminho contrário em sua mente: como transformar um momento como aquele, coletivo em sua essência, como algo individual? Seu processo criativo, que nasce ao explorar seu subconsciente, estava ausente naquele momento, com Florence em alerta o tempo todo, sem nada a cantar. Foi somente seis meses depois do início do confinamento que ela conseguiu compor a primeira canção de Dance Fever, “Heaven is Here”. A canção funcionou como um feitiço para ela, principalmente depois de tanto tempo sem conseguir sentir nada, apenas tristeza, e foi capaz de colocá-la novamente ao piano.

E a partir de “Heaven is Here”, Florence Welch começou a compor a narrativa que acompanharia as 14 faixas de Dance Fever, passando por sua mitologia pessoal que, em tempos de pandemia e ansiedade, refletiria nas experiências de sua própria base de fãs. Seu quinto álbum de inéditas surge como o resultado da junção de cada um de seus trabalhos anteriores: a loucura e o caos dançante de Lungs, a produção grandiosa e repleta de metáforas de Ceremonials, os ângulos sombrios e energia mágica de How Big, How Blue, How Beautiful, e as emoções à flor da pele de High As Hope. Reunindo as melhores características de cada um dos trabalhos antigos, Welch compôs um novo épico em Dance Fever, um álbum coeso capaz de passear de temas como saúde mental e ansiedade, e questões que encontrarão moradia nas jovens mulheres que se sentem espectadoras das próprias vidas, lutando para fazer parte de um mundo que não está apto a recebê-las.

É dessa maneira que canções que falam muito sobre como é ser uma mulher em nossa sociedade atual tomam forma. Welch não mede as palavras ao cantar sobre autossabotagem e medo de compromisso em “King”, faixa que abre Dance Fever, assim como na energética e efervescente “Dream Girl Evil”; a sexta canção do álbum, que referencia o poema “The Second Coming”, de William Butler Yeat, é sobre o estranho universo que jovens mulheres habitam. Para Florence, é perigoso ser uma mulher caracterizada como “boa” ou “um anjo”, porque a queda dessa posição é violenta e arrebatadora. A cantora diz haver uma espécie de liberdade em ver mulheres, especialmente jovens mulheres, agindo da maneira como desejam, nem terrivelmente boas, nem completamente desordenadas — e é isso que ela imprimiu em “Dream Girl Evil”. Dessa maneira, a canção aparece como uma resposta em forma de sátira às expectativas da sociedade com relação às mulheres, que não podem ser nem santas, nem imperfeitas, nem anjos, nem demônios. Para Welch, é uma grande responsabilidade viver sobre esses paradigmas quando tudo o que queremos é ser vistas apenas como seres humanos. Todos os versos de “Dream Girl Evil” trabalham essa dicotomia entre o bem contra o mal, e como é ser uma mulher em um mundo dominado por homens.

Em “Girls Against God”, ainda que o tema cantando em “Dream Girl Evil” permaneça, a abordagem é ligeiramente diferente. Florence Welch disse ao Spotify que a canção nasceu da raiva que sentia ao estar em confinamento, momento em que seu trabalho, enquanto artista que se apresenta em shows lotados, não estava apenas proibido como se tornava ilegal. Mesmo que reconheça seu lugar de privilégio, afinal ela estava confinada em sua própria casa, Welch não conseguia não sentir. Ao longo de toda a canção, e de Dance Fever como um todo, a cantora e compositora expressa sua luta diária contra a intensidade de suas emoções, e como precisa pagar um preço alto por senti-la. Em “Girls Against God” ela até mesmo fantasia sobre não se importar e deixar que essas emoções governem sua vida, apenas para, nos versos seguintes, compreender que são essas mesmas emoções que norteiam toda a sua criação enquanto artista.

“Gigs have been my churches and live performance had been my spiritual practice. And for that to be suddenly, not even just taken away, but illegal… I had this such confusion of whatever my idea of God was. That was the beginning of the album kind of turning, I think, and being like, ‘okay, what if I have been exiled from Heaven, then I guess I’m gonna go a more hellish direction.”

“Shows eram minhas igrejas e apresentações ao vivo minha prática espiritual. E que tudo isso tenha sido de repente, não apenas tirado, mas ilegal… eu tive essa confusão a respeito do que era minha ideia de Deus. Esse foi o começo da virada do álbum, eu acho, e sendo ‘okay, se fui exilada do Paraíso, acho que terei que ir em uma direção mais infernal.”

“Free”, uma das músicas mais empolgantes de Dance Fever, até poderia enganar os mais desavisados com sua melodia contagiante e feita para dançar. Aqui, Florence Welch fala de suas questões com a ansiedade e como a artista lida com seus efeitos. Para a Apple Music, a cantora disse que “Free” foi, ironicamente, a última canção que escreveu antes do primeiro grande lockdown e surgiu como uma música não somente sobre sua ansiedade e como a processa, mas sobre a condição que faz parte de toda a sua vida. “I was trying to understand what it is and how essentially, when I’m in playing, or I’m making music, or I’m in the flow of creativity, it goes away, so it’s kind of this push and pull throughout the song of the anxiety, and then the song itself taking it out the way, and dancing and feeling free.” [“Eu estava tentando entender o que é e como, essencialmente, quando estou tocando, ou fazendo música, ou estou no fluxo da criatividade, isso vai embora, então é meio que empurrar e puxar ao longo do canção da ansiedade, e então a própria canção tirando-a do caminho, e dançando e se sentindo livre.”]

Em determinado momento de “Free”, Welch canta como as lutas das pessoas com doenças mentais geralmente são invalidada pelos outros (“And being clever never got me very far/ Because it’s all in my head/ “You’re too sensitive,” they said/ I said, “Okay, but let’s discuss this at the hospital”) e como frases desse tipo não são realmente um tipo de ajuda. Ainda para a Apple Music, a cantora diz como não há ponto em intelectualizar sua ansiedade (ou doenças mentais, de maneira geral), pois sua inteligência não deixa de existir por ter uma doença mental mostrando que, muito pelo contrário, doença e inteligência são capazes de coexistir dentro de si. O fato de que doenças mentais estão somente na mente dos outros, e não são vistas, por assim dizer, como uma perna quebrada ou um olho roxo, não as invalida enquanto doenças, e “Free” passa o seu recado muito bem nesse quesito — vale apontar que essa não é a primeira canção de Florence and the Machine que fala de doenças mentais; o tema já foi abordado em “Breaking Down”, presente no álbum Ceremonials, e também em “King”, de Dance Fever.

Além das canções extremamente pessoais, também há todo o imaginário criado por Florence Welch para Dance Fever. A começar, é claro, pelo nome do álbum. Um pouco antes da pandemia ter início, Florence se deparou com a “choreomania”, um fenômeno social ocorrido na Europa medieval, entre os século XIV e XVII, em que centenas de pessoas de uma só vez começavam a dançar de maneira incontrolável e bizarra. Os dançarinos se moviam alucinadamente até caírem de exaustão, machucados ou até mesmo mortos. Ainda que pareça uma história inverossímil, o fenômeno da “dance fever” foi vastamente documentado na época, aparecendo em anotações médicas, sermões nas igrejas, crônicas locais e até mesmo notas emitidas pelos conselhos das cidades. Até hoje não se sabe ao certo o que desencadeou a mania nas pessoas, mas o conceito de dançar até não aguentar mais casa perfeitamente com o material que Florence Welch produziu para seu quinto álbum de estúdio.

A ideia de dançar até não suportar, de buscar a liberdade outrora perdida, faz parte da mitologia de Dance Fever tanto quanto vida e morte, anjos e demônios, temas sempre presentes da discografia da artista, quase indissociáveis de sua estética. E é assim que também entramos nas referências mitológicas presentes no álbum, mais especificamente em canções como “Cassandra” e “Daffodil”. Logo nos primeiros versos, “Cassandra” faz referencia ao mito grego de Cassandra, Princesa de Tróia abençoada por Apolo com o dom da profecia, mas que se negou a dizer ao próprio deus o seu futuro. Sendo assim, ele a amaldiçoou: Cassandra poderia manter seu dom, mas ninguém acreditaria em nada do que ela dissesse. E assim começa a canção escrita por Florence Welch, mas aqui a princesa não consegue mais ver o futuro: “I used to see the future and now I see nothin'”. Tanto em “Cassandra” quanto em “My Love”, é possível perceber que Florence Welch se vê como a profetisa que perdeu o dom, sendo que o isolamento social e a pandemia da Covid-19 a fizeram passar por um bloqueio criativo e a impediu de exercer seu ofício. Eem sua canção, ela é uma profetisa em que ninguém acredita. Em “My Love”, Florence canta: “I was always able to write my way out/ The song always made sense to me/ Now I find that when I look down/ Every page is empty/ There is nothing to describe/ Except the moon still bright against the worrying sky/ I pray the trees will get their leaves soon”. 

Ambas as canções fazem referência ao período de isolamento social e como Florence se sentia presa às ações mundanas de sua rotina, longe do palco e do público que servem de combustível para sua mente criativa e artística. Em entrevista à Vogue, a cantora chegou a brincar que durante a quarentena ela não era mais Florence and the Machine, mas Florence and the Hoover (“hoover” é aspirador de pó, em inglês). E essa questão também é colocada em “Cassandra” quando ela canta “I used to tell the future, but they cut out my tongue/ And left me doin’ laundry to think on what I’d done/ It wasn’t me, it was the song”, indicando o subtexto feminista da canção. São tantas referências presentes em “Cassandra” que seria possível fazer uma lista apenas com elas, desde o verso “’Cause they put crosses on the doors to try and keep me out”, claramente uma alusão ao hábito cristão de pintar cruzes e crucifixos nas portas para afastar demônios ou pragas, como a Covid-19, mas que também faz referência às canções “Dream Girl Evil” e “Girls Against God”, onde Florence canta que encontrou o demônio e fez uma barganha com ele (“I met the Devil/ You know, he gave me a choice/ A golden heart/ Or a golden voice”), até o verso “I try to still look with wonder on the world/ As the roses bloom/ And the riot van still plainly in view” em que ela tenta ver beleza no mundo, mesmo diante circunstâncias tão desesperadoras, não somente da pandemia, mas como da série de protestos ao redor do mundo, do Black Lives Matter até Extinction Rebellion Protests.

Outra canção presente em Dance Fever que bebe na fonte da mitologia é “Daffodil”, palavra de origem inglesa que se refere ao narciso, flor cujo nome remete ao mito grego de Narciso. O personagem, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope, é um visto como forte símbolo da vaidade, sendo citado em incontáveis músicas, livros e contos. Em “Daffodil”, Florece Welch toma emprestado seu nome comum em inglês para repeti-lo no refrão enquanto canta, antes disso, sobre as flores que desabrocham na primavera e o sentimento de esperança que tenta manter, mesmo com a pandemia se alastrado ao redor do mundo. Em entrevista para o Spotify, a cantora disse que “Daffodil” se encerra com um instrumental pesado de maneira a simbolizar o caos que a Covid-19 continuava a infligir, para além do fato de ser, novamente, primavera.

Ainda assim, “Daffodil” permanece como uma canção sobre encontrar a felicidade em pequenos momentos da vida. A pandemia nos tirou esses pequenos momentos, como caminhar até uma cafeteria favorita e colher flores, mas ainda podemos contar com o anseio que esses vislumbres de normalidade nos dá. Dance Fever é um álbum construído na pandemia, mas as falas sobre esse momento estão imersas nas cores e nos tons que Florence Welch habilmente entrega, montando um imaginário em nossa mente, enquanto escutamos suas canções, que poucos compositores são capazes de fazer. Em entrevista ao G1, Florence comentou sobre como constrói suas narrativas apoiando-se em mitologia, brincando com essas criações que compôs para se proteger, caminhando sempre entre fantasia e realidade. Por isso suas composições são tão intrinsecamente suas, algo que somente Florence Welch é capaz de fazer. Quem imaginaria reunir o mito de Narciso às coisas mundanas e a pandemia da Covid-19? Esse é um estado lírico que somente Florence Welch pode atingir e ainda fazer soar como verdade.

O resultado de tantos sentimentos, sensações, ansiedades e medos é um álbum caótico no melhor sentido da palavra. Dance Fever consegue reunir todas essas emoções e condensá-las em canções capazes de nos fazer querer dançar e correr mesmo enquanto descreve a montanha-russa que é sentir ansiedade (“As it picks me up, puts me down/ It picks me up, puts me down/ Picks me up, it puts me down/ A hundred times a day”), menciona Jesus Cristo em uma canção em que aborda questões intrinsecamente femininas ou canta sobre como nunca conheceu Elvis Presley e sua luta para se manter sóbria.

Há uma espécie de tristeza ansiosa no centro de Dance Fever e na maneira como Florence Welch passeia por tantos temas que, à primeira vista, parecem desconexos. As composições navegam por seres mitológicos, anjos, demônios, cruzes e crucifixos, e, ainda assim, entregam mensagem de esperança e beleza. Florence Welch canta sobre como é ser uma mulher em um mundo dominado por homens — não somente de maneira geral, mas especificamente como uma mulher na indústria da música — sobre conviver com a ansiedade, e sobreviver. Ouvir Dance Fever é acompanhar Florence Welch transformando todos os seus demônios em melodias, mostrando que, ainda que dadas as devidas proporções, sentimentos serão sempre os únicos fatos — e tudo bem.

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