Categorias: COLABORAÇÃO, TV

Brienne de Tarth: a mulher por trás da armadura

Game of Thrones nem sempre decepciona quando o assunto é representatividade feminina. As personagens de George R.R. Martin, criador da saga de livros As Crônicas do Gelo e Fogo em que a série se baseia, são complexas e não deixam nada a desejar em relação aos personagens masculinos, na realidade sendo, na maioria das vezes, as principais jogadoras em busca da conquista do trono de Westeros. Dentre todas essas personagens, uma das mais queridas do público, tanto na série de livros quanto na televisiva, é Brienne de Tarth, interpretada por Gwendoline Christie.

Brienne foi a única companhia familiar do pai, o senhor Selwyn Tarth, pois tanto sua mãe quanto seus três outros irmãos (um irmão mais velho e duas irmãs mais novas) logo morreram. Sua aparência foi muito ridicularizada por fugir dos padrões femininos de Westeros: possuindo um rosto com feições duras e um corpo alto e musculoso, Brienne tinha problemas para se identificar como uma mulher e desenvolveu inseguranças que a tornaram tímida e reclusa.

Descobriu seu lugar e sua força como guerreira, onde se destacou e se tornou uma das melhores de Westeros. Com esse papel em mente, recusou os casamentos que o seu pai a arranjava, sabendo que os homens só se interessavam pela herança da família, e seguiu para Ponta Tempestade para servir Renly Baratheon (Gethin Anthony), um dos poucos homens em quem confiava. Seu tempo ao lado de Renly como parte da sua guarda foi de curto prazo devido à morte prematura deste e, com o coração partido, Brienne precisa fugir do acampamento por ser uma grande suspeita de sua morte, o que faz ao lado de Catelyn Stark (Michelle Fairley). E é assim que sua jornada na série começa.

Após uma sequência de reviravoltas, Brienne acaba ao lado do infame regicida Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau), escoltando-o até Porto Real a pedido de Catelyn. Os dois personagens são quase perfeitamente opostos; enquanto Brienne é uma guerreira de incólume reputação e honra, Jaime é conhecido por ter traído o próprio rei e desonra todos os juramentos que deveria cumprir ao se juntar a guarda real. Em um “A Bela e a Fera” com os papéis de gênero invertidos, apesar de no começo um desprezar o outro, os dois personagens evoluem no que se torna um relacionamento de respeito e amadurecimento, uma das parcerias mais admiradas de Game of Thrones.

Com a Oathkeeper, espada Lannister dada por Jaime a Brienne, em mãos, ela se encontra atualmente do lado da casa Stark, mantendo a sua palavra com a falecida Catelyn Stark de proteger suas filhas agora órfãs, Sansa (Sophie Turner) e Arya Stark (Maisie Williams), defendendo-as e, consequentemente, defendendo o Norte no campo de batalha. Em todos os tipos de mídias, existe o estereótipo de mulher durona e sem sentimentos, ridicularizando todas as questões tipicamente femininas, sendo mais masculinizada e, por isso, é consideradas mais fortes. De primeira impressão, Brienne poderia ser identificada por esse estereótipo, mas uma análise mais profunda da personagem mostra como, na realidade, ela foi moldada pelas rejeições e insultos a sua aparência e, apesar disso, é uma mulher incrivelmente sensível e que luta com toda a força que tem para defender sua honra, a si mesma e quem ama, e que (ao contrário de boa parte dos personagens masculinos) não mata para o seu próprio prazer. Brienne praticamente funciona como a bússola moral da série após a morte do aclamado Ned Stark (Sean Bean), tendo um código de conduta rígido e nobre.

Sendo parte do grupo seleto de personagens sobreviventes, as expectativas dos fãs para Brienne são altas, existindo até mesmo uma teoria de que ela teria direito ao trono de Westeros (uma teoria postada detalhadamente e comentada no Reddit, em inglês) e, quando se fala em Game of Thrones, tudo parece ser possível. Tendo o trono ou não, sobrevivendo ou não a última temporada, Brienne tem já o espaço conquistado como uma das personagens mais memoráveis e admiráveis da série, em que representa todas as mulheres que não se sentem bonitas ou “femininas” o suficiente para se considerar mulher da maneira como é imposto socialmente, sendo sempre julgadas ou rejeitadas pela aparência e esperado nada além disso.

Mulheres estão além, além do ideal de beleza, e mesmo não podendo fisicamente lutar tão bem quanto Brienne, somos capazes de sermos de muito além do papel que nos é entregue e sermos a melhor no que gostamos de fazer, independente do seu físico e de como os outros definem ele. De um jeito ou de outro, somos todas Brienne de Tarth, só que cada uma de nós batalhando do seu jeito lutas diferentes.

Caroline Veríssimo é universitária de artes visuais e ruiva de farmácia. É completamente apaixonada por qualquer modo de contar uma boa história, perde tempo demais usando redes sociais e queria se identificar menos com o álbum de Duda Beat.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 comentário

  1. Eu adorei esse texto! A Brienne é uma das razões que me fizeram continuar a série e quero muito que ela tenha um final feliz, porem estamos falando de GoT. Então, só for digno já é alguma coisa.

    Ps: querer “se identificar menos com o álbum de Duda Beat” é o mood de todas nós