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Vivendo a distopia com Octavia E. Butler: A Parábola do Semeador

14 de junho de 2018: estou num evento de literatura, minha primeira cobertura in loco pelo Valkirias. É um encontro de ficção científica, talvez o gênero literário que está mais distante de mim — pelo menos era o que eu acreditava. São poucos títulos na estante e na minha lista de livros lidos, uma estatística triste que é fruto de anos nutrindo um preconceito bobo de quem achava que um gênero marcado por mundos distantes, criaturas estranhas e naves espaciais não teria nada a me dizer. As poucas leituras combinadas com as conversas da noite me fizeram sair de lá com uma ideia que deve ser óbvia para os já iniciados, mas que me impactou muito mesmo assim: esses mundos distantes e essas criaturas estranhas não existem no vácuo, como imaginação abstrata. Nosso mundo já é estranho o suficiente para fornecer toda a matéria-prima para a imaginação dos autores.

25 de maio de 2018: os caminhoneiros estão em greve em todo o país. Nos poucos postos onde ainda há combustível, há filas que ocupam quarteirões inteiros, com pessoas dispostas a pagar quase R$10 pelo litro de gasolina. As prateleiras dos supermercados parecem ter sido saqueadas, litros de leite são perdidos nas estradas e eu não tive coragem de clicar na notícia que contava sobre os animais que eram transportados e começaram a cometer canibalismo para não morrer de fome, por estar há dias sem ração. No meu pequeno mundo privilegiado, minhas aulas foram canceladas, foi colocado um anúncio no elevador do prédio pedindo para que não usássemos gás além do necessário, foi feito um almoço sem cebola e eu encarava o fato de que a viagem que passei quase um ano planejando e aconteceria dali alguns dias corria risco grande de não acontecer. “Haveria país dali uns dias?”, é uma pergunta que me sinto cada dia menos alarmista ao fazer.

21 de julho de 2024: no dia seguinte ao seu décimo quinto aniversário, Lauren Oya Olamina sai da proteção murada do bairro onde mora para atravessar a cidade rumo a uma igreja, onde será batizada junto a dois de seus irmãos e quatro outras crianças do bairro. Descobrimos, no registro anterior que abre A Parábola do Semeador, de Octavia Butler, que ela não acredita mais no mesmo Deus que seu pai, um ministro batista, mas está disposta a ser batizada para deixá-lo contente no dia do seu aniversário, que também acontece no dia 20 de julho. Enquanto isso, naquelas primeiras páginas, ela registra um sonho e começa a traçar ideias a respeito de Deus. Deus é mudança.

“Tudo o que você toca
Você muda.
Tudo o que você muda
Muda você.
A única verdade que persiste
É a mudança
Deus é mudança.”

Enquanto ela anda do lado de fora do bairro, guardado por muros altos, cacos de vidro, arame farpado, e todo artefato rudimentar de segurança que os poucos recursos permitem aos moradores, vemos um pouco do que restou da Califórnia no lado de fora. As mudanças climáticas e o colapso da economia moldaram juntos uma realidade americana (e, subentende-se, mundial) marcada pela escassez de água, comida e segurança social. Os períodos de seca chegam a durar mais de um ano e, quando vêm, as chuvas provocam inundação e caos. Terremotos são cada vez mais comuns, como também são os incêndios — tanto aqueles derivados do clima árido como os provocados pelos viciados em uma nova droga sintética, que faz com que a visão do fogo leve ao delírio. Do lado de fora dos muros, roubar e matar é uma questão de sobrevivência. As pessoas desabrigadas se acumulam pelas ruas e é difícil saber quem está vivo e quem está morto. Estuprar mulheres e crianças faz parte do ritual das gangues de saqueadores, que invadem casas e acampamentos atrás de tudo de valor — roupas, comida, sapatos, armas, munições — para aumentar a própria força (e, consequentemente, as chances de sobrevivência) ou trocar tudo por drogas.

Um mundo de paz relativa, com empregos assalariados e carros movidos a gasolina, são histórias que Lauren e seus irmãos ouvem de seus pais e fazem força para acreditar, como se o passado fosse um conto de fadas. Ela já viu alguns caminhões parados na rua, reza a lenda que os vizinhos tinham um carro, mas esses restolhos são tudo que ela conhece. Em A Parábola do Semeador, os personagens andam pelos escombros da nossa sociedade.

14 de junho de 2018: No final do evento, quando a mesa foi aberta para perguntas do público, alguém perguntou aos convidados qual seria a grande tendência para a ficção científica no momento. Todos concordaram que as mudanças climáticas e suas consequências são o grande tema do momento, assim como as explorações espaciais — não mais como o fim de uma aventura, mas como alternativa ao planeta que destruímos com nosso progresso inconsequente.

Agosto de 2017: Estou lendo o livro A Era do Imprevisto, de Sérgio Abranches. Na obra, o cientista social busca apreender, por meio de um longo ensaio, o período transitório que estamos vivendo, agora que os referenciais que tínhamos de outrora já não servem mais, e as coisas mudam tão rápido que até mesmo saber que mudanças de paradigma fazem parte da história — e que essa não é nem sequer a primeira vez em que isso acontece — não afasta o desassossego de ver tudo mudar diante dos nossos olhos. Suas reflexões se estruturam em três frentes: a revolução digital, os modelos econômicos e políticos, e a transição climática.

É um livro de sociologia, que tem “política social” em sua ficha catalográfica, o que quer dizer que é muito mais provável que seja uma leitura feita para fins acadêmicos do que de entretenimento numa tarde de domingo, mas a forma como ele constrói seu panorama foge desse pragmatismo. Embora se apoie em nomes da política, da economia e da sociologia, Sergio Abranches se volta muito para a literatura, sobretudo para a ficção científica. No prólogo do livro, ele justifica sua escolha:

“O gênero literário mais desprezado pelos ensaístas é o da ficção científica, muitas vezes demonstra maior compreensão de tendências emergentes ou a emergir do que a literatura de não ficção, de base científica ou técnica. (…) Tentar prever ou desenhar de antemão os contornos do porvir, imaginando que ficarão no terreno das possibilidades do real, pode nos levar a erros muito maiores do que imaginar futuros nas possibilidades ilimitadas da ficção, que finge ser verdade a mistura de especulação e pura imaginação. (…)

Como seres da transição, não temos as ferramentas para apreender o futuro à nossa frente, principalmente o que está além da linha do horizonte do visível. Ele se perde nas tramas do incerto. Tentar prevê-lo seria infrutífero. Nem sequer somos capazes de captar a direção efetiva dos processos de mudança, porque ela ainda não está inteiramente definida. Seria possível se esses processos fossem lineares, mas não são. Se houvesse continuidade temporal, que não haverá. Marchamos rumo a descontinuidades radicais, a rupturas estruturais. O mundo do século XXI não será uma projeção ampliada do mundo do século XX, será muito diferente dele. Resta-nos pensar os momentos.”

No universo paralelo e possível de A Parábola do Semeador, na segunda década do século XXI, as coisas não estão melhorando. À medida que a pobreza e o desespero cresce do lado de fora dos muros, as ameaças ao bairro se tornam mais frequentes. Invasores começam a aparecer. Pessoas são mortas. Crianças e adolescentes começam a praticar tiros, manejo de armas e artes marciais para a própria defesa. Lauren começa a se preparar para o pior e faz um kit de sobrevivência caso precise fugir no meio da noite, ou melhor, para quando precisar fugir. Ela quer ir para o norte, talvez para o Canadá, em busca de um lugar em que o preço da água é mais acessível e é possível encontrar empregos que paguem com dinheiro, e não apenas com abrigo e comida, algo que se assemelha bastante a uma escravidão por dívidas.

O contexto econômico e político dos Estados Unidos de A Parábola do Semeador aparece apenas como pano de fundo da história; sabemos o que Lauren, a narradora, sabe, e ela sabe muito pouco porque a desigualdade social faz com que poucos tenham acesso a grandes telas de realidade aumentada enquanto o resto se comunica com o mundo por meio de rádios precários ou nem isso. Ainda assim, Octavia Butler é tão boa na construção desse mundo que conseguimos enxergar que os personagens vivem as drásticas consequências do capitalismo tardio, sem qualquer espaço no mercado de trabalho para os jovens, que formam uma grande massa iletrada, e as instituições políticas não inspiram a confiança de ninguém. Em alguma noite de junho de 2018, enquanto lia o livro no meu quarto, identificava nas falas dos personagens alguns dos pensamentos fatalistas que escuto das pessoas ao meu redor, dos meus amigos, outros de minha própria autoria. Tento mandá-los para longe enquanto penso na inteligência e sensibilidade da autora ao construir essa narrativa numa história que começou a ser escrita em 1989.

Octavia Estelle Butler nasceu em 1947, na Califórnia, e morreu em 2006, aos 58 anos, antes de terminar a trilogia que havia planejado para a Semente da Terra, em que A Parábola do Semeador é o primeiro título (o segundo volume, Parable of Talents, ainda não foi publicado no Brasil). Órfã de pai, negra e filha de empregada doméstica, Octavia Butler se apaixonou ainda muito jovem pela ficção científica, porque gostava de conhecer mundos diferentes do seu. “Escrevi sobre poder, porque tinha muito pouco” é uma de suas frases mais famosas, mas também gosto muito de quando ela diz que escrever ficção científica foi uma forma de imaginar vidas que fossem além da realidade na qual crescera, extremamente limitada. Sua literatura, no entanto, não é escapista; longe disso. Ela escreve sobre mundos diferentes e imaginários, mas coloca neles as tensões sociais e estruturas de poder que são 100% coisa nossa.

Sua obra é povoada por personagens que estão à margem da sociedade e que não costumavam ser sujeitos nas histórias que ela cresceu lendo. A Parábola do Semeador é protagonizado por uma adolescente negra e a comunidade que Lauren Olamina concentra em torno de si ao longo da história é cheia de figuras fora do lugar comuns na ficção científica (e por que não dizer da literatura de modo geral?): negros, hispânicos, mães solo, homens velhos, crianças. E eles não se limitam a um rótulo, mas são imbuídos de tanta vida que mesmo aqueles que aparecem na história por pouco tempo (como o pai e a madrasta de Lauren ou então seu irmão Keith) são impossíveis de esquecer.

Foi esse talento para a escrita, sua determinação e confiança para ser a melhor escritora que poderia (quer se emocionar? Leia os trechos do diário em que Octavia escreve, quase como um mantra, que seria uma escritora de sucesso), que a levaram a ser a primeira autora de ficção científica a receber o prêmio da fundação MacArthur, além de ter recebido o Hugo e o Nebula Awards, dedicados à obras de fantasia e ficção científica. Embora girem em torno de eventos extraordinários, como futuros distópicos e viagens no tempo, o que nos prende aos seus livros é a humanidade de seus personagens e o olhar igualmente humano que ela traz às aventuras que relata.

Além de ser uma jovem sobrevivente, uma adolescente obstinada e visionária, Lauren Olamina é portadora da síndrome de hiperempatia. Isso significa que ela tem a capacidade de sentir, visceralmente, a dor e o prazer de todos ao seu redor. No mundo violento em que vive, isso pode se tornar um enorme ponto fraco caso ela não tome cuidado, uma vez que sente em si todo golpe que inflige e muitas vezes é obrigada a matar para sobreviver à própria dor. Essa vulnerabilidade coloca em xeque o clichê cansativo da protagonista forte e inabalável (que pesa principalmente sobre os ombros das mulheres e personagens negras), já que Lauren é literalmente afetada por tudo ao seu redor. Em entrevista, a autora conta que A Parábola do Semeador é também um romance de formação, uma autobiografia ficcional retirada dos diários de uma adolescente, para que, no futuro, essa garota extraordinária, líder de uma comunidade, fundadora de uma religião com perfil messiânico, as pessoas soubessem que antes de tudo ela era humana, falha, cheia de dúvidas, mesmo acreditando profundamente em seus princípios.

E é sentindo tudo que ela resiste, ora precisando atirar para matar e se livrar de partilhar da dor de seu inimigo, ora se tornando mais aberta ao amor e ao prazer do que costumamos ver em outras heroínas como ela, como Katniss Everdeen, de Jogos Vorazes. Lauren sente a dor dos outros, mas também sente o prazer, e se entregar a ele também faz parte de sua resistência. Sua empatia radical não é uma escolha, mas sua trajetória mostra como não existe força mais poderosa do que a vulnerabilidade.

1º de junho de 2018: Entre trancos e barrancos, sobrevivemos à greve dos caminhoneiros e aos dias de distopia em um país parado. Depois de um dia, era como se nada tivesse acontecido, mas a situação mostrou a dimensão da nossa dependência, nos mais diversos sentidos. Gostamos de acreditar que dominamos o mundo, mas vimos que é possível parar um país tirando poucas coisas do nosso alcance. Na maior parte dos lugares, pelo menos na realidade da classe média, não houve perigo real de desabastecimento generalizado de supermercados e as prateleiras vazias eram mais uma consequência do pânico das pessoas, que correram para garantir o seu e nem pensaram em garantir que haveria o suficiente para todos. As pessoas estavam roubando gasolina do tanque umas das outras no meio da rua e enchendo os carrinhos do supermercado. Em momentos de crise aprendemos muito sobre quem somos e sobre quem está ao nosso redor, e o verniz social é bem mais ralo do que gostaríamos de imaginar.

Outra forma de olhar para a hiperempatia da protagonista de A Parábola do Semeador é considerá-la uma metáfora para a necessidade de lembrar que estamos juntos nesse mundo e isso significa considerar a coletividade junto das nossa individualidade. Ela simplesmente não pode agir sem considerar o dano que estará causando aos outros e isso me faz pensar sobre equilíbrio entre as necessidades individuais e coletivas que é um dilema da filosofia política desde a época de Jean-Jacques Rosseau. Ao falar sobre a transição climática em A Era do Imprevisto, Sérgio Abranches mostra como o esgotamento do capitalismo é esperado, já que sistemas de produção são transitórios, mas a humanidade tem caminhado para esse esgotamento — numa realidade em que a balança sempre pesa a favor das necessidades individuais — como se tivesse controle do que viria depois, como se pudesse moldar o próprio futuro, mas agora a natureza chegou para cobrar a conta.

“O futuro não é sobredeterminado pela natureza. Os limites da natureza se impõem, por excesso, por causa das escolhas dominantes de elidi-los ou desprezá-los. O que determina o resultado da relação ser humano/natureza são as articulações entre as transformações estruturais na sociedade e a escolha das forças sociais em interação a cada momento histórico.”

Em A Parábola do Semeador, Octavia Butler deixa claro que a humanidade foi a autora daquela ruína. Na entrevista concedida em 1999, que complementa a edição lançada recentemente pela Editora Morro Branco, a escritora conta que em suas pesquisas para o livro considerou as consequências para problemas que já existiam e que ela conseguia observar em 1989, quando começou a escrever. Seu prognóstico para esse futuro era tão deprimente que a autora decidiu interromper a série antes de escrever o último volume.

Apesar disso, há esperança para seus personagens — e, quem sabe, para nós. Lauren Olamina aprende em sua jornada o poder da vida em comunidade e funda uma religião que, em vez de idolatrar uma entidade senciente, caridosa e antropomórfica, gira em torno da única força que não podemos parar: a mudança. A resposta, que ela registra no Livro dos Vivos, que vai escrevendo no decorrer da trama por meio de versos, não é tentar frear a mudança ou se curvar diante dela, mas se adaptar e, assim como as sementes vitoriosas da parábola que dá título ao livro, germinar.

29 de junho de 2018: terminei A Parábola do Semeador e tenho pensado muito na história e em Octavia Butler. Quando penso na mulher obstinada que era, gostaria que ela ainda estivesse aqui para ver, em meio aos nossos escombros, como ela foi perspicaz, sensível e profundamente inteligente ao construir sua obra. Ao mesmo tempo, fico aliviada que ela se foi antes de ver a concretização de muitas de suas previsões que, de tão deprimentes, a fizeram desistir do trabalho. Tenho pensado muito em Octavia Butler, em Lauren Olamina, e no que o futuro nos reserva. Gostaria que pensássemos mais, juntos, sobre elas e sobre a janela para o amanhã que é A Parábola do Semeador. Não temos como parar a mudança, mas podemos escolher como reagiremos a ela e o que queremos fazer brotar no futuro.

A Parábola do Semeador

O site recebeu uma cópia antecipada da obra para resenha por meio de parceria com a Editora Morro Branco


**A arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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