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Monstruosidade Feminina no Folclore Japonês: entre lendas e história

Você sabe o que é mukashi banashi? Além do próprio significado da palavra, “contos antigos”, ou “lendas”, o mukashi banashi é considerado um gênero da literatura japonesa, formado por contos orais que compõem o folclore japonês, e que eram transmitidos de geração em geração no Japão. Como qualquer narrativa folclórica e oral, é impossível determinar quando esse gênero surgiu, mas há indícios de que ele pode ter começado no período da história japonesa conhecido como Joumon (9.500 a.C. – 300 a.C.), época em que a população ainda era caçadora e coletora.

Essas histórias orais continuaram a se desenvolver junto com a civilização japonesa, solidificando características que se tornaram comuns aos contos pertencentes ao gênero. No entanto, só começaram a ser registradas e academicamente estudadas no século XX pelo antropólogo japonês Kunio Yanagita, considerado o pai dos estudos folclóricos no Japão. Quem gosta de animes e mangás pode não conhecer o conceito de mukashi banashi, mas com certeza já teve contato com alguma de suas lendas e personagens. Alguns exemplos são:

  • Os personagens raposa, ou metade raposa, baseados no ser folclórico kitsune, como: Kyuubi ou Kurama (Naruto), Shippou (InuYasha), e Kurama (Yu Yu Hakusho);
  • Os youkai, termo genérico para qualquer tipo de ser monstruoso ou espiritual, que apresentam as mais diferentes formas, como os kappa, tengu, oni e fantasmas. Personagens desse tipo são vistos em: Gugure!, Kokkuri-san, Natsume Yuujinchou, e Arakawa Under the Bridge.
  • Momotarou, a lenda do menino nascido de um pêssego. Referenciada em animes como: The Prince of Tennis, Kaichou wa Maid Sama, Hello Kitty’s Animation Theater, e até em One Piece;
  • Diferentes tipos de fantasmas (Yuurei) ou espíritos, que no folclore japonês podem ter aparências variadas. Entre os exemplos de fantasmas que aparecem em animes, encontramos: hitodama, “alma humana”, fantasmas em forma de bolas de energia (Shaman King); zashiki warashi, fantasmas de crianças (×××HOLiC); e ayakashi, fantasmas/ criaturas do mar (Mononoke).

Esses seres e lendas folclóricas, muitos surgidos dentro dos contos de mukashi banashi, são muito presentes nas narrativas japonesas, sejam antigas ou atuais, afinal, segundo seu principal pesquisador, Kunio Yanagita (1875 – 1962), essas histórias contêm a essência do povo japonês. Portanto, quando paramos para analisar os seres femininos presentes nos contos, conseguimos entender muito da cultura e pensamento de diferentes épocas do Japão.

Folklore japonês

Aqui, trarei alguns seres folclóricos monstruosos femininos, com o objetivo de analisar visões antigas da figura da mulher, com seus tabus, preconceitos e estereótipos. Importante ressaltar que, assim como o papel da mulher passou por mudanças ao longo da história do Japão, tendo mais ou menos autonomia e poder de acordo com a época, há histórias folclóricas protagonizadas por figuras femininas divinas, guerreiras, bondosas, sábias e dominantes. No entanto, meu foco será nos seres monstruosos, fantasmagóricos e vingativos, que chamarei genericamente de youkai, sempre tentando trazer um breve contexto histórico e cultural que, na minha visão, pode explicar os acontecimentos das narrativas, assim como uma visão feminista sobre o tema.

Mulheres Monstruosas 

Para facilitar a compreensão de alguns tópicos discutidos, os seres aqui analisados podem ser divididos de acordo com suas origens, e dos estereótipos por trás dessas origens: a mulher emocionalmente desequilibrada, a mulher sedutora e pecaminosa, a mulher que perde seu valor devido à sua aparência, a mulher punida por crimes que não cometeu. Essa divisão irá apresentar meu ponto de vista sobre a monstruosidade feminina no folclore japonês. As histórias citadas podem ser interpretadas de formas divergentes das aqui apresentadas, além de possuírem um complexo contexto histórico-cultural por trás, que seria impossível de resumir em uma única matéria, por isso os apresentarei de forma breve e pessoal.

Também é preciso ter em mente que muitos dos seres aqui apresentados possuem variações em suas narrativas de acordo com a época e o local em que suas histórias são coletadas. E, o mais importante, eles não seguem a definição ocidental de “bem” e “mal”. Os youkai são seres ambíguos, podendo ter atitudes às vezes bondosas e às vezes maldosas, ou simplesmente existir, sem interferirem na vida humana.

Apesar dessa ambiguidade, é importante lembrar que são histórias criadas por pessoas, e por isso carregam consigo os preconceitos e crenças existentes na sociedade.

Mulheres emocionalmente desequilibradas

Um youkai pode surgir de diversas formas, tendo sua origem em objetos amaldiçoados, fenômenos da natureza, sentimentos humanos negativos e em “pecados” cometidos por homens e mulheres. Não falo aqui do uso ocidental/ cristão de “pecado”, mas sim um conceito ligado ao xintoísmo e ao budismo. Uma das origens mais comuns para um youkai é uma manifestação de sentimentos ruins, como ciúmes, ódio, inveja, ganância e rancor. Esses sentimentos, na minha percepção quanto aos seres aqui escolhidos, são em sua grande maioria associados à figura feminina.

Mulheres consideradas ciumentas ou rancorosas acabam sendo amaldiçoadas, tornando-se seres monstruosos impedidos de terem uma vida normal, ou que as tornam selvagens e perigosas, cuja única função é atormentar aquele que é a origem de seus sentimentos, geralmente um homem ou a amante deste homem, ou qualquer um ao seu redor.

Um exemplo desse tipo de personagem é a Taka Onna (高女, たかおんな), “A Mulher Alta”, um youkai com aparência de uma mulher comum, mas que tem o poder de alongar seu corpo inteiro, crescendo até vários metros de altura de forma assustadora. São mais comumente vistas em bordéis, onde ficam espiando através de janelas e assediam homens e mulheres. O motivo da existência desse ser é o ciúme pelo prazer físico que não puderam ter quando vivas, pois, por não serem bonitas, não conseguiram se casar e nem mesmo trabalhar como prostitutas. Dessa forma, elas se tornaram seres corrompidos por seus desejos reprimidos e viraram monstros feios e maliciosos.

Folclore japonês - Taka Onna
Taka Onna de Shigeru Mizuki

Apesar de não serem perigosas, as Taka Onna  atacam a energia sexual dos outros, algo muito comum dentro da religião no Japão, onde se acreditava que a mulher, no ato sexual, roubava e esgotava a energia do homem. Acreditava-se também que o sexo com uma mulher era algo “impuro” para monges. Por isso, durante um longo tempo da história japonesa, o sexo homossexual, seja nos monastérios ou nos palácios, era incentivado e celebrado.

Outro youkai associado a sentimentos ruins são as Onryou (怨霊, おんりょう), um tipo de fantasma vingativo normalmente (apesar de não unicamente) representado por mulheres traídas, ciumentas ou rancorosas, que transformam-se em espíritos agressivos, vagando em busca de vingança contra seus ex-amantes e suas novas esposas e filhos. As Onryou gostam de atormentar o objeto de sua raiva por longos períodos de tempo até sua morte, assim como todos os membros de sua família e qualquer pessoa que cruzar seu caminho.

Não é difícil entender o motivo desse tipo de entidade estar tão fortemente ligado a figuras femininas. Separar homens e mulheres entre aqueles que seguem a razão e aqueles que seguem a emoção é algo que também fez, e faz, parte da cultura ocidental. O estereótipo de que a mulher é controlada por seus sentimentos e que perde a noção da realidade, transformando-se em monstros tomados pelo ciúme, rancor e paixão, buscando vingança contra seus amantes é fortemente presente na atualidade.

Quantas vezes filmes e séries nos obrigam a engolir uma rivalidade feminina baseada em ciúme? Seja o ciúme da beleza e riqueza de outros, ou do ciúme de um amante. Ou quando lemos reportagens que colocam figuras femininas famosas dentro da categoria mulher desequilibrada, como ocorreu com a polêmica e machista reportagem da revista Isto É, que representou em sua capa a presidenta Dilma Rousseff como uma mulher louca que está perdendo o equilíbrio emocional.

Quando uma mulher expressa seu descontentamento e raiva, ela é automaticamente colocada dentro da categoria de louca e histérica, tendo suas emoções invalidadas e reduzidas a meros ataques de descontrole, sendo retratadas como incapazes de lidar com pressões e decepções. Passando de uma pessoa expressando sentimentos legítimos, de acordo com determinadas situações, para seres monstruosos. Enquanto isso, as figuras masculinas com sentimentos exacerbados são tratadas de forma positiva, como tendo “personalidades fortes”.

Mulheres sedutoras e pecaminosas 

Outro estereótipo de gênero associado à figura feminina é o do ser sedutor e impuro, que atrai os homens para o “pecado”, tornando a sexualidade e sensualidade feminina uma arma usada contra homens, solteiros ou casados, que tem como objetivo destruir as suas vidas. Quantas vezes não vemos pessoas justificando atos de abuso e estupros, devido às roupas ou comportamentos femininos? Ou temos que ouvir a frase “ela provocou”?

Além disso, na nossa sociedade, quando um homem trai sua companheira, muitas vezes vemos a mulher traída ir tirar satisfação com a amante, como se o homem fosse a vítima inocente, que teve sua mente manipulada e deturpada por uma mulher sedutora. Uma mulher que usa seu corpo, palavras e beleza para levar o homem ao mal caminho (olá, Adão e Eva!).

Também vemos muito desse tipo de “mulher fatal” nos contos folclóricos japoneses. Um exemplo é a história da Jorougumo ( 絡新婦, じょろうぐも), “A mulher aranha” ou, como era mais conhecida até pouco tempo atrás, “A aranha prostituta”.  Segundo a lenda, as Jorougumo são aranhas que ao atingirem 400 anos de idade passam a se alimentar de seres humanos. Para isso, as frias e enganadoras Jorougumo se transformam em mulheres sexys e belas, para seduzir homens jovens e viris que estão em busca do amor (que meigos, não?) com a intenção de matá-los.

Folklore japonês - Jorougumo
Jorougumo por Binbinn

Outro exemplo de ser sedutor é a Hinoenma (飛縁魔, ひのえんま), “Demônio voador do destino” ou ainda “Mulher que impede o destino” (obviamente, o destino de um homem). Hinoenma também são representadas por mulheres bonitas, que usam sua aparência para atrair homens jovens, principalmente monges. Elas são as representações perfeitas do “mal feminino” (femme fatale), caminhando pelas ruas, buscando jovens homens para se alimentar de sua virilidade, os deixando fracos e pobres, arruinando suas vidas. Tudo isso é ainda mais agravado pelo fato de seduzirem monges, homens puros e iluminados.

Nesse tipo de lenda, principalmente a última, temos muito da influência budista, que antigamente considerava o ato sexual entre monges (e até mesmo não monges) e mulheres um pecado, ou algo perigoso para a parte masculina. No entanto, como dito anteriormente, o sexo entre homens era permitido. Nos conceitos budistas da época, a verdadeira natureza feminina era perigosa e maléfica. Segundo o pesquisador Matthew Meyer, do site Yokai.com:

“Essa misoginia teve várias implicações. As mulheres eram consideradas perigosas tanto para o status e riqueza mundanos quanto para a saúde espiritual e atividades religiosas. As mulheres comem a comida dos homens, gastam o dinheiro dos homens e levam os homens à ruína financeira e social. Além disso, eles forçam os homens a se concentrarem em coisas mundanas, como desejos sexuais e riquezas materiais (a fim de manter o estilo de vida extravagante que as mulheres exigem), fornecendo barreiras para a iluminação espiritual.”

O significado do nome da Hinoenma tem relação justamente com a ideia budista de que demônios tentam interromper o caminho espiritual de uma pessoa, assim como ocorreu com Buda, que era constantemente tentando com belas mulheres. Essa mentalidade se aproxima também do conceito cristão da mulher como aquela que leva o homem a pecar. Como quando Eva come a maçã da árvore proibida, e propõe a Adão que também a coma.

Mulheres sem valor devido à sua aparência

O estereótipo da mulher feia e velha pode ser associado a várias ideias culturalmente estabelecidas, como a de que o sonho de toda mulher é se casar (as que não se casam são motivo de deboche), a de que toda mulher nasce para ser mãe, a de que em determinadas idade a mulher “estraga”, a de que mulheres “feias” não têm valor, a de que ser velha é sinônimo de ser “feia”, entre muitas outras.

Folclore japonês - Ao Nyoubou
Ao Nyoubou

No folclore japonês, há muitas histórias de youkai que surgem de mulheres que não alcançaram os objetivos de vida acima citados, ou que se transformam em youkai devido a velhice e suas consequências. Como o caso da Ao Nyoubou (青女房, あおにょうぼう), “Mulher Azul”. Nos contos dessa criatura, ela habita mansões abandonadas e tem a forma de uma mulher nobre da corte. Sua característica mais marcante é sua velhice, que elas tentam esconder através do constante ato de se maquiar e arrumar o cabelo. Suas existências se resumem a esperar por um amante ou marido que as abandonou e que nunca voltará.

Esses seres estão relacionados com a vida das damas da corte Imperial japonesa. Essas mulheres eram fadadas a viver trancadas em suas casas, entediadas e solitárias, esperando a visita de seu marido, ou de seu amante. Muitas vezes, sabiam que eram traídas por seus amados, que tinham a liberdade de ir e vir que elas não possuíam. Os homens se aproveitavam da falta de mobilidade feminina, imposta na época, para dormirem com outras mulheres, pois suas esposas e amantes teriam dificuldade em descobrir sobre essas traições. Além disso, algumas dessas mulheres nobres tinham como destino final de suas vidas, quando envelheciam, serem trocadas por mulheres mais jovens, ou tornarem-se monjas e viverem na extrema pobreza. Também havia aquelas que nunca conseguiam se casar, tornando-se “solteironas”, mulheres vistas pela sociedade como sem valor e status. Destinadas a envelhecer e morrer malsucedidas em suas vidas, transformando-se em monstros youkai solitários e decrépitos.

Outro youkai muito famoso, e que tem uma trágica história relacionada a sua aparência física, é a Oiwa (お岩, おいわ). Dizem que a lenda do fantasma de Oiwa é baseada em uma história real, e que a verdadeira Oiwa teria falecido em 1636. Por ser uma história muito popular, há muitas variações da lenda, mas, resumidamente, a história fala sobre uma mulher chamada Oiwa, que vivia um casamento infeliz com seu marido Iemon, um homem maldoso e ladrão que só vivia com ela pelo dinheiro que possuía. O vizinho do casal, querendo separar Oiwa de Iemon e casá-lo com sua filha, aproveitou-se de uma doença de Oiwa para recomendar um remédio, que na realidade era um veneno.

O veneno destruiu o rosto de Oiwa, tornando-a muito feia, e causando repulsa e ódio em Iemon. Assim, após receber a proposta de se casar com a filha do vizinho, uma jovem linda e rica, Iemon pediu a um amigo para estuprar Oiwa, para ter um motivo legítimo de divórcio. Entretanto, o amigo contratado não consegue realizar o ato por nojo do rosto desfigurado. Com remorso, ele conta todo o plano à mulher e mostra para ela o rosto deformado que até então ela não sabia possuir. Oiwa acaba enlouquecendo e se matando. Iemon fica feliz com o ocorrido e se livra do corpo da mulher, inventando a mentira de que ela havia fugido com um amante. Mais tarde, Oiwa retorna como um fantasma e passa a amaldiçoar Iemon, sua nova esposa e seus filhos. Todos acabam enlouquecendo e morrendo.

Mesmo após a morte de Iemon, Oiwa continuou amaldiçoando qualquer um que atravessasse seu caminho. Apesar de ser a vítima e de ter alcançado sua vingança, a pobre Oiwa não tem paz, e em muitas versões da história, continua a vagar cheia de ódio e com seu rosto deformado, amaldiçoando outras pessoas por aí.

Mulheres punidas por crimes que não cometeram

Uma coisa que estamos muito acostumados a ver é a mulher sendo socialmente punida pelos erros e crimes dos homens ao seu redor, como nos casos já citados de mulheres que se tornam culpadas de seus estupros, assédios ou de suas próprias violências domésticas. Há também história desse tipo no folclore japonês, sendo representadas em figuras de youkais. As histórias podem ser encaradas de duas formas: uma mulher obtendo sua vingança e fazendo justiça contra um homem que foi violento com ela, ou uma mulher sendo punida, transformando-se em um ser monstruoso, mesmo sendo ela a vítima.

Esse último caso lembra a história da Medusa. Considerada até hoje um monstro e uma vilã de diversas histórias e mídias (filmes, livros, séries etc.), quando sua terrível história é a de uma mulher violentada, que foi punida e transformada em um monstro, mesmo sendo inocente. Medusa teve a violência sofrida silenciada e apagada ao longo do tempo, tornando-se lembrada apenas como uma mulher monstruosa.

Folclore japonês - Rokurokobi
Rokurokobi por hello-magpie

Um dos exemplos mais conhecidos no folclore do Japão é a Rokurokubi (轆轤首, ろくろくび), “A mulher de pescoço longo”, uma mulher amaldiçoada, que durante a noite tem seu pescoço incontrolavelmente esticado enquanto dorme. Às vezes se alimentando de óleo de lamparina, em outras assustando aqueles que dormem na mesma casa. O mais interessante sobre esta lenda é o motivo da maldição: algum mal cometido pela mulher, normalmente uma infidelidade conjugal, ou um mal cometido por seus maridos que acaba levando a maldições sofridas pelas esposas. Um dos motivos que levam alguém a se tornar youkai é ter sofrido uma morte violenta. Ao analisarmos a proporção de mulheres e homens que fazem parte deste grupo, obviamente, o número de mortes femininas cruéis é muito superior.

Outra mulher que podemos considerar que foi punida e transformada em youkai por pecados cometidos por um homem é a personagem Okiku (お菊, おき). A versão mais famosa de sua história conta que Okiku, uma bela serva trabalhando como lavadora de pratos no Castelo de Himeji, sofre uma morte terrível. Na lenda, Aoyama, um dos samurais de mestre de Okiku, tenta conquistá-la a qualquer custo. Mesmo com Okiku sempre recusando seus avanços, ele nunca a deixa em paz. Então, um dia, Aoyama cria um plano para enganar a mulher e forçá-la a se tornar sua amante, dizendo a Okiku que ela perdeu um dos pratos de seu mestre, um crime punível com a morte.

Aoyama faz uma proposta a Okiku: diz que ignoraria seu erro caso ela aceitasse ficar com ele. No entanto, ela volta a recusar, e ele ordena que ela seja torturada de diversas formas: espancada, amarrada, afogada, e cortada com uma espada, até que Okiku morre. Devido à sua morte horripilante, Okiku retorna como um fantasma, assombrando o castelo em que trabalhava em vida, procurando pelo prato perdido, deixando todos ao redor doentes, e atormentando Aoyama. O senhor do castelo decide, então, chamar um monge para “exorcizar” Okiku. Após o monge dizer ao fantasma que o prato faltante estava ali, Okiku encontra “paz” (entre grandes aspas) e não volta a aparecer. Entretanto, nada ocorre com o homem responsável por sua morte violenta, Aoyama.

A semelhança entre esse tipo de conto e a história da Medusa é muito clara. Nos dois casos, quem realmente parece ser amaldiçoado é a vítima, e não o agressor. Nos casos em que o culpado é punido com a loucura, ou a morte, a vítima ainda assim continua sendo um youkai, condenada a vagar por séculos, cheia de raiva e sofrimento, muitas vezes nunca encontrando a paz. Em outros casos, o culpado é salvo, seja por um monge ou por outra coisa, enquanto a youkai é tratada como um monstro terrível que deve ser “exorcizado”, desaparecendo do mundo sem obter justiça.

A mulher na sociedade japonesa e o folclore japonês

A posição da mulher na sociedade japonesa passou por muitas mudanças ao longo dos séculos, como aponta o trabalho da pesquisadora Marcia Hitomi Namekata. Por volta dos séculos  II a III, a sociedade japonesa pode ser considerada matriarcal, com a mulher sendo a figura de liderança local, fortemente associada à agricultura, a base central e principal da vida em sociedade. Por isso, uma das maiores divindades japonesas relacionadas à fertilidade, ao arroz e ao sucesso é uma mulher: a deusa Inari.

Inari Okami
Inari Okami por Ashley Stewart

A passagem para uma sociedade patriarcal começou a ocorrer aos poucos, junto com a passagem da agricultura das mãos femininas para masculinas. No período Yayoi, com os homens dominando a produção, as mulheres se tornaram dependentes. Com o surgimento do conceito de propriedade, cria-se também a noção de controle do homem sobre a mulher, e a inferiorização da mulher começa a aumentar junto com o desenvolvimento econômico.

No século VI, com a unificação do país e o fortalecimento do Imperador, a base da sociedade familiar passa a ser o Confucionismo, que pregava que a mulher devia ter um único marido, ser obediente, se dedicar e se auto-sacrificar. Além disso, a mulher passa a ser apenas um meio de reprodução, por isso, ter muitas filhas mulheres era comum, ideia que se consolidou no período Heian (794-1185). Esse período ficou marcado pela poligamia (muitas mulheres para um homem), e a mulher era vista como um acessório masculino, ficando trancada em casa, como um enfeite. Apesar desse isolamento, as mulheres se aproveitaram das desvantagens para dominar a literatura da época, e possuíam elevados status de acordo com o nome de suas famílias.

Na época feudal, com os samurais e sua força “masculina” que deveria oprimir a mulher, ter um filho homem passou a ser uma obrigação em qualquer família. Assim, a mulher era considerada apenas “esposa” ou “filha”, não sendo mais importante por sua capacidade de reprodução. Afinal, se a esposa não desse ao marido um filho homem, ele poderia dormir com uma concubina para conseguir um. Por fim, com a chegada do Budismo, a posição de inferioridade feminina aumentou, pois a religião pregava que a mulher era em si pecaminosa, e que não poderia obter a iluminação, além de ser responsável por atrapalhar a elevação espiritual masculina.

Podemos encontrar, seja na literatura oriental ou ocidental, estereótipos femininos que retratam a mulher como um ser impuro e moralmente inferior, que, mais cedo ou mais tarde, acaba por trazer desgraça a vida dos homens. Mas, assim como a sociedade evolui, também vemos essa evolução retratada no campo literário, principalmente, quando as mulheres passam a utilizar a escrita para darem seus pontos de vista sobre os mais variados assuntos, e para amenizarem os sofrimentos diários pelos quais passavam. Não é atoa que a Era Heian no Japão foi dominada por autoras femininas que escreveram alguns dos textos mais importantes da literatura japonesa e mundial, como Sei Shônagon e Murasaki Shikibu. Além disso, acredito que essas narrativas antigas que, como qualquer texto antigo carregam marcas de sua época, sejam elas boas ou ruins, não devem ser ignoradas ou desvalorizadas por conterem preconceitos ou valores morais não mais adequados na atualidade. Pelo contrário, devemos usá-las, justamente, para discutir sobre esses preconceitos, como eles surgiram, o motivo de estarem arraigados em nossas vidas até os dias de hoje, e o quanto ainda precisamos evoluir enquanto humanidade.


Referências:

Namekata, M. H. As personagens femininas dos mukashi banashi (contos antigos) da literatura japonesa: aspectos particulares e universais;
Namekata, M. H. Os mukashi banashi da literatura japonesa: uma análise do feminino e do casamento entre seres diferentes no contexto dos contos do Japão antigo;
Montagnane, P. de F. Narrativa popular japonesa: conceituação e estrutura dos mukashi-banashi.
Quinteiro, T. dos S. Tradução comentada de Mukashi banashi: a estrangeirização em contos folclóricos japoneses.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Que texto enriquecedor! Sempre gostei da cultura japonesa, mas nunca tinha parado pra pensar na representação feminina até então.
    Esse texto me fez refletir sobre as diferentes culturas, e é incrível como, embora tão diferentes, retratem a mulher da mesma forma e, é mais triste saber que muitos desses pensamentos ainda perpetuam.
    Alias, no Brasil temos uma personagem folclórica com história bem parecia: Iara, uma mulher que seduzia homens para matá-los. Há várias versões, mas uma delas retrata a Iara também como uma vítima, punida de maneira injusta.