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Atleta A e o tácito pacto de silêncio entre as mulheres

Atleta A, documentário sobre os bastidores da ginástica estadunidense, vai além das denúncias de abuso sexual. Há um contexto para que tudo, desde 2015, quando a atleta Maggie Nichols denunciou o médico da Federação de Ginástica dos EUA, Larry Nassar, e foi silenciada pela própria instituição, tenha acontecido como aconteceu. Mais do que o ápice da cultura do estupro e a normalização do comportamento do médico, que trabalhava no ramo há mais 20 anos, a produção mergulha fundo na prioridade da instituição: manter os relatos das atletas em segredo, como uma verdade tácita que percorre seus corredores, mas nunca encontra o público ou a justiça.

Desde os anos 1980, a Federação de Ginástica dos Estados Unidos investiu em publicidade para construir uma imagem sólida junto ao povo do país. Portanto, mais importava aparentar e vender essa imagem de instituição de respeito do que atender às atletas, que entregavam um trabalho impecável nas competições. Assim, qualquer queixa de assédio feita era, imediatamente, arquivada. Dos anos 1990 até 2015, houveram muitas delas, mas por todo esse tempo também foi criado um sistema capaz de blindar não só Nassar como outros profissionais da área — muito parecido com a realidade fora dos muros da Federação, efetiva em descredibilizar vítimas (mulheres, importante destacar) a fim de proteger carreiras e nomes masculinos a todo o custo.

Atleta A é eficiente em contextualizar como esse ramo do atletismo se utiliza de métodos “espartanos” justificados pela busca da excelência. Capitaneados pelo casal de treinadores Béla e Marta Károlyi, os quais levaram a ginasta romena Nadia Comăneci a ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1976 com apenas 14 anos, se tornou institucionalizado que a rigidez cruel leva ao pódio. Não por acaso, a partir de Comăneci a faixa etária das atletas diminuiu. As campeãs olímpicas, então, eram crianças ou adolescentes, que ficavam sob a responsabilidade dos profissionais da Federação, ou seja, mais suscetíveis aos excessos de rigor imprimidos pelos mesmos e, em um nível ainda mais preocupante, aos abusos psicológicos e sexuais.

Atleta A

Quando se é tão jovem, o meio em que se está inserido influencia na forma de se reagir ao que ocorre. Dessa forma, o que acontecia de inapropriado sob o território da Federação de Ginástica não era um grande problema, pois aqueles que deveriam ser responsáveis pelo bem-estar comum normalizavam os comportamentos arbitrários e mantinham tudo sob controle. Assim, a questão da violência sexual por parte do médico da Federação, ponto central do documentário após a denúncia feita em 2015, se tornou velada com o passar dos anos.

Como se não falar fizesse com que não existisse, afinal havia o objeto maior — a busca da excelência e o pódio —, uma denúncia prejudicaria a todos, mas principalmente à vítima: Maggie Nichols foi excluída do time de ginastas americanas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, o qual estaria acompanhado pelo Dr. Larry Nassar. Apesar disso, fica claro que havia um entendimento feminino mútuo de meninas de diversas idades, que conviviam entre si e instintivamente sabiam o que acontecia por trás das portas fechadas, infelizmente tendo compreendido cedo demais a construção social que as leva a entender que lidar com algo do tipo — especialmente em silêncio — faz parte da “existência ideal” da mulher.

Porém, quando uma voz tem coragem de quebrar o tácito pacto de silêncio feminino, outras são levadas a fazer o mesmo. Após a visibilidade conseguida pela ginasta Maggie Nichols, diversas vítimas começaram a se manifestar sobre o comportamento de Nassar, incluindo Simone Biles, a maior campeã da ginástica da história dos Estados Unidos, e outras medalhistas olímpicas como Gabby Douglas e McKayla Maroney. Por parte de Biles houve certa hesitação em se colocar como “mais uma das” vítimas de Nassar, tornando sua história pública apenas em 2018, uma relutância comum, mas compreensível, pelo antecipado medo da estigmatização de ser marcada mais por esse acontecimento do que pelos grandes feitos durante sua carreira no esporte. Também por isso, outras vítimas escolheram se manifestar durante o julgamento de Nassar por meio de cartas ou de forma anônima, para que a escolha, feita por um homem capaz e são, não comprometesse suas vidas após tanto tempo de silêncio.

Atleta A

À época, em 2018, o número de denúncias chegou a cerca de 150 mulheres, que recuperaram sua voz e se dispuseram a contar suas histórias perante o tribunal, que condenou Nassar a mais de 300 anos de prisão pelos abusos sexuais enquanto médico da Federação de Ginástica, como também por outros crimes relacionados. Em 2020, quando Atleta A foi lançado pela Netflix, eram cerca de 500 relatos de mulheres agredidas sexualmente pelo médico esportivo. Tão impactante quanto o Time’s Up foi para a indústria do entretenimento, os efeitos de anos silenciando denúncias de abusos e suas vítimas foram sentidos pela Federação de Ginástica, a qual pediu falência ao constatar que não conseguiria arcar com o valor das indenizações pleiteadas por elas em mais de 100 processos judiciais

Contudo, só quem é mulher pode ter ideia do quão traumatizante é ter sua voz tolhida em nome da reputação de um homem supostamente respeitável e de uma instituição, que, paradoxalmente, dependia dessas atletas para se manter em relevância. Por anos, apenas suas palavras não foram suficientes e apenas elas são capazes de mensurar o valor, material ou imaterial, disso.

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