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Uma Mulher Fantástica: pelo direito de ser quem se é

“Meu nome é Marina Vidal. Tem algum problema com isso?” Essa resposta a um policial é só um dos momentos de Uma Mulher Fantástica em que a protagonista, interpretada pela atriz trans Daniela Vega, precisa reafirmar a sua identidade nos dias que se seguem à morte do namorado, Orlando (Francisco Reyes), um homem quase 30 anos mais velho. Afinal, o primeiro longa chileno a receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, agora na edição de 2018, é, em extrema síntese, uma história sobre o direito ao luto. Após a morte de Orlando, Marina é obrigada a se reafirmar o tempo todo enquanto mulher trans, enquanto mulher que amava o namorado e que teria o direito de se despedir dele.

O filme ainda é pioneiro por fazer algo tão simples, que é dar espaço para uma mulher trans interpretar uma personagem trans. Esse perfil político, aliado à qualidade da trama, explica o sucesso da produção desde o prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim de 2017 até o Oscar deste ano, garantindo o título de primeiro filme com uma atriz trans no papel principal a ser premiado pela Academia.

O diretor e roteirista de Uma Mulher Fantástica, Sebastián Lelio, também é conhecido por Glória (2013), drama estrelado por Paulina García e que terá uma versão em inglês, já em fase de filmagem, com Julianne Moore no papel principal. Em diversas entrevistas, Lelio disse que o filme sobre Marina Vidal foi resultado da seguinte pergunta“O que acontece se a pessoa que você ama morre em seus braços, e esses braços acabam sendo o pior lugar para que seu companheiro morra, porque, por algum outro motivo, você é a indesejada?” Só depois de trabalhar mais no conceito surgiu a ideia de colocar uma mulher trans nessa posição indesejada.

Inspirada na própria Daniela Vega, que foi colaboradora do roteiro, Marina é uma aspirante a cantora lírica que trabalha em Santiago, no Chile, como garçonete e aparece pela primeira vez na tela cantando salsa num restaurante, observada por Orlando. Depois da apresentação, o casal vai jantar em comemoração ao aniversário de Marina e, no final da noite, ele morre.

Atenção: este texto contém spoilers!

Como uma resposta àquela questão inicial, a protagonista passa por diversas provações na trama: é culpada pelo aneurisma que matou Orlando; forçada a devolver o carro do namorado para a ex-esposa numa situação desconfortável; expulsa do apartamento para onde tinha acabado de se mudar; ameaçada pela investigadora do caso e impedida de participar do funeral e da cerimônia de cremação. Ela encara todas essas adversidades numa espécie de torpor que só é interrompido depois que perde também a guarda de Diabla — a cachorra que era de Orlando e que deveria ficar com Marina — e finalmente começa a reagir às agressões.

A história se passa em poucos dias, já que o foco é realmente esse episódio traumático na vida da protagonista. Quando ela perde um relacionamento que estava ficando cada vez mais sério, precisa enfrentar a família preconceituosa do namorado e tem o luto negado. Uma das cenas mais simbólicas é a da busca por algum segredo de Orlando no armário da sauna que ele frequentava. Marina ansiava por qualquer coisa relacionada ao namorado, uma espécie de herança, que pertencesse exclusivamente a ela, aproveitando o fato de que tinha ficado com a chave do móvel. Mas, quando ela abre o armário, ele está vazio.

Tanto quanto Marina, o espectador também sente essa falta, a ausência do que não se vê no filme: como ela e Orlando se conheceram, como foi realmente o relacionamento deles, como ficou a vida da protagonista depois de perder alguém que amava. A história dá algumas pistas; sabemos que o namoro durou mais ou menos um ano, que o início talvez tenha coincidido com um fim complicado do último casamento de Orlando. Sobre o destino de Marina, temos apenas um vislumbre de um novo apartamento, um solo numa apresentação de canto lírico, um passeio com Diabla no monte San Cristóbal, um dos mais famosos pontos turísticos de Santiago. Foi bom saber que ela, ao menos, conseguiu a cachorra de volta.

Uma Mulher Fantástica

Antes de chegar a esse final tão aberto, Marina passa por situações violentas que se entrelaçam aos elementos surrealistas do filme, como a ventania exagerada que a impede de caminhar, a performance na boate, as aparições de Orlando como reflexo de sua imaginação. Recursos utilizados por Sebastián Lelio para fazer um “filme transgênero”, classificação do próprio diretor para explicar uma mistura entre o thriller, o filme de fantasmas e o drama. O tom de suspense na história é provocado, inclusive, pelas tais situações violentas enfrentadas por Marina, como a sua expulsão da igreja no funeral do namorado e, logo depois, o rápido sequestro, quando é levada à força para o carro de amigos do filho de Orlando e amordaçada com fita adesiva.

Qual vai ser o seu próximo sofrimento? O que pode ser ainda pior que isso?

Assim, enquanto tenta encontrar formas de seguir uma vida sem o namorado, numa espécie de viuvez prematura e que não se concretiza, Marina precisa enfrentar três personagens importantes da vida de Orlando: Sonia (Alice Küppenheim), esposa que ele largara para ficar com Marina; Bruno (Nicolás Saavedra), seu filho de um outro relacionamento e o responsável pelo episódio do carro; e Gabo (Luis Gnecco), seu irmão. A ex-mulher e o filho mais velho assumem um papel preconceituoso de forma mais clara, o que não impede que a postura de Gabo também seja incômoda. Ele é gentil, aparenta aceitar a importância de Marina na vida de Orlando, trata a protagonista como uma mulher, mas é incapaz de contestar os parentes quando a desrespeitam ou a tratam pejorativamente como um homem gay. O comportamento de Gabo é apático, covarde, dando margem para as agressões e a discriminação dos outros personagens.

O clima hostil contra a protagonista também é provocado pela polícia, que reconduz Marina ao hospital depois que ela sai do local impulsivamente, como numa fuga. Ela é interrogada porque Orlando tinha hematomas pelo corpo, resultado de uma queda na escada do prédio dele enquanto Marina procurava a chave do carro para levá-lo à emergência. Mas ela é tratada inicialmente como uma suspeita de tal forma que é inevitável duvidar se seria tratada da mesma maneira se não fosse uma mulher trans. A parte mais angustiante do filme, e que retrata bem a discriminação das autoridades policiais, é o humilhante exame de corpo de delito a que Marina é obrigada — sob ameaças — a se submeter, na presença da investigadora e do perito homem, que a fotografa numa circunstância duvidosa e desconfortável.

Uma Mulher Fantástica

Por ter como protagonista uma mulher trans e, consequentemente, denunciar as violências que ela sofre e que não são exclusivas à Marina, como no tratamento dado pelas autoridades, Uma Mulher Fantástica mostra que não é tão difícil contribuir para uma melhor representação de transexuais no cinema. Aliás, foi devido ao sucesso do filme e à elogiada atuação de Daniela Vega que a atriz, derrubando mais uma barreira, tornou-se a primeira pessoa abertamente trans a participar da cerimônia do Oscar, ao apresentar a música tema de Me Chame Pelo Seu Nome, finalista do prêmio de Melhor Canção Original.

A importância desse filme também está no seu didatismo. Há uma constante reafirmação de que Marina é obviamente uma mulher, uma mulher que deve ser tratada com os pronomes certos, uma mulher como a da música “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman” de Aretha Franklin, um ponto alto da trilha sonora. Outro destaque é a firmeza com que ela diz que “isso não se pergunta” quando Bruno, o filho de Orlando, pergunta se ela fez cirurgia de readequação sexual.

Mas a questão mais marcante é a falta de reconhecimento do nome de Marina Vidal. No Chile, a mudança de nome e de sexo nos documentos oficiais exige um processo judicial. É por isso que, ao entregar a identidade para o policial que a interroga no hospital, a protagonista alega que o assunto está em trâmite. Ainda assim, o guarda passa a tratá-la como um homem. Esse é mais um ponto de intersecção entre as vidas de Marina e Daniela Vega. “Na minha identidade, tem um nome que não é meu nome, e é porque o país onde eu nasci não me dá essa possibilidade”, disse a atriz após o encontro da equipe do filme com a ex-presidente Michelle Bachelet por ocasião do Oscar.

O prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, celebrado como uma vitória nacional, reacendeu o debate da Lei de Identidade de Gênero, que prevê a mudança de sexo e nome no registro civil por meio de um procedimento administrativo, sem a obrigatoriedade de avaliações psicológicas. O projeto tramitava no congresso chileno desde dezembro de 2017 com regime de urgência máxima, que estabelecia a sua discussão imediata.

Uma Mulher Fantástica

A notícia ruim é que nesse meio tempo houve uma troca de presidente no Chile, que é novamente liderado pelo conservador Sebastián Piñera, e o novo governo rebaixou o nível de urgência do projeto. Em meio a incertezas políticas, não se sabe até quando homens e mulheres trans terão que esperar para conquistar o direito de ter o próprio nome nos documentos. Aqui no Brasil, no dia 1º de março, o Supremo Tribunal Federal (STF) garantiu a possibilidade de pessoas trans alterarem o nome e o sexo no registro civil sem a necessidade de autorização judicial, sendo que a mudança pode até ser feita em cartório.

De acordo com a Encuesta-T, uma pesquisa de 2017 realizada com pessoas trans no Chile, apenas 9,5% dos entrevistados já conseguiram realizar a mudança oficial de nome. O estudo também mostrou 56% das pessoas que responderam que já tentaram cometer suicídio. Vale destacar que o Chile, esse país com cerca de 18 milhões de habitantes e famoso pelos vinhos e pelos ganhadores do Nobel de Literatura, Gabriela Mistral e Pablo Neruda, era um dos poucos países em que o aborto era crime em qualquer situação até 2017, que uma lei antidiscriminação só foi aprovada em 2012 depois do escândalo do assassinato do jovem gay Daniel Zamudio por neonazistas, que ser homossexual era crime até 1999.

Por tudo isso, quando Rita Moreno, a primeira mulher latina a ganhar um Oscar, celebrou a vitória de Uma Mulher Fantástica ao entregar o prêmio para a equipe do filme, foi como se o Chile e o resto do mundo não tivessem muita escolha a não ser reconhecer os direitos de pessoas trans de forma mais enfática. E, bem, sabe-se que o caminho pode ser complicado como a trajetória de Marina Vidal, mas o sucesso mundial do filme representa uma explosão semelhante à libertação de raiva e de felicidade no momento da história em que ela sobe no teto do carro dos familiares de Orlando em meio a um cemitério e pula algumas vezes sobre o teto do veículo, quando ela afinal reage às agressões sofridas. No papel de Marina, Daniela Vega veio para abrir espaços para pessoas trans na indústria audiovisual, como a atriz Laverne Cox em Orange is the New Black e, recentemente, o ator Alex Blue Davis de Grey’s Anatomy. Que venham os próximos nomes.

Uma Mulher Fantástica recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhor Filme Estrangeiro.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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