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Duck Butter e os desafios da representação lésbica na cultura pop

Ficar 24 horas juntas, sem dormir, transando a cada hora. Esse é o combinado de Naima (Alia Shawkat) e Sergio (Laia Costa) em Duck Butter, após uma noite que poderia ser casual.

Atenção: este texto contém spoilers!

Sergio é espanhola, cantora, compositora e pintora, uma mulher com nome de homem, pois sua mãe queria um menino quando engravidou. Naima é atriz e acabou de sair do primeiro dia de filmagem de um filme independente que não correu tão bem assim. O palco do primeiro encontro é o bar aonde Naima vai levar sua amiga para um encontro. Lá, ela acaba vendo Sergio cantar (e beijar outras mulheres da plateia) e se interessa por ela. Elas terminam a noite na casa de Sergio e, após conversarem sobre os desconfortos de começo de relacionamento, têm a ideia de pular essa parte e experimentar passar muito tempo juntas de uma vez.

Filmado pelo porto-riquenho Miguel Arteta, o longa tem 95 minutos de praticamente apenas as duas em cena, numa experiência intensa e íntima de compartilhamento: sonhos, medos, lembranças, traumas, bobeiras, a casa, comida, bebida, sexo, a cama, o banheiro… são muitas horas juntas e muita história para contar. O começo é pura excitação, descobertas e diversão, mas ao longo do filme vemos as outras camadas que as compõem.

Analisando quatro filmes nacionais, Andressa Oliveira e Naiade Bianchi escrevem sobre a padronização sofrida pelas mulheres lésbicas em produções culturais. Normalmente, os filmes retratam mulheres brancas, magras, jovens e com um poder aquisitivo maior.

“Isso reflete também o que significa ser lésbica na cultura heteropatriarcal: um fetiche. Não é preciso muito esforço para perceber que a maneira como lésbicas são retratadas nas produções existentes e na mídia corporativa normalmente é de maneira altamente sexualizada. Mulheres que não se encaixam em um modelo de beleza eurocentrado e magro geralmente não encontram lugar. Isso não somente ajuda a manter o estranhamento das pessoas diante de um casal de lésbicas, mas a instigar repúdio se este casal não performar feminilidades previstas.”

As personagens de Duck Butter seguem alguns elementos dessa representação estereotipada, sendo jovens brancas e com considerável poder aquisitivo, mas conseguem eventualmente fugir um pouco ao padrão. Isso acontece principalmente na figura de Naima, por ter cabelo curto e cacheado, muitas sardas e usar roupas consideradas mais masculinas.

Além da caracterização física, é importante ressaltar alguns elementos da personalidade das duas que refletem os desafios de representar personagens lésbicas na cultura pop. Enquanto Shawkat consegue um tom levemente angustiado/desconfortável característico de sua personagem, que é obcecada por falar sobre o fim do mundo e pegadas de carbono e o pessimismo de ser parte de uma geração falida, Sergio é o clichê das mocinhas de comédias românticas heteronormativas transportada para um filme lésbico. Ela carrega o exotismo da estrangeira vinda de um país de língua latina e que usa sua sexualidade sem pudores. Na sua primeira aparição do filme, cantando no bar, quando percebe que a apresentação vai mal e não está saindo como quer, ela propõe uma interação com a plateia: digam o nome de sua cantora preferida e eu vou interpretá-la. A interpretação consiste em descer do palco para beijá-las.

Duck Butter

É ela quem dá o primeiro passo convidando Naima para dançar. É a moça livre, descomplicada e que preenche todos as expectativas masculinas que conhecemos: ser magra, branca, ter o cabelo longo, ser sexy, divertida na conta certa, se entregar, ser vulnerável (mas não muito).

Em crítica no The Guardian sobre o filme, Benjamin Lee escreve: “Há algo um pouco ‘Manic Pixie Dream Girl’ sobre [Sergio]. A dinâmica de uma neurótica encontrando sua vida transformada por um espírito livre é a Comédia Romântica 101, e para vender tal conexão, o espírito livre frequentemente traça uma linha tênue entre o fascinantemente magnético e o irritantemente afetado”. Talvez o fato de a personagem inicialmente ter sido escrita para ser interpretada por um homem tenha uma parcela de responsabilidade nisso, nunca saberemos. A questão é um tom exagerado da personagem, que ama cachorros e os resgata das ruas, vive para a arte e é absolutamente contra covers pois eles só são cópias de outros trabalhos e não “arte de verdade” (o que quer que arte de verdade signifique), que aparece magicamente trazendo um refresco para a vida de pesadelos sobre o fim do mundo de Naima.

Acontece que mulheres perfeitas só existem na idealização e “[…] o arquétipo de Manic Pixie Dream Girl nada mais é que um reflexo da idealização que é feita de mulheres. Ao serem escritas, portanto, elas demonstram a falha em conceber mulheres como pessoas por inteiro, com suas próprias decisões, manias e emoções. Sem ser plot device, sem viver para mudar a vida de homens, tendo sua própria personalidade”, como escreve Lorena Pimentel em texto da Revista Pólen.

Ao longo das horas vemos o flerte passar para companheirismo, o tesão, as várias conversas desde acontecimentos banais até a demissão de Naima do último filme, os traumas da infância, a descoberta da masturbação… E as duas personagens lidando com as dificuldades de ter o espaço permanentemente ocupado por uma pessoa desconhecida.

Por mais que as duas entrem confiantes no jogo, relacionamentos não são fáceis e o espírito livre de Sergio acaba sendo apenas uma das facetas de uma mulher vulnerável e que sofre também, que se refere à mãe sempre pelo primeiro nome e insiste que ela é uma mulher tranquila, mas tem uma crise nervosa horas antes de reencontrá-la; que faz Naima prometer ir vê-la cantar e nunca fugir e tem vários defeitos e fragilidades.

Esse olhar mais nuançado do que poderia ser apenas um filme focado na sexualidade das duas senso usada a serviço do fetiche masculino talvez seja consequência do envolvimento de mulheres em várias fases do filme. Alia Shawkat, além de atriz principal, é roteirista do longa ao lado de Arteta; Mel Eslyn e Natalie Qasabian são duas produtoras; Hillary Spera é responsável pela fotografia. E essas nuances são um dos pontos fortes do filme, que consegue apresentar uma premissa simples e aprofundá-la ao longo da narrativa.

São 24 horas, mas em um dia cabe um relacionamento inteiro com início, muito sexo, meio, DRs e fim; fim este que não é responsabilidade exclusivamente de uma ou outra. É responsabilidade das duas, que acabam crescendo bastante com a experiência e esbarrando em limites com os quais precisam lidar sozinhas. Naima é mais resistente às mudanças provocadas pelo experimento, mas resgatar um cachorro da rua e levá-lo para casa é o epítome da transformação de uma pessimista convicta em alguém mais suave, mesmo que ela continue dormindo com as mãos fechadas. Sergio, em sua apresentação final no bar, canta um cover de Elvis Presley, mostrando um nível de flexibilização do que acreditava ser verdade artisticamente.

É um final realista, mas ainda assim bonito, de duas mulheres que se permitiram e se transformaram.

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** As imagens são de autoria de editora Paloma

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