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Dear White People Vol. 2 – velhos inimigos, novas caras

A expectativa para o retorno de Dear White People era alta e movida não apenas pela curiosidade com relação aos desdobramentos da temporada anterior, mas também pela certeza de que os novos episódios estão chegando após mais um ano turbulento para as questões raciais nos EUA. Avanço das atuações da extrema-direita nas redes sociais, confrontos entre supremacistas brancos e grupos antirracismo, protestos de atletas negros durante a execução do hino, Kanye West afirmando que 400 anos de escravidão soam como uma escolha… Diante desse contexto não há como negar que uma série como Dear White People seja extremamente relevante. Pensando na realidade brasileira, a série certamente oferece uma importante contribuição para nossas discussões sobre racismo, colorismo e violência policial. A investida da direita racista contra os alunos negros da universidade é o tema central da nova temporada, mas sem perder de vista as narrativas sobre os personagens que já conhecemos.

Atenção: esse texto contém spoilers!

No primeiro episódio da temporada, a casa Armstrong-Parker vive o início de uma nova fase, sendo agora compartilhada por estudantes negros e brancos. Em meio a esta adaptação, Sam (Logan Browning) torna-se alvo de uma conta no Twitter determinada a atacar seu discurso e até mesmo sua família. Enquanto Troy (Brandon P. Bell) colhe os louros por sua participação no protesto ocorrido na temporada anterior, Sam é responsabilizada pela tensão no campus. Como na vida real, a mulher negra combativa torna-se alvo preferencial do troll que só é corajoso quando protegido pelo escudo do anonimato. Não há manual para reagir aos trolls e o dilema e desespero de Sam ficam bem evidentes. É possível estabelecer um diálogo com quem profere discurso de ódio? Com quem te desumaniza? As perguntas que nos fazemos todos os dias nas redes sociais também estão na série, mas ela não nos oferece respostas prontas.

Além de relativizar o racismo com frases do senso comum, a pessoa por trás da conta @AltIvyW está sempre atenta aos conflitos entre os estudantes negros. Dear White People desenvolve bem o tema da alt-right, a direita alternativa que vem utilizando a internet para reunir grupos atraídos por discursos racistas, machistas, homofóbicos e contrários à imigração. As fake news são algumas das suas principais ferramentas e até mesmo Sam e Coco (Antoinette Robertson) são vítimas da divulgação de e-mails falsos. Basta um tweet da @AltIvyW para mobilizar uma parcela conservadora de Winchester. Surge, inclusive, um programa de rádio batizado de Dear Right People ou “Cara Gente de Direita”. Os limites entre liberdade de expressão, opinião e discurso de ódio são testados ao máximo pela série. De forma muito conveniente, para a alt-right e simpatizantes (inclusive no Brasil) parece ser impossível entender que discurso de ódio não é simplesmente opinião e que liberdade de expressão não significa liberdade de agressão.

Dear White People

Lionel (DeRon Horton) decide investigar a atuação de sociedades secretas no campus e os ataques sofridos por Sam, mas é por acaso que descobre a identidade de @AltIvyW. A revelação é sem dúvida uma das grandes surpresas da temporada e provavelmente divide opiniões. Quem esperava a exposição de um personagem branco certamente ficou espantado com o fato da conta @AltIvyW ser comandada por Silvio (D.J. Blickenstaff), um latino gay. A opção por um estudante branco que assumisse clichês racistas certamente seria didática (e meu lado professora defende que uma série como Dear White People pode ser didática sem grandes prejuízos para a trama). Por outro lado, a escolha de um personagem que representa um perfil muito específico de estudante (e que parece ter sofrido uma mudança de opinião drástica em poucos dias) é um trunfo na discussão sobre a forma como minorias estão incorporando discursos da direita intolerante. A nova personagem Rikki Carter (Tessa Thompson) assume uma função parecida ao ser apresentada como uma mulher negra influente que reproduz um discurso racista.

Quando confrontada por Sam, fica evidente que Rikki é motivada por ambições bem particulares. Em outras palavras, Silvio e Rikki não são identificados como meros fantoches da direita. Quando Rikki diz a Sam que a diferença entre as duas é o tempo, a primeira grande provocação é o fato de Rikki ser interpretada por Tessa Thompson, que já havia assumido a personagem Sam White no filme Dear White People de 2014. No entanto, o que está em jogo na fala de Rikki é a possibilidade de uma ativista como Sam ser atraída por uma promessa de poder que acabe contrariando o seu discurso por justiça social. Sistemas de opressão como o patriarcado e o racismo frequentemente abrem brechas para expoentes das minorias dispostos a minimizar ou negar a cultura do estupro, a homofobia, o racismo, a violência policial contra negros ou o passado de escravidão. A aprovação e o poder conquistados junto a um grupo historicamente hostil soam como uma recompensa tentadora, mas a posição assumida entre racistas, machistas, homofóbicos e xenófobos pode ser mais frágil do que imaginam. Convidada para uma palestra organizada por e para estudantes brancos de direita, Rikki é surpreendida pelo desprezo de um público predominante negro, resultado de uma poderosa articulação entre grupos até então divergentes na universidade, incluindo os líderes brancos da Pastiche.

Em maior ou menor medida, os principais personagens de Dear White People acabam envolvidos no conflito com a alt-right, mas os seus dramas pessoais não são esquecidos pela série. No segundo episódio o foco é Reggie (Marque Richardson), que ainda está lidando com o trauma do abuso policial e o incômodo por despertar pena entre os que cruzam o seu caminho no campus. Oscilando entre bebidas, sexo, terapia e até estudo bíblico, Reggie está ferido e com raiva, mas não consegue falar sobre isso. A universidade determina que Reggie faça terapia, mas o estudante é colocado diante de um profissional branco, tornando o diálogo ainda mais difícil. Reggie só consegue expressar o que está sentindo quando encontra um par negro, o pai de Troy. A saúde mental de grupos alvos de racismo é um tema que vem ganhando visibilidade nos últimos anos, até mesmo no Brasil. Uma perspectiva interseccional é o que permite compreender o impacto de questões de raça e gênero na saúde mental de negros e negras. Nesse sentido, é importante observar que o cuidado com a saúde mental de Sam, alvo de incansáveis ataques racistas nas redes sociais, não recebe nenhum tipo de atenção da universidade ou mesmo da série de forma geral, ainda que o sofrimento dela seja explorado em vários episódios.

Dear White People

A positiva discussão sobre masculinidade e sexualidade já havia chamado atenção na primeira temporada e não decepciona nos novos episódios. Acompanhado por Silvio e Troy, Lionel passa por diversas festas na Noite do Orgulho Gay e esbarra em tipos decepcionantes, desde os que declaram não ficar com negros aos problemáticos que não querem ser identificados como problemáticos. Na perspectiva de Lionel, todo mundo exibe uma fachada bem resolvida e confiante como Brooke (Courtney Sauls), a sua nova parceira de investigações. Todo mundo parece se encaixar, menos ele. A angústia, os tropeços e o constrangimento na busca por seus pares e pelo próprio caminho é o que faz de Lionel um dos personagens mais ricos de Dear White People. A maior frustração da noite ainda é Silvio, que parece está muito confortável com Lionel orbitando ao seu redor, acompanhando seus passos como se não tivesse vontade própria. A complicada relação entre os dois nos lembra que o desequilíbrio de poder não é um problema exclusivo de relações heterossexuais. Distanciando-se de Silvio, Lionel forma um novo e promissor par romântico com Wesley (Rudy Martinez), que aparentemente também não estava se dando muito bem nas interações pelo campus.

Enquanto isso, Troy passa boa parte da temporada aproveitando a fama de herói negro, usando drogas indiscriminadamente e transando com várias mulheres (e se relacionando com mais mulheres brancas). É somente no sétimo episódio que o público entende que Troy não está simplesmente curtindo a vida adoidado. A vida acadêmica de Troy foi marcada pela pressão de ser um legado. Ao quebrar a porta de vidro, Troy tentava também romper com as expectativas de seu pai e de outros líderes negros de destaque na história de Winchester. Se o grande temor do pai de Troy é vê-lo assumindo a posição de “palhaço” dos brancos, tudo o que Troy quer é encarnar “o Negro Engraçado”, um perfil muito mais aceitável socialmente do que o negro politizado. Sob o efeito de drogas, Troy consegue rever seus relacionamentos com Reggie, Sam, Coco e os integrantes da Pastiche. O exame dos seus esforços e erros permite que Troy consiga combinar humor e confronto com a masculinidade tóxica.

O episódio centrado em Coco na primeira temporada é certamente um dos mais memoráveis da série. Na segunda temporada, Coco torna-se uma espécie de mediadora entre brancos e negros na nova realidade da Armstrong-Parker. Além de administrar essa tensão, Coco tem uma questão particular em mãos: ela descobre que está grávida de Troy. Tendo em vista que Coco é uma personagem reconhecidamente ambiciosa e focada na construção de uma carreira de sucesso, a gravidez é uma perigosa curva em seu caminho. Entre prosseguir com a gestação e optar por um aborto, Coco não está sozinha: Kelsey (Nia Jervier), personagem ainda secundária, oferece cuidado e apoio. Infelizmente, o desenrolar da trama de Coco é um pouco apressado. Dear White People tem aqui uma personagem complexa diante de um problema complexo e poderia ter prolongado a questão por mais alguns episódios.

E se a segunda temporada parece ser injusta com Coco, ela certamente traz alguma justiça para Joelle (Ashley Blaine Featherson). Boa parte do público viu grande potencial nessa personagem, ainda que tenha sido inicialmente destinada ao lugar de “melhor amiga negra conselheira e engraçada”, clichê tão comum nos seriados e filmes americanos. Joelle ainda tem bons conselhos para oferecer a Sam, mas também tem uma boa história para viver e contar em Dear White People. Saindo das sombras, Joelle conhece Trevor (Shamier Anderson), um colega da aula de anatomia, alguém que finalmente parece reconhecer suas qualidades. O fantasma do colorismo ressurge na série quando Joelle teme que Sam desperte o interesse de Trevor. Mas o candidato a príncipe virou o pior tipo de sapo por outras razões: não demora muito para que Trevor se revele machista, homofóbico, arrogante e agressivo com os amigos de Joelle. O ponto alto para Joelle é quando finalmente consegue se entender com Reggie, com quem tinha uma relação nebulosa. A nova luz lançada sobre a personagem tenta mostrar que essa não é a história da melhor amiga apaixonada pelo rapaz inalcançável, é a história da incrível Joelle e das incríveis relações que está construindo.

Dear White People

Enquanto Sam lidava com os ataques virtuais, Gabe (John Patrick Amedori) estava produzindo um documentário sobre racismo. Ainda que trechos do documentário tenham mostrado algumas falas importantes, como quando Reggie confessa mudar de calçada para não assustar mulheres brancas ou quando afirma que para alguns brancos a união significa ignorar experiências negras, fica evidente para Sam que Gabe está sendo louvado por fazer o mesmo trabalho que ela. Sam aceita conceder um depoimento para o documentário, já prevendo um confronto. A gravação transforma-se numa discussão de relação em que o político e o amoroso estão inevitavelmente entrelaçados. Sam questiona Gabe sobre o seu complexo de salvador branco, enquanto Gabe insinua que Sam seja a responsável pelo aumento da popularidade de trolls como Silvio, retomando o dilema entre ignorar e confrontar (que é muito mais simples para quem é observador do que para quem é alvo). Gabe comete o equívoco de tentar pautar as reações de quem é alvo de racismo. Para ele, Sam deveria mostrar-se mais vulnerável. O que Gabe ignora é que o muro quase impenetrável construído por alvos negros não é por acaso, é uma reação à opressão. Para ser um bom aliado (e não um salvador branco), Gabe precisa ouvir mais do que palpitar, entender as diferentes nuances das experiências negras em vez de idealizar o oprimido, assumir seus privilégios enquanto homem branco heterossexual e aprender a confrontar seus pares sem tomar a voz de mulheres como Sam ou de homens como Reggie. Em outras palavras, Gabe precisa assistir a uma série como Dear White People.

O lado vulnerável de Sam é finalmente exposto a partir da notícia do falecimento de seu pai. Voltando para casa acompanhada de Joelle e Coco (reforçando que as alianças entre mulheres são pontos fortes na série), Sam precisa lidar com a culpa pelo estado das relações com os pais. A virada da personagem começa ao encontrar entre os livros do pai uma fonte importante para entender a ação de sociedades secretas em Winchester. Desde o primeiro episódio, a temporada procurou estabelecer uma relação entre os problemas enfrentados pelos estudantes da Winchester atual e a formação das sociedades secretas que marcaram a história da universidade. Sam e Lionel seguem as pistas de uma sociedade secreta composta por estudantes negros e o final em aberto do último episódio aparentemente anuncia boas possibilidades para os dois personagens numa terceira temporada.

É inegável que a ênfase no confronto com a direita racista e na difícil convivência entre negros e brancos na mesma residência estudantil diluiu a chance de abordar o desenvolvimento de uma solidariedade antirracista com estudantes de origem asiática, aspecto que havia chamado atenção positivamente na temporada anterior. Apesar disso, a segunda temporada de Dear White People é bem-sucedida ao oferecer mais espaços aos personagens latinos, ao aproveitar as participações especiais de nomes como Lena Whaite e Tessa Thompson e ao pisar no perigoso terreno da alt-right.

Vanessa Bittencourt é mulher negra feminista, doutoranda em História e professora.

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3 comentários

  1. Muito bom, muito explicativo. Não conhecia o site, amei a proposta. Já pretendo conhecer mais!!
    Algumas coisas que tinham passado despercebidas na série pra mim ficaram bem mais explicitas. Espero que a próxima temporada explore a gravidez da Coco e o possível romance com o Kurt, e também a magnifica Joelle.

  2. Excelente crítica, muito bem abordada e explicada. Eu adoro essa série e gostei muito tanto da primeira quanto da segunda temporada. Além de séries amo filmes, principalmente na parte documental que é meu genero favorito. De todos, eu gostei muito do trabalho da Kate Davis, no filme Diga o nome dela: A vida e Morte de Sandra Bland que fez um dos melhores documentarios sobre negros que foi muito impactante quando assisti. Ele estreou estes dias e fiquei muito impressionada não apenas com a qualidade da produção, mas com a história em si. Recomendo a todos.