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De Nancy Meyers a Steven Spielberg: os melhores filmes de 1998

O ano era 1998 e, após o sucesso estrondoso de Titanic no ano anterior, novos filmes iniciavam suas trajetórias nas salas de cinema do mundo inteiro. De moças capazes de salvar um império a romances proibidos, guerras históricas e animais aventureiros, 1998 foi um importante ano para o cinema mundial. Muitos dos filmes lançados naquele ano tornaram-se um marco para uma nova geração de espectadores ainda em formação, moldando tanto gostos quanto desgostos.

Duas décadas mais tarde, não há dúvidas de que muita coisa mudou: a maneira como consumimos cultura sofreu mudanças profundas; padrões antes aceitáveis (ou apenas não questionados) tornaram-se obsoletos ou mesmo inaceitáveis, enquanto criminosos escondidos sob o peso de um nome, dinheiro e influência foram responsabilizados pelos seus respectivos crimes, grande parte cometidos nos bastidores de suas produções. Com o tempo, muitos dos filmes lançados à época também perderam sua força, mas muitos continuaram tão relevantes quanto no passado; histórias que, mesmo vistas com os olhos de hoje, mantêm-se como importantes referências; fontes inesgotáveis de inspiração e magia.

A Espada Mágica: A Lenda de Camelot, de Frederik Du Chau

Por Ana Luíza

Menos celebrado do que outras animações lançadas à mesma época, A Espada Mágica foi o primeiro filme que assisti no cinema e ainda hoje é um exemplo pouco comum de produção em que a passagem do tempo praticamente não interfere em sua relevância. O filme é livremente baseado nos livros da escritora britânica Vera Chapman, que retorna às clássicas lendas do Rei Arthur sob a perspectiva de Kaysey (Jessalyn Gilsig), uma jovem cujo maior sonho é tornar-se um cavaleiro e seguir os passos do pai na guarda real — e naquele universo, ou talvez naquela família, essa jamais parece uma possibilidade irreal. Com a morte do pai, assassinado por Ruber (Gary Oldman) durante um ataque ao rei, no entanto, Kaysey precisa adiar indefinidamente seus planos para o futuro, e passa a viver sozinha com a mãe no campo, onde gerem juntas uma pequena fazenda.

É somente após o retorno de Ruber e o sumiço da Excalibur — desaparecida após uma tentativa fracassada do vilão de roubar a espada — que sua jornada coloca-se novamente em movimento. Incentivada pela mãe, que é mantida refém durante um ataque à fazenda, Kaysey foge para a floresta, onde conhece Garret (Cary Elwes), um rapaz cego e extremamente habilidoso que vive isolado com seu falcão de asas prateadas; e também os atrapalhados dragões siameses, Devon (Eric Idle) e Cornwall (Don Rickles), que não soltam fogo, tampouco sabem voar. Juntos, eles buscam pela espada, ao mesmo tempo em que enfrentam ataques constantes de Ruber e seus aliados, com quem lutam de igual para igual — e o gênero de Kaysey ou a deficiência de Garret jamais os tornam inferiores ou menos capazes em comparação. Mesmo o romance entre os dois personagens se desenvolve de maneira bastante natural e não se torna um empecilho para a missão, tampouco faz com que Kaysey ou Garret duvidem um do outro ou tentem manter o outro longe da ação por medo de que algo possa acontecer. O final promove uma ruptura com os padrões das histórias infantis e o felizes para sempre de ambos, mais do que a paz no reino ou o casamento, é a realização final do sonho que nutriram pela vida inteira: o de serem nomeados Cavaleiros da Távola Redonda. Em meio a contos de fadas, histórias de princesas e príncipes encantados, A Espada Mágica continua mantendo a si mesmo como um filme fora da curva.

Amor Além da Vida, de Vincent Ward

Por Mia

Um dos filmes mais lindos que já vi, Amor Além da Vida é estrelado por Robin Williams e Annabella Sciorra, e fala sobre a depressão e a dor de perder alguém. Após um acidente que tira a vida de seus filhos, Chris e Annie tentam retomar suas vidas, mas tudo acaba quando quatro anos mais tarde Chris morre, também em um acidente. Do outro lado, ele encontra o Paraíso que, para ele, é um lugar repleto de arte, feito (literalmente) de tinta e cercado pelas pessoas a quem ama. No entanto, para quem ficou, a vida não faz mais sentido e Annie cai cada vez mais em depressão até que, num ato desesperado, tira a própria vida. A partir de então, Chris abandona seu Paraíso para sair em busca de Annie e tentar resgatá-la do inferno dos suicidas.

É impossível falar desse filme sem lembrar que Robin Williams, intérprete do protagonista, sofria de depressão e também tirou a própria vida. Ao vermos suas atuações, sempre tão bem-humoradas, esquecemos que aquilo era uma máscara que ele usava em seu trabalho para não lidar com a dor. A mensagem positiva está lá: a vida continua, aqui ou do outro lado, e sempre teremos novas oportunidades enquanto tivermos esperança e amor. No entanto, para quem se encontra em depressão, tudo é pesado demais e não é possível enxergar nada disso. Amor Além da Vida é um filme delicadíssimo que trata sobre a vida, a morte e a espiritualidade sem cair em clichês e nos possibilitando refletir sobre tais questões em meio a um cenário onírico.

Babe: O Porquinho Atrapalhado na Cidade, de George Miller

Por Ana Luíza

Após o sucesso inesperado de Babe: O Porquinho Atrapalhado (incluindo o reconhecimento de grandes prêmios do cinema norte-americano, como o Oscar e o Globo de Ouro), Babe (Christine Cavanaugh) ganhou novamente os holofotes ao se aventurar pela cidade grande na tentativa de vencer um concurso e ajudar a fazenda em que vive. Mas se, em um primeiro momento, Babe: O Porquinho Atrapalhado na Cidade parece tão absurdo quanto seu antecessor, a incursão do personagem-título em um novo cenário possibilita a construção de uma narrativa que, embora continue fiel à sua essência, alça voos ainda maiores.

Mais do que um clássico da Sessão da Tarde, Babe: O Porquinho Atrapalhado na Cidade reflete sobre temas que vão desde a decadente vida dos animais que habitam os grandes centros urbanos tanto quanto das pessoas que ali vivem, até situações que confrontam o otimismo inveterado de Babe, desafiando discursos e crenças que, até aquele momento, pairavam sobre ele como certezas. George Miller sugere que, apesar da mensagem de seu antecessor de que qualquer um pode chegar onde quiser se acreditar em si mesmo, essa nem sempre é uma verdade inexorável, e, pelo contrário, acreditar de maneira isolada nem sempre é capaz de nos levar a alcançar nossos objetivos. Como alguém que está crescendo e descobrindo o mundo, Babe descobre isso de maneira gradual e nem sempre simples, mas jamais perde o bom humor que lhe é característico, o que faz de sua história tão divertida quanto memorável.

Central do Brasil, de Walter Salles

Por Jessica Bandeira

Em 1998, o Brasil assistia estarrecido uma de suas grandes atrizes, Fernanda Montenegro, ao lado de atrizes como Meryl Streep e Cate Blanchett no tapete vermelho do Oscar. Fernandona não venceu o Oscar de Melhor Atriz, mas marcou seu nome para sempre como a professora Dora de Central do Brasil — filme que só saiu do papel por causa de Vinícius de Oliveira, o protagonista. Até aquele momento, a produção ainda não havia encontrado o Josué correto, e foi engraxando os sapatos de Walter Salles, o diretor do filme, que aconteceu o encontro entre diretor e protagonista. Ele chamou Vinícius para protagonizar o filme, e o resto é cinema.

Central do Brasil reúne o que nosso cinema tem de melhor: a capacidade em mostrar os diversos Brasis dentro de nosso próprio país. O Brasil de Dora passava na Central do Brasil, homens e mulheres tentando diminuir a distância através das cartas que a personagem escrevia. Pessoas que não sabiam escrever e, por isso, contavam com a ajuda de Dora para expressar seus sentimentos através de sua letra caprichada. Vinte anos após arrebatar o mundo, é incrível como a obra continua atual. Os professores, como Dora, continuam desvalorizados, recebendo, muitas vezes, salários parcelados. Parece que não há esperança na educação. É Josué, uma criança, que na história transforma o destino e a professora. Ele é o sopro do novo, do destemido e da esperança na educação. Ao final do filme, ambos os personagens se separam, mas fica aquele gostinho de que é preciso “estar atento e forte”, e jamais desistir do nosso Brasil e da educação de nossa gente. A educação transforma e nos torna críticos. Central do Brasil é, sobretudo, um filme de resistência.

Da Magia à Sedução, de Griffin Dunne

Por Mia

As irmãs Owens, Sally (Sandra Bullock) e Gillian (Nicole Kidman) pertencem a uma longa linhagem de bruxas amaldiçoadas: todo homem que se apaixonar por elas viverá sob uma sentença de morte. Mas as coisas parecem estar indo bem para Sally quando o filme tem início: ela tem um marido, duas filhas e uma vida relativamente normal. Um dia, porém, a maldição chega e, a partir daí, ela decide morar com suas tias e a irmã, que a ajudam a descobrir mais sobre si mesma e encontrar novamente o amor.

Assim até parece que se trata de uma comédia romântica, mas a verdade é bem o contrário. Apesar do romance, a história é muito mais focada no relacionamento entre as duas irmãs e na magia do que no amor romântico. Gillian nunca quis uma vida certinha como a de Sally e, por isso, logo saiu pelo mundo, conhecendo lugares e pessoas em busca da própria felicidade. No entanto, ao se envolver em um relacionamento abusivo e experienciar algo terrível, é a irmã que precisa ajudá-la de maneira inesperada. Por mais que ame filmes sobre irmãs, especialmente se elas forem bruxas, o que mais chama a atenção em Da Magia à Sedução é que ele fala sobre relacionamento abusivos quando quase nenhuma produção falava. A culpa, afinal, era sempre da mulher e se hoje nos parece óbvio a falsidade dessa afirmação, no final da década de 1990 as coisas não eram bem assim e ainda havia muita resistência tanto em admitir estar em um relacionamento abusivo quanto não culpabilizar a mulher pelas ações do outro. O filme conquista em todos os aspectos e traz um debate importante de forma leve e envolvente, embalado pelo som da nossa bruxinha favorita, Stevie Nicks.

Elizabeth, de Shekhar Kapur

Por Mia

Este ano teremos mais um filme centrado na história da rainha Elizabeth I — e de sua prima, que dá título ao filme, Mary Queen of Scots — e eu não poderia estar mais animada para falar sobre os Tudors, cuja dinastia é uma das minhas pequenas obsessões. Em Elizabeth, Shekhar Kapur conta a história da rainha quando assumiu o reino das mãos de sua irmã, Mary, e teve de governar uma Inglaterra quebrada e dividida. Sendo uma rainha protestante, Elizabeth (Cate Blanchett) fez de tudo para se livrar definitivamente das garras da Igreja Católica e restaurar a paz entre seus súditos, que brigavam por questões religiosas.

O filme apresenta uma trama muito política com uma rainha afirmando o seu direito de reinar. Naquela época, mulheres não eram respeitadas de forma alguma e demorou muito tempo — e muitas mortes — para que as filhas de Henrique VIII ascendessem ao trono. É interessante como o filme aborda a decisão de Elizabeth de nunca se casar, como era esperado que fizesse tão logo fosse coroada. Observando a crueldade do pai com as esposas e o destino da própria mãe, que teve a cabeça cortada, desde cedo ela aprendeu que se quisesse ser dona de si e manter o controle sobre a própria vida não poderia ter um homem ao seu lado. Por isso, e por tantos outros motivos, ela é até hoje lembrada como uma das maiores rainhas que já existiu, e todo o seu esplendor é maravilhosamente retratado no filme.

Lado a Lado, de Chris Columbus

Por Mia

Minha primeira lembrança desse filme é a trilha sonora. A cena inicial é do rádio de Isabel (Julia Roberts) tocando “Under Pressure”, música da banda Queen em parceria com David Bowie que fala sobre como a vida nos coloca sob pressão e como é difícil amar o próximo e ser uma pessoa melhor todos os dias. A canção não poderia ser uma escolha mais adequada porque é exatamente sobre isso que o filme trata. Isabel é a namorada de Luke (Ed Harris), que está passando por um divórcio complicado com sua ex, Jackie (Susan Sarandon). Para piorar, os filhos do casal sentem uma forte rejeição pela madrasta, que tenta ao máximo agradá-los para poderem conviver em harmonia.

Lado a Lado é um filme sobre relacionamentos e emoções. Quando um dos personagens descobre ter uma doença grave, todo o cenário muda e, junto com os personagens, começamos a questionar quais são realmente as nossas prioridades e o que de fato é importante ao ponto de perdemos tempo brigando. Não é um filme feliz, apesar de ser uma comédia dramática; mas também não é somente triste: é apenas a vida, do jeitinho como ela é, da melhor-pior forma possível.

Mensagem Para Você, de Nora Ephron

Por Michas

Mensagem Para Você é sempre lembrado como uma das melhores comédias românticas dos anos 90. Dirigido e escrito por Nora Ephron — sua irmã, Delia Ephron, também assina o roteiro —, o filme é uma releitura atualizada da peça Parfumerie (1937), de Miklós Lázló, que tem como cerne o relacionamento romântico mantido por correspondência entre duas pessoas. Em 1998, a internet começava a se enraizar em nossas vidas e se aproximava, aos poucos, do que viria a se tornar nas últimas duas décadas. No filme, somos apresentados à Katheleen Kelly (Meg Ryan), dona de uma pequena livraria independente voltada para livros infantis, que vê o negócio de sua família ser ameaçado pela chegada da rede Foxbooks, propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). E enquanto os dois se detestam na vida real, acabam se conhecendo de forma anônima pela internet e começam um relacionamento por e-mail.

Vinte anos depois, é possível analisar o filme de diferentes perspectivas e perceber que, enquanto alguns aspectos não sobreviveram ao teste do tempo, outros continuam bastante atuais e, por isso, muito relevantes. Se por um lado, os estereótipos de gênero surgem como algo já datado e alguns dos comportamentos de Joe Fox se mostrem questionáveis e problemáticos, a dinâmica dos relacionamentos virtuais é, sem sombra de dúvidas, a melhor parte do filme. Os protagonistas se sentem muito mais confortáveis para serem verdadeiros, revelarem suas reais facetas, por meio dos e-mails trocados de forma anônima, do que entre aqueles que fazem parte de seu convívio diário. É fácil se identificar com a ideia de encontrar “a sua pessoa certa”, “a sua turma”, pela internet. Há também alguns momentos em que o filme parece prever o futuro — os dias contados das cafeterias e livrarias independentes, o fato de que hoje interagimos mais por meio de telas do que pessoalmente e o debate sobre relacionamentos virtuais serem considerados traição são alguns exemplos —, o que só torna a experiência de o assistir ainda mais deliciosa depois de todos esses anos.

Mulan, de Tony Bancroft e Barry Cook

Por Yuu

Baseado no poema narrativo chinês A Balada de Mulan, escrito no século VII, a trigésima sexta animação da Disney é, sem dúvidas, um dos destaques na filmografia do estúdio. Lançado no Brasil em meados de 1998, o filme acompanha da jornada de de Fa Mulan (Lea Salonga), uma moça que, no início da trama, está prestes a ser apresentada para a casamenteira da vila a fim de que esta lhe arranje um marido e assim possa assumir sua posição como uma boa jovem chinesa. No entanto, sua personalidade desastrada não a ajuda a obter sucesso na missão e a faz acreditar que jamais seria capaz trazer honra para sua família — um dever levado muito a sério pela população da Ásia Oriental. O sentimento de deslocamento e a ânsia de poder revelar sua verdadeira identidade para o mundo, uma identidade que não é delicada e comedida, e sim determinada e cheia de vida, nos presenteia com uma das canções mais bonitas entre todos os filmes da Disney: “Reflection”. Não demora muito e o exército chinês avisa que a China está em guerra contra os Hunos, precisando, assim, convocar um homem de cada família para guerrear. Visando proteger seu pai, já idoso, de ser morto no campo de batalha, Mulan rouba sua armadura no meio da noite e se disfarça de homem para se apresentar em campo, seguida do guardião da família, o dragão Mushu (Eddie Murphy).

Mulan é uma preciosidade cinematográfica por ser um filme de sacrifício e superação protagonizado por uma garota. Durante a maior parte do filme, Mulan enfrenta o desafio de sobreviver e se provar em um ambiente exclusivamente masculino, ainda que ninguém no exército tenha noção da sua identidade. Apesar do bullying de Yao (Harvey Fierstein) e Ling (Gedde Watanabe), e do desprezo inicial de Shang (Donny Osmond) pela sua fraqueza, Mulan não voltou atrás. Pelo contrário, ela tomou isso como inspiração para seu esforço e provação. Sua determinação não era pautada em questões pessoais, mas no desejo altruísta de continuar ocupando aquela posição pelo seu pai, sua família e seu país, e foi assim que ela ganhou o respeito dos seus companheiros, do seu comandante e do próprio Imperador até mesmo depois que seu disfarce foi revelado. “A flor que desabrocha na adversidade é a mais bela de todas” é uma lição belíssima que o filme deixou de lembrança; assim como uma flor pode resistir ao frio cortante, uma mulher pode resistir a qualquer situação que a coloca em risco.

O Show de Truman, de Peter Weir

Por Mia

Filme obrigatório pra quem estuda Jornalismo, a obra de Peter Weir é uma daquelas que nos fazem questionar tudo à nossa volta. A discussão central é se o que vivemos é real ou se fazemos parte de algo maior. Tal questionamento é abordado através de Truman Burbank (Jim Carrey), um homem normal de uma cidadezinha aparentemente amigável e bonita chamada Seahaven. O que ele não sabe é que desde antes de nascer sua vida já era controlada por pessoas desconhecidas. Truman é o astro do maior reality show já realizado — um reality tão real que nem mesmo ele sabe que faz parte. Aos poucos, Truman vai se dando conta de que a vida em Seahaven parece girar em torno dele e isso não pode ser normal. Desconfiado, ele tenta de todas as formas fugir dali, mas sempre acontecem coisas misteriosas que o impedem de sair.

Testar os limites da realidade que nos cerca é um dos grandes temas da ficção científica, já abordado em diversas séries e livros, entretanto, dificilmente O Show de Truman poderia ser classificado como ficção científica à primeira vista. Apesar da abordagem com toques de distopia, a trama possui um tom muito mais dramático do que distópico, é muito mais existencialista e reflexiva, levando o espectador a ter tantas dúvidas quanto o próprio Truman, quase não deixando espaço para os elementos de ficção científica de um mundo que possui um acordo tácito de enganar e manipular a vida de um homem.

O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg

Por Thay

Detentor de cinco Oscars — inclusive o de Melhor Diretor para Steven Spielberg, em 1999 —, O Resgate do Soldado Ryan foi o primeiro grande filme de guerra de muita gente. Com uma trama que se desenrola durante a Segunda Guerra Mundial, acompanhamos o Capitão John Miller (Tom Hanks) e seus homens em busca do soldado James Francis Ryan (Matt Damon), parte do pelotão de paraquedistas que aterrissou no lugar errado e que pode estar em qualquer parte da França. A busca pelo soldado adquire tons ainda mais dramáticos devido ao fato de que James Francis é o último dos irmãos Ryan ainda com vida e a missão do Capitão Miller é justamente fazê-lo retornar ao lar em segurança, custe o que custar. Como parte da 101 Company 506 Regiment, Ryan é um paraquedista treinado para combate e para, acima de tudo, defender pontos estratégicos para o exército dos Estados Unidos tal qual pontes, estradas, vilas e aldeias — treinamento que refletirá em um dos momentos mais emocionantes do filme.

O Resgate do Soldado Ryan possui uma das cenas de guerra mais emblemáticas já feitas na história do cinema e retrata o desembarque dos soldados norte-americanos na Normandia, mais especificamente na praia de Omaha. A data, que ficou conhecida como Dia D, era parte dos esforços de guerra para libertar a França da ocupação alemã e a câmera de Spielberg consegue captar com maestria todo o horror e desespero intrínseco às guerras, as mãos tremendo dos soldados que desembarcarão em breve, as orações de última hora até dos menos devotos. É uma cena que não tem trilha sonora ou poesia, mas apenas o medo em seu estado mais puro, a morte desnecessária de centenas de soldados, a correria de médicos e enfermeiros que tentam fazer o possível em meio ao caos.

Operação Cupido, de Nancy Meyers

Por Fernanda

Foi em 1998 a primeira incursão de Nancy Meyers na direção, depois de quase duas décadas trabalhando como roteirista e de ver seu primeiro trabalho, o roteiro de A Recruta Benjamin, co-escrito por ela, ser indicado a um Oscar. Produzido pela Disney, Operação Cupido é o típico filme-para-a-família americano, mas que simplesmente funciona incrivelmente bem. Quando falei sobre o trabalho de Meyers anteriormente, utilizei justamente uma cena desse filme para resumir o que é sua filmografia: um mundo idealizado e sem os perrengues que pessoas comuns encontram no dia-a-dia (trânsito, chuva, contas pra pagar, essas coisas), porque o foco é sempre dado às complexidades que existem do lado de dentro dos personagens — e nas relações e sentimentos complicados que ligam uns aos outros. E é sobre isso, também, que Operação Cupido se debruça ao falar sobre como relacionamentos são difíceis mesmo quando pessoas se amam, com Elizabeth (Natasha Richardson) e Nick (Dennis Quaid) — embora o foco seja o relacionamento entre as irmãs gêmeas interpretadas por uma iniciante, ótima e então muito promissora Lindsay Lohan.

É claro que em uma análise fria, a trama de Operação Cupido é particularmente ridícula: tanto a parte de cada um dos pais ficar com uma das filhas e nunca mais deixá-las ter contato uma com a outra quanto a questão de as meninas, anos mais tarde, se encontrarem num acampamento, se odiarem e logo depois se descobrirem irmãs. E, ainda assim, funciona. É uma mistura de um bom elenco com um timing cômico muito bem calibrado, de uma sensação de bem estar constante e sentimentos que — apesar de todo o ridículo da coisa — são simplesmente críveis. Nem tudo no filme envelheceu bem — o tratamento que Meyers costuma reservar às “outras mulheres”, como é o caso de Meredith Blake (Elaine Hendrix), sempre muito mais jovens, bonitas e fúteis, já foi particularmente criticado —, mas o gostinho de infância adoravelmente capturado por Nancy Meyers e por Lindsay Lohan sobrevive.

Os Últimos Embalos da Disco, de Whit Stillman

Por Ana Luíza

Há muitas leituras possíveis para Os Últimos Embalos da Disco. Em um primeiro momento, o filme pode ser visto como uma ode aos anos oitenta e sobre o fenômeno das discotecas, evoluindo para uma comédia romântica na sequência. Mas, de maneira mais profunda, o filme também é um estudo sobre a vida de jovens adultos em início de carreira, que tentam construir uma identidade, entender a si mesmos e uns aos outros, em uma cidade cínica e solitária como Nova York. Alice (Chloë Sevigny) e Charlotte (Kate Beckinsale), as protagonistas, são mulheres tão diferentes quanto similares: o olhar que lançam sobre o mundo, suas experiências e reações são muito distintas, mas seus sonhos, objetivos e expectativas continuam a vir de um lugar muito parecido e existem dentro de um contexto em que ambas são vistas como iguais.

Muito acontece ao longo do filme — de romances fracassados até tráfico de drogas —, mas o que realmente se destaca é a imensa capacidade de Whit Stillman em olhar seus personagens com carinho, permitindo que eles sejam muitas pessoas, boas ou más, e de maneira sempre muito sincera. Em muitos momentos, tanto Alice quanto Charlotte, quanto os personagens que orbitam ao redor das duas, desempenham papéis controversos na vida uns dos outros — como quando Charlotte, na tentativa de diminuir Alice, sugere que ela deveria estar tomando antibióticos para uma doença venérea e por isso havia pedido ao garçom uma Coca-Cola ao invés de um drink; o que ela sabia, não era verdade. Mas nenhum deles é reduzido a um único momento de maldade, e somente com o passar do tempo é que cada um deles percebe quem realmente é. Ao final, nem todos têm um final feliz, mas o que Os Últimos Embalos da Disco propõe é que sempre continuamos seguindo em frente — dançando, por fim.

Para Sempre Cinderela, de Andy Tennant

Por Thay

Era uma vez, em um reino distante, uma bela jovem chamada Danielle de Barbarac (Drew Barrymore). Ela é obrigada a servir sua madrasta e as filhas desta, precisando trabalhar como criada na casa que antes pertencia ao seu falecido pai, para continuar vivendo sob aquele teto. O enrendo de Para Sempre Cinderela, de Andy Tennant, reimagina o clássico conto de Charles Perrault, Cinderella, mas tem um toque diferente quando coloca a jovem Danielle na França do século XVI e recebendo conselhos de ninguém menos do que Leonardo DaVinci (Patrick Godfrey) no lugar da famigerada fada madrinha. Ainda que Danielle precise trabalhar na casa a mando de sua madrasta, ela não se deixa abater e sempre relembra os ensinamentos dados por seu pai, mostrando independência e coragem quando necessário. É justamente a coragem de Danielle que a coloca diante o Príncipe Henry (Dougray Scott), que logo se encanta com a moça, mas tem no caminho a madrasta dela, a Baronesa Rodmilla de Ghent (Anjelica Huston), que quer subir na hierarquia da corte casando uma de suas filhas com o herdeiro do trono.

Para Sempre Cinderela é visto pela crítica especializada como uma releitura feminista — salvo as devidas proporções — do conto que conhecemos tão bem. No filme, Danielle é apaixonada por livros — um de seus favoritos é Utopia, de Thomas More —, sobe em árvores sem o menor problema, salva a vida do príncipe algumas vezes e está sempre fazendo o possível para proteger os antigos criados de seu pai da ira da Baronesa Rodmilla de Ghent. Danielle não precisa ser salva e, muito pelo contrário, está sempre pronta a se arriscar por aqueles que ama. O romance entre Danielle e Henry cresce de maneira orgânica e crível, o que torna o filme ainda mais especial — a princesa salva não apenas a si mesma nesse filme, mas quem mais precisar.

Patch Adams: O Amor É Contagioso, de Tom Shadyac

Por Mia

Responsável por uma das minhas frases favoritas do cinema (“Comprimidos aliviam a dor, mas só o amor alivia o sofrimento.”), o filme é a adaptação da história real de Patch Adams (Robin Williams), um médico cujo lema de vida é que o amor é o melhor remédio. Após uma tentativa de suicídio, Patch se internou numa clínica psiquiátrica e saiu de lá decidido a estudar Medicina para ajudar as pessoas com amor e amizade.

Quando Robin Williams se suicidou, lembrei automaticamente desse filme. Eu estava passando por um momento difícil e a mensagem do filme me ajudou muito. A ideia de levar alegria, humor e amizade para dentro de consultórios e hospitais é algo que realmente pode fazer a diferença para a vida de um paciente e não era (aliás, não é até hoje) uma prática comum entre os médicos, que preferem manter uma distância segura de seus pacientes para não se envolverem emocionalmente com eles. Mas tratar pessoas como robôs a serem consertados nunca deu muito certo, e Patch mostra isso com tanta clareza quanto sensibilidade.

Shakespeare Apaixonado, de John Madden

Por Ana Luíza

Ainda que cercado por muitas polêmicas (durante a temporada de premiações de 1999, os muitos prêmios recebidos pelo filme levantariam suspeitas sobre a prática de lobby e a ética dos grandes estúdios e da própria Academia; questões que seriam revisitadas mais recentemente após as muitas denúncias de abuso sexual contra os irmãos Harvey e Bob Weinstein), Shakespeare Apaixonado é uma adorável história de amor que imagina a obra mais famosa de William Shakespeare (Joseph Fiennes) como resultado do romance proibido que este vive ao lado da nobre Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), uma aspirante à atriz em uma época em que mulheres eram proibidas de participar de peças de teatro.

Como uma narrativa que existe dentro de outra, Shakespeare Apaixonado une amor e tragédia dentro e fora dos palcos, sem jamais abrir mão dos momentos mais leves, do riso ou de um romance que se constrói de forma tão bonita quanto divertida, mesmo quando finais felizes dificilmente podem existir de maneira absoluta. Seus personagens encarnam trejeitos dramáticos deliberadamente caricatos; primeiro, como uma referência ao estilo da época, mas que também lhe serve em grande medida. Não há dúvidas de que o filme continua muito aquém do reconhecimento que lhe fora dispensado no passado, e duas décadas dificilmente seriam capazes de mudar tal fato. Mas existe algo de muito bonito em sua narrativa, na poesia exageradamente dramática, nos figurinos e cenários que conferem magia ao teatro, no amor que nasce com a transgressão de uma mulher e que floresce até se tornar inesquecível.

Um Amor Verdadeiro, de Carl Franklin

Por Ana Luíza

Em essência, Um Amor Verdadeiro é a história de uma filha que precisa abandonar sua vida em Nova York para cuidar da mãe diagnosticada com câncer — o que ela faz com alguma resistência. Mas o filme é, na verdade, muito mais do que apenas isso, tornando-se um grande drama familiar sobre pessoas extremamente complexas, que observam umas às outras em um contexto bastante complicado e, pela primeira vez, percebem nuances facilmente despercebidas em suas rotinas antes tão impecáveis. Para Ellen (Renée Zellweger), principalmente, que sempre tentara ser a filha perfeita para um pai que nunca a enxergaria como tal, a descoberta de que ele tampouco era um homem perfeito chega de maneira gradual, mas nem por isso menos dramática, e não é uma surpresa que ela se torne menos compreensiva diante daquilo que, antes, preferia não ver.

Ao mesmo tempo, a convivência com a mãe e a responsabilidade pelas tarefas domésticas fazem com que Ellen perceba a importância do trabalho realizado por Kate (Meryl Streep) durante todos aqueles anos — tão ou mais importante do que a carreira acadêmica do pai, mas tão menos valorizado em comparação. São temas que continuam atuais até hoje — o trabalho doméstico continua a ser visto como inferior, mulheres continuam a ser inferiorizadas quando tentam ocupar espaços intelectuais — e são abordados com muita delicadeza na obra. Embora esquecido com o passar dos anos, Um Amor Verdadeiro continua, afinal, sendo um grande filme.

Vida de Inseto, de John Lasseter

Por Thay

Vida de Inseto talvez faça parte da galeria de filmes subestimados da Disney/Pixar, mas para mim ele é um dos mais divertidos e encantadores quando o quesito é bichinhos falantes — ou, no caso, mais especificamente insetos falantes. Na animação acompanhamos a história de Flik (Dave Foley), uma formiga que sempre tenta ser o mais prestativo possível dentro de seu formigueiro, mas por ser muito atrapalhado, acaba metendo os pés pelas mãos e atrapalhando mais do que ajudando. É o que acontece quando ele cria um protótipo para ajudar a recolher a comida que será entregue aos gafanhotos — o preço oferecido todos os anos aos insetos maiores para que deixem o formigueiro em paz —, mas alguma coisa dá errado no processo e todo o alimento reunido pelas formigas vai parar no fundo do rio, deixando os gafanhotos furiosos. Flik é julgado pelo tribunal das formigas como culpado pelo ocorrido, e enquanto todo o formigueiro trabalha para conseguir mais comida para os gafanhotos, Flik parte em uma jornada em busca de insetos maiores que possam ajudá-lo a proteger a colônia.

Lançado logo após o sucesso Toy StoryVida de Inseto abriu caminho de maneira tímida entre as animações da Pixar, mas mantém seu posto como um dos melhores de sua leva com louvor. A história de Flik, a formiga inconformada com a maneira como as coisas acontecem em seu formigueiro, é capaz de promover uma revolução — ainda que acidental — que acaba mudando para sempre as vidas de seus companheiros. Ainda que o caminho que tinha pela frente pudesse parecer incrivelmente assustador, Flik não desistiu — e se Vida de Inseto precisa de uma moral da história, é justamente essa. Desistir não é uma opção.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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