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Homecoming e o abismo entre ser e lembrar

Nem só de Netflix vive o streaming. No catálogo de séries novas e antigas da plataforma, é fácil cair no comodismo e esperar que as novidades cheguem, quase sempre, através dela. Mas nem sempre. Nem sempre porque, nos últimos tempos, uma outra plataforma tem ganhado espaço: a Prime Video da Amazon. Ainda que com um número menor de produções originais, a empreitada da Amazon possui um catálogo interessante. Entre as conhecidas e originais — como Transparent, Mozart in the Jungle, The Romanoffs, The Marvelous Mrs. Maisel e The Man in the High Castle —, e as queridinhas mais antigas dos seriadores — como Parks & Recreation, The Office, Mr. Robot, This Is Us, Seinfeld e House, por exemplo —, a Prime Video vem conquistando seu lugar em uma terra que, tão cedo como possível, será tomada por outras opções de streaming.

É inserido nessa realidade que Homecoming, série de Sam Esmail, criador de Mr. Robot, adaptada do podcast (!) de mesmo nome de Eli Horowitz e Micah Bloomberg, se estabelece. Com ninguém mais, ninguém menos que a grande Julia Roberts ocupando o papel principal da série, Homecoming é uma história de suspense contada através de duas linhas do tempo. Uma, a horizontal (ou “tela cheia”), se passa nos dias de hoje, onde o projeto Homecoming começa a receber ex-militares retornando da guerra. Com o intuito de readaptar os jovens para a vida real, longe da linha de combate, a assistente social/terapeuta Heidi Bergman (Roberts) é designada para fazer o acompanhamento psicológico dos veteranos que sofrem de Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Em outra timeline, somos apresentados à realidade de Heidi quatro anos após deixar o projeto. Utilizando de uma sufocante meia tela centralizada (ou vertical), o futuro em Homecoming não é tão futurístico e revela uma Heidi sem memória sobre o tempo em que passou trabalhando para o projeto da grande empresa Geist. As coisas começam a sair do eixo quando um investigador do governo, Thomas Carrasco (Shea Whigham), com muita insistência, persiste em encaixar os pedaços de um quebra-cabeça do qual nós, telespectadores, pouco entendemos nos episódios iniciais da série. A investigação coloca Colin Belfast (Bobby Cannavale) em modo alerta, isso porque Belfast foi o responsável pelo projeto e é um dos funcionários do monopólio empresarial Geist.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em apenas dez episódios de trinta minutos, sem grandes reviravoltas e momentos eletrizantes, aprendemos que Homecoming nada mais é do que um local montado para medicar ex-veteranos e apagar-lhes a memória para, mais tarde, reinseri-los na guerra. Não sendo a primeira produção a trazer à tona questões que envolvem a readaptação de veteranos de guerra na sociedade, os traumas por eles sofridos, além do descaso do governo em buscar reintegrar socialmente esses soldados, Homecoming coloca o dedo em uma ferida muito grande dos americans e bem que tem suas peculiaridades. Heidi, por exemplo, em primeiro momento parece não saber o que se passa dentro do local em que trabalha, tampouco o intuito do programa de reinserção. Dos soldados lá admitidos, nenhum deles entende muito bem o que está acontecendo, por que foram levados diretamente até o local, e por que não podem se encontrar com seus familiares, contudo, de alguma forma, quase todos aceitam de braços abertos o fato de que o governo está “cuidando” deles. Dentre esses soldados há Walter Cruz (Stephan James), que parece envolver a terapeuta Bergman de uma maneira que seus colegas veteranos não conseguem. O encanto — se é que se pode chamar assim — é mútuo. Os dois estreitam a relação profissional, e é em razão disso que Heidi percebe que há algo muito errado com a memória de Walter Cruz.

Homecoming

Quando Heidi encaixa as peças do quebra-cabeça que ela, sem saber, estava ajudando a montar, já é tarde demais. Semanas adentro do experimento, os soldados já demonstravam perda grave de memória, em especial acerca dos eventos traumáticos que os levaram até ali — o que, para a Geist e os gigantes militares do Governo, se provava um total sucesso. Ao perceber que os jovens eram medicados por meio das refeições, Heidi encontrou, por este caminho, uma forma de implodir um programa de readaptação que nada mais era que uma tentativa de desumanizar jovens ex-combatentes. Aproveitando-se da proximidade com Walter Cruz e do apreço que desenvolveu por ele, Heidi decide jantar no refeitório da unidade, levando Cruz a tomar, inconscientemente, sua medicação duas vezes, e, de forma intencional, a terapeuta acaba por se medicar também. O resultado é o esperado: Walter deve ser hospitalizado, Heidi perde a memória e toda a lembrança acerca de Homecoming — o que explica porque, no “futuro”, ela está trabalhando em uma lanchonete decadente e morando com a mãe, em uma realidade muito diferente e pouco promissora, diferente do que conhecemos no começo da série.

De forma ampla, Homecoming propõe contar a história de uma terapeuta, um ex-soldado, um empresário manipulador e um investigador interessado, todos interligados em razão de um ambiente que está longe de ser o que parece. O roteiro é enxuto, o clima é de drama psicológico, e dá muito certo durante o início da série — o não saber é interessante e pede por mais um episódio. À medida que as engrenagens vão se encaixando, percebe-se que o tom da série é justamente encaixar engrenagens para que tudo faça sentido. Isso quer dizer que, diferentemente do que se espera, não há um ápice nessa história, ela é linear e sem grandes plot twists — o que nem sempre agrada a todos e, num geral, não me agradou de completo. Contudo, sob a direção de Esmail, que fez um criativo e marcante trabalho com Mr. Robot, Homecoming conquista o seu lugar sem replicar exageros. O diretor sabe o que está fazendo e brinca, sem pudor algum, com planos-sequência bem ensaiados, tomadas simétricas, e perspectivas diferentes. A fotografia da série, de modo geral, angaria alguns pontos positivos para a série.

Homecoming

O outro ponto positivo de Homecoming é, de forma incontestável, as atuações, em especial da camaleão das telas Julia Roberts. Conjuntamente com a direção de Esmail, que parece saber que atuação boa é aquela que nos faz sentir, passamos muito tempo lendo as expressões faciais dos personagens, de forma fixa e, vez que outra, bastante longa — coisa que, para aqueles acostumados com Mr. Robot, já sabemos não ser novidade e sim uma característica do diretor. Por fim, o ponto central pelo qual orbita toda a aura da série é a angústia e a solidão que a perda da memória traz para uma pessoa, o que levanta questões igualmente angustiantes sobre quem realmente somos quando não temos memória daquilo o que fazemos.

Entre o trauma, a ganância de grandes empresas e o descaso governamental (a investigação de Carrasco começou quatro anos após a denúncia, vale complementar), Homecoming é um título atraente do catálogo da Amazon. Possui boas atuações e uma direção dedicada, mas, ainda assim, não consegue transferir para dentro da tela toda a tensão e obscuridade que pode e muito provavelmente deve fazer parte da construção de sua história em formato de podcast. Sem altos, baixos e grandes surpresas, a série é consistente dentro do que se propõe a fazer, sendo uma forma de TV diferente daquilo que estamos acostumados a assistir. Se ela é capaz de agradar a gregos e troianos, não posso dizer. Se for o caso conhecer novas formas de se contar uma história e expandir horizontes na forma de se consumir histórias, aí não resta dúvidas de que Homecoming pode agradar.

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