Categorias: CINEMA

Troféu Valkirias de Melhores do Ano: Cinema – Cena 2

Nós amamos narrativas pois, para além de mergulharmos num mundo que não é o nosso, o que pode representar um alívio, gostamos de nos ver representadas na tela. Existem muitas coisas que compreendemos através da arte, especialmente a cinematográfica. Pode ser catártico assistir a um filme e, a partir de certas personagens, entender coisas em nós mesmas. Aqui está a segunda parte do nosso Troféu Valkirias de Melhores do Ano, na categoria Cinema, com os filmes que mais nos refletiram.

Nós, Jordan Peele

Por Mia

O cinema de terror viveu muitos momentos importantes neste ano, mas talvez o que melhor represente o momento que estamos vivendo seja Nós, filme de Jordan Peele. Ele, que se tornou um dos maiores nomes do terror contemporâneo, segue criando narrativas de horror social. E isso não é à toa. O horror sempre espelha a sociedade no qual é feito e ainda temos muito o que temer.

Dirigido e escrito por Peele, a história conta o encontro de Adelaide (Lupita Nyong’o) com um antigo pesadelo de infância. Entregando a melhor atuação do ano, Lupita rouba a cena no filme. Embora outros personagens também sejam importantes para a história, é ao redor dela que eles orbitam, sendo meros coadjuvantes para a protagonista. E isso não é forma de falar: Addy criou sua própria realidade, esforçou-se para conquistar seu lugar ao sol e, agora, vê tudo indo por água abaixo quando um pesadelo volta à sua vida. A forma como isso acontece poderia ser um filme de terror por si mesmo, mas Jordan Peele não faz coisas pela metade. Nós é um retrato afiado do medo do Outro, medo que envolve diversos pontos e suscita a pergunta: de que Outro temos medo? Esse medo de que alguém possa vir das sombras e roubar a nossa vida – de forma literal no filme – pode levar a atos de racismo, xenofobia, exclusão e a tantos outros males sociais que afetam diretamente as vidas das minorias. Existem muitas formas de entender Nós, e todas elas causam medo porque, a partir do momento que compreendemos que esse não é apenas mais um filme de terror e enxergamos, em nós, as semelhanças com a narrativa do medo do Outro, fica difícil olhar para o lado e ignorar quem vive nos subterrâneos.

Para saber mais: Nós e Jordan Peele: isso é a América, essa é a nossa História

O Clube dos Canibais, Guto Parente

Por Jéssica Bandeira

Na cultura indígena, o canibalismo era algo muito comum. Acreditava-se que, ao comer uma pessoa, você adquire as características dela. Era por isso que os indígenas costumavam devorar seus inimigos.

Em O Clube dos Canibais, o canibalismo aparece como uma forma de dominar o outro, de comer o mais fraco, no caso, o pobre. O filme de Guto Parente realiza uma metáfora do Brasil atual ao contar a história de um clube de homens ricos que comem gente. O líder deles, Borges (Pedro Domingues), é o típico cidadão de bem. Odeia homossexuais, mas é flagrado pela esposa de um dos membros, Gilda (Ana Luisa Rios), transando com outro homem. A partir desse flagrante é que o filme começa de fato. Apesar de alguns deslizes de roteiro, O Clube dos Canibais é um filme de terror que mostra que a monstruosidade reside na desigualdade entre ricos e pobres. Os pobres são devorados pelos ricos, servidos como churrasco, uma clara alegoria da desigualdade capitalista. O clube dos canibais deseja salvar o Brasil daquilo que consideram uma ameaça: qualquer coisa que desafie o establishment.

O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, Tim Miller

Por Thay

Uma franquia relativamente longeva, embora nem sempre bem sucedida, O Exterminador do Futuro retornou em 2019 com um novo longa, Destino Sombrio. Com direção de Tim Miller e a benção de seu criador, James Cameron, no roteiro, a nova fase da franquia parece excitante e promissora. Além de Cameron, também retornam para a franquia o T-800 de Arnold Schwarzenegger e a Sarah Connor de Linda Hamilton, ladeados pelas novatas, no universo, Grace (Mackenzie Davis) e Daniella (Natalia Reyes).

Com muito tiro, porrada e bomba, o roteiro de O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio não é, de fato, inovador em seus arcos narrativos; a novidade fica por conta do papel das personagens femininas nesse universo. Se antes eram relegadas a meras incubadoras para O Escolhido, agora elas são as próprias senhoras de seus destinos. É empolgante vê-las lutando de igual para igual com os exterminadores — com destaque especial para Grace, de Mackenzie Davis, é óbvio.

Para saber mais: O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, nova roupagem para a antiga franquia

O Rei Leão, Jon Favreau

Por Thay

Com uma proposta realista, o novo O Rei Leão, dirigido por Jon Favreau e com músicas de John Williams e Beyoncé, ainda divide opiniões mesmo passado algum tempo de seu lançamento. Bebendo da fonte da animação clássica da Disney lançada em 1994, O Rei Leão ainda é a mesma história que amamos. Eu cresci assistindo ao filme clássico inúmeras vezes, então não foi muito difícil me encantar com o visual exuberante da nova produção. É sempre bom rever velhos amigos, e foi isso o que senti ao assistir O Rei Leão em 2019, mesmo que esses amigos não consigam se expressar tão bem quanto em 1994.

A base da trama é a mesma que conhecemos e a narrativa sofre pequenas alterações, mas as melhores canções estão todas lá — com adição da impactante Spirit, interpretada por Beyoncé — e as vozes dos atores escolhidos para a nova versão casam com perfeição com seus personagens. O Rei Leão se apoia no saudosismo da audiência para brilhar, mas isso não é demérito algum.

Parasita, Bong Joon-ho

Por Mia

Não tenho dúvidas ao afirmar que Parasita, obra do diretor e roteirista Bong Joon-Ho, é o melhor filme do ano.  A história é devastadora. Uma família que vive na extrema pobreza consegue, por meio da astúcia, empregos em uma casa de pessoas riquíssimas. Lá, a desigualdade social, a princípio disfarçada com polidez e boas maneiras, aflora ainda mais ao vermos o contraste entre o rico e o pobre, o que tem de tudo e o que se submete às piores circunstâncias para garantir a sobrevivência, vivendo como um parasita. Tudo é muito e cada cena existe por um motivo, nenhuma fala ou objeto está fora de lugar, tampouco sobrando. A construção narrativa faz com que nos envolvamos com a família de trabalhadores e, ao mesmo tempo, que possamos nos reconhecer neles, ainda que as culturas sejam completamente diferentes. Entretanto, a luta de classes é a mesma em todo lugar. É o horror social em seu melhor formato.

Quem Você Pensa Que Sou?, Safy Nebbou

Por Jéssica Bandeira

Quais narrativas criamos para nós na internet? Será que podemos ter controle sobre nossa narrativa nas redes sociais? Essas são algumas perguntas que o filme de Safy Nebbou, Quem Você Pensa Que Sou?, tenta responder.

O filme conta a história de Claire (Juliette Binoche), uma professora de literatura bem-sucedida, mas fracassada no amor. Após levar um fora de um ex-ficante mais novo, ela decide criar uma nova narrativa para si. Assim nasce Clara, a metade afastada de Claire. No entanto, as coisas saem de controle, e o amigo do ex-ficante de Clara acaba se apaixonando pelo fake. Quem Você Pensa Que Sou? é um filme tremendamente assustador, pois fala das dinâmicas criadas através das redes sociais. O que mostramos nelas? Quem somos de verdade? Como Claire é professora de literatura, há uma relação bem interessante entre a trama do filme e suas aulas na universidade. Além disso, ele fala sobre o etarismo inflado pelas redes sociais. Criar outra identidade para si é reflexo de uma sociedade que descarta mulheres mais velhas.

Se a Rua Beale Falasse, Barry Jenkins

Por Ana Luíza

Baseado no livro homônimo escrito por James Baldwin, Se a Rua Beale Falasse conta a história de Tish, interpretada por Kiki Layne, uma jovem grávida que vive no Harlem, enquanto luta pela inocência de seu marido, erroneamente acusado de crimes não cometidos por ele. Como se não bastasse a acusação injusta, Fonny Hunt, interpretado por Stephan James, ainda precisa lidar com o racismo intrínseco a tais acusações. Muitos críticos apontam Se a Rua Beale Falasse como uma resposta à La La Land principalmente por conta da montagem de abertura do longa.

Dirigido por Barry Jenkins além de um elenco estrelado maravilhoso — alô Regina King —, Se a Rua Beale Falasse é um filme sensível que fala de amor sem deixar de lado as questões sociais, principalmente relacionando a injusta acusação de Hunt, o racismo e a violência policial contra minorias. É difícil assistir Se a Rua Beale Falasse sem se emocionar do início ao fim.

Shazam!, David F. Sandberg

Por Ana Luíza

É certo dizer que Shazam! chegou aos cinemas sem muito confete. O longa do diretor David F. Sandberg, um dos primeiros da DC Universe a se afastar das características sombrias impressas por Zack Snyder desde a A Liga da Justiça, conta a trajetória do adolescente de catorze anos Billy Batson (Asher Angel) e sua transformação em Shazam (Zacharey Levi) após receber de um mago o dom de ser um super-herói adulto. Como poucos filmes da DC para o cinema, Shazam! consegue ser leve e divertido, um sopro de ar fresco em um mundo cinematográfico que parecia querer ser o mais real e sombrio e possível — sim, Batman vs Superman, estou olhando para você.

De maneira divertida, Shazam! evoca as melhores características dos quadrinhos em que se baseia recheando as cenas com slow-motion e closes; as cores escolhidas pelo diretor para a fotografia de seu projeto também soam muito mais como os quadrinhos clássicos, o que transforma a experiência de assistir Shazam! ainda mais empolgante para quem cresceu acompanhando o herói. Zacharey Levi está simplesmente perfeito em sua atuação visto que consegue aliar o lado heroico do Shazam adulto com a faceta juvenil e relativamente inocente de Billy. Com um filme que não pretende se levar muito a sério, Sandberg constrói um herói carismático que fazia falta no quadro da DC no cinema.

Sorry To Bother You, Boots Riley

Por Tany

Nos tempos de hoje, em que não é uma opção se abster do que anda acontecendo no mundo, tudo se torna político. A diferença é que você pode expor sua opinião de diversas formas e uma delas é com humor e metáforas traduzindo bem aquele ditado de rir para não chorar.

Em uma versão alternativa dos tempos atuais, o atendente de telemarketing, Cassius Green (Lakeith Stanfield) descobre uma fórmula mágica para o sucesso profissional fazendo com que entre em um universo macabro. É impressionante como o filme nos faz pensar sobre a nossa rotina atual de uma forma engraçada, mas não menos séria. São críticas as redes sociais, ao nossos sistema atual de trabalho, ao capitalismo, a nossa falta de saúde, de tempo livre e o medo constante de não estar empregado por mais infeliz que você esteja. Quanto vale passar por cima de tudo e todos para finalmente conquistar o que você quer? Quando você chega lá será que você realmente chegou? Será que você não foi escolhida por quem tem realmente o poder e só é a mais conveniente para o cargo naquele momento? Talvez esse filme não tenha recebido a atenção que merece por tratar de um assunto que muitas vezes queremos esquecer que existe quando acaba o expediente, mas é uma pena porque é engraçado e te faz pensar, ou seja, uma combinação perfeita. De bônus? Tem a Tessa Thompson.

Star Wars: A Ascensão Skywalker, J.J. Abrams

Por Débora

“A saga chega ao fim. A história viverá para sempre”. 2019 foi um ano de grandes conclusões para filmes e séries que nos acompanham há anos. Nos emocionamos, brigamos e tivemos nossas ressalvas com as conclusões de Vingadores: Ultimato, Game Of Thrones e, mais recentemente, Star Wars: A Ascensão Skywalker. Com a responsabilidade de dar um final satisfatório para uma história que fez parte da vida de milhões de pessoas por 42 anos e se tornou um fenômeno cultural sem precedentes, J.J. Abrams decidiu apostar em uma trama segura, sem grandes quebras de paradigmas como seu antecessor Os Últimos Jedi e nos entregou uma história cheia de cenas de ação, interações entre Finn (John Boyega), Poe (Oscar Isaac) e Rey (Daisy Ridley) (finalmente!) e a tão esperada resolução de antigos mistérios e conclusão da jornada de personagens.

Apesar de concordar com grande partes das críticas negativas que tem sido feitas ao longa (J.J.Abrams definitivamente decidiu ignorar boa parte do segundo filme da trilogia, e nisso inclui-se desperdiçar uma das melhores personagens da saga, Rose Tico (Kelly Marie Tran), e continuar do ponto em que deixou seus personagens em O Despertar da Força), a aposta do diretor e roteirista no saudosismo e nostalgia nos pega pelo coração; mesmo que em alguns momentos as coisas pareçam excessivas demais, é impossível negar que ver a conclusão da jornada épica de Kylo Ren (Adam Driver) e Rey faz o coração bater mais forte e o lado fangirl aflorar com atuações tão apaixonantes e a química entre Daisy Ridley e Adam Driver. O capítulo final para a Resistência também reaviva velhas discussões sobre esperança, o poder de unir-se em prol de uma grande luta e ouvir o chamado de socorro de uma causa, nos deixando com aquele sentimento de que vale a pena enfrentar nossos maiores medos e deixar que a certeza do bem maior nos guie. No final, A Ascensão Skywalker não é a conclusão ideal da saga que gostaríamos, mas isto não tira seu brilho ou apaga os momentos memoráveis que nos possibilitou viver, uma última vez, ao lado dos personagens que amamos. E assim como as milhares de gerações de Jedis que vivem em Rey, essa história e seus ensinamentos ficarão para sempre conosco.

Suspiria, Luca Guadagnino

Por Mia

Lançado no ano passado, Suspiria somente chegou aqui em abril deste ano e, infelizmente, foi esquecido pelos cinemas. No entanto, a releitura que Luca Guadagnino fez do clássico de Dario Argento conseguiu superar a obra dos anos 1970. Com uma estética sóbria e aprofundamento nas personagens, o filme é perfeito do início ao fim, sendo quase o exato oposto do primeiro, que é lindo, mas só.

Nele, conhecemos Susie Bannion (Dakota Johnson), uma jovem que pretende ingressar numa academia de dança na Berlim Ocidental. Todavia, as coisas lá não são o que parecem ser e não tarde muito para nos percebermos envoltos em uma trama que envolve cenas terríveis de body horror e uma entidade antiquíssima que veio retomar seu lugar no mundo. Mais do que um simples filme sobre bruxas, Suspiria é um ode à beleza e à complexidade da mulher-monstro. Temida por muitos e representada de forma limitadora na maioria das narrativas, aqui ela ganha contornos psicológicos suficientes para compreendermos o equilíbrio entre bem e mal, puro e profano. Ao retomar a mitologia das Três Mães, Guadagnino nos trouxe um dos melhores filmes já feitos, uma obra completa de horror e fascínio.

Varda por Agnès, Agnès Varda e Didier Rouget

Por Jéssica Bandeira

Parece chover no molhado, mas em 2019 perdemos muitos nomes significativos para a arte. Um deles foi a diretora franco-belga Agnès Varda. Ela foi a precursora da Nouvelle Vague, embora muitos acreditem que esse título pertença a Godard. A perda de Varda para o mundo das artes teve um gosto agridoce, especialmente porque ela nos deixou Varda por Agnès, uma espécie de documentário-testamento sobre sua vida. Não foi a primeira vez que ela se aventurou a recontar suas memórias. A mesma ideia está presente em As Praias de Agnès, mas o sabor de assistir é completamente diferente.

Varda por Agnès acompanha a trajetória da diretora, especialista em ser uma catadora de imagens, digamos assim. Ela acreditava na coletividade do trabalho, e isso pode ser sentido em cada depoimento que ela dá. Varda fala sobre Alain Resnais, diretor da Nouvelle Vague que a ajudou na montagem de alguns filmes, mas também com Sandrine Bonnaire, protagonista de um de seus melhores filmes, Os Renegados. É sempre difícil ver alguém que admiramos sumir de verdade da tela. Quando a imagem fica escura e você sabe que é para sempre, que não é mais ficção. A última obra de Varda é a certeza de que, mesmo que ela tenha desaparecido junto com os créditos do cinema, seus filmes continuarão conosco durante muito tempo.

Vingadores: Ultimato, Anthony e Joe Russo

Por Ana Luíza

Após dez anos construindo seu universo cinematográfico, todo o esforço e investimento da Marvel culminou no excelente Vingadores: Ultimato. Reunindo praticamente todos os heróis que já passaram por seus filmes anteriores, a grande empreitada de Anthony e Joe Russo é feita na medida para deixar fãs boquiabertos durante as mais de três horas de exibição do filme. Com a difícil tarefa de amarrar a narrativa construída na última década, os diretores precisaram fazer escolhas com relação ao desfecho de muitos personagens e nem sempre acertaram na dose (nunca os perdoaremos pelo desfecho de Natasha Romanoff, que fique anotado).

De maneira óbvia, o longa foca nas tramas dos Vingadores originais enquanto abre espaço para os novatos. Não vemos muito da Capitã Marvel de Brie Larson, por exemplo, mas isso é perfeitamente aceitável quando pensamos no plano da Marvel para os próximos anos. É preciso deixar que os antigos heróis concluam suas narrativas antes de abrir espaço para os novos. É assim que os dramas de Tony Stark (Robert Downey Jr.), Steve Rogers (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Clint Barton (Jeremy Renner) se tornam o foco do roteiro enquanto os heróis se preparam para lidar com a ameça de Thanos (Josh Brolin) novamente. Com uma produção de encher os olhos, cenas emocionantes (e outras que deixam na cara o fanservice), Vingadores: Ultimato é o sonho mais louco dos fãs de quadrinhos transformado em realidade. E que realidade!

Virando a Mesa do Poder, Rachel Lears

Por Fernanda

2018 ficou marcado nos Estados Unidos como o ano que elegeu o Congresso com o maior número de representantes mulheres na história, além de um ano de muitas “primeiras vezes”: primeiras representantes mulheres, ou latinas, ou negras, ou muçulmanas, ou indígenas — e assim por diante. Nesse cenário, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez (mulher, jovem, latina) se tornou, de maneira quase meteórica, um dos nomes mais relevantes na política americana hoje — atacada incessantemente e celebrada o tempo todo também. A campanha de AOC pela nomeação do Partido Democrata — que desafiou e venceu aquele que era representante do distrito (e do partido) há vinte anos — é uma das quatro documentadas por Rachel Lears em Virando a Mesa do Poder. Quatro mulheres sem tradição na política, quatro candidaturas baseadas em apoio popular, criticando de frente o status quo e o establishment do partido, o distanciamento de representantes em relação a seus eleitores e a prática extremamente problemática do financiamento de campanha por grandes corporações.

Dentre as campanhas abordadas pelo filme, a de Ocasio é a única vitoriosa, mas o fato não diminui em nada a importância do trabalho duro realizado pelas equipes de Cori Bush, no Missouri, Paula Jean Swearengin, em West Virginia, e Amy Vilela, em Nevada. Virando a Mesa do Poder nos lembra de que, como coloca muito bem a nossa Constituição, todo o poder emana do povo e, como lembra a própria AOC ao final do documentário, o Congresso, a Casa Branca (ou o Palácio do Planalto), tudo isso pertence a ela, a mim e a você — ao povo. São nossos símbolos, nossas instituições, e aqueles que os ocupam (sempre temporariamente), nossos representantes, precisam se parecer conosco e compartilhar de nossas preocupações. O filme de Rachel Lears, apesar de retratar uma série maior de derrotas do que de vitórias, é um alento: sim, é possível, ele afirma ao escolher começar e terminar com AOC. Como diz Rebecca Solnit diversas vezes ao longo de seu livro Hope in the Dark, não existe transformação ou revolução sem que antes haja esperança; é ela que nos faz levantar todos os dias e escolher lutar pelo que acreditamos mesmo quando tudo parece obscuro e mesmo que tudo seja profundamente incerto. Observar a trajetória de AOC e o trabalho duro de cada uma dessas quatro mulheres é isso: um sopro de esperança — mesmo em meio a tempos tão assustadores e complicados.

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