Categorias: INTERNET

Casamento Real, Meghan Markle e os clichês negados a mulheres negras

Caso você esteja no mundo da internet, sabe que no sábado 19 de maio de 2018 (um casamento taurino), a atriz e ativista Meghan Markle disse “sim” a uma vida ao lado do Príncipe Harry, da Inglaterra, se tornando assim a Duquesa de Sussex. Tendo morado na Irlanda e ouvido de moradores as mais diversas histórias sobre a Inglaterra, e sendo descendente de africanos, eu pessoalmente não tenho nada a ganhar com a Família Real Britânica e o que ela representa, mas tudo que Meghan Markle significa para mulheres como eu não pode ser ignorado.

Comecemos do princípio.

“Markle Sparkle”: o que a afro-americana tem?

Nascida em 4 de agosto de 1981, Meghan vem de uma família muito parecida com a minha em vários aspectos: pai branco e mãe negra descendente de escravos, que se esforçaram para que a filha fosse educada em escolas particulares nos Estados Unidos.

Deixando de lado qualquer “babado familiar” que possa circular a sua família nos dias de hoje, foi graças à sua mãe e à luta dela, e ao contato que teve na Northwestern University estudando dramaturgos afro-americanos, que Meghan começou a entrar em contato com a sua birracialidade. Em entrevista à Elle UK, numa matéria intitulada “Eu sou mais que um ‘outro'”, Meghan fala sobre sua ancestralidade: “meu pai é caucasiano e minha mãe é afro-americana. Eu sou metade negra e metade branca. (…) Eu recentemente reconheci isso e passei a dizer quem eu sou, compartilhar de onde eu vim e vocalizar meu orgulho em ser uma mulher forte, confiante e birracial.

Meghan se formou em 2003 com um bacharelado com graduação em Teatro e em Estudos Internacionais, e em 2002 começou sua carreira de atriz em papéis pequenos: “eu não era negra o suficiente para papéis negros e não era branca o suficiente para papéis brancos.” Foi em julho de 2011 que Meghan começou a atuar na série Suits como a assistente técnica jurídica e futura advogada Rachel Zane. Seu arco na série se completou em 2018, na sétima temporada da série, e ela anunciou sua aposentadoria da carreira de atriz em novembro do mesmo ano.

Além da carreira de atriz, Meghan também mantinha trabalhos humanitários e ativistas. Assim como sua mãe, ela se dedica a falar sobre raça, saúde mental e feminismo. Em 2016, ela foi a Ruanda como embaixadora do World Vision Canada para endossar uma campanha que leva água potável para os moradores mais pobres. No mesmo ano, ela foi à Índia falar sobre feminismo. Meghan também trabalhou em projetos junto à Organização das Nações Unidas (ONU) promovendo assuntos relacionados a igualdade de gênero e empoderamento feminino.

Como Duquesa de Sussex, Meghan abdicou de todos os títulos junto ao World Vision Canadá e à própria ONU para se dedicar aos projetos da Royal Foundation e fazer dentro dela suas próprias iniciativas e continuar o trabalho ativista. A Royal Foundation conversa com alguns assuntos que Meghan sempre se preocupou, como saúde mental (em jovens e adultos), uma das maiores prioridades da instituição.

Sua pele nunca deixou de ser uma questão

Não era de se espantar que a biracialidade de Meghan e tudo que ela representa causasse um furor ao entrar na Família Real Britânica que a pele branca perfeita e britânica de Kate Middleton jamais causou.

Mesmo antes do noivado com o Príncipe Harry ser anunciado, a cor da pele de Meghan já era um assunto entre todos que falavam sobre o namoro, que começou em junho de 2016. Todos pareciam ter algo a dizer. Houve quem comemorasse essa adição de melanina à família branca mais privilegiada do mundo, mas também houve quem questionasse não apenas o caráter e intenções dela (como foi feito também com Kate, diga-se de passagem), como também direcionasse vários ataques relacionados à cor de sua pele.

Em novembro de 2016, a secretaria de comunicações da Família Real Britânica soltou uma nota que falava sobre tais ataques. A nota começa com a gratidão do Príncipe Harry por todo carinho que recebe, e que reconhece a vida privilegiada que leva. A nota então fala sobre “uma onda de abuso e assédio” direcionado à Meghan e sua família, alguns desses abusos sendo públicos, como a primeira página de um jornal nacional, os comentários raciais subentendidos em artigos e o completo sexismo e racismo dos “trolls” nas mídias sociais e comentários em websites. Você pode ler a nota na íntegra aqui (em inglês).

Ainda hoje, dia do casamento e da redação desse artigo, o que mais chama atenção das pessoas, para o bem e para o mal, é a cor de sua pele. Desde sua mãe brilhando nas fotos, até todas as escolhas do casal para o coral e o discurso poderoso do Bispo Michael Curry (negro, da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, que prega a favor do casamento igualitário). O que mais se viu nas redes sociais, felizmente, foi uma celebração do amor e uma família real que agora tem muito mais cor.

Esse Casamento Real representa alguma coisa, afinal?

Além de ser responsável por quebrar uma série de protocolos reais (entre eles o fato de Meghan ser divorciada, o tradicional “beijo no balcão” que não aconteceu e até mesmo o simples fato da Rainha Elizabeth II ter comparecido ao casamento, visto que Meghan é divorciada), o Casamento Real, e o jeito como algumas pessoas reagem a ele, levanta questões importantes sobre os clichês que são negados a mulheres negras, e o quão importante é que isso seja discutido.

Meghan, a falsa feminista?

Tem sido pauta no Twitter de várias mulheres feministas o quanto Meghan parece contraditória com seus próprios ideais feministas ao abdicar de várias coisas para casar-se com um Príncipe. Ora, para começo de conversa, uma mulher feminista é livre para fazer o que quiser, e ser esposa não a torna menos feminista. Graças à Royal Foundation, seu ativismo seguirá muito bem, obrigada, e dessa vez com a oportunidade de atingir muito mais gente.

Desde o debate sobre não dar flores às mulheres no Dia Internacional da Mulher, espera-se de mulheres negras que elas parem de se importar com clichês que sempre lhes foram negados. É cobrado de mulheres negras que elas não se interessem por contos de fadas ou casamentos ou famílias tradicionais. É crucial que a mulher negra apresente-se auto-suficiente o tempo inteiro como a Muralha da China, ainda que, ironicamente, tal muralha tenha sido construída às custas e ao sofrimento de muitas pessoas.

O principal recado a você, mulher branca, que possa estar lendo isso: não espere que sua amiga negra ou sua celebridade negra favorita abdique de clichês. Você pode estar exausta de flores no Dia Internacional da Mulher,  de comédias românticas absolutamente vazias e filmes de princesas da Disney. Você pode se perguntar, ultrajada, “quem ainda se preocupa com casamentos reais em 2018”, enquanto as mulheres negras conseguem contar nos dedos as vezes em que esses clichês foram parte de sua vida. Por exemplo: o tema “princesa”, que muitas de vocês alegam ser “datado” ou “morto”, só faz parte da minha vida desde 2009, quando A Princesa e o Sapo foi lançado no cinema, nem 10 anos atrás. Cinema esse que segue me ignorando e ignorando mulheres como eu.

O Casamento Real e Meghan Markle vêm para mostrar que, por mais que a coisa toda seja, de fato, absurda em um ano que traz tantos questionamentos políticos e tantas cobranças com relação às dívidas culturais que a Inglaterra ainda tem com a África e ainda vai ter por muitos e muitos anos, nós mulheres negras não vamos mais abdicar dos nossos clichês.

Nós receberemos flores. Nós seremos princesas. Nós nos casaremos com Príncipes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 comentários

  1. Adorei!! Sem mais!! Texto perfeito e muito do que eu penso você descreveu, parece que nós não podemos ser sonhadoras porque somos feministas!! As pessoas confundem as definições e você sintetizou isso! Esse texto tem que circular muito!! Beijinhos ♥️

  2. Foda, não tem mais o que dizer. Estes comentários estavam me incomodando demais, mas como branca não sabia exatamente como responder. Um tapaço na cara desse feminismo branco de merda, que nega às mulheres negras seus espaços, seus sonhos e suas lutas, e as apaga “em prol de um movimento maior”, mas que no fundo quer apenas se estabelecer na sociedade branca e apagar as especificidades da mulher negra. Parabéns pelo texto, ficou sensacional!

  3. Eu amo demais ver mulheres de cor nesses lugares, em todos os lugares, especialmente sendo amadas.
    Obrigada por esse texto, já esperava maravilhosidades vindo da duds

  4. Ah cara, eu tava esperando tanto um texto que dissesse essas coisas! <3 Sabe quando o discurso alheio tá te incomodando mas você não consegue colocar com clareza todos os porquês de estar te incomodando? Sou uma mulher negra, sou feminista, sou de esquerda, e seu texto e argumentação explicaram perfeitamente como eu me sinto em relação a isso tudo. As pessoas estão falando coisas tão injustas, sob pontos de vistas unilaterais e rasos demais. Megan é uma mulher com uma história, que fez a decisão de se casar com alguém e mudar sua forma de atuar no mundo. Não há nada de "anti-feminista" nisso, e argumentar que ela seria falsa feminista por ter casado com um membro de uma monarquia cuja história é escravocrata e colonizadora, pra mim é bem sem noção e totalmente injusto. Ela tem direito ao romance, a casar com alguém que ama e a ama de volta, a transformar sua atuação no mundo por ter escolhido viver com esse conjugue.

    Tanto sobre a Megan, quanto sobre quem gostou de ver o casamento e vê-la feliz (sobretudo mulheres negras, pelos motivos que voce citou no texto), muitos dos argumentos estão perdendo totalmente o ponto, ou nos tirando de idiotas que não entendem de História e da nossa própria história. Acho que ela vai ser uma duquesa incrível, e vai realizar coisas maravilhosas. Já que a monarquia ainda tá por aí, fico feliz que alguém como ela tenha arrombado a porta. Obrigada por esse ponto de vista, me senti super bem representada.

    Abç negro!

  5. Estou sempre aqui pelo Valkirias lendo alguns textos, mas esse é meu primeiro comentário. E vai ser bem breve: obrigada por esse texto. Sério mesmo, muito obrigada!

  6. Uau que texto maravilhoso! E os comentários negativos a respeito da Meghan foi o que mais presenciei nos últimos dois dias. Não só no lado racista da coisa mas muito comentário machista questionando as reais intenções dela com Harry. É muito bom ver um texto como o seu no meio de tanto comentário tóxico na Internet.

  7. Essa frase disse tudo: seu ativismo seguirá muito bem, obrigada, e dessa vez com a oportunidade de atingir muito mais gente.
    Comentei isso no twitter quando alguém começou aquele blá blá dela “ter largado tudo” para se casar…affff….em umas pessoas que não entendem nada, né?