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Crítica: Tully

A maternidade já foi representada de muitas formas no cinema. Curiosamente, são vários os filmes de suspense sobre mães e, apesar de Tully ser mais uma comédia do que propriamente um suspense, a obra cria uma atmosfera de incerteza quando as expectativas são quebradas e tudo soa um pouco estranho. O Bebê de Rosemary é a primeira obra que me vem à mente quando penso em filmes de suspense sobre mães, e é possível traçar alguns paralelos entre Tully, escrito por Diablo Cody, e o clássico do terror psicológico: os dois começam com a vida simples de uma família, Marlo (Charlize Theron) e Rosemary (Mia Farrow) estão grávidas, e pessoas fora do núcleo familiar dão sugestões às mães sobre seus novos bebês. Contudo, Marlo não precisa comer doces estranhos — seu irmão apenas contrata uma babá noturna para que ela possa dormir a noite inteira e não se cansar demais cuidando da nova filha.

A dinâmica familiar entre os dois filmes também difere muito; Marlo e Drew (Ron Livingston) têm outros dois filhos ainda pequenos, trabalham em empregos regulares e são o núcleo típico de uma família de classe média estadunidense. O filho mais novo, Jonah (Asher Miles Fallica), demanda muito mais cuidado do que a primeira filha, Sarah (Lia Frankland). O menino sofre com mudanças de rotina e de planos, precisa de mais atenção das professoras na escola e é muito sensível a barulhos altos. A primeira cena do filme mostra a rotina da hora de dormir da casa: após o jantar, Marlo entra no quarto do filho para escová-lo com uma escova de cerdas finas e macias, “eu escovo meu filho como um cavalo”, diz ela para a babá, Tully (Mackenzie Davis). Ela explica que é uma forma terapêutica de aliviar o estresse de crianças como Jonah. O toque, a sensibilidade do ouvido, as cerdas ciliares da escova, são elementos que se repetem e criam significados maiores no filme.

Apesar de dar nome ao filme e de sabermos que Marlo irá aceitar a babá noturna, Tully só aparece no segundo terço da produção e a demora cria um suspense, elevando a obra a um realismo quase mágico. Tully chega na casa de Marlo e Drew não apenas para cuidar de Mia (o novo bebê), mas para cuidar do todo. Ela limpa a casa, faz cupcakes, que Marlo lamenta nunca ter tempo para assar, ouve os desabafos de Marlo e até tenta melhorar a vida sexual do casal. Tully chega junto de uma longa tradição de babás mágicas que filmes e livros ao longo dos tempos nos trouxeram: de Mary Poppins a Nanny Mcphee, mulheres mágicas chegam à casas de pais desesperados e conseguem sanar todos os problemas e deixar a família pronta para ser feliz e autônoma. O que Tully pretende fazer não é muito diferente.

Porém, ao contrário dos filmes clássicos sobre babás, Tully em nenhum momento conhece o resto da família. Ela chega na casa às dez e meia de noite, depois de todos terem ido para a cama, e vai embora às seis da manhã, antes de todos acordarem. Apenas Marlo e Mia interagem com ela. O resto da família vê os resultados, mas sempre da perspectiva de Marlo: a casa está mais limpa, a mãe está mais alegre, usando maquiagem, mais disposta a brincar com os filhos e agradar o marido.

É só no final do filme que descobrimos que Marlo sofreu de depressão pós-parto quando seu segundo filho, Jonah, nasceu, e sua recuperação preocupou todos à sua volta: Craig (Mark Duplass), seu irmão, Drew, e seus filhos. A ideia de contratar Tully foi uma maneira que Craig encontrou de evitar a exaustão e cuidar da saúde mental e física da irmã para prevenir que algo parecido acontecesse de novo. Apesar da vinda da babá não ter sido o que era esperado, Tully faz com que Marlo repense o que é ser mãe e mulher, e lhe dá uma nova perspectiva sobre sua vida e sua família.

Tully sempre fala sobre o tempo e sobre corpos. Ela pergunta à Marlo se uma pessoa, após anos, com suas células totalmente renovadas, continua a ser a mesma pessoa que era antes. Marlo pensa e responde que não, se as nossas células todas mudam, nós também mudamos. Tully lhe diz que as únicas células que permanecem as mesmas são as células ciliadas do ouvido. De alguma maneira, ouvimos as coisas do mesmo jeito desde que nascemos. A música que Marlo coloca ao escovar seu filho, sua música favorita de quando era mais jovem, a música que ela ouve dividindo os fones com seu marido enquanto os dois cozinham — Marlo as escuta da mesma forma que escutava quando tinha a idade de Tully.

O corpo de Tully, à princípio, intimida Marlo. Tully é muito mais jovem e disposta, mais livre que a mãe de três filhos. Mas logo Marlo cede um pouco de sua intimidade para a babá e elas confidenciam uma a outra seus segredos, desejos e frustrações. Tully, para cuidar de Mia, precisa cuidar de Marlo. Conforme a relação das duas se torna mais próxima, semelhanças entre elas começam a aparecer: Marlo sabe exatamente o que Tully precisa ouvir, e dá os conselhos certos, mesmo sem saber a história inteira; a música favorita de Tully é a mesma que a de Marlo; Marlo era como Tully quando era mais jovem; Tully vê Marlo com admiração, apesar de sua vida ser o completo oposto. O laço entre as duas é a verdadeira magia do filme, e não a forma que a babá cuida do bebê.

Tully diz a Marlo que as células da mãe ficam com o bebê por anos até que o bebê crie novas células. Mia ainda é parte Marlo, e o vínculo entre mãe e filha é fisicamente real. Alguns anos depois, Mia terá seu próprio corpo, separado da mãe, e a mãe terá novas células, que não compartilhará com a filha, mas mesmo assim nenhuma das duas deixará de ser mãe, nem de ser filha — e as células dos ouvidos, afinal, ainda serão as mesmas.

Há algo de sobrenatural no filme e também há algo de sobrenatural no ato de gestar outras pessoas. Marlo sonha com água e sereias, em estar na deriva, sem poder se mexer, sem poder se salvar. As sereias não são reais, mas Tully é, e de certa forma, Tully salva Marlo de achar que sua vida é um fracasso. Quando as duas estão bêbadas no meio do nada em Brooklyn, Tully grita para Marlo que ela realizou seu sonho; ela faz as mesmas coisas todos os dias, ela cuida de seus filhos, ela dorme com o mesmo homem todas as noites. A rotina é uma vitória para a vida desordenada de Tully.

Marlo muitas vezes odeia sua vida. Ela odeia ter casado tão cedo e ter três filhos, ela odeia o marido, que muitas vezes está ausente e não compartilha de suas frustrações, ela odeia não ser mais a jovem de espírito livre que era. Antes de Tully chegar em sua casa, Marlo estava a beira de um colapso nervoso, quase sem tempo para sua filha mais velha e tendo que se preocupar demais com seu filho mais novo e além de tudo isso, Marlo dá à luz a mais um bebê e precisa acordar a qualquer momento da noite, amamentar, trocar as fraldas, e repetir, tudo de novo, no dia seguinte. Tully é bastante franco ao retratar o lado feio de ser mãe. Não é algo mágico que acontece para pessoas ficarem grávidas, ou decidirem ter filhos. Ter filhos deve ser sempre uma escolha e, como qualquer escolha, estamos sempre sujeitos ao arrependimento e a frustração. Marlo não é melhor nem pior quando deseja fugir de tudo e de todos porque sua vida a esmaga todos os dias. Mães não são seres mágicos que estão felizes e amando seus filhos o tempo todo.

O filme também é muito eficaz  quando mostra o casamento como algo real e difícil. Marlo reclama de Drew para Tully, mas também declara que fez a coisa certa quando casou-se com ele. Casamento não é algo de outro mundo, mas também não é algo mágico e o amor não resolve todos os problemas. Em Tully (e na vida real), o amor não é o suficiente; os dois, Marlo e Drew, precisam estar empenhados a fazer a relação funcionar e, até Tully aparecer, nenhum dos dois estava. Drew estava preocupado com a saúde de Marlo, mas não fazia nada efetivo para cuidar da esposa, enquanto Marlo não comunicava suas frustrações e dificuldades com o marido. A presença (ou a ausência) de Tully coloca essas coisas em confronto, e no final Drew e Marlo chegam juntos ao mesmo ponto e o relacionamento volta a funcionar.

A revelação final do filme, ao contrário de muitas obras, não coloca a magia em foco, pelo contrário: a magia é uma impressão, uma forma de olhar a realidade. Quando a magia é quebrada, Marlo pode olhar para a sua vida de uma nova forma, sem ignorar o que aconteceu no passado, mas também sem repetir os mesmos erros. Assim como outras babás do imaginário popular, Tully precisa ir embora, e é só na sua ausência que a família pode caminhar para uma vida mais saudável e feliz. Tully vai embora, assim como as células dos nossos corpos se renovam. Nós nos transformamos, mas sempre permanece algo para nos lembrarmos de quem já fomos e de quem ainda somos. Nossas células ciliadas não mudam, assim podemos sempre nos escutar e lembrar que o presente não precisa ser pior que o passado, só diferente.

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13 comentários

  1. Sensacional seu texto, de arrepiar.. Filme muito emocionante e a sua critica foi a unica que me agradou, obrigado por gastar o tempo de sua vida nos proporcionando algo extremamente prazeroso de ler apos assistir um filme muito inteligente, você fez a critica por ter gostado do filme ou somente um hobby de fazer criticas a filmes que você assisti?

  2. Assisti o filme um dia desses pela primeira vez, confesso que tanto quanto chocada com o final, me identifiquei muito com toda a história e com esse texto também. Como é dificil ser mãe, profissional, esposa, dona de casa… ser mulher. E não, não somos super heroínas por isso, somos apensa mulheres fazendo mais o que esperam de nós, do que realmente somos capazes. Tully mostra como essa expectativa social mexe com nosso corpo e nossa saúde mental, somos obrigadas a satisfazer tudo que é esperado que não nos damos conta dos nossos limites e sabermos a hora de pedir ajuda.

  3. Spoiler!!!
    Sim, a babá existia só na cabeça dela. Isso fica bem claro nas últimas cenas, em que ela aparece sozinha no bar, e quando o nome dela do meio é revelado.