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Crítica: Gloria Allred – Justiça para Todas

O ano é 1977. A apresentadora Dinah Shore entra no palco para realizar mais uma edição de seu programa, Dinah! Ela começa elencando coisas que os homens desejam que suas mulheres façam ao chegar em casa: vestir uma camisola sexy, cozinhar para eles em uma hora, vestir uma camisola sexy. Depois de citar tudo isso, ela chama Gloria Allred, uma advogada de Los Angeles, e pergunta o que ela acha daquela lista. Allred responde:

“Bem, Dinah, acho que temos um cérebro e um útero, e os dois funcionam, e acho que é muito ofensivo para as mulheres.”

Sempre que havia um contraponto a ser feito, Dinah chamava Gloria. Suas opiniões incendiavam o programa, já que não era comum ver uma mulher dando esse tipo de declaração na televisão. A própria Dinah era uma defensora de que o lugar das mulheres era na esfera privada, cuidando dos maridos.

É assim que as diretoras do documentário Gloria Allred – Justiça para Todas, Sophie Sartain e Roberta Grossman, escolhem apresentar a advogada que sempre se levantou em prol dos direitos das mulheres e de outras minorias. Elas mesclam esse trecho do programa com declarações de outras pessoas, dizendo que Allred gostava de atenção e tinha um ego maior que uma sala de estar. Quem arremata essa série de terceiros falando sobre a advogada é uma colega de profissão, Laurie Levenson, que declara o óbvio:

“Mas existem muitos homens assim.”

Apresentar imagens de Gloria em programas de televisão nos quais homens tentam rebaixá-la e humilhá-la não é fruto do acaso. Com isso, as diretoras introduziram algo que está muito presente no documentário: mulheres que falam e incomodam; mulheres poderosas cuja fala incomodam muito mais.

Aliás, o próprio nome do documentário em inglês, Seeing Allred, é uma piada com o fato de Gloria parecer sempre brava demais, revoltada demais. “See red” é uma expressão em inglês para “estar puto”, furioso com algo. Nossa sociedade patriarcal não admite a revolta feminina, já que não fomos socializadas para gritar e bater de frente. Gloria Allred bate de frente com essa lógica desde os anos 70, e nunca parece cansada para travar outra batalha contra nosso mundo misógino.

“Gloria, you’re always on the run now”: quem é esta advogada?

Gloria Allred – Justiça Para Todas

A família de Gloria nunca teve muitas posses. O pai dela era caixeiro viajante e, dos seus ganhos, sobrava muito pouco no fim do mês. A advogada conta que ele ficava do lado de fora do cinema, esperando a família terminar de ver o filme, porque não podia pagar ingresso para todos. Esse pai também queria que a filha fosse para a universidade, algo inédito nos anos 50.

Contrariando a lógica daquele 99% de homens que frequentam a universidade e do 1% de mulheres, Allred foi para a Universidade da Pensilvânia. Lá ela conheceu Peyton Bray, futuro pai de sua filha, a também advogada Lisa Bloom, mas nem tudo foram flores nesse relacionamento. Por causa dos transtornos mentais de Peyton, Gloria foi embora com a filha. Naquela época, não se falava em bipolaridade, por isso Allred não tinha estrutura suficiente para entender o que o marido vivia. Com a separação, Gloria conheceu o que era ser mãe solteira. Ela tinha de seguir em frente para criar e sustentar sua filha, por isso começou a dar aulas na Benjamin Franklin High School enquanto terminava o mestrado em Língua Inglesa.

Nesta época, ela passou por algo que mudou a maneira como ela via o mundo. Durante uma temporada de férias no México, Gloria foi estuprada por um médico. Porém, segundo a advogada, isso não foi o pior. O pior era ter engravidado do estuprador e quase ter morrido durante o aborto. Gloria teve febre de mais de 40 graus e ouviu da enfermeira que a atendia:

“Isso vai lhe ensinar uma lição.”

E ensinou, mesmo. Foi a primeira vez que Gloria entendeu o que um professor havia lhe dito sobre os direitos das mulheres: “Você descobrirá que não tem nenhum”. Ao contrário do que se poderia pensar, Allred só se envolveu com a advocacia nos anos 70, estimulada por seu segundo marido, Bill Allred. O destino dela, porém, já estava traçado antes mesmo de aparecer em programas de televisão, descendo a lenha no machismo. O gene ativista estava ali. Antes de partir para a advocacia, ela deu aulas na Escola de Watts, cidade onde aconteceu a Revolta Racial de Watts, em represália à violência policial contra pessoas negras. Além disso, Gloria também foi líder sindical.

Foi na Loyola Law School que Gloria concluiu seus estudos em Direito. Os colegas com quem ela fundaria o escritório Allred, Maroko & Goldberg mais tarde afirmaram que seu caráter questionador sempre esteve com ela, principalmente nos momentos em que peitava seus professores sobre questões relacionadas aos Direitos da Mulher. Eles nunca estavam preparados para suas declarações irônicas e duras feito um bife cheio de nervos.

A fama veio durante o período em que Gloria esteve na Organização Nacional de Mulheres. Jerry Brown havia acabado de ser eleito governador e havia prometido nomear mais juízas. Na prática, isso não estava sendo feito. As mulheres da organização pediram a Gloria para que assumisse a frente da coletiva de imprensa em que elas planejavam expor a situação. Com isso, começava a relação da imprensa com Allred. Repórteres a procuravam para saber o que ela pensava a respeito de um determinado assunto. Gloria começou a aparecer na televisão, questionando tudo e todos. Questionava, por exemplo, por que a contribuição das mulheres na Segunda Guerra Mundial não era celebrada no Memorial Day. Foi assim que ela começou a estar mais em evidência, chegando ao ponto de aparecer no programa de Dinah Shore. A partir daí, veríamos homens tentando socar Gloria e ela, como sempre, levantando-se do ringue, defendendo-se com uma paixão e uma ironia que dificilmente uma mulher da época sustentava na televisão daqueles tempos.

A televisão enquanto campo de batalha: porrada e bomba no patriarcado

A televisão era um meio de comunicação muito mais poderoso na época em que Gloria começou a se tornar conhecida. Ela sabia disso e decidiu usar a telinha quadrada para jogar suas bombas no patriarcado. Não era nada fácil — aliás, ainda não é. Geralmente, Gloria era a única mulher entre os convidados dos programas em que ia. O resto eram homens que não hesitavam em atacá-la, tentando derrubá-la no ringue que é uma mulher defendendo seus direitos. Ela não deixava barato, inclusive apelando para a ironia:

“Eu acho que você está dizendo isso porque tem inveja das mulheres!”

A imprensa e Gloria, acredito, têm uma relação de simbiose, em que cada um se aproveita do que o outro tem a oferecer. Allred é sinônimo de audiência e de discussão inflamada. Já a imprensa poderia oferecer à advogada a possibilidade de romper a cultura do silêncio que ronda todas as violências, simbólicas e físicas, às quais uma mulher está sujeita.

Para colocar mais lenha na fogueira, nos anos 80, a figura de Mary Schmitz começou a aparecer nos programas de televisão que Gloria frequentava, como um contraponto às opiniões dela. Mary era uma mulher conservadora e não foram poucas as vezes em que ela serviu ao opressor para dar recadinhos extremamente misóginos. É interessante perceber como a televisão, já nessa época, apropriou-se da discussão sobre o feminismo para lucrar em cima dela: colocando duas mulheres para brigar na televisão, ela reafirmava que somos todas inimigas.

Em uma das cenas de Gloria Allred – Justiça para Todas, percebemos o quanto Mary e a advogada eram usadas para alavancar a audiência de programas de televisão, Mary dá uma declaração contra a presença de LGBTs nas Forças Armadas, e o apresentador de televisão diz que há uma mulher na plateia com uma cara péssima, claramente discordando daquilo. É claro que se tratava de Gloria. Então, ele passa o microfone a ela, que começa a rebater o comentário de Schmitz. Isso me fez pensar na linha tênue que separa as causas pelas quais lutamos do lucro que elas podem oferecer ao capitalismo.

Gloria viveu em uma época pré-internet e suas aparições na televisão foram essenciais para quebrar a cultura do silêncio das mulheres. Armar o circo é uma de suas estratégias mais utilizadas — e também uma das mais criticadas. Por exemplo, em 1989, Ira Reiner, Procurador Distrital do Condado de Los Angeles, havia marcado uma reunião com a advogada para discutir o pagamento de pensões alimentícias que não estavam sendo efetuados por alguns cidadãos da cidade. Segundo Allred, ele a deixou esperando, a ver navios. Por isso, ela e suas clientes decidiram passar a noite no escritório dele, até que ele as atendesse. O episódio termina com todas as mulheres sendo expulsas do lugar, mas não antes sem Gloria gritar para a câmera de televisão que Ira deveria usar aquela ocasião para cobrar o pagamento das pensões alimentícias.

Gloria Allred – Justiça Para Todas

Esse caso ilustra como a advogada sempre entendeu a mídia como um campo de batalha, de onde poderia retirar o melhor em prol de suas causas. Sabemos como a violência se dá em esfera privada, e numa era pré-internet isso era ainda pior, já que não haviam outros espaços em que as mulheres pudessem expor o que passavam. Gloria apenas percebeu que tinha muito a ganhar com a mídia. É comum vê-la sempre ao lado de suas clientes, oferecendo um lencinho, nas coletivas de imprensa que marca para que elas exponham seus casos. Muitas pessoas questionam suas intenções. Interesseira? Attention whore? Gloria já foi chamada de tudo isso. Foi ridicularizada em desenhos animados, como Os Simpsons e South Park, sempre como a feminista estridente. O que tanto incomoda os haters de Gloria? Acredito que seja o fato de ela saber jogar muito bem com as regras impostas pelo joguinho patriarcal. Como ela própria declara no documentário:

“Só o poder reconhece o poder.”

Dessa forma, a estratégia de Allred é bastante óbvia: nunca se ganhou nada com florzinhas. Levar suas clientes a coletivas, principalmente quando os casos envolvem homens famosos, como Bill Cosby e Donald Trump, é medir forças com a mesma mídia que duvida de vítimas de estupro.

Lutar sempre

O documentário deixa algumas lacunas não preenchidas. Seria bacana, por exemplo, ter explorado mais a relação entre Gloria e sua filha Lisa, também advogada. Que expectativas a mãe teve e tem em relação à filha? Existe algum tipo de pressão para que Lisa seja como a mãe? Bem, se depender do fato de que ela também já está na televisão, defendendo arduamente suas clientes, a resposta seria sim. Outra questão sem resposta são alguns fatos da vida de Gloria, como sua formação enquanto advogada, não serem explorados mais a fundo durante o documentário.

No mais, Gloria Allred – Justiça Para Todas é um ótimo exercício de reflexão sobre mulheres no poder e apropriação da mídia para se falar de assuntos caros a nós. Também é uma inspiração, uma oportunidade de conhecer aquelas que lutaram antes de nós, para estarmos aqui hoje. Aprovando ou não as estratégias de Gloria, uma coisa é certa: ela abriu caminho para que movimentos como o Time’s Up, apesar de todos seus problemas, pudessem ser ouvidos.

A luta de Gloria Allred não para. O documentário termina, inclusive, com uma cena bastante interessante: após a eleição de Trump, Gloria comparece à marcha das mulheres em Washington. Um homem, apoiador de Donald Trump, começa a xingá-la, dizendo que ela vai para o inferno por defender LGBTQ+. Com toda a calma do mundo, ela responde:

“Primeiramente, muito obrigada por exercer seu direito de liberdade de expressão. Acho que ambos apreciamos isso.”

O ano era 2017, mas poderia ser 1950. Gloria Allred nos deixa a certeza de que é necessário lutar sempre, porque em matéria de direitos das mulheres e de minorias é difícil conquistá-los, mas basta estar vivo para perdê-los.

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