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A vida é a obra de Elvira Vigna

Na primeira vez que li Elvira Vigna, me perdi. Lia o que Valderez, a protagonista de Por Escrito, tinha a dizer e era como se estivesse perdida na minha própria cabeça. Não por encontrar semelhanças profundas com o enredo, mas pela narrativa tão forte: é como se estivéssemos conversando em voz alta. Encontrei a mesma sensação em outros livros de Elvira, essa narrativa tão própria da autora, que te faz mergulhar em um fluxo de palavras que parecem ser as suas, que te dá a sensação de estar ouvindo alguém pensando alto bem ao seu lado. Tantas e tantas vezes a gente pega um livro com diálogos tão forçados que, mesmo sem estar exatamente esperando por tanta verossimilhança, pensa que ninguém fala desse jeito, caramba. Com Elvira não. É como ouvir alguém falando na vida. E mais do que isso, é entrar em contato com os pensamentos que pessoas comuns têm o tempo todo, até aqueles que elas pensam sem querer pensar e que não contariam a mais ninguém.

Já faz um ano da morte de Elvira Vigna. A autora foi diagnosticada com um carcinoma em 2012 e estava hospitalizada há alguns meses quando faleceu, em 10 de julho de 2017. A doença era desconhecida do público — à época, a nota publicada nos canais oficiais de Elvira dizia que ela preferiu assim, por saber que uma vez divulgada a doença, estaria excluída de convites de trabalho. Entre 2012 e 2017, Elvira escreveu, produziu, publicou e participou de eventos. A obra que deixou é riquíssima e, ao que tudo indica, ainda deve nos presentear com novidades no futuro: há trabalhos ainda não publicados da autora.

Nascida no Rio de Janeiro em 1947, Elvira, além de escritora, também atuou como jornalista, tradutora e ilustradora. É um nome ilustre na literatura infantojuvenil, tendo escrito e ilustrado vários títulos. Foi por meio da literatura infantojuvenil que ela recebeu o aclamado Prêmio Jabuti. Os romances também lhe renderam premiações importantes, como o prêmio Machado de Assis e o Oceanos. Embora tudo isso seja notável, é claro, é só a superfície: a obra de Elvira é uma vida inteira. Em pequenos detalhes, talvez. Mas em detalhes profundos.

“Conheci o pai do Nando era quase uma menina, fomos amantes mas a palavra não descreve bem, dormi com ele algumas vezes, por acinte, para que ele e os outros homens de uma redação de um jornal que não existe mais soubessem que eu não era uma criança, que não estava intimidada, que eu, porra, era igual a eles.” — Coisas Que os Homens Não Entendem (2002)

Quando Elena Ferrante diz que a obra importa mais que a identidade do autor, estou inclinada a concordar. Não é tão comum assim que eu pesquise sobre a vida dos escritores de quem gosto muito, apesar de, contraditoriamente, gostar de ler biografias e outros livros de não-ficção mais pessoais. Com Elvira, porém, tive um ímpeto. No meio da leitura de Nada a Dizer precisei fazer uma pausa para saber mais, ou tentar adivinhar pelo que encontrava o quanto daquilo era verdade. Porque tudo parecia verdade. É assim que posso descrever tudo o que já li de Elvira: tudo parece verdade. E é. Ou, pelo menos, é em partes.

Em uma entrevista para o canal Bondelê, publicada em março do ano passado, Elvira conta que seus romances falam de pessoas reais e de coisas que realmente aconteceram. “As pessoas de quem eu falo são todas reais, existiram, existem. O que eu vou escrever, eu sei. São coisas muito traumáticas, que me aconteceram pessoalmente ou com pessoas muito próximas. Então, o assunto, por assim dizer, não que eu saiba exatamente o que é aquilo, mas eu sei que é sobre aquilo que aconteceu comigo. Então, o assunto eu tenho, o ambiente eu tenho, porque é tudo real, a época eu também tenho, porque eu não minto nenhuma vírgula. O que eu não tenho é o narrador”. E então, com o narrador, está feita a obra.

A voz dos romances de Elvira são o que mais me causam essa sensação de que é tudo real. Da forma como escreve, Elvira poderia estar falando de fadas e dragões e eu talvez enfiasse a minha cabeça pela janela esperando dar de cara com a visão de um gigantesco lagarto alado flutuando pelo céu. “Se eu minto, o livro está destruído”, diz Elvira na já citada (e incrível) entrevista para o canal Bondelê. Essa preocupação com uma obra honesta é palpável. Não só porque, de fato, guardam acontecimentos e pessoas reais; afinal de contas nós não teríamos como saber — não sabemos — o quanto a história é real. Mas, principalmente, porque buscando seguir esse caminho, Elvira conseguiu criar histórias tão reais que poderiam ter acontecido com qualquer um de nós.

Elvira Vigna

Ter acesso a todos esses pensamentos e pontos de vista tão íntimos das protagonistas não faz com que as histórias sejam totalmente transparentes ou didáticas. Pelo contrário: é comum se perguntar, enquanto leitora, se você está de fato acompanhando tudo o que está acontecendo nas páginas. As narradoras se perdem em um fluxo de pensamentos que nem sempre seguem um caminho lógico e linear. A narrativa em primeira pessoa é perfeita. Perfeita para deixar que cada um dos pensamentos mais escusos e particulares de alguém cheguem até o leitor, mesmo que isso signifique um pouco de confusão, visto que são situações que causam sentimentos confusos, difusos, difíceis.

Além disso, as protagonistas mentem o tempo inteiro — mentem para as outras pessoas, mentem para si mesmas. Inventar coisas, seja complementando fatos ou alterando completamente o sentido deles, é uma característica comum das personagens de Elvira. “Então, saiba: minha história tem falhas, buracos. E pior: vou preenchê-los”, diz a narradora de Deixei Ele Lá e Vim. Tudo isso deixa as histórias ainda mais próximas da verdade, mais honestas; e isso pode até parecer contraditório, mas não é — afinal, mentiras e invenções, sejam para os outros ou para nós mesmas, também fazem parte da vida. Quando escolhe contá-las, Elvira traça mais essa característica tão humana que nos aproxima ainda mais das personagens.

“Minto desde menina, sou profissional em mentiras. Fiz como sempre faço. Informo tudo quase certo, que é a melhor forma de mentir: mentir não mentindo, nem bem mentira, desvios, omissões, pequenas falhas, coisinhas, num todo qualquer que seja verdadeiro. Isto aqui, por exemplo.” — Deixei Ele Lá e Vim (2006)

Para além da voz que conta as histórias, os temas são, em si, um caso à parte. Em seus livros, Elvira fala sobre relacionamentos, sobre como a mulher é vista e como é tratada, sobre maternidade, sobre amizade, sobre vulnerabilidade, sobre identidade. Esses assuntos sempre estão lá, mesmo que seja entre dilemas grandiosos ou mortes misteriosas. Nessa busca gostosa por mulheres que escrevem sobre mulheres, é impossível não lembrar de Elvira. Se você ler uma sinopse e pensar “bem, mas este aqui é sobre homens” não se engane: mesmo quando fala sobre homens, Elvira fala sobre mulheres.

É o caso, por exemplo, de Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, último romance publicado da autora. À primeira vista, a história é a de um cara que narra seus encontros com prostitutas a uma mulher recém conhecida, a narradora. Mas, no fim, não é sobre ele: é sobre como ele não consegue ver as mulheres como iguais, relações de poder, casamento — tudo isso na voz de uma narradora que sempre interpõe suas próprias interpretações e entrelinhas.

Já em Nada a Dizer temos uma narradora que fala da traição do marido, enquanto conta o caso, fala sobre a amante e tenta pensar em motivos e explicações para o que aconteceu. Em momento nenhum, porém, esse é um livro sobre um marido infiel. A narrativa vai muito além e nos leva às voltas com a narradora que tenta descobrir a si mesma nisso tudo, enquanto fala do que sente e explora seus pensamentos, em todo seu exercício para lidar com a situação, entender e seguir em frente.

O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor é outro que mergulha em uma série de questões salpicadas de forma brilhante. Aqui, a narradora se propõe a contar a história de Rose e Arno, um casal já falecido e que ela não tem muita certeza dos fatos, mas vai contornando e completando como imagina. No meio disso, essa narradora acaba contando sobre sua própria vida, extrapolando completamente o estereótipo de história de amor como muito se pratica e construindo uma história cheia de relacionamentos complexos, sem romantizar o amor, o casamento ou a maternidade.

“Médicos, homens, e demais pessoas que cercam futuras mães e seus fetos, costumam escutar e comentar as batidas de coração. É até onde vão. Escutam e comentam as batidas do coração do feto. E para isto se dispõem a toda simpatia e benevolência. As batidas do coração da mãe, nestes dois casos pelo menos, o meu e o de Rose, isto já interessa bem menos.” — O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor (2012)

O ponto mais forte de Elvira Vigna é a forma com que ela decide contar todas essas histórias, usar esses temas e encaixar tudo isso com a voz única e inconfundível das suas narradoras. Enquanto estamos totalmente envoltas com aquela atmosfera tão íntima que é a torrente de palavras da narradora, somos pegos de surpresa por reviravoltas chocantes e desfechos inesperados.

Em um vídeo de apresentação de Nada a Dizer publicado no canal da Companhia das Letras, editora que publicou a maior parte de seus romances, Elvira diz: “quando eu começo a contar uma história minha, uma história da minha vida pra mim mesma, eu nunca sei se eu devo terminar com um tapinha nas costas, dizendo ‘pô, Elvira, que vida legal’, ou se, pelo contrário, eu devo dizer ‘pô, Elvira, mas você não dá uma dentro’”. É essa a pegada não só do romance apresentado no vídeo, mas também de outros de seus livros. Esse embate de como contar as histórias perpassa todo o desenrolar das páginas, mostrando narradoras que também tentam compreender os fatos enquanto falam sobre eles.

Abrir um livro de Elvira é uma experiência de pensar um pouco mais e em conjunto com alguém — ainda que seja com um alguém literário — sobre a vida, em sua forma mais simples, que é, também, sua forma mais complexa. Falar sobre a vida tão às claras nem sempre é fácil; o atropelo de sensações e sentimentos pode guardar algumas coisas que não são tão agradáveis assim. Mas Elvira Vigna faz isso como ninguém. A identificação é praticamente inevitável, talvez nem tanto pelos temas ou pela trama principal do romance, mas muito por essa voz que se assemelha tanto à voz que está na nossa própria cabeça.

Livros têm leituras múltiplas e diversas, que mudam aos olhos de quem os lê. Sei que isso é uma verdade para todo texto. Acredito também que os livros de Elvira Vigna têm o poder de levar isso ao máximo: a narrativa bate diferente para cada um. Mas bate. E bate forte.

“Sobre o que falam os livros. Mentem. Dizem que são uma coisa, e dependendo de como se lê, de quem lê, são outra.” — Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas (2016)

** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui

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