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Relationship goals: o amor em Parks and Recreation

Você sabia que somente mamíferos — e salvo algumas aves — são capazes de amar? Ainda que muitas vezes pareça o contrário, amar alguém envolve mais química do que poesia. Isso não impede o nosso centro de emoções perceber, idealizar e criar situações em que o amor esteja envolvido, no entanto. Mesmo que esse entusiasmo, essa conexão, exista apenas em nosso imaginário, o fato é que sentir algo por outra pessoa faz com que corpo e mente se juntem na complexa tarefa de amar.

Essa percepção varia de cultura para cultura, espaço e época. A concepção de amor nos primeiros anos do século passado era muito diferente da que possuímos hoje, por exemplo, da mesma forma que dizer “eu te amo” no século XVII teria uma conotação bastante diferente da que possui atualmente. Vivemos em um mundo com tanta influência, tanta informação e tantos falsos modelos que, muitas vezes, é difícil lembrar que o amor não apenas existe como está mais vivo do que nunca. Que ele é possível, transforma vidas e, o mais importante, que existem inúmeras formas de amar.

Quando falamos sobre o amor romântico, no entanto, encontrar bons exemplos na ficção pode ser uma tarefa complicada. São muitas as histórias que conhecemos, mas poucos relacionamentos são saudáveis e exemplificam o amor como um sentimento tranquilo, confortável e harmonioso. Parks and Recreation, série criada por Greg Daniels, se encaixa perfeitamente nesse caso. Ao longo de sete temporadas, transmitidas entre 2009 e 2015, a sitcom contou não uma, mas várias histórias de amor saudável e possível. No centro de sua história está Leslie Knope (Amy Poehler), vice-diretora do Departamento de Parques e Recreação da cidade fictícia de Pawnee, localizada em Indiana, Estados Unidos. Como em um grande documentário, os personagens falam ao mesmo tempo em que olham para a câmera e é nesse momento que muitas confissões e detalhes sobre suas vidas são trazidos à tona.

Divertida, a série confere a trajetória de um grupo de colegas de trabalho e amigos que pouco a pouco consideramos como parte da nossa própria família. Parks and Recreation fala sobre a vida adulta, sobre problemas no ambiente de trabalho e relacionamentos interpessoais, e também sobre o amor romântico, sempre em diferentes níveis de complexidade. Como na vida real, pessoas passam por transformações pessoais e profissionais, e tudo isso influencia como nos sentimos em relação a nós mesmos e aos outros. Por isso é tão importante que, ao incluirmos alguém em nossas vidas, essa pessoa venha para somar e crescer, agregar. Para os casais de Parks and Recreation, essa é a regra, não a exceção, de modo que sempre podemos assistir o desenvolvimento de duas pessoas crescendo juntas, em relações que sempre transbordam amor e cumplicidade.

1. Jerry e Gayle

Parks and Recreation

Jerry Gergich (Jim O’Heir) é o funcionário mais cheio de amor do Departamento de Parques e Recreação de Pawnee e, justamente por ter um coração tão grande, muitas vezes acaba sendo caçoado pelos colegas. Desde o início, Jerry fala com frequência sobre como ama a esposa, Gayle (Christie Brinkley), e suas duas filhas, mas é só a partir da terceira temporada que temos a chance de conhecê-la.

Gayle é uma mulher linda, loira, inteligente e gentil, que se casou com um homem mais velho, barrigudo e mais simples do que ela, o que soa estranho até mesmo para alguns personagens, que não acreditam que Jerry poderia ser casado com uma mulher como ela. Mas por que um cara como ele não poderia ficar com uma garota como ela? Qual seria a pegadinha nesse casamento? Parks and Recreation subverte o estereótipo da princesa e do patinho feio para dar lugar a um casal realmente apaixonado, com uma família linda e que amam demonstrar o que sentem um pelo outro. São duas pessoas que possuem uma história juntos, o que dá lugar a revelações muito bonitas e delicadas, como o fato do aniversário perfeito para Jerry (que ele só comemora a cada quatro anos por ter nascido no dia 29 de fevereiro) é dividir uma cheesecake de algodão doce segurando a mão de Gayle, enquanto os dois escutam uma boa música. Quão romântico e verdadeiro isso é?

2. Tom e Lucy

Parks and Recreation

Tom Haverford (Aziz Ansari) é um homem vaidoso e muito preocupado com a própria autoestima e aparência. Ele também trabalha no Departamento, tem um humor sarcástico e sempre está tentando contar histórias ou se intrometendo na vida de seus colegas. Mas Tom não tem muita sorte no amor. Porque sempre teve objetivos muito complexos ao longo da vida, ele fez com que seus relacionamentos também se tornassem um tanto quanto difíceis. Para ele, as mulheres sempre tinham o cabelo liso demais, ou altura de menos, por exemplo. Sem qualquer noção, Tom buscava a mulher perfeita, mas sempre acabava enjoando delas ou encontrava algum defeito que as tirassem do caminho — a perfeição, afinal, não existe.

Seu coração só foi bater de verdade por Wendy (Jamma Williamson), uma canadense que precisava de um visto americano e para isso decidiu se casar. Na sua ingenuidade, Tom acreditou que ela se apaixonaria por ele no meio tempo e assim dos dois poderiam ser felizes para sempre em um casamento que era inicialmente fictício, mas logo que conseguiu o que queria, ela o dispensou sinceramente, dizendo que aquele era o acordo e nada mais. Depois disso, Tom tentou se relacionar com Ann Perkins (Rashida Jones), por quem se apaixonou, mas mais uma vez, não foi correspondido. Entre idas e vindas, ele conhece Lucy (Natalie Morales), a bartender de uma das boates mais famosas (a única, na realidade) de Pawnee. Diferente do que sempre imaginou, Wendy mostrou para que o que ele de fato procurava era o amor e não um estereótipo, uma mulher perfeita. Quando finalmente ficam juntos, Tom vislumbra o que é ter uma relação saudável por fim.

3. Ann e Chris

Parks and Recreation

Em Parks and Recreation, Ann Perkins é uma enfermeira que acabou conhecendo toda a equipe do Departamento de Parques e Recreação ao fazer uma reclamação na prefeitura sobre um valão aberto perto da sua casa. A partir daí, sua amizade com Leslie Knope cresce a cada aventura que ela e seus companheiros de escritório vivem. Mas Ann tinha um ímã para caras problemáticos que não a valorizavam, e sempre ficava desiludida em suas experiências amorosas. Quando conhece Chris Traeger (Rob Lowe), um cara bonito e muito otimista que trabalha na parte financeira da prefeitura de Pawnee, ela acredita que ele seria seu par ideal, mas depois de um breve envolvimento, eles parecem não estar de acordo com um futuro juntos. Ele era animado demais e ela descobriu-se uma namorada muito facilmente influenciada pelos gostos de seus namorados, não sendo ela mesma em seus relacionamentos.

O timing não parecia certo e os dois terminam por ser bons amigos. Entretanto, quando Ann decide que quer ter um filho, ela precisa de um parceiro que possa lhe dar algum suporte. Dentre as opções disponíveis, ninguém lhe parecia a pessoa com quem gostaria de ter um filho, que transmitisse genes saudáveis para a criança. Assim, em uma conversa despretensiosa, ela pergunta a Chris se ele poderia ser o doador, já que era alguém de confiança, e ela sabia que ele seria capaz de garantir as boas energias durante todo o processo. Chris, por sua vez, não só topa como propõe ser um pai bastante presente. O momento acaba sendo ideal para que ambos reconstruam a antiga relação, baseada em muita parceria, confiança e, principalmente, muito amor.

4. Donna e Joe

Donna Meagle (Retta) é a mulher mais confiante que pode existir. Também funcionária do Departamento, ela é cheia de autoestima, independente e sabe viver sempre com o melhor. Ela e Tom tem a cultura de que é necessário regularmente “treat yo self”, ou seja, cuidar de si mesmo. Para eles, isso significa sair para compras, comer comidinhas deliciosas e fazer tratamentos de beleza, tudo que consideram imprescindível para serem pessoas mais felizes.

Como é uma mulher muito feliz com ela mesma e que tem a plena consciência de que merece o melhor, não seria qualquer homem capaz de tratá-la como a rainha que é. Certa disso, Donna mantinha pequenos casos, mas nada que viesse a durar. Até que ela reencontra Joe (Keegan Michael Key), um professor de matemática e antigo amor que não a completou ou estava de acordo com o que ela buscava para si mesma. Na época, ele não apoiava seu estilo de vida e isso, para Donna, era o mesmo que tirar o seu brilho. Quando se reencontram, no entanto, Joe diz que deixá-la ir embora foi o maior erro de sua vida. Os dois conversam e por fim se entendem, e encontrar o amor ao valorizar aquilo que existe de melhor em cada um e em seu relacionamento.

5. Ron e Diane

Parks and Recreation

Quando conhecemos Ron Swanson (Nick Offerman) já o identificamos como um homem de poucas palavras, conservador, que quer seu espaço do seu jeito, é resistente à mudanças e não deixa que ninguém mexa no seu bacon. Chefe de Leslie Knope, Ron é um personagem importante em Parks and Recreation, principalmente com suas opiniões quadradas e o jeito paternal com que trata sua vice-diretora. É difícil imaginá-lo como alguém que sofreu dois relacionamentos muito abusivos, mas essa é a verdade. O primeiro foi com Tammy Swanson (Patricia Clarkson), quando ele ainda era um adolescente de 15 anos. Por ser uma mulher mais experiente, Tammy lhe ensinou muito, mas eventualmente a relação se tornou insustentável e cada um seguiu o seu próprio caminho. A segunda foi com outra mulher, cujo nome era o mesmo da ex-esposa, e que marcou uma época bastante reprimida de sua vida. Ela foi uma companheira abusiva, manipuladora e que sempre o tirava do sério.

Com essas experiências, é de se imaginar que ele teria traumas a serem superados até poder se abrir novamente ao amor. Por isso, sua terceira esposa, Diane Lewis (Lucy Lawless) foi quem lhe mostrou que era possível ser feliz, ter uma família e cuidar de suas filhas como se fossem suas e, ao mesmo tempo, não perder a individualidade. Ela entendeu o passado que ele tinha e conseguiu provar que um amor saudável era uma possibilidade real.

6. April e Andy

April Ludgate (Aubrey Plaza) é a estagiária do Departamento de Parques e Recreação e sempre teve uma vida muito apática e sem muitas emoções; ela em si é uma pessoa que aparentemente está sempre de mau humor. Andy Dwyer (Chris Pratt), por sua vez, foi namorado de Ann Perkins e nunca foi conhecido por ser o cara mais esperto do mundo. Quando os dois terminam (porque ele era a companhia mais preguiçosa que ela poderia ter), ele começar a trabalhar na prefeitura para tentar reconquistá-la, engraxando os sapatos dos funcionários.

Foi assim que ele conheceu April e logo encontrou nela uma amiga e parceira de suas esquisitices. Com o passar do tempo, April se viu gostando do jeito peculiar de Andy, mesmo que ele demorasse muito para notar que ela queria chamar sua atenção (ao seu próprio modo bastante peculiar). April sempre foi bastante fechada, ao passo que Andy era tão alegre quanto desastrado, possivelmente o estereótipo de opostos que se atraem, mas era ali que estava escondido o amor. Já juntos, eles adotam o cachorro Champion de três patas e começam uma vida de casal sempre muito divertida e companheira. Se o amor não precisa seguir regras, Andy e April criam as suas próprias e transformam suas aventuras em situações engraçadas e do mais puro amor.

7. Leslie e Ben

Por último, mas não menos importantes, o casal que Leslie Knope e Ben Wyatt (Adam Scott) formam o meu relationship goals. Leslie é vice-diretora do Departamento, uma mulher sempre muito dedicada ao trabalho. Muito otimista, ela sonha em seguir na carreira política e fazer a diferença como mulher dentro da prefeitura. Quando Ben chega até Pawnee, junto com Chris, para trabalhar em um projeto focado no controle de despesas fiscais, os dois vão do “o que essa pessoa está fazendo aqui se metendo no meu trabalho” para a compreensão de que são tão estranhos quanto o outro.

Ao longo de Parks and Recreation, Leslie já havia tido outros relacionamentos, mas sempre com homens que não acompanhavam a sua paixão pela cidade ou que não abraçavam as mesmas causas que ela e não entendiam seu amor pelo trabalho. Já Ben sempre focara na carreira, nos números e em suas paixões nerds, e não sabia muito bem como se relacionar com outras pessoas. Assim, os dois constroem uma relação incrível, de muito apoio, orgulho, parceria e imenso amor. Quando ela quis se candidatar a vereadora, ele estava lá para incentivá-la. Quando ele foi ser assessor em Washington, ela estava lá para lhe dar força. O amor é sobre isso: agregar na vida do outro, estar na mesma sintonia e sempre com vontade de fazer o outro feliz.

Nos votos de seu casamento, Leslie diz uma frase para Ben que descreve o porquê do time que eles formam ser indestrutível: eles se amam e se gostam. Amar e gostar são sentimentos complementares: podemos gostar de algo, de alguém, querer estar perto, ao passo que amar é tudo isso em um nível além, é entender o quanto é importante crescer em conjunto, é aceitar a pessoa mesmo em situações difíceis ou quando ela se apresenta mais difícil e vulnerável. Leslie e Ben são um casal poderoso porque mostra uma relação extremamente possível também na realidade fora daquela que vemos na ficção. Eles querem estar juntos, vivem cada conquistas juntos e pensam um no outro como a primeira pessoa para quem dar uma notícia, seja ela boa ou ruim. Não há distância, fuso horário ou trabalho que fique entre eles, e por isso sua relação é tão bonita, sensível e inspiradora. O amor é isso.

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